Vou tratar a psicopatia como uma possível condição associada a determinados casos de violência letal contra mulheres, sem transformá-la em explicação única do feminicídio — já que a maioria dos feminicídios não pode ser atribuída automaticamente à psicopatia.
Há crimes que começam muito antes do momento em que a violência acontece. O feminicídio, muitas vezes, não começa com o golpe, com o disparo ou com o estrangulamento. Começa em uma frase aparentemente banal, em um olhar que desqualifica, em uma ameaça disfarçada de ciúme, na tentativa de controlar os passos, as amizades, o dinheiro e, sobretudo, a liberdade de uma mulher.
Em determinados casos, esse percurso pode encontrar na psicopatia um elemento particularmente perigoso.
A psicopatia não deve ser compreendida simplesmente como sinônimo de violência ou de assassinato. Há pessoas com traços psicopáticos que jamais cometerão um homicídio. Entretanto, quando características como ausência ou pobreza de empatia, manipulação, superficialidade afetiva, mentira persistente, exploração do outro e reduzida capacidade de experimentar culpa se combinam com ciúme, possessividade, impulsividade ou desejo de domínio, pode surgir uma configuração de elevado risco.
O que assusta não é necessariamente a explosão da violência. É, muitas vezes, a frieza que pode antecedê-la.
O homem pode pedir perdão depois de humilhar. Pode chorar depois de ameaçar. Pode prometer mudança depois de agredir. Pode construir diante dos outros a imagem de companheiro amoroso enquanto, dentro de casa, estabelece progressivamente uma relação de domínio.
A contradição é justamente uma das características que tornam determinadas relações abusivas tão difíceis de serem percebidas por quem está de fora.
Há, nesse cenário, uma inversão perversa da responsabilidade. A vítima passa a acreditar que precisa modificar seu comportamento para impedir a violência: falar menos, sair menos, não contrariar, não responder, não conversar com determinada pessoa, não pedir separação. Aos poucos, aquilo que deveria ser uma relação de afeto transforma-se em um sistema de vigilância.
E o controle pode ser apresentado como amor.
"Eu faço isso porque gosto de você."
"Tenho medo de perder você."
"Se você me deixar, não sei o que posso fazer."
"Você é minha."
São frases que podem parecer diferentes entre si, mas podem revelar uma mesma lógica: a transformação do outro em objeto de posse.
Quando essa lógica encontra determinados traços psicopáticos, a mulher pode deixar de ser percebida como sujeito autônomo e passar a ocupar, na fantasia do agressor, o lugar de algo que lhe pertence. A separação deixa então de ser compreendida como uma decisão legítima do outro e pode ser vivida como uma afronta, uma humilhação ou uma perda intolerável de controle.
É nesse ponto que a violência pode adquirir uma dimensão particularmente grave.
O feminicídio não é simplesmente a morte de uma mulher. É um homicídio marcado, em determinadas circunstâncias legais e sociais, pela violência relacionada à condição de mulher, especialmente em contextos de violência doméstica e familiar ou de menosprezo/discriminação à condição feminina.
Por isso, reduzir o feminicídio à psicopatia seria um erro.
O fenômeno é muito mais amplo.
Ciúme, misoginia, desigualdade de gênero, histórico de violência doméstica, uso abusivo de álcool ou outras drogas, conflitos relacionados à separação, disponibilidade de armas, ameaças anteriores e padrões de controle coercitivo podem participar de diferentes trajetórias que culminam no assassinato.
A psicopatia, quando presente, deve ser compreendida como uma possível peça — e não como o quebra-cabeça inteiro.
Talvez o aspecto mais importante esteja justamente aí: não esperar que o diagnóstico explique o crime para reconhecer o perigo.
A sociedade frequentemente procura compreender o assassino depois que a mulher já está morta. Pergunta-se então se ele era psicopata, se apresentava transtorno de personalidade, se tinha antecedentes, se havia algum sinal de doença mental.
Mas talvez a pergunta mais urgente seja outra:
quantos sinais estavam presentes antes do crime e não foram reconhecidos como sinais de risco?
A ameaça de morte.
A perseguição.
O controle financeiro.
A invasão da privacidade.
O isolamento.
A destruição de objetos.
A violência sexual.
O estrangulamento.
As ameaças contra filhos ou familiares.
A recusa em aceitar o fim do relacionamento.
Esses comportamentos podem constituir uma escalada. E uma das armadilhas mais perigosas é imaginar que uma ameaça é apenas uma ameaça até que ela se transforme em realidade.
A crônica policial costuma começar pelo cadáver.
A prevenção precisa começar muito antes dele.
Talvez seja essa a maior contribuição que o estudo da psicopatia pode oferecer à compreensão de determinados feminicídios: não a procura por um "monstro" que explique todos os crimes, mas a compreensão de como determinadas estruturas de personalidade podem favorecer relações nas quais a empatia é substituída pelo domínio, o vínculo pela posse e a frustração pela vingança.
No fim, existe uma diferença fundamental entre amar alguém e precisar possuí-lo.
O amor reconhece a existência do outro.
A posse tenta eliminá-la.
E quando um homem não consegue suportar que uma mulher diga "não", "basta" ou simplesmente "vou embora", talvez já não estejamos diante de uma crise amorosa.
Estamos diante de uma questão de poder.
E, em alguns casos, quando o poder encontra a ausência de empatia, a capacidade de manipulação e a frieza diante do sofrimento alheio, o caminho entre a violência psicológica e a violência letal pode se tornar assustadoramente curto.
O feminicídio, porém, não começa quando a morte acontece.
Para quem trabalha com prevenção, ele precisa ser percebido quando ainda é possível interromper a história.
Segue....
André Lacerda
Psicanalista

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