sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A psicopatia e o caminho silencioso até o feminicídio.

 Vou tratar a psicopatia como uma possível condição associada a determinados casos de violência letal contra mulheres, sem transformá-la em explicação única do feminicídio — já que a maioria dos feminicídios não pode ser atribuída automaticamente à psicopatia.

Há crimes que começam muito antes do momento em que a violência acontece. O feminicídio, muitas vezes, não começa com o golpe, com o disparo ou com o estrangulamento. Começa em uma frase aparentemente banal, em um olhar que desqualifica, em uma ameaça disfarçada de ciúme, na tentativa de controlar os passos, as amizades, o dinheiro e, sobretudo, a liberdade de uma mulher.

Em determinados casos, esse percurso pode encontrar na psicopatia um elemento particularmente perigoso.

A psicopatia não deve ser compreendida simplesmente como sinônimo de violência ou de assassinato. Há pessoas com traços psicopáticos que jamais cometerão um homicídio. Entretanto, quando características como ausência ou pobreza de empatia, manipulação, superficialidade afetiva, mentira persistente, exploração do outro e reduzida capacidade de experimentar culpa se combinam com ciúme, possessividade, impulsividade ou desejo de domínio, pode surgir uma configuração de elevado risco.

O que assusta não é necessariamente a explosão da violência. É, muitas vezes, a frieza que pode antecedê-la.

O homem pode pedir perdão depois de humilhar. Pode chorar depois de ameaçar. Pode prometer mudança depois de agredir. Pode construir diante dos outros a imagem de companheiro amoroso enquanto, dentro de casa, estabelece progressivamente uma relação de domínio.

A contradição é justamente uma das características que tornam determinadas relações abusivas tão difíceis de serem percebidas por quem está de fora.

Há, nesse cenário, uma inversão perversa da responsabilidade. A vítima passa a acreditar que precisa modificar seu comportamento para impedir a violência: falar menos, sair menos, não contrariar, não responder, não conversar com determinada pessoa, não pedir separação. Aos poucos, aquilo que deveria ser uma relação de afeto transforma-se em um sistema de vigilância.

E o controle pode ser apresentado como amor.

"Eu faço isso porque gosto de você."

"Tenho medo de perder você."

"Se você me deixar, não sei o que posso fazer."

"Você é minha."

São frases que podem parecer diferentes entre si, mas podem revelar uma mesma lógica: a transformação do outro em objeto de posse.

Quando essa lógica encontra determinados traços psicopáticos, a mulher pode deixar de ser percebida como sujeito autônomo e passar a ocupar, na fantasia do agressor, o lugar de algo que lhe pertence. A separação deixa então de ser compreendida como uma decisão legítima do outro e pode ser vivida como uma afronta, uma humilhação ou uma perda intolerável de controle.

É nesse ponto que a violência pode adquirir uma dimensão particularmente grave.

O feminicídio não é simplesmente a morte de uma mulher. É um homicídio marcado, em determinadas circunstâncias legais e sociais, pela violência relacionada à condição de mulher, especialmente em contextos de violência doméstica e familiar ou de menosprezo/discriminação à condição feminina.

Por isso, reduzir o feminicídio à psicopatia seria um erro.

O fenômeno é muito mais amplo.

Ciúme, misoginia, desigualdade de gênero, histórico de violência doméstica, uso abusivo de álcool ou outras drogas, conflitos relacionados à separação, disponibilidade de armas, ameaças anteriores e padrões de controle coercitivo podem participar de diferentes trajetórias que culminam no assassinato.

A psicopatia, quando presente, deve ser compreendida como uma possível peça — e não como o quebra-cabeça inteiro.

Talvez o aspecto mais importante esteja justamente aí: não esperar que o diagnóstico explique o crime para reconhecer o perigo.

A sociedade frequentemente procura compreender o assassino depois que a mulher já está morta. Pergunta-se então se ele era psicopata, se apresentava transtorno de personalidade, se tinha antecedentes, se havia algum sinal de doença mental.

Mas talvez a pergunta mais urgente seja outra:

quantos sinais estavam presentes antes do crime e não foram reconhecidos como sinais de risco?

A ameaça de morte.

A perseguição.

O controle financeiro.

A invasão da privacidade.

O isolamento.

A destruição de objetos.

A violência sexual.

O estrangulamento.

As ameaças contra filhos ou familiares.

A recusa em aceitar o fim do relacionamento.

Esses comportamentos podem constituir uma escalada. E uma das armadilhas mais perigosas é imaginar que uma ameaça é apenas uma ameaça até que ela se transforme em realidade.

A crônica policial costuma começar pelo cadáver.

A prevenção precisa começar muito antes dele.

Talvez seja essa a maior contribuição que o estudo da psicopatia pode oferecer à compreensão de determinados feminicídios: não a procura por um "monstro" que explique todos os crimes, mas a compreensão de como determinadas estruturas de personalidade podem favorecer relações nas quais a empatia é substituída pelo domínio, o vínculo pela posse e a frustração pela vingança.

No fim, existe uma diferença fundamental entre amar alguém e precisar possuí-lo.

O amor reconhece a existência do outro.

A posse tenta eliminá-la.

E quando um homem não consegue suportar que uma mulher diga "não", "basta" ou simplesmente "vou embora", talvez já não estejamos diante de uma crise amorosa.

Estamos diante de uma questão de poder.

E, em alguns casos, quando o poder encontra a ausência de empatia, a capacidade de manipulação e a frieza diante do sofrimento alheio, o caminho entre a violência psicológica e a violência letal pode se tornar assustadoramente curto.

O feminicídio, porém, não começa quando a morte acontece.

Para quem trabalha com prevenção, ele precisa ser percebido quando ainda é possível interromper a história.

Segue....


André Lacerda 

Psicanalista


sexta-feira, 22 de maio de 2026

TRAUMA NARCÍSICO E DEPENDÊNCIA


Havia algo de estranho naquela mulher que todos admiravam.
Ela tinha títulos, reconhecimento, currículo impecável, fala segura, uma inteligência que organizava salas inteiras. Quando entrava em uma reunião, as pessoas silenciavam. Sabia argumentar, escrever, analisar, prever cenários complexos. Era dessas pessoas que parecem carregar dentro de si uma espécie de mapa secreto do mundo.
Mas chegava em casa e entregava a própria vida nas mãos de um homem incapaz de administrar a própria desordem.
Ele decidia tudo.
As contas. Os investimentos. Os riscos. As dívidas. Os empréstimos feitos às escondidas. As apostas travestidas de “grandes oportunidades”.
E ela assistia.
No começo, talvez tenha chamado aquilo de confiança. Depois, parceria. Mais tarde, casamento. Até que um dia já não havia mais palavras nobres para nomear o que acontecia dentro daquela casa silenciosa.
Havia apenas ruína.
O curioso é que a destruição nunca chega de uma vez. Ela vem em prestações emocionais. Primeiro um negócio que dá errado. Depois outro. Depois a venda de algo importante. Depois o dinheiro que desaparece sem explicação. Depois o medo de abrir o aplicativo do banco.
Até que a pessoa percebe que não perdeu apenas patrimônio.
Perdeu chão.
Ela, que ensinava teoria, já não conseguia decidir sobre a própria vida prática. Falava com clareza sobre estruturas sociais complexas, mas tremia diante da possibilidade de confrontar o marido. Como pode uma mulher tão brilhante suportar tamanho desastre?, perguntavam os amigos em silêncio.
Mas ninguém entende que inteligência e desamparo não se anulam.
Há pessoas muito cultas emocionalmente abandonadas.
E talvez a tragédia verdadeira nem tivesse começado nas finanças.
Começou no dia em que a mãe morreu.
A mãe era uma dessas presenças discretas que sustentam um mundo inteiro sem que ninguém perceba. Não resolvia os problemas, mas fazia algo mais importante: confirmava a existência da filha. Quando tudo parecia ruir, bastava a voz da mãe ao telefone para reorganizar minimamente o caos interno.
Depois que ela partiu, a casa ficou mais fria. O marido ficou maior. E a solidão ficou imensa.
Há perdas que não retiram apenas pessoas. Retiram continentes emocionais.
Foi então que as crises começaram.
Não exatamente crises financeiras. Essas já existiam havia muito tempo. O que surgiu foi outra coisa: uma sensação de que a vida inteira estava escorrendo pelas mãos e ela não conseguia impedir.
Dormia pouco. Chorava escondida. Sentia vergonha. Vergonha principalmente da própria submissão.
Porque o sofrimento intelectualizado tem um requinte cruel: a pessoa entende perfeitamente o que está acontecendo consigo. Ela analisa a própria prisão enquanto continua dentro dela.
Sabia que ele errava. Sabia que ele destruía tudo. Sabia que precisava interromper aquilo.
Mas havia dentro dela uma criança antiga apavorada diante da ideia de ficar sozinha.
E talvez seja esse o grande equívoco humano: acreditar que dependência é falta de inteligência.
Não. Dependência é medo.
Medo do abandono. Medo do vazio. Medo de existir sem alguém que organize o mundo por nós — ainda que esse alguém esteja nos destruindo.
Com o tempo, ela começou a perceber algo doloroso: o marido controlava o dinheiro, mas o verdadeiro controle era outro. Ele administrava seu sentimento de segurança. E quem controla o medo de alguém controla quase tudo.
A terapia começou devagar.
No início, ela queria apenas aprender a “lidar melhor com o estresse”. Como quase todos que chegam ao consultório querendo salvar a estrutura que os adoece.
Depois vieram as perguntas difíceis.
Por que uma mulher tão capaz precisava entregar a vida para alguém tão incapaz? Quando começou a confundir amor com submissão? Por que o desastre parecia menos assustador que a separação?
Não existem respostas rápidas para perguntas que nasceram na infância.
A análise não lhe devolveu imediatamente o dinheiro perdido, nem ressuscitou a mãe, nem transformou o marido em outro homem. Mas começou a lhe devolver algo talvez ainda mais raro:
a própria voz.
E recuperar a própria voz, depois de anos vivendo dentro do medo, é uma forma silenciosa de renascimento.
Porque há pessoas que não precisam aprender a pensar.
Precisam aprender que podem existir sem pedir permissão emocional para isso.

Fraterno abraço 

André Lacerda - Psicanalista 

sábado, 17 de janeiro de 2026

Nao Estou feliz, é certo. Mas....

 Eu não sou perverso ao ponto de ter prazer vendo um ser humano preso. Nem que seja numa "cela" de mais de sessenta metros quadrados com todos os cuidados necessários pra uma vida digna e de conforto (que a imensa maioria dos brasileiros "livres " não tem).

Eu não sou coveiro, e mesmo que fosse, não zombaria e nem seria indiferente ante a morte de seres humanos .

Eu não sou torturador, e abomino a tortura, quem a defende e que louva torturadores e fascistas de um modo BEM geral da história humana e brasileira.

Eu não sou omisso pra querer e permitir que criminosos de TODOS os gêneros fiquem impunes. 

Dito isso...

Não estou feliz com a prisão de ninguém, sobretudo porque vivemos num país sem perspectiva de ressocializacao e métodos sócio educativos.

Mas...

Falta ainda trazer à luz os crimes da pandemia,os crimes das joias, e mais os tantos que não vou citar.

Fraterno abraço 

André Lacerda - Psicanalista