Era um momento de absoluto envolvimento nas questões ambientais. Fazia parte de uma equipe que vivia 24 horas por dia e 7 dias da semana em função da causa ambiental e sobretudo com dedicação exclusiva à preservação das espécies e à causa da manutenção do planeta.
Aprendi muito naqueles anos. E tenho muitas histórias pra contar.
Tem a história do leão baio (puma americano) que resgatamos nas margens do Rio Jacuí e que vinha assombrando os moradores e inclusive tal assombro deixava os apenados das Penitenciárias de Charqueadas sem vontade de empreenderem fugas pela beira do rio.
Tem aquela da jaguatirica na Zona Sul que teimava em frequentar os banheiros das casas à beira do Guaiba.
A mais hilária das histórias, foi a do bugio assustado comigo, que me fez pular nas águas profundas e poluídas do Guaíba para evitar que o danado morresse afogado, e cujo evento me fez virar até charge de jornal.
Tem muitas histórias...
Mas hoje, vou contar uma história envolvendo uma serpente. Até hoje tenho a marca desta história "tatuada" na minha mão esquerda entre os dedos polegar e indicador.
Eis que era um novembro mormacento na Porto Alegre de meus risos e lágrimas.
Nesta época, com o aumento das temperaturas, até as cobras procuram melhores lugares para seus cochilos vespertinos, e os banheiros dos bairros da Zona Sul parece que são preferência dos ofídeos que deveriam estar nos seus ambientes naturais da mata de Itapuã e do Morro do Osso. Não fosse a invasão humana jamais sairiam de lá....
Mas no caso, uma serpente alojou-se num vaso sanitário de um banheiro de piscina na Zona Sul... e lá fomos nós...
O bixo estava calmo e foi logo identificado: Era uma cobra Cipó, verde e fininha com cerca de 1 metro de comprimento.
A técnica diz que para se capturar um animal destes, pega-se ela pelo rabo e se fica impulsionando para baixo mantendo-a com a boca longe e livrando-se da mordida.
Desatento por qualquer questão que não lembro, acabei mordido pela serpente que ficou furiosa em ser pega pelo rabo.
Sentindo certa dor (nada de absurdo pois a dor era suportável), fiquei tranquilo pois sabia que aquela espécie de cobra não era venenosa, e na sua boca, apenas pequenas serrilhas faziam as vezes de dentes, com ausência de presas inoculadoras.
Bem... na sequência dos fatos, depois de limpas as escassas gotas de sangue da mão, a cobra embalada para viagem, seguimos caminhos para entregá-la aos cuidados dos técnicos da Fundação Zoobotânica.
Aqueles 15 ou 20 kilômetros que percorremos da Zona Sul ao Jardim Botânico foram de absoluta tranquilidade para todos, inclusive para mim, recém mordido de cobra.
Sem dor, pensava em milhares de outras coisas. Na conta do banco, nos planos de fim de semana, na rotina da vida, enfim... outras coisas que me fizeram até esquecer da serpente fujona que se refrescava num vaso sanitário da Dea Coufal.
Chegando na Fundação, surge uma sorridente e simpática bióloga encarregada das serpentes e ela já vai dizendo:
"- Que legal... resgataram uma Cipó!!!"
E assim, ela descreve o animal que segundo ela tem o nome de Cipó por que gosta de frequentar os galhos das árvores. Com mais técnica e com luvas, ela continua a descrição mostrando-nos as características da serpente:
"- Olha essa mancha marron que ela tem na cabeça! Não fica lindo esse contraste amarronzado com o verde limão brilhante??? E olha as serrilhas! Indicam que é um animal adulto!"
Confesso que eu já estava ficando meio nervoso, pois a cobra estava dando sinais de poucos amigos, e manifestei para a bióloga que mesmo sem peçonha, aquelas serrilhas me deixaram as marcas na mão e narrei mostrando o ferimento, minha experiência de 30 minutos atrás.
Ela me olha com uma seriedade que me gelou até a última gota de sangue e professou:
"- Deixa eu te mostrar uma coisa."
Nisso, a técnica abre ainda mais a boca da serpente, e neste movimento, do céu da boca da Cipó, basculantemente surge uma única presa que parecia uma agulha daquelas que se tira sangue para exames laboratoriais, pingando gotas de um líquido meio transparente, meio amarelado.
Meus joelhos começaram a tremer, e já a cabeça começou a pesar enquanto eu ouvia à distância a voz didática da bióloga:
"- Recentemente, a Biologia identificou que a cobra Cipó tem veneno. É inoculado por essa única presa que tem lá atrás... no céu da boca ! É assim que ela mata os pássaros. E é por isso que ela gosta de caçar nos galhos de árvores. Os pássaros a confudem com cipós!"
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Me recuperei em poucas horas, sem nenhuma sequela que não fosse devidamente tratada no divã.
E vocês meus amigos???? Teem encontrado muitas "Cipós" pelas suas vidas??? Daquelas que não parecem, mas que em algum lugar no fundo de suas bocas guardam presas que inoculam veneno???
Fraterno abraço
André