quinta-feira, 13 de maio de 2010

"K" - A Fêmea dos Olhos Azulados!

Os atentos conseguem vê-la nas noites furtivas pelos caminhos suburbanos rondando locais as vezes iluminados e outras vezes escuramente sombrios.
Pelo jeito, ela gosta de ser reconhecida somente pela inicial de seu nome que muitas vezes fica tatuada nas camas, poltronas e até das paredes que lhe servem de suporte nas aventuras arrabaleiras... e ao amanhecer, resta um "K" marcado à ferro e fogo pelas suas unhas de fêmea no cio.
E então... um dia... enquanto eu mateava o verde amargo de minhas esperanças, à vi naquilo que imediatamente identifiquei como início de sua busca pelo desejo. 
E vi nos olhos de "K", o reflexo de muitos desejos.
E vi naqueles olhos hipnotizantes, desejo de morte, desejo de sangue, desejo pedrador e sobretudo o desejo gelado dos que sabem subjugar tudo aquilo que pode servir ao seu prazer e satisfação.
Logicamente que ela não percebeu minha presença, e por isso não fui privado de presenciar um espetáculo fantástico de suspense e terror, que confesso, ao contar aos amigos, me causa arrepios...

"K" estava silente, camuflada por sob as sombras de um dos tantos obstáculos urbanos naquele ambiente que ela dominava. 
E eu a vi ali... linda...selvagem... corpo esguio que emanava volúpia, frieza e paixão pela arte de submeter.
Nascera para isso. Submeter... e para isso usava com louvor e precisão todos os atributos que lhe foram fornecidos pela sua origem e pela natureza de seu desenvolvimento.
É sabido que "K" vinha de uma linhagem de maestrinas da hipnose e da sedução, e sabe-se que até no velho Egito suas antepassadas eram tidas como divindades.
E naquele dia, entre um mate e outro eu vi... 
Já tinha ouvido falar que "K" tinha requintes de crueldade na busca do seu prazer, pois depois de subjugar seu objeto de desejo, e depois ainda de horas e horas usando do corpo escolhido, praticava com esplendor a "arte" da degola com a destreza de um guerreiro gaúcho das guerras de antanho.
E ali deixava o corpo morto, sem cabeça, à disposição das formigas e de outros insetos...
Eis que vejo nada menos do que os oito vultos desatentos e desavisados que cantando e divertindo-se uns com os outros, nada sabem do fato de já terem sido escolhidos para divertirem "K" pelas próximas horas.
Vi nos olhos claros a certeza de que ela daria conta dos oito... e mais: Vi que ela estava refletindo sangue naqueles lindos olhos azulados e faiscantes...
Achei na hora, que aquelas vítimas já tinham sido escolhidas e que "K" de há muito havia planejado aquela orgia sanguinária naquele começo de noite, que infelizmente eu seria a testemunha ocular.
Roçando-se lascivamente pelos obstáculos, ela aproximava-se cada vez mais dos ainda quase meninos desavisados que sem saber estavam  entre "K" e seu incontrolável desejo.
À poucos metros, eles se dão por conta do risco e vi que o olhar do "K" os petrificou.
Cessaram-se os cantos e a alegria. Iniciou-se o pavor. Eles queria correr, voar pelos telhados se possível fosse... mas era impossível. Estavam sob o jugo gelado e mortífero de "K".
Ela se alonga, e seu corpo mostra toda a beleza de sua natureza esplêndida...
Chegou a hora... vai começar...
Também eu estou hipnotizado e nada consigo fazer, e penso que também a mim ela hipnotizou. 
O desejo sádico de "K" precisava de uma testemunha, e na verdade eu era parte de seu plano, pois desde o início ela sabia que eu estava ali, e que veria tudo. Veria tudo calado e inérte.
E pronta... ela prepara seu primeiro salto naquele massacre! Não consigo fechar os olhos... e uma voz interrompe a cena:

"KIKA... deixa os canários do André em Paz!!!!!!! Vai comer tua ração!!!!!!"

Era a voz de minha mãe, chamando atenção de sua siamêsa Kika com relação aos meus canários...
Era a voz da realidade que fez voltarmos todos (eu, "K" (kika), e os oito canários) para nossas rotinas pacíficas e harmônicas...!

Fraterno abraço
André        

  

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Grito pela América Latina!

Certamente eu devo estar paranóico ou com problemas para entender a realidade que os jornais estão estampando (pelo menos à mim).
Será que só eu estou vendo uma manobra populista que planeja escravizar à Latino América, com tentáculos fortes no Brasil?
Será que a minha loucura atingiu a fase delirante que me fez sentir e ver que as instituições estão sendo bombardeadas pelos mesmos pseudo ideais que dizimaram o Leste Europeu nas décadas de 50, 60,70 e 80??
Será que o meu delírio paranóico está me fazendo temer o fato de que o populismo fascista de caudilhos pode ser a pá de cal numa cultura absolutamente libertária e justa na sua origem?
Apelo aos meus amigos juristas que não esqueceram que o Direito é somente o caminho para a JUSTIÇA;
Apelo aos meus amigos artistas que ainda acreditam que só é justo cantar, quando o canto representa aqueles impossibilitados de ter voz;
Apelo aos meus amigos professores que ainda não foram inoculados com o veneno déspota dos aventureiros sociais que teimam em transformar nossos jovens em idiotas massificados;
Apelo aos meus amigos militares que nunca confudiram patriotismo com fanatismo e tirania;
Apelo aos meus amigos médicos que ainda vivem para amenizar o sofrimento humano sabendo que o máximo que podem prometer é consolo;
Se eu estiver enganado ou delirando, por favor meus amigos me esclareçam...
Mas o que vejo, é uma massificação latino americana, onde o niño pueblero, menino cidadão, não pode ter outro sonho que não seja ser um testa de ferro do traidor dos aplausos, instrumento sem maiores pretensões como diz Silvio Rodriguez no poema que transcrevo abaixo, inclusive com a tradução.
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La Maza ( Silvio Rodriguez )


Si no creyera en la locura
De la garganta del sinzonte
Si no creyera que en el monte
Se esconde el trino y la pavura

Si no creyera en la balanza
En la razón del equilibrio
Si no creyera en el delirio
Si no creyera en la esperanza

Si no creyera en lo que agencio
Si no creyera en mi camino
Si no creyera en mi sonido
Si no creyera en mi silencio

¿Qué cosa fuera, qué cosa fuera la maza sin cantera?
Un amasijo hecho de cuerdas y tendones
Un revoltijo de carne con madera
Un instrumento sin mejores pretenciones
Ue lucecitas montadas para escena
¿Qué cosa fuera, corazón, qué cosa fuera
¿Qué cosa fuera la maza sin cantera
Un testaferro del traidor de los aplausos
Un servidor de pasado en copa nueva
Un eternizador de dioses del ocaso
Júbilo hervido con trapo y lentejuela
¿Qué cosa fuera, corazón, qué cosa fuera?
¿Qué cosa fuera la maza sin cantera?
¿Qué cosa fuera, corazón, qué cosa fuera?
¿Qué cosa fuera la maza sin cantera?


Si no creyera en lo más duro
Si no creyera en el deseo
Si no creyera en lo que creo
Si no creyera en algo puro

Si no creyera en cada herida
Si no creyera en lo que rondé
Si no creyera en lo que esconde
Hacerse hermano de la vida

Si no creyera en quién me escucha
Si no creyera en lo que duele
Si no creyera en lo que quede
Si no creyera en lo que lucha

¿Qué cosa fuera, qué cosa fuera la maza sin cantera?
Un amasijo hecho de cuerdas y tendones
Un revoltijo de carne con madera
Un instrumento sin mejores pretenciones
De lucecitas montadas para escena
¿Qué cosa fuera, corazón, qué cosa fuera?
¿Qué cosa fuera la maza sin cantera?

A Massa

Se eu não acreditasse na loucura
Da garganta do pássaro cantor,
Se eu não acreditasse que no monte
Se esconde o canto e o medo...

Se eu não acreditasse na balança,
Na razão do equilíbrio,
Se eu não acreditasse no delírio,
Se eu não acreditasse na esperança...

Se eu não acreditasse no que gerencio,
Se eu não acreditasse no meu caminho,
Se eu não acreditasse no meu som,
Se eu não acreditasse no meu silêncio...

Que coisa fosse, que coisa fosse a massa sem pedreira?
Um amassado feito de cordas e tendões,
Uma confusão de carne com madeira,
Um instrumento sem melhores pretencões
De luzinhas montadas para cena...
Que coisa fosse, coração, que coisa fosse?
Que coisa fosse a massa sem pedreira?
Um testa-de-ferro do traidor dos aplausos,
Um servidor antigo com taça nova,
Um eternizador de deuses mortos,
Júbilo fervido com trapo e lantejoula . . .
Que coisa fosse, coração, que coisa fosse?
Que coisa fosse a massa sem pedreira?
que coisa fosse, coração, que coisa fosse?
que coisa fosse a massa sem pedreira?

Se eu não acreditasse no mais duro,
Se eu não acreditasse no desejo,
Se eu não acreditasse no que acho,
Se eu não acreditasse em algo puro...

Se não acreditasse em cada ferida,
se não acreditasse no que ronde,
se não acreditasse no que esconde
Se fazer irmão da vida...

Se eu não acreditasse em quem me escuta,
Se eu não acreditasse no que dói,
Se eu não acreditasse no que fique,
Se eu não acreditasse no que luta...

Que coisa fosse, que coisa fosse a massa sem pedreira?
Um amassado feito de cordas e tendões,
Uma confusão de carne com madeira,
Um instrumento sem melhores pretenciones de luzinhas Montadas para cena...
Que coisa fosse, coração, que coisa fora?
Que coisa fosse a massa sem pedreira?

Fraterno abraço
André

quinta-feira, 29 de abril de 2010

2012 é AGORA!

Como meus amigos que acompanham o blog tem percebido (e me cobrado!!), tenho espaçado mais as atualizações e as publicações estão se dando em média de um texto por semana.
Explico aos que cobram, que tal espaçamento é em virtude de eu estar envolvido em outros projetos imediatos e que em breve serão divulgados aqui mesmo. Prometo novidades boas, até porque tenho obrigação de projetar soluções, uma vez que sou peremptoriamente crítico.
Dito isso, vamos aos fatos como diria o causídico de processos já julgados...
Sou adepto daqueles canais que a tv à cabo nos oferece, mesmo achando que os preços são exorbitantes, e que na verdade, não é possível imaginar democracia plena quando informação de qualidade e cultura são produtos à serem cobrados. Enfim... sendo assim, dá-lhe novelas e editoriais comprometidos com "a" ou "b" (sendo o povo "c"), e nos intervalos um palhaço perverso que se diverte com a miséria humana atirando notas de dinheiro em troca de alguma humilhação.
Mas... vamos ao mundo do nat geo, discovery e history channel...
Vejo que estes canais de cunho científico e histórico contém invariavelmente em suas programações, as questões que avaliam as profecias relacionadas ao fim do mundo em dezembro de 2012.
Particularmente acho que esse processo já iniciou-se.
Me explico:
1) O poder do crime movido pelo crack é tão grande, que depois de transformar-nos todos em reféns, vítimas e muitos de nós defuntos, agora por cúmulo que possa parecer, até as botoneiras das sinaleiras são tiradas por escravos da pedra maldita que fazem câmbio com traficantes;
2) Certa igreja brasileira que inclusive detém poder sobre canais de tv, rádios e jornais, remete ao exterior cerca de 5 milhões de dólares todo o mês de maneira ilegal o que nos últimos 4 anos a cifra negra (termo originário da criminologia científica)  atinge à mais de 400 milhões de dólares;
3) Procuradora de justiça no Rio de Janeiro, é acusada de espancamento de sua filha adotiva de 2 anos, e uma série de reportagens mostra que agentes penitenciários e quadrilheiros presos e não presos formam um mesmo cartel de corrupção, tráfico de drogas e armas e etc... Pra citar Gonzaga Jr.:
 "Já nem sei se acredito na polícia ou no ladrão...!";
4) Tudo leva a crer que na América Latina ensaia-se um golpe populista articulado por diversas tendências de déspotas que calam a boca do povo com feijão e farinha; 
5) Pra não dizer que não falei de flores, há soldados armados amados ou não, que ocupam as fronteiras da Latino América e confundem-se sobre quem os comanda, se o Chaves ou se as Farc;
6) 90 % da população brasileira tem telefone celular, e a frase mais dita com todo esse poder de comunicação é: " Me liga que eu não tenho crédito!!!!!"
Sinto informá-los que... 2012 é agora!!!!!!!!!!

Fraterno abraço
André
        
     

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Os verdadeiros Autores!

Em tempo hábil, me desculpo e me corrijo graças ao apoio e a atenção do grande João de Almeida Neto.
Os autores do poema O MEU PAÍS são ORLANDO TEJO, GILVAN CHAVES E LIVARDO ALVES.
Aproveito, para recomendar o site do João, onde inclusive pode-se ouvir e ver verdadeiras obras primas.
Obrigado João...
Fraterno abraço
André

 

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O Meu País!

À poucos dias atrás, fiz contato com um velho conhecido cujo último encontro se deu nos corredores da universidade, e nosso assunto (acho que ele nem lembra) correu em torno dos mitos e lendas do Rio grande do Sul.
Meu objetivo, era solicitar que o brilhante músico e não menos brilhante advogado, me autorizasse publicar aqui no blog, um poema que eu julgava ser seu, e que publico abaixo.
Na resposta, o João de Almeida Neto, me autorizou com a ressalva de que eu publicasse o nome do autor, que não era ele e sim o poeta Afif Jorge Simões Filho.
Segue o poema abaixo, neste 21 de Abril que na verdade, pelas circunstâncias atuais, deveria ser lembrado por sermos o país de milhares e milhares de Joaquins Silvérios dos Reis...
    

O Meu País

Intérprete : João de Almeida Neto
Composição: Orlando Tejo/Gilvan Chaves/Livardo Alves



Um país que crianças elimina;
E não ouve o clamor dos esquecidos;
Onde nunca os humildes são ouvidos;
E uma elite sem Deus é que domina;
Que permite um estupro em cada esquina;
E a certeza da dúvida infeliz;
Onde quem tem razão passa a servis;
E maltratam o negro e a mulher;
Pode ser o país de quem quiser;
Mas não é, com certeza, o meu país.


Um país onde as leis são descartáveis;
Por ausência de códigos corretos;
Com noventa milhões de analfabetos;
E multidão maior de miseráveis;
Um país onde os homens confiáveis não têm voz,
Não têm vez,
Nem diretriz;
Mas corruptos têm voz,
Têm vez,
Têm bis,
E o respaldo de um estímulo incomum;
Pode ser o país de qualquer um;
Mas não é, com certeza, o meu país.


Um país que os seus índios discrimina;
E a Ciência e a Arte não respeita;
Um país que ainda morre de maleita, por atraso geral da Medicina;
Um país onde a Escola não ensina;
E o Hospital não dispõe de Raios X;
Onde o povo da vila só é feliz;
Quando tem água de chuva e luz de sol;
Pode ser o país do futebol;
Mas não é, com certeza, o meu país!


Um país que é doente;
Não se cura;
Quer ficar sempre no terceiro mundo;
Que do poço fatal chegou ao fundo;
Sem saber emergir da noite escura;
Um país que perdeu a compostura;
Atendendo a políticos sutis;
Que dividem o Brasil em mil brasis;
Para melhor assaltar, de ponta a ponta;
Pode ser um país de faz de conta;
Mas não é, com certeza, o meu país!


Um país que perdeu a identidade;
Sepultou o idioma Português;
Aprendeu a falar pornô e Inglês;
Aderindo à global vulgaridade;
Um país que não tem capacidade;
De saber o que pensa e o que diz;
E não sabe curar a cicatriz;
Desse povo tão bom que vive mal;
Pode ser o país do carnaval;
Mas não é, com certeza, o meu país!

Fraterno Abraço
André

quarta-feira, 14 de abril de 2010

O Nosso Destino Espartano!

Pois é!!! Andei meio sem inspiração...
Foram alguns dias de difícil digestão.
Vi corruptos contumazes deixarem o cárcere com suas caras de vítima e com suas belas acompanhantes que fazem pose para chamar a atenção de alguma revista de belas fotos e de índole duvidosa.
Vi psicopatas perversos mutilando, estuprando e matando inocentes e depois de tudo feito, na mais perfeita lucidez e calma rescaldarem os cadáveres destroçados não demostrando o menor respeito pela vida humana.
Vi a bela cidade de joelhos no lixo que cobria os corpos dos pigmeus do boulevard.
Vi professores e pais subjugados pela fúria cracolenta que consome numa progressão geométrica, aquilo que poderíamos chamar de civilidade.
E vi e vivi tudo isso nestes últimos dias...
E de tudo que vi, para meu absoluto espanto e desespero, tudo estava sob a égide da lei, e tudo estava outorgado pela a autoridade e pela justiça...
Então... estupefato, parei!
Precisava respirar o ar da esperança que catárticamente deveria retemperar minha alma ferida de morte.
Busquei o tal ar andando pelo Rio Grande.
Andei do ocidente ao oriente e percorri com orgulho provinciano as terras gaúchas.
Em cada palmo de chão que eu pisava, cada passo era marcado pela minha respiração ofegante que buscava captar cada partícula de ar.
E eu pisava no mesmo solo republicano que moldurou de lirismo a história heróica de meu Estado!
Quanto mais distâncias eu percorria, mais distante eu ficava da realidade que me fez andar...
E o chão sagrado me inspirava. O mesmo chão sagrado onde lutavam juntos negros, italianos, alemães e brasileiros contra a injustiça e a opressão, fundamentados todos pelo ideal gaúcho republicano.
Perto da fronteira, pude sentir minha alma sendo reformada pelos atabaques libertários dos lanceiros negros de Netto e Teixeira Gavião Nunes.
Pelos rios do pampa, pude sentir amenizar a sede de meu espírito com os cantos alegres dos carbonários italianos que os entoavam flamulando lenços tricolores com dizeres de Liberdade, Igualdade e Humanidade...
Voltando, a BR 290 e seu movimento progressivo, aos poucos ia me fazendo voltar do doce delírio que me levou ao tempo dos farrapos.
Agora que retornei, acho que algo de meu sonho pampeano ficou martelando no meu consciente urbano que sofre com as agruras do século 21.
Acredito que os bons ventos que se originam no oriente possam nos trazer esperanças que culminem quando o minuano bater nas nossas janelas de junho...
Então, quando o inverno chegar, que sejamos gregos na glória, na virtude troianos e que se reviva Atenas.
Mas não esqueçamos jamais, que o destino nos fez ESPARTANOS!

Fraterno abraço
André             

quarta-feira, 24 de março de 2010

O Grande Útero do Rio Grande do Sul!

Nesta semana, comemoramos o aniversário de Porto Alegre. Com saudade, passei a semana escutando Kleiton e Kledir e Isabella Fogaça...
Dia 26 de março, além do aniversário da capital dos gaúchos, é pessoalmente uma data de absoluta importância para mim, e como é pessoal, as explicações ficam para a próxima vez...
Reproduzo hoje, uma coluna que escrevi em 2008, e que foi publicada como um projeto piloto que eu mesmo abortei  por amar demais a cidade. Me senti incapaz de fazer uma análise cotidiana, pois neurótica e provincianamente, acredito que Porto Alegre é o melhor de todos os lugares...
Enfim...
" A saudade é demais... é lá que eu vivo em paz!"
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Porto Alegre No Divã (1)

Quando te vi ali, na entrada do consultório, sentadinha, cabeça baixa e olhos fixados no jornal de ontem, tremi ao pensar no que podias querer.

Tenho estado contigo nos últimos 40 anos, e jamais me passou pela cabeça que precisasses de meus ouvidos de psicanalista lacaniano.

Um rastro de luz me transportou num "flashback" delirante para o início de nosso amor, onde eu, ainda no colo do avô, velho portoalegrense, criei aquela que seria a primeira lembrança que levarei até o último pensamento consciente.

Era um final de tarde qualquer perdido num inverno dos meados da década de 60. Lembro com nitidez branquíssima, das luzes amarelas da Borges, por onde passava o nosso transporte - talvez um dos últimos bondes elétricos.

Lembro do gosto do diamante negro e da mancha que ele produziu na camisa volta ao mundo branca de meu avô.

Passei a te amar naquele dia, e acho que ali decidi que serias minha, uma vez que tu ali me encantaste.

Na infância, pouco te vi. Mas te amando ao longe, sabia meu inconsciente, que viveríamos juntos, meus sonhos, meus pesadelos e um pouco da tua e tudo da minha futura história.

Adolescente, te fiz minha enfim, e acho que sequer percebeste que eu te invadia com todo meu desejo recalcado e juvenil...

Me sinto ainda percorrendo teu centro, como se teu útero fosse. Eu entre milhões buscando o caminho de tua fecundação? ( Ainda hoje caminhando na Andradas gosto de fantasiar com isso...)

Naquele tempo, tudo me era esperança e fé. Lembro de me benzer ao passar na catedral da praça da matriz, pedindo bênçãos antes de chegar no Água na Boca da praça Conde.

E tinha a feirinha da Ladeira, com os hippies que faziam bolsas, cintos e chinelos que deixavam expostos nas vitrines de concreto, e pintavam à mão camisetas com o rosto do Che que deixavam ocultas dentro de sacolas, que naquele tempo, mesmo que moribunda, a “Dita” ainda era dura...

Nos 80, deu pra ti (no bom sentido!)... Lembro da fila do táxi na frente da OSPA, saindo da Papagayus, indo pra velha New Looking e seus ambientes.. ali... passando a Ipiranga.

E tinha teu cotidiano arrabalero, que mesmo sendo metropolitano vestia-se de interior nos domingos do Cristal, do Partenon, da Zona Norte, onde nos churrascos de passeio público, riam Maria que trabalhava na loja do centro, o Carlos mecânico da Azenha, o Paulinho do SulBrasileiro, etc, todos esperançosos mas com saudades de suas cidades de origem.

Mas.... espera ai! Isso tudo é até que bem recente! Não vejo razão pra demandas melancólicas.

Ainda temos o pôr do Sol (e o gasômetro está mais bonito!), temos os domingos da redenção, ainda temos GRENAL, e temos.... Ah! Um monte de coisas TRI ainda...

Ta certo... tens razão! Tem uma neurose te afetando.

Há poucos dias, vi meu filho, somando-se a muitos de teus filhos, naquele mesmo centro que eu fantasiei de útero materno, sangrado por uma faca impulsionada pela miséria e pelo crak por não querer voltar pra casa sem os Nike e o telefone (mas não exagera!! o atendimento no HPS foi rápido e o guri ficou bem).

Tens razão.... novamente! Minha mulher, como todas as tuas filhas, não pode mais olhar as vitrines da Rua da Praia tranqüila ( é... mas tens o Praia de Belas, Iguatemi, e os outros, e logo logo também o Barra Shoping ali do Cristal, acho que estás exagerando e se queixando de barriga cheia...).

Era só o que faltava! Estás te queixando porque o arrabalde mudou????É claro... isso é fruto de teu crescimento, é uma tendência mundial desde a revolução industrial. Ah??? Não é isso???

Mais uma vez tens razão...

As Marias, Carlos, e todos os outros não habitam mais os domingos festivos e milongueiros... O arrabalde é território... território da boca, do patrão, do gerente da boca, do aviãozinho, do mula, do tecasso e do menino morto esperando o DML e com sorte, uma lágrima da mãe.

Tentei evitar te aceitar como paciente. Acho que meu amor por ti desencadeou um impedimento inconsciente de te analisar...

Mas me entrego!

Vem cá ...ocupa meu divã freudiano. Me fala de tuas dores, de tuas faltas, de teus sonhos. Fica bem à vontade Porto Alegre! Vamos conversar um pouquinho????

09 de setembro 2008.