terça-feira, 19 de novembro de 2013

Retorno à Freud - A Maturidade

Em 1918, terminada a I Guerra, os livros de Freud começam a ser procurados com grande interesse e a ser traduzidos em várias línguas. Em todas as partes do mundo suas teorias eram discutidas  e seguidas, sobretudo nos meios culturais, apesar da oposição de pessoas de ideias antiquadas.
As descobertas de Freud sobre o inconsciente tinham também grande aceitação entre artistas, escritores e pintores. André Gide, um dos diretores da Nouvelle Revue Française, pedia autorização para a publicação das obras de Freud. Romalin Rolland e Stefan Zeweig visitavam-no e correspondiam-se com ele. Contatos íntimos pessoais e através de cartas estabeleceram-se com Arnold Zweig e Thomas Mann, fascinados pela perspectiva psicanalítica que tanto enriquecimento trazia a seus romances. Os surrealistas notavam mútuas confirmações entre suas inspirações e a descrição da psique dada pelo fundador da Psicanálise. André Breton, autor de Manifesto do Surrealismo, de 1924, aconselhava o usa da associação livre freudiana na escrita automática, para poder extravasar no papel a misteriosa riqueza das vivências mais profundas. Entre os que escreveram obras literárias em consonância com a Psicanálise, podemos lembrar: René Laforgue, F. Scott Fitzgerald, Aldous Huxley, James Joyce. O Pintor Dali, não somente quis visitar Freud, mas, traduzia em consonância  com ele, através de seus quadros, a complexidade conturbada da dimensão do inconsciente. Também a escola expressionista não se distanciou do reconhecimento dos dramas e conflitos humanos tão claramente captados por Freud.Com o passar do tempo, outra forma de arte, o cinema, interessou-se pela interpretação psicanalítica das personagens e de seus relacionamentos; dava-se idêntica perspectiva no teatro. Em 1936, quando já se delineavam no horizonte os perigos de uma perseguição nazista contra Freud, este recebeu, por ocasião de seu aniversário, como prova de estima e solidariedade, uma declaração trazida por Thomas Mann e assinada por mais de 191 escritores, entre os quais Romain Rolland, Jules Romains, H.G Wells, Virgínia Woolf, Stefen Zweig e outros importantes literatos.
Outra característica freudiana chama a atenção se olhar a foto (imagem de hoje) da reunião de 1929 em Oxford, onde observa-se o grande número de mulheres psicanalistas ao lado de seus colegas homens. Se pensamos que nas primeiras décadas  do século XX a mulher, por ser injustamente desvalorizada, era praticamente ausente nos meios científicos, devendo contentar-se, em caso de trabalho,  com empregos ínfimos, podemos facilmente concluir que o ambiente que Freud criara ao redor de si favorecia a colaboração igualitária  das mulheres, através de escritos e de iniciativas nas novas técnicas de tratamento.
Cito as que algumas que estavam presentes  na reunião de 1929 : Anna Freud (a dedicada filha de Freud que se tornou psicanalista especializada em crianças), Edith Jacobson, Melita Schmideberg, Karen Horney, Joan Rivière, Melanie Klein ( futuramente conhecida pela sua técnica de tratamento  e teoria referentes à criança), Ruth Brunswick, Barbara Low, Marie Bonapate ( fiel amiga de Freud já citada nesta série), Ella Sharpe , Helene Deutsch, Sybille Yates, Hermine von Hug- Hellmuth (que descobriu a técnica do brinquedo como instrumento para análise de crianças), Mira Oberholzer, Dorothy Burlingham, Eva Rosenfeld, Anny Katan, Marianne Kris e a brilhante Lou Andreas-Salomé que ingressou no movimento em 1912 já com 51 anos, e contribui para este com reflexões, pesamentos e dados por 24 anos. Até 1937, ano de sua morte.
estas foram as primeiras correligionárias da causa psicanalítica. Citei os nomes para facilitar,ao interessados, a eventual busca no "google" os nos manuais da literatura psicanalítica.
Vejam... isso, nas primeira décadas do século XX... Os amigos leitores lembras de alguma outra prática humana tão inclusiva com relação as mulheres antes da revolução da década de 1960???
Ainda sobre o apogeu, cabe dizer que Freud foi amplamente reconhecido:
Em 1921 eleito membro honorário da Sociedade Holandesa de Psiquiatria e Neurologia.
Em 1925, lord Balfour, em discurso famoso de Jerusalém, referiu-se aos três homens que mais tinha influenciado o pensamento contemporâneo, citando Bergson, Einsten e Freud. 
Em 1930, recebe o Prêmio Goethe de literatura.
Em maio de 1935, designado membro honorário da Royal Society Of Medicine.
Em 1936, eleito membro honorário da Associação Psiquiátrica Americana, da Associação Psicanalítica Americana, da Sociedade Psicanalítica Francesa, da Sociedade Neurológica de New York e da Real Associação Médico-Psicológica.

Fraterno abraço
André
          

sábado, 16 de novembro de 2013

Retorno à Freud - A Luta contra o Câncer e a Morte.

Insisto: O melhor estudo de Freud, está em Freud. Ou seja: O ideal, é ler a Obra completa do mestre, e sobre sua vida, tudo se vê nas famosas cartas de Freud.  Eu pessoalmente, tenho a obra completa com capa de couro na minha estante, mas nos últimos anos, tenho lido Freud no notebook e nos últimos meses, no tablet. A coleção eletrônica é completa e fácil de ter, portanto recomendo. 
Então, como dizem no meu amado Rio Grande do Sul... segue o baile e abre a gaita gaiteiro!
Reitero que na série em curso, me utilizo da maestria da psicanalista Amina Maggi Piccini através de seus estudos publicados em 1986.

Em abril de 1923 Freud informava, numa carta a Jones: 
"Detectei, há dois meses, um crescimento leucoplásico em meu maxilar e no meu palato, na parte direita, que removi no dia 20. Não voltei ainda ao meu trabalho e não posso engolir. Fui assegurado quanto à benignidade desse crescimento...Meu próprio diagnóstico foi de epitelioma, mas não foi aceito. O ato de fumar é estigmatizado como fator da etiologia dessa rebelião do tecido."  
Poucos dias antes de ser operado, Freud, no fim de uma conversa com seu colega médico Felix Deutsch, que fora encontrar-se com ele para discutir outras questões, pedira-lhe para dar uma olhada em sua boca, e foi  prevenindo de que lá veria "uma coisa desagradável". Deutsch, logo à primeira vista, percebeu tratar-se de um câncer em estado avançado, mas nada comentou a respeito, limitando-se a confirmar os conselhos dados pelo dermatologista Steiner de realizar uma ablação (oque foi feito) e de suspender definitivamente o fumo (o que foi seguido só esporadicamente). Conforme se pode deduzir das cartas a Jones, o Freud logo suspeitou da verdade que lhe foi ocultada. Sem avisar a família, Freud submeteu-se a essa cirurgia, não numa clínica bem equipada, mas num setor para pacientes externos dirigido por um tal Hajek, não havendo naquele momento nenhum quarto ou mesmo cama à disposição dentro do hospital e parecendo tratar-se, pela orientação do médico, de um problema fácil de ser resolvido. Só após a operação é que a família foi informada. A esposa Martha e a filha Anna, correndo ao hospital, encontraram Freud sentado numa cadeira de cozinha, banhado em sangue. Nenhum médico ou enfermeira estava de plantão naquele momento, mas somente uma freira. Na ocasião, ele foi salvo por um paciente internado, um anão débil mental mas amável e solícito que se precipitara para pedir socorro ao conseguir entender o perigo pelo qual estava passando o recém operado, impossibilitado de falar ou de pedir ajuda por intermédio de uma campainha desativada, mas enquanto isso esvaindo-se em sangue. Foi nesse clima que ocorreu a primeira das 33 operações que o martirizaram na tentativa de lutar contra o câncer. O laudo patológico revelou tratar-se de um epitelioma maligno, mas nada foi dito a Freud, que em seguida foi submetido a um tratamento doloroso de radiações.
Infelizmente, a operação não somente reduzira a abertura da boca, pela retração do tecido devido à cicatriz, mas tinha sido incompleta. Deutsch, percebendo pouco tempo depois a recorrência do tumor, comunicou aos discípulos mais próximos, reunidos em grupo (chamado de "Comitê"), Abraham, Eitington, Ferenczi, Jones, Rank e Sachs, a necessidade de uma cirurgia mais profunda, mas estes decidiram informar Freud somente depois da viagem que o mestre e sua filha Anna haviam programado meses antes a qual esperavam ansiosos ( viagem à Roma). Em seu último ano de vida, Freud sobre por Jones, dessa antiga e secreta decisão do "comitê" e com os olhos em brasa perguntou:
"Com que direito?".
Retornando de Roma, foi escolhido, por sugestão de Deutsch, o maior especialista em cirurgia bucal, Pichler, pessoa extremamente humana que não somente tratou de Freud com grande dedicação durante quinze anos, mas usou de sua autoridade e influência para protegê-lo quando da invasão da Áustria por Hitler.
Num plano operatório, feito em duas etapas (em 4 e em 12 de outubro de 1923), removeu-se todo o maxilar superior e palatar do lado direito. Essa operação mutiladora, que deixou a cavidade nasal e bucal unidas, foi realizada sob anestesia local porque a técnica de anestesia geral não estava ainda desenvolvida na Áustria. Poucos dias depois, percebendo não ter retirado tecido suficiente, Pichler efetuou uma terceira intervenção, desta vez completa. Freud não morreu de metástase desse tumor, mas de outro que apareceu posteriormente.
Sei e todos podem ter acesso as informações que mostram o quando Freud sofreu de 1923 até sua morte em 1939. Pensei em escrever os detalhes. Não me autorizo. Me recuso na verdade. Freud jamais deixou de analisar seus pacientes e nunca parou de escrever. Mesmo sem falar, compareceu à todos os seminários, e sua filha Anna lia suas palavras nas palestras que proferia. E me lembro que alguns anos atrás depois de extrair um dente que estava sobrando, fiquei 3 dias sem atender...
Em 1938, em Londres, Pichler realiza a 33ª cirurgia em Freud. Mas em fevereiro de 1939 reaparecia um novo epitelioma maligno, não muito  longe da base da órbita, num local que não permitia acesso para nova intervenção. Freud estava então definitivamente condenado.
"Sinto dores paralisadoras" escrevia à Arnold Zweig. E, a Marie Bonaparte: 
"Meu mundo é uma pequena ilha de dores flutuando num oceano de indiferença". 
Na região da última lesão havia agora tecido pútrido e um osso necrosado, o que dava origem a um desagradável odor que obrigou Freud à dolorosa decisão de não mais atender pacientes. Max Schur comenta a respeito:
"Seu estúdio transformou-se também no seu refúgio de doente, e do seu leito podia ver o jardim com as flores que amava. Contudo, o cãozinho chow a que Freud era tão ligado não podia suportar o mau cheiro...Quando levado até a sala do estúdio, o chow corria para o canto mais recuado. Freud sabia o que significava aquilo, e olhava para o seu cãozinho com uma tristeza trágica e consciente."
A doença continuou a avançar, causando-lhe terríveis sofrimentos, até que finalmente (dizem alguns que com a ajuda da filha Anna que ministrou altíssimas doses de morfina procedendo a eutanásia à pedido do pai) o pai da psicanálise, morreu em 23 de setembro de 1939.
Uau!!!!!!! Sofri para escrever isso...chorei escrevendo isso!
Na imagem abaixo, um vaso grego de 4 A.C., presente da princesa Marie Bonaparte à Freud. Esta peça, ostenta uma cena da lenda de Édipo e a Esfinge. Hoje, é a urna mortuária onde repousam as cinzas de Freud e sua amada Martha.
Fraterno abraço
André
       

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

De Filosofia em Filosofia....

Não sou apegado a essa coisa de datas comemorativas e alusivas ao que quer que seja. Penso que emoções, sentimentos e memórias inclusive, são atemporais e se inserem em cada indivíduo conforme as demandas do cotidiano e da própria história de vida.
Contudo, hoje comemora-se no Brasil a proclamação da república.
Eu poderia escrever sobre isso a começar pela definição de Republica, de suas origens gregas e falar da RES = coisa,  Publica = do povo. Mas não vou falar....risos
Hoje, também comemora-se o Dia Mundial da Filosofia....
Desejei filosofar...
Mas filosofar num mundo onde o avanço tecnológico é milhares de milhões de vezes mais efetivo que o avanço filosófico é meio complicado...
Penso que Sartre, Roterdã, Schopenhauer e outros tantos mais antigos não tiveram tamanha concorrência desleal...
Penso que a filosofia hoje tem mais adeptos reclusos ante uma lareira acolhedora com um generoso copo de cabernet sauvignon cintilando sob o reflexo do fogo,  do que nos bancos acadêmicos...
E penso como disse o velho recluso Belchior, que se um analista amigo meu falasse hoje, ele diria que "o amor é uma coisa mais profunda que um encontro casual......".
E repenso que filosofar é um exercício também de vida e morte. Vida que vem e precisa ser atualizada a cada dia, mesmo que seja nas teclas F5 do computador que há muito deixou de ser um mero aparelho eletro eletrônico...
Vida que vai entre pingos de reconfortante néctar e cascatas torrenciais de uma mistura do mais terrível fel de nossos dissabores e da cachaça amarga que nos "consola" pois o velho recluso Chico Buarque já filosofou " que também, sem a cachaça, ninguém segura esse rojão...".
E tem a morte...
E penso que cada vez penso mais, que desejo que ela me venha como já descrevi aqui:  "Como uma balzaquiana gostosa, bronzeada de sol e com marquinhas de biquíni...".
E complemento repensando que depois que ela me sugasse com seu beijo gelado e depois de incinerados todos os meus podres, alguma alma generosa jogasse minhas cinzas no rio ou no mar que jamais estive, e que neste momento, tocasse no seu I Phone  uma ária de Puccini cantada pelo Pavarotti.

Bom feriado à todos... e fraterno abraço!
André
P.S.: A ária é Nessun Dorma ... e vos ofereço... risos

http://www.youtube.com/watch?v=k0J-Ur04_qE
 
  


Retorno à Freud - A Invasão Nazista e a Fuga da Áustria.

Bem no início do ano de 1933, Adolf Hitler assume o poder na Alemanha, dando início a um longo período de terror para os judeus, que começam a ser perseguidos. Muitos psicanalistas, prevendo épocas conturbadas, já haviam emigrado no ano anterior para os Estados Unidos, e, agora, os que ficaram eram obrigados a fugir pelo iminente fechamento do Instituto e da Sociedade de Psicanálise de Berlim. Também os filhos de Freud que, com suas famílias, viviam nessa cidade tiveram de abandoná-la. Embora várias pessoas aconselhassem Freud a emigrar para a Inglaterra ou para os Estados Unidos, por estar a Áustria ameaçada pela proximidade de um país dominado pelo nazismo, ele se recusava a expatriar-se, esperançoso de que sua terra fosse preservada da avassaladora destruição, como dizia, de Logos (do saber) e de Eros (do amor) efetuada por Hitler. Até a queima de seus livros em praça pública em Berlim pelos nazistas, em 1933, deixara-o ainda capaz de ironicamente comentar:
 "É um progresso o que está se passando. Na Idade Média, eles teriam jogado a mim na fogueira; hoje em dia contentam-se em queimar meus livros."
Em 1936, provando, pelo contrário, que os nazistas não se contentavam com isso, a Gestapo apoderava-se de todos os haveres do movimento psicanalítico alemão (inclusive da Verlag editora). E, em 11 de março de 1938, os alemães invadiram a Áustria trazendo a onda negra de perseguições judaicas. Nesse mesmo dia vários amigos acorreram à casa de Freud, insistindo novamente para que deixasse o país; conseguiram finalmente convence-lo, só que um pouco tarde, pois agora os judeus, para sair, deviam obter uma prévia "permissão legal".
A casa de Freud foi invadida várias vezes por gangues perambulantes das S.A. ( milícias nazistas), "jovens de olhares canalhas, armados de punhais e pistolas", conforme descrição de Schur (médico pessoal de Freud), que pilharam o dinheiro, ocorrendo o mesmo na sede da Verlag em Viena, onde se encontrava Martin Freud (filho). Mais sérias eram as buscas efetuadas pelos agentes da Gestapo entre as cartas e fotografias, procurando as assinadas por Einsten, considerado inimigo da pátria alemã. Um dia levaram Anna (filha), deixando aflitíssimo o pai, que ficou andando para cima e para baixo o dia inteiro de sua ausência, sem parar de fumar, pelo terror de que ela não mais voltasse, como ocorria frequentemente aos judeus quando arrastados de suas casas. Mesmo querendo agora sair do país, Freud  não tinha condições de pagar a "taxa" pedida pelos nazistas, de vinte por cento dos bens para cada judeu que quisesse emigrar, pois sua família era relativamente grande, ao passo que os cofres de casa e da editora já tinham sido esvaziados. Quem os ajudou nesses momentos foi Marie Bonaparte, que pagou as taxas devidas, embora Freud aceitasse o auxílio com a condição de reembolsá-la.
Com relação às complicadas formalidades, sabemos por intermédio de Ernest Jones (amigo e biógrafo de Freud) que Freud teceu um novo comentário irônico quando foi obrigado a assinar, para o visto de saída, um documento no qual devia atestar ter sido "bem tratado pela Gestapo...podendo viver e trabalhar em plena liberdade... não tendo qualquer razão de queixa". Freud perguntou se lhe era permitido acrescentar uma sentença do tipo: "Posso de coração recomendar a Gestapo a qualquer pessoa???".
No dia 4 de junho de 1938, Freud deixava definitivamente Viena, acompanhado por sua mulher, pela filha e por duas fiéis empregadas. Seu médico particular, Schur, viajaria em seguida.
Ao passar por Paris ( onde permaneceu na casa de Marie Bonaparte por um dia "que nos devolveu a dignidade e a têmpera) e em sua chegada à Inglaterra foi acolhido com estrondosas honrarias. Freud gostava desse seu país adotivo que sempre estimara e onde Jones, vários discípulos e futuros pacientes o tinham esperado ansiosamente. Ele podia passar agora horas deliciosas no belo jardim em frente ao seu escritório. Apesar das regalias, comentou um dia:
"O sentimento de triunfo ao me ver libertado acha-se tão fortemente vinculado à dor, já que amei profundamente a prisão da qual fui libertado."

Na próxima publicação da série, abordarei a morte de Freud.
Na ilustração abaixo, o consultório de Freud em Londres, até hoje preservado e visitado diariamente por milhares de pessoas.
Fraterno abraço
André
  

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Retorno à Freud!

Citei várias vezes e repito: Não tem como considerar-se psicanalista, sem ter a essência freudiana. Lacan, em seu seminário de Roma estabeleceu aos seus alunos: "Vocês que sejam lacanianos. Eu, sou e sempre serei, Freudiano!" 
Então, vou dar uma folga aos leitores (risos), e deixo de lado (pero no mucho...risos) Lacan e suas teorias ( que ao meu juízo foram as mais efetivas releituras e retorno à Freud) e inicio hoje a série RETORNO À FREUD.
Sigmund Freud, está na minha opinião, entre os 5 maiores pensadores da história humana. Ainda na minha opinião, é o maior deles. Todo mundo cita Freud. Dentro dessas circunstâncias, me surgiu a ideia de escrever a série que inicio hoje. Espero que gostem e através dos comentários, espero também aprender com todos que prestigiarem meu texto.
Vou citar vários biógrafos do mestre. Mas fundamentalmente, vou me apoiar no trabalho da Psicanalista Amina Maggi Piccini (Freud, Ed Moderna, 1986) que notabilizou-se por estudar e ensinar a obra freudiana e na obra citada fotografa com maestria não só as ideias, mas também a vida pessoal e a época do narrado.
Meu trabalho, diferente do usual, começará pelo fim. Vou começar com os últimos momentos, e assim vamos evoluindo até o nascimento. 
Então... segue o baile.

No fim da vida a inspiração de Freud foi conseguir terminar a vultuosa obra Moisés e o monoteísmo, o que realmente ocorrerá com sua publicação em 1939, enquanto Esboço de Psicanálise foi deixado inacabado.
Em carta ao amigo Romain Rolland, o fundador da Psicanálise escreveu:
 " Uma grande parte da obra de toda a minha vida tem sido gasta tentando destruir as minhas ilusões e as de toda a humanidade."
Penso que essa frase possa ser a mais indicada para iniciar esse estudo de retorno à Freud.
Vejam prezados amigos, que uma narrativa sobre a vida de alguém deveria terminar quando esse alguém morresse. Contudo, isso é impossível em se tratando de Freud, que continua vivo através de suas obras, algumas das quais escreveu competindo com a morte, para que esta não o levasse à linha de chegada antes de concluí-las.
Apesar das dificuldades por que passou, e que vou tentar resumir no decorrer da série, Freud nunca decresceu no vigor de sua produção literária e científica.
Destaco para início de conversa, a grande "briga" que o mestre adotou como sua escrevendo ( em péssimas condições de saúde física) A Questão da Análise Leiga que foi motivada pelo processo que vitimara seu discípulo, não médico, Theodor Reik. Freud colocou-se em posição diferente da de seus próprios discípulos, que preconizavam a Psicanálise exercida apenas por médicos. O mestre, ao contrário, considerava que a Psicanálise não poderia ser apenas "mucama" da medicina.
Ao percorrermos as últimas obras de Freud podemos perceber duas características. A primeira é que várias delas (Psicologia de grupo e análise do ego, de 1921; O futuro de uma Ilusão, de 1927; O Mal estar na civilização, de 1930; Moisés e o monoteísmo, de 1937-1939) abordarão questões culturais, sociológicas, históricas e antropológicas, enquanto ele aprofundava questões clínicas. Todavia, devemos lembrar que para Freud esses estudos não se inserem em áreas separadas da psicologia mas constituem uma continuação dela, vista em suas aplicações mais abrangentes. A segunda característica é que em suas últimas obras Freud traz um tom bem menos otimista, diríamos até bastante pessimista, da condição humana dentro da cultura, que frequentemente nega a verdade psíquica das pessoas que a compõe.
Mesmo com relação ao tratamento, é possível perceber uma diferença entre a euforia de suas primeiras obras e a avaliação meditada dos perigos e limitações quando usado por pessoas despreparadas, ou apressadas, ou levadas pela crença superficial de que a pesquisa do inconsciente possa ser previamente estabelecida quanto ao seu rumo (conforme aparece em Análise terminável e interminável, de 1937).
Amanhã seguimos...
Fraterno abraço  
André


  

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Comentários de Publicações Anteriores VI

Então sigamos. Depois de alguns dias, retomo a série comentários.

Para Lacan, o inconsciente se reduz à função simbólica. Em sua obra, o desejo humano é causado pela estrutura, é estrutura em si mesmo, pois desliza, como faz o significante.
A ideia de explicar o desejo, a partir de um deslizamento incessante do significante, é muito atraente, pois ilustra, tanto o aspecto de isca que o objeto desejado tem, como também porque o sujeito tem uma sequência infinita de objetos desejados. Também separa o desejo da fonte biológica, dando prioridade ao aspecto simbólico sobre o fisiológico ou material. De todo o modo, resta explicar a relação entre o simbólico e os aspectos fisiológicos, temática que não escapa à inteligência de Lacan, quando procura compreender a articulação das ordens simbólica e real.
Lacan nos propõe uma versão do desejo e sua relação com a linguagem, que é bastante elaborada. Pensa-a de três maneiras diferente: duas são estritamente linguísticas e a terceira introduz um fator alheio à cadeia significante. Em um sentido ontológico, o desejo surge porque há linguagem; em um enfoque mais moderado, a linguagem é modelo para o desejo, trata-se de uma analogia ou de uma metáfora: o significante desliza e supõe-se que acontece a mesma coisa com o desejo e, ao mesmo tempo, seu resultado. É o objeto que se liga à fantasia. Este terceiro modo de raciocinar possui uma independência relativa dos outros dois.

Fraterno Abraço
André
  

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Comentários de Publicações Anteriores V

Depois de uns dias sabáticos retorno com a série comentários. Insisto que à tudo o que estamos comentando, encontra-se nos arquivos da página e do blog. 
Dito isso... sigamos:

Depois de Freud, Lacan e Melanie Klein são os que foram mais longe na reformulação global da teoria psicanalítica. Estes dois gigantes introduziram tal vastidão de mudanças nas concepções que, com acertos e erros, a psicanálise se modificou depois deles. Assim como nos anos 60 houve a moda kleiniana, agora ( depois da década de 80), em alguns lugares como Buenos Aires e Porto Alegre no Brasil, dissemina-se o ensino lacaniano. 
Em Lacan, o poder da letra e do código sobre o indivíduo é completo. A obra lacaniana insiste em que o sujeito fica inscrito a partir de fora, sem liberdade de escolha.O estruturalismo utilizado revive a paixão pela razão, colocada na estrutura, como a racionalidade causal auto-regulada; desaparece ao acaso, a casualidade, exagerando-se o determinismo dos fatores externos ao sujeito. Atualmente, muitos pensam a mente como um lugar em que se produzem sentidos infinitos. Freud, por seu turno, propôs, com sua teoria das séries complementares, um equilíbrio entre o interno e o externo.
A primazia do significante, entendida não só como fato linguístico, mas em um sentido amplo e social, leva-nos a pensar que o símbolo determina o homem, torna-o escravo de sua marca, do emblema e da tradição ou ritual. O discurso da ciência (fora das paixões imaginárias) é discurso simbólico, mas, como aceitar seu desenvolvimento, sua mudança, a criação, a intuição ou a especulação, quando se entra em um beco sem saída, ao asseverar que a estrutura significante é inapelável para o sujeito, tendendo a se repetir continuamente?
Lacan diz, algumas vezes, que o significado luta por se expressar, e, em outras, que o significante tem atividade produtiva e não expressiva. Pode ser que se trate de contradições internas do modelo, mas é também possível que se refira a ordens diferentes. Em um sentido, a primazia do significante reivindica o peso da cultura na determinação do sujeito. É através da linguagem e dos símbolos que o sujeito se constitui, pois é determinado por eles. Primazia do significante quer dizer, então, que a estruturação do sujeito deriva da convenção linguística e social. Indubitavelmente, há verdade nestas ideias.

Fraterno abraço
André