quinta-feira, 12 de junho de 2014

O Velho (mas nem tanto) Aventureiro!

Somente depois que ele se manifestou pela primeira vez é que alguém por fim, sentenciou: Existe vida!
Foi ele que tremeu diante das primitivas emoções.
Foi e é ele que quem tremeu e treme diante das emoções secundárias.
Ele quase explodiu quando se apaixonou pela primeira bicicleta ou pela primeira namoradinha.
Ele vibrou quando leu Freud pela primeira vez e se perturba ainda hoje quando lê o Mal Estar na Cultura que considera um dos mais perturbadores ensaios jamais escritos no que diz respeito ao desenvolvimento cultural da humanidade.
Ele se preocupa quando pensa que ao investigar porque o ser humano é tão pouco dotado para ser e permanecer feliz, Freud revela que um dos principais e invencíveis obstáculos à felicidade é a consituição psíquica do homem. E ele quase sangra quando percebe que Freud examinou de perto, lançando mão de ferramentas psicanalíticas, o processo de desenvolvimento cultural necessário para que as pessoas possam viver em sociedade. E ele inexoravelmente sangra quando conclui que não só a civilização, mas a própria cultura humana implicam uma diminuição na felicidade dos indivíduos, tendo como subproduto um inalienável e generalizado sentimento de culpa.
Alguns acreditam que ele é duro como pedra. Ele prefere se definir como cartesiano e tal qual Descartes postula a ideia de que a razão deveria permear todos os domínios da vida humana e que a apreciação racional deveria ser o parâmetro para todas as coisas, numa atividade libertadora, voltada contra qualquer dogmatismo, considerando que acredita que "espírito", "alma" e "razão" significam a mesma coisa.
E é ele que sangra quando pensa na falta de condições de saúde, nutrição e segurança de seu povo.
Mas ele também vai vibrar com a seleção brasileira que daqui a pouco entra em campo na nossa copa do mundo de futebol.
Há quem diga que ele está acabado. Ele discorda e me pede para que mostre sua cara nesse artigo.
Apresento assim... meu coração!
 
Fraterno abraço!
André
 
P.S.: Sei dos detalhes sórdicos e os estou tratando, portanto, se por acaso algum cardiologista ler isso, poupe a mim e aos leitores desses detalhes... risos!!!!!   
 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

A Cidade Morena de minhas fantasias!

Eu lembro que era muito menino. Mas menino mesmo... nao mais de seis anos. Sempre tive uma faísca adiantada e entrei pra escola com apenas cinco anos e já alfabetizado. Então foi aos seis anos que li meu primeiro livro. Não lembro o título nem o autor, mas lembro em detalhes daquela minha primeira viagem ao mundo da fantasia, da arte e dos sonhos. Meus (e de tantos) mestres Freud e Lacan eram uníssonos em dizer que a Psicanálise era filha mais nova da nobre arte que era a literatura. Vou morrer agradecendo a minha mãe leitora obssessiva e minha irmã competente professora, por ter amado a literatura desde tenra idade.
Mas foi naquele primeiro livro que tive o primeiro contato com a bela Cidade Morena! Mas na verdade a história do livro não passava nem perto da cidade, pois tratava-se de uma aventura vivida por um menino que em férias nas fazendas de seu avó, desbravava as matas do Mato Grosso do Sul. E ai fazia alusões à grande Campo Grande (a Cidade Morena) como referencial de cidade mais próxima de suas andanças...
E o tal menino narrava de como os índios da região lhe ensinavam os segredos e os mistérios da mata e como lidar com todas as nuances e adversidades do ambiente.
Mas o que mais marcou o André menino, foi uma narrativa do livro onde o protagonista  reproduzia a visão onde uma grande serpente engolia um indiozinho.
Por muito tempo, mesmo com os mais velhos falando das maravilhas dos pastos e da fertilidade das terras do Mato Grosso do Sul, meu imaginário correlacionava a região com a cultura indigena e com a monstruosa anaconda comendo um indiozinho.
Bem mais tarde fui conhecer a Cidade Morena de meus sonhos da infância promovidos pelo livro de aventura infantil.
E bebi da cristalina hospitalidade daquela terra que verte dos córregos Prosa e Segredo e que espraia-se pelas ruas e pelas almas de Campo Grande.
Bem mais tarde, psicanalista veterano já e calouro do curso de Direito minha verve libertária me aproximou de Campo Grande novamente.
Me explico: Entre o fim da década de 90 e início dos anos 2000, muito por minha admiração à Filosofia do Direito e nada por pretensão de ser um jurista, estudei a nobre disciplina de Cícero.
E lembro que em todos os meus trabalhos e estudos eu buscava recursos e inspiração nas jurisprudências produzidas pela Justiça do Mato Grosso do Sul. Então um dia, um estimado professor e competente Juiz de Direito me questionou sobre o evento e eu respondi:
 
- Prezado Doutor! Apesar de estar encantado com a Filosofia do Direito, não é segredo que sou Psicanalista e jamais serei outra coisa. Também não é segredo que tenho tatuado no braço direito o Brasão do Rio Grande do Sul com as palavras LIBERDADE, IGUALDADE E HUMANIDADE... e que a mais me toca, por ser psicanalista que lida com a dor humana, e por acreditar nas outras duas, é a HUMANIDADE. E, meu prezado professor e meritíssimo juiz, ao meu juízo, são nas decisões do Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul, é que vejo mais intensidade no quesito Humanidade e faço daquelas minhas palavras em meus trabalhos.  
 
Tempos depois, a faculdade promoveu um seminário e um dos participantes era um Desembargador da Justiça do MS (pena que não guardei o nome)  que foi informado pelo meu amigo professor de minha preferência e de minha teoria. O velho jurista me encarou simpaticamente e depois de manifestar satisfação sentenciou:
 
- Prezado aluno: Na nossa atividade, devemos sempre escolher os caminhos do Direito e da Justiça. Mas se tivermos de escolher entre um dos dois, devemos escolher sempre o da JUSTIÇA. Só ela nos faz agir com HUMANIDADE.
 
O Freud já disse que o acaso não existe. E acho que não por acaso, a bela Campo Grande, a Cidade Morena de meus sonhos infantis, faz aniversário no dia 13 de junho que é Dia de Santo Antonio de Pádua.
Não é segredo que apesar de ver anjos nada sei de santos e seus dogmas. Mas sei que Fernando de Pádua ( Nome de batismo do Santo Antônio) foi considerado o Doutor da Igreja e referenciava-se em clássicos como Plínio, Sêneca, Cícero, Boécio, Aristóteles e Galeno. E sei que São Boaventura dizia que ele possuia a ciência dos anjos.
Em breve estarei em Campo Grande para o laçamento de meu próximo livro.
E quero voltar a beber a hospitalidade daquele povo.
E quero passear pela Praça Ary Coelho compartilhando um tereré amigo.
E quero me resfolegar com um nhoque de mandioca com molho de carne seca.
E quero sobretudo voltar de lá, banhado pela humanidade daquela gente.
 
Fraterno abraço!
André           

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Eu acredito em anjos!

Era uma jovem paciente... bonita... vinte e muito poucos anos... e fazia algum tempo que se analisava com disciplina e frequência espartanas.
Por aqueles dias o Psicanalista estava atento às novas atividades que a moça estava desenvolvendo. Estava escrevendo poesias....elaborando melodias novas no piano... buscando antigas manifestações musicais e literárias (coisa que ela não conhecia)... e estava mais serena e calma do que nunca.
O Psicanalista pensou:
- Na próxima sessão, vou abordar os mecanismos de defesa do ego....
E buscou nos alfarrábios...e achou em Freud ( O Ego e o Id- 1923)... e achou em Anna Freud (O Ego e os Mecanismos de Defesa- 1946) ... e preparou a introdução para a sessão seguinte da moça. 
O sol brilhava naquela manhã de inverno e ela chegou pontualmente como sempre e sua jovialidade fez o sol parecer uma mera velinha moribunda...
Ocupou o divã ao mesmo tempo em que declarava com entusiasmo juvenil:
- Estou amando as músicas do ABBA! É do teu tempo né??? 
- Sim... mas te proponho uma questão: Noto que tens sublimado  extraordinariamente nos últimos dias... Já ouviste falar dos mecanismos de defesa do ego? 
- Não... mas tenho certeza de que tu vai me falar né??? Sou toda ouvidos....
O Psicanalista evocou todos os seus demônios cartesianos e lascou:

"Mecanismos de defesa são processos psíquicos inconscientes que aliviam o ego do estado de tensão psíquica entre o id intrusivo, o superego ameaçador e as fortes pressões que emanam da realidade externa.
Devido a esse jogo de forças presente na mente, em que as mesmas se opõem e lutam entre si, surge a ansiedade cuja função é a de assinalar um perigo interno. Esses mecanismos entram em ação para possibilitar que o ego estabeleça soluções de compromisso (para problemas que é incapaz de resolver), ao permitir que alguns componentes dos conteúdos mentais indesejáveis cheguem à consciência de forma disfarçada."

O Psicanalista percebeu que na medida que ia falando a jovem paciente cantarolava bem baixinho a música do ABBA:

" I have a dream (eu tenho um sonho)
a song to sing (uma canção para cantar)
To help me cope (Que me ajuda a enfrentar)
With anything (qualquer coisa)...."

Com a frieza de uma nádega de esquimó pescando sentado, o Psicanalista prosseguiu:

"Anna Freud em "O Ego e os Mecanismos de Defesa" (1946), formula a hipótese de que o maior temor do ego é o retorno ao estado de fusão inicial com o id, caso a repressão falhe ou os impulsos sejam intensos demais. Para manter o grau de organização atingido, o ego procura proteger-se da invasão das demandas instintivas/pulsionais, provenientes do id, e do retorno dos conteúdos reprimidos.
Assim, em "O Ego e o Id" (1923), Freud diz que a psicanálise é o instrumento que permite ao ego uma conquista progressiva do id.
A psicanálise visa uma transformação paulatina de maiores porções do id em recursos do ego, em seu propósito de tornar consciente o que é inconsciente. Assim, a mente poderá vir a encontrar soluções, previamente inacessíveis ao ego imaturo."

E o Psicanalista falava tudo isso tendo como fundo musical a voz suave e baixinha da moça cantando:

" If you see de wonder (se você vê maravilhas)
of a fairy tail (em um conto de fadas)
You can take de future (você pode agarrar o futuro)
even if you fail (mesmo se você falhar)
I believe in angels ( eu acredito em anjos)..."

E o Psicanalista (com um sorriso sincero  nos olhos) prossegui:

Os principais mecanismos de defesa são os seguintes:
1. Repressão - retirada de ideias, afetos ou desejos perturbadores da consciência, pressionando-os para o inconsciente.
2. Formação reativa - fixação de uma ideia, afeto ou desejo na consciência , opostos ao impulso inconsciente temido.
3. Projeção - sentimentos próprios indesejáveis são atribuídos a outras pessoas.
4. Regressão - retorno às formas de gratificação de fases anteriores, devido aos conflitos que surgem em estágios posteriores do desenvolvimento.
5. Racionalização - substituição do verdadeiro, porém assustador, motivo do comportamento por uma explicação razoável e segura.
6. Negação - recusa consciente para perceber fatos perturbadores. Retira do indivíduo não só a percepção necessária para lidar com os desafios externos, mas também a capacidade de valer-se de estratégias de sobrevivência adequadas.
7. Deslocamento - redirecionamento de um impulso para um alvo substituto.
8. Anulação - através de uma ação, busca-se o cancelamento da experiência prévia e desagradável.
9. Introjeção - estreitamente relacionada com a identificação, visa resolver alguma dificuldade emocional do indivíduo, ao tomar para a própria personalidade certas características de outras pessoas.
10. Sublimação - parte da energia investida nos impulsos sexuais é direcionada à consecução de realizações socialmente aceitáveis (p.ex. artísticas ou científicas)."

E a moça ainda cantarolava:

"I have a dream (eu tenho um sonho)
a fantasy (uma fantasia)
to help me trought reality (que me ajuda a atravessar a realidade)
and my destination ( e o meu destino)
makes it worth the while (faz valer a pena)
pushing through the darkness (enquanto me empurra através da escuridão)
I believe in angels ( eu acredito em anjos)"

Notando que o Psicanalista havia parado de falar interrompeu a canção e sentenciou:

- Estou sofrendo demais nos últimos dias (e foram perdas terríveis e dramáticas que não importam agora) e a poesia, a música e até a leitura tem me ajudado muito. E essa musiquinha do ABBA tem feito milagres nos meus piores momentos. Ah... adorei tua aula sobre os mecanismos de defesa do ego. Beijo André!!!! Até segunda!!!
E foi embora levando o sol com ela...
Ainda hoje o Psicanalista, em momentos de angústia, se pega cantarolando:
"I belivie in angels....." 

Acessem o link abaixo e escutem a musiquinha... rs

Fraterno Abraço
André






       

sábado, 3 de maio de 2014

Obrigado Querida! Uma das origens da violência.

Não tenho certeza, mas acho que era um sábado chuvoso de temperatura amena apesar do calor infernal daqueles últimos dias.
Ele pagou suas compras e enquanto reconduzia o cartão de crédito ao lugar de origem na carteira de couro, dirige-se à moça do caixa no Super Mercado:
- Obrigado Querida!
Ele só então notou que amoça era muito branca e de olhos claros. Mas notou também que a moça branca estava ficando vermelha e seus olhos começaram a faiscar e faiscando lhe fuzilavam. E a moça vermelha e beligerante o trucidou:
- Quem tu tá pensando que és vagabundo??? Achas que eu estou aqui brincando? Tá me confundindo com as tuas negas (sic) ??? Vai chamar de querida a tua mãe que aliás deve estar trabalhando na zona!!!! Chinelão!!!!
Ele paralisou segurando uma sacola de Super Mercado...
O queixo caído e a boca aberta fez com que a cara do incauto parecesse um pastel de fim de feira...
Nem notou que todos os clientes do mercado estavam também de queixo caído e boca aberta empastelados com a reação da moça branca/vermelha e beligerante.
Tentou lembrar em algum ato falho que deva ter proferido. Nada... 
Tentou lembrar se deixou escapar um palavrão na hora de pagar a conta. Nada...
Olhou para os pés. Quem sabe pisou no pé da moça sem notar! Nada...
Olhou para o zíper das próprias calças. Quem sabe está desgraçadamente aberto. Não estava...
Resolveu se manifestar:
- Mas moça...
Ela interrompeu com munição de calibre maior:
- E não tem nada de mas moça. Vai chamar de querida a puta que te pariu! E vai andando que tem gente na fila. 
Ele não deu ouvidos às manifestações dos demais clientes e nem do gerente do Super Mercado. Saiu catatônico empurrando um carrinho cheio de sacolas e com cérebro frito.
E o gerente falava:
- O senhor nos desculpe... tomaremos providências... ela deve ter surtado... e blá...blá... blá... 
Ele não ouviu. 
Como um autômato arrumou as sacolas na mala do carro. E entrou no carro. E manobrou. E foi até em casa. Então paralisou dentro do carro já dentro da garagem. E começou a pensar falando sozinho e olhando no espelho do carro para si mesmo:
- Mas eu chamei ela de querida mecanicamente.... como faço com todo mundo... porque ela se ofendeu tanto? Eu devo ter feito ou dito alguma coisa muito ofensiva... não acredito que ela se ofendeu por causa do querida... Ou quem sabe a moça branca foi estuprada e o estuprador ao invés de violentá-la chamando-a de vagabunda, cadela, etc,  a maculava chamando-a de querida?!?! Ou quem sabe ela ouviu por acaso o próprio marido chamando a vizinha gostosa de querida numa cena sensual?! Pior... Quem sabe o marido morreu vendo ela mesma em cena sensual com o vizinho sarado que à chamava de querida?!?!? 
A paralisia começou a ceder e ele começou a reagir...
Enquanto carregava as compras do idílio ainda teve espírito e pensou:
- Felizmente não tenho o hábito de muitos que dizem: "Obrigado Fofinha!"

Fraterno abraço
André 



       

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Reflexões da Vida Cotidiana

De que são feitas as reflexões? Dos fatos? Dos atos? Dos conflitos? Dos tempos presente, passado e futuro?
Penso que se formos refletir sobre a vida, teremos uma boa análise de tudo. E para que a análise englobe todos os tempos penso que se ela for baseada nas reflexões da vida cotidiana, será global. 
Já foi dito e escrito que um bom caminho para entender o Homem enquanto espécie, é buscar entender os mitos criados pelo desenvolvimento humano. 
O Freud mesmo elencou magistralmente as "Psicopatologias da Vida Cotidiana" que para muitas escolas é o primeiro dos temas que deve ser estudado pelos aspirantes à Psicanalista.
É disso tudo que quero falar. E penso que é disso que venho falado desde 2008 quando iniciei a escrever pras mais diversas mídias, e que o advento da popularização da internet e das tecnologias aumentou o universo de pessoas que me acompanham.
Então desde já, apresento aos meus amigos leitores, as minhas Reflexões da Vida Cotidiana.
Será meu primeiro projeto destinado à todos os públicos.
Para tal feito, devo deixar explícitos meus agradecimentos à todos os que me leem, e individualizo estes nas figuras da saudosa Wally Martins fundadora da página Reflexões da Psicanálise, da Dra. Ana Kaminski incentivadora de sempre, e da Dra. Laura Nunes da Cunha, que além de incentivar e promover meu trabalho literário, é a administradora e responsável pelo projeto e também a procuradora de meus direitos autorais e de imagem. Sem ela eu não teria a energia positiva que Laura me passa e que provavelmente ela busca nas plantas mágicas de sua bela Campo Grande.
Falaremos pois dos mitos, dos conflitos e de tudo que envolva nossa vida cotidiana. Se fosse música, eu acho que tocaria até nos lugares da moda... risos.
Aguardem para o segundo semestre.
Fraterno Abraço
André
  

domingo, 20 de abril de 2014

Um Domingo Qualquer!

Era domingo. Domingo de páscoa. E ele era ateu. 
Acordou cedo e como de costume leu os jornais. 
E viu como foi fácil um pai e sua amada acabarem com a vida de um filho não amado. 
E viu que os passarinhos parece que ficam mais alegres nessa época de outono.
E viu que pelas manhãs, nem todos os gatos são pardos, pois aos seus pés, rondava um gatinho de rua... e preto. E  o gatinho era um filhote... E o gatinho estava naturalmente carente.... E o gatinho ainda não tinha aprendido a ser ladrão... e o gatinho só queria ser visto... e o gatinho só queria atenção tal qual o menino morto...
E veio um cristão... e expulsou o gatinho carente... e chamou o gatinho de ladrão... e o gatinho fugiu... 
E fugindo, o gatinho falou (que naquele domingo de páscoa os gatinhos podiam falar): 
- Da próxima vez vou optar por pedir carinho pro ateu... eu acho que ele me entenderia... 
E veio a moça...
E a moça disse:
- Preciso de ti... 
E sumiu!
E ele ascendeu a fogueira de suas fainas dominicais... 
E a gordura da carne pingava na brasa fazendo aquele ruído de festa...
E todos comeram... 
E todos estavam felizes... 
O ateu, o cristão,os passarinhos, os assassinos e a moça...
Não estava feliz o menino morto... nem o gatinho escorraçado...
E pensar que a páscoa originou-se da lembrança das épocas em que os oprimidos atravessaram o deserto fugindo do opressor...
E os chocolates derretiam na mesa da sala de estar...
Então... bom domingo ... e feliz páscoa!

Fraterno Abraço
André

    




quinta-feira, 10 de abril de 2014

O Regresso!

Ele acordou de um sono que naquele momento classificou de mais que profundo. O ambiente claríssimo e o cheiro de nada o levaram a  crer na sua não vida. Pensou:
- Devo rever meus conceitos! Logo eu que de tão racional por vezes até machucava os mais crentes. Logo eu que até tinha orgulho do meu ateísmo e de minha convicção cartesiana. Logo eu...
E estava tudo tão bem apesar da cardiopatia... Devia ter desconfiado daquela dorzinha no lado direto da cabeça que antecedeu o apagão...Sempre aceitei tranquilo que tudo morre. O próprio Lacan dizia que o homem só aguenta  sobreviver por que tem a absoluta certeza de que um dia vai morrer. Mas esse negócio de não dormir pra sempre é dose... e agora??? 
Em tese estou no inferno... mas até que não é tão terrível como diziam... e não tem aquele lance de fogo e ranger de dentes. Até está bem agradável a temperatura e o silêncio daqui é de uma paz intensa. E por falar em intensa, se não fosse essa claridade intensa tudo estaria muito bem até. Parece até o céu!!! Céu??? Será que erraram o meu destino de ateu e me mandaram pro céu??? Com esse branco todo, com essa luz toda só pode ser o céu! Provavelmente aquele papo de inferno era alegoria... todos os mortos vem pra cá. E daqui a pouco vai aparecer um velhinho simpático pra me falar das regras de minha nova morada. Velhinho simpático??? Caramba.... O Freud deve estar por aqui!!!! 
Preciso pensar em como chegar no Freud. Será que cabe tietar??? Acho melhor ser sério e buscar a admiração dele.Quem sabe se eu falar do adicionamento da linguística e da antropologia como o Lacan fez depois que ele se foi. Se foi não... veio pra cá né??? 
Mas... espera... Lacan??? Cacete!!!!! Lacan também deve estar por aqui e já deve ter falado tudo isso com o Freud... vou ser apenas tiete... e com sorte eles deixem eu escutar à distância seus diálogos... quem sabe deixem até eu entrar nas discussões! Espera... discutir com Lacan??? Tá doido!!! Nem morto! Nem depois de morto! Nem no céu....
Mas tem outras coisas também... todas as minhas heroínas estão aqui...Vou deixar o Freud e o Lacan pra um segundo momento. Quero é ver a Cleópatra com seus cabelos negros e corpo de deusa. Jesus também quero ver... mas o deixo no time dos mestres e primeiro quero ver a Maria Madalena que sempre me atraiu. E quero ver a Maysa cantar em dueto com a Amy... vai ser muito bom isso... Estou com vontade de rir... mas será que morto ri?
Não paro de pensar que daqui a pouco vou cruzar com a Gracie Kelly e quem sabe até tome uns mates com a Elis ... se ela estiver de bom humor é claro...

Ele fecha os olhos e sabe que está sorrindo e nem pensa mais nos que ficaram lá no mundo dos vivos. 
Sente que alguém lhe puxa o dedo do pé. Abre os olhos ainda afetado pela claridade e nem acredita no que vê. Ela estava lá... linda.. loura e com os olhos mais azuis que ele tinha visto. Estava com o manto azul da realeza. Ele quase chorou de emoção... a primeira que veio lhe saudar era a mais linda de todas. Pensou:

- Caramba!!!! Como devo me portar morto ante a linda Helena de Tróia?????
E acho que ele não pensou... acho que ele falou... por que ela respondeu sorrindo:
- Seu doido sedutor! Sou a Dra Marília da UTI. Já estás fora do coma há mais de 24 horas e aos poucos vais te recuperar. Vai com calma. Daqui a pouco o enfermeiro Páris vem aqui e vai providenciar um belo banho tá??? Te vejo mais tarde....

Fraterno Abraço
André