terça-feira, 18 de novembro de 2014

Caso Clínico: Só mais um sobrevivente!

Era uma tarde daquelas no prenúncio de verão. Calor de trinta e muitos graus...
Ele chegou com humildade... melhor dizendo... ele chegou com sinais de extrema humilhação... 
E ele já entrou se explicando:
- Antes de começar-mos gostaria de dizer que essa vai ser minha primeira e última consulta, e na verdade estou aqui na espera que tu faças um milagre em apenas essa sessão. Estou acabado e preciso somente de orientação.
O psicanalista imaginou que o estigma de milagreiro não iria lhe cair bem e pensou em interromper de imediato a conversa... mas... ficou atento... afinal não ia negar aqueles cinquenta minutos de estruturação. Perguntou:
- Que te trazes aqui?
- Minha vida acabou. Meu último grande problema foi ter perdido o emprego. Tenho mais de quarenta anos... sabes como é né?
Ao longo de minha vida fiz escolhas erradas e muitas vezes fui injusto com os outros e até comigo mesmo. Iludi, menti, traí e fiquei devendo favores e dinheiro. Nunca fiz maldades voluntariamente, mas hoje sei que algumas ou muitas vezes fiz o mal a quem não merecia. Exerci o poder quando me foi permitido e muitas vezes como um tirano e não como um líder. E usei do poder que tinha, e que mesmo sendo efêmero e limitado muitas vezes mexia com a vida das pessoas que me cercavam e que em mim confiavam. E nem sempre minhas ações foram benéficas. Me arrependo de todo o mal que causei e acho até que já paguei por tudo. 
O psicanalista interrompeu e perguntou:
- Estás aqui pela culpa que sentes de tudo isso?
- Não. Como te disse eu acho que por esses erros eu já paguei.  Estou aqui por que estou sem norte. Falta emprego e dinheiro. Sobram dívidas. Sobra decadência e me sinto indigno de encarar meus filhos. Sinto vontade de me matar. Aliás penso que morrer seria bom, já que morrer é inexorável.  
O psicanalista conseguiu ver que definitivamente não iria conseguir fazer fazer o milagre e depois de alguns minutos verbalizou:
- Não sou juiz e por isso não vou julgar tuas atitudes como certas ou erradas. Também não sou advogado e por isso não posso dizer o que deves fazer para saldares tuas dívidas. Não sou policial e não vou ver em ti crimes ou más atitudes. Penso que devemos juntos identificar os materiais que foram usados na tua construção e escolher aqueles que precisam ser substituídos e quais ainda podemos aproveitar. E penso que tua morte não te perdoará de nada. Penso sim, que tu és um sobrevivente. Um sobrevivente. Não um morrente! 
- E o que tu me recomenda então?
- Te recomendo um tratamento. Começaremos com três sessões semanais.
- Não tenho como te pagar. Sequer tenho dinheiro pra pagar a consulta de hoje. Entrei aqui no desespero. O calote que vou te dar hoje foi premeditado. 
- Te acolho. Me pagas quando puderes. Quero te ajudar. E se eu tiver sucesso, tu me ajudarás. 
Ali estava se iniciando um forte vínculo clínico. 
O psicanalista ainda pensa:
- Seremos dois sobreviventes??

Fraterno Abraço 
André Lacerda - Psicanalista

P.S.: Não esqueçam: Meu livro Reflexões do Psicanalista na Vida Cotidiana na versão ebook, está à disposição dos amigos. Pedidos no email andrelacerda15@gmail.com



  

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Caso Clínico: A Suposta Ninfomaníaca.

Ela chegou numa manhã de inverno e eu não vi, mas todos que estavam presentes disseram que sua chegada causou frisson e que o própio sol matutino ficou babando pela sua beleza.
Era linda. Loura. Olhos azuis e corpo de sílfide que baila ao caminhar. Uma menina... 20 anos...
O psicanalista não se admirou muito quando ela antes mesmo de se apresentar deitou no divã freudiano e acidentalmente(???) deixou à amostra um belíssimo par de pernas. Essas coisas acontecem com frequência na atividade clínica. São nesses momentos que o psicanalista deve realmente saber qual é o seu lugar no processo, e sobretudo saber que na clínica tudo deve ser entendido como demanda clínica.
Pensou:
- Valei-me meu São Lacan!! Prevejo tempestade na minha calma manhã de inverno. Valei-me!!
Estabeleceu (ou procurou estabelecer) o vículo inicial:
- Fico feliz em te receber. Sinta-se a vontade nas nossas sessões. Mas te peço que sentes aqui na poltrona. Vamos conversar um pouco. Terás tempo para o divã! Agora é tempo de eu te conhecer. Preciso saber de tuas dores, do que te falta, de tua vida enfim. Porque me procuraste?
Ela levantou-se do divã... olhou-se no espelho de uma das paredes... ajeitou a saia e o cabelo. Sentou solenemente na poltrona cruzando quase 15 metros de pernas e pigarreou:
- Sou ninfomaníaca. Sou bipolar. Sou hiperativa. Sou depressiva. Acho que sou border. Sou inteligente pra vida mas sou burra pra faculdade. Exijo fidelidade mas não consigo ser fiel. Enfim, quero que tu me internes naquela clínica lá da zona sul. Aquela com área verde, quadra de tênis, sauna, piscina, etc. Já olhei no site. Mas lá não deixam levar o celular né??? Mas isso tu podes autorizar né?
O psicanalista pensou, e ficou novamente com vontade de chamar São Lacan e que viesse com o reforço do São Freud... e que deixasse a Santa Melanie Klein na reserva pro segundo tempo...
- De tudo que falaste quero que me expliques porque te achas inteligente pra vida e burra para as coisas da faculdade. Podes fazer isso?
- Claro! Mas isso é meio óbvio né? Vivo bem e tenho amigos que me querem bem. Leio bons livros e os entendo. Acho que a cultura é nosso maior bem. Consigo conversar com todos e todos me acham interessante. Meu problema é com os teoremas, conceitos matemáticos, geometria analítica, algebra, cálculo e essas coisas que são tratadas na faculdade de arquitetura.
- Entendi. Fazes arquitetura. Que legal. Mas essas coisas todas não são curriculares do próprio curso?
- São. Mas eu nã gosto!
- Não gostas de arquitetura?
- Gosto! Mas só da obra pronta. Quero ser arquiteta porque acho bonito ser arquiteta. Desde menina minha mãe disse que eu levava jeito pra arquitetura. Tu não acha que tenho cara de arquiteta?
- Acho que tens cara de Sofia (obviamente que não é esse o nome da paciente). Mas me diga: Porque dizes que és bipolar, borderline, hiperativa e ninfomaníaca? E de onde vem essa ideia de internação?
- Bem...
Ela deu uma pausa... e pensou... e pensou... e pensou...
- Quando sinto vontade eu faço sexo. As vezes fico triste quando algo não está  de meu agrado. E as vezes fico a milímetros de explodir quando minhas vontades não são atendidas.
- Mas quem diagnosticou em ti essas psicopatologias?
- Tu não tá entendendo??? Se eu tenho vontade eu trepo mesmo! E nem tenho namorado! Isso é coisa de tarada... tá na cara que sou ninfomaníaca...
- E????
- Será que tu não tá vendo que preciso ser internada????
Naquela manhã de inverno os santos da Psicanálise não vieram ao socorro do psicanalista. Mas naquela hora que se seguiu, o psicanalista conseguiu entender perfeitamente todas as demandas da jovem mulher.
Foi um tratamento breve... em alguns meses Sofia trocou a arquitetura pela comunicação e hoje milita no campo da  publicidade, além do cinema e do teatro.
Dia desses o psicanalista encontrou-se com ela num restaurante da cidade. Conheceu seu marido e seus dois filhos. E viu que era uma família feliz.
Naquele dia voltou pra casa com a tranquilidade de ter exercido seu ofício do lugar que lhe era devido.  E lembrou-se da máxima entre os psicanalistas:
" Nós somos como aquele vidrinho de remédio que nosso paciente guarda no armário do banheiro. Quando a dor passa, aquele vidrinho ainda fica ali para o caso de uma recaída. Quando não existe mais dor, o lugar do vidrinho de remédio é no lixo."
Me sinto muito feliz por ter escolhido esse ofício... rs
 
Fraterno abraço
André 
 
P.S.: Recordo à todos que meu Livro Reflexões do Psicanalista na Vida Cotidiana está à disposição dos amigos e amigas. A edição que está disponível é em formato de EBOOK... pedidos pelo email andrelacerda15@gmail.com
 
 
   
 


sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Caso Clínico: A abordagem inicial!

- Vamos deixar uma coisa bem clara: Estou aqui por que a família está insistindo e tudo isso está me enchendo o saco. E já te aviso que não preciso de psicanalista e se esperas que eu vá falar de mim pode tirar teu cavalinho da chuva. Entendido?
Foi assim que aquela paciente se apresentou na sua consulta inicial marcada com insistência pela família.
O psicanalista logo pensou em dispensá-la e recusar o atendimento... mas (até hoje não sabe porque) entrou no jogo. Queria ver onde aquilo ia dar e respondeu:
- Sem problemas. Temos 50 minutos. Podemos falar o que quiseres. Podemos começar com Física Quântica?
- Tu estás maluco? Nem sei o que é isso!!!!
- Certo. Podemos falar da reengenharia proposta por Maslow para reerguer o Japão pós guerra? Afinal esse teórico complementou todos os ensinamentos, de Taylor, Fayol e Ford!
- Ai meu deus!!! Minha mãe escolheu um psicanalista bêbado e louco????
- Oi? Preferes falar sobre a experiência europeia dos micro buracos negros? Penso que antes de afetar, isso pode confirmar e até dignificar a teoria da relatividade de Einstein. Que achas?
- Tu só pode estar "tirando com minha cara" né?
- Não entendi. Podes me explicar o que é "tirando com minha cara"?
- Ahhh Tá! Tu já estás me irritando ....
- Certo. Vou deixar ao teu critério. Sobre o que falaremos? Eu sugeri alguns temas, mas pelo jeito não gostaste de nenhum deles?!
O silêncio habitou o consultório e quase congelou  o psicanalista e sua nova paciente naquela tarde tórrida de 40 graus em Porto Alegre.
Ele esperou. Ela pensou. E ela por fim manifestou:
- Sinceramente? Nada pessoal tá? Mas quero a tua Física Quântica se dane junto com a tal reengenharia do mané Japão. Aproveita e pega a tal relatividade do Einsten e enfia no teu buraco negro tá? CACETE.... TU NÃO VÊS QUE ESTOU SOFRENDO E SE CONTINUAR ASSIM EU VOU PIRAR??????
O psicanalista a encarou com um olhar paternal e pensou que talvez fosse mais difícil despertar os primeiros demônios de sua nova paciente. E lhe sorriu enquanto observa uma lágrima que começava a cair... e disse:
- Não te preocupes. Estaremos juntos e vamos juntos desconstruir esse sofrimento. Estarei contigo e estaremos de mãos dadas enquanto atravessarmos o teu inferno.
A Psicanálise ajudou aquela jovem paciente na construção de sua vida. E até hoje ela frequenta o psicanalista com disciplina espartana.
 
Fraterno Abraço
André Lacerda - Psicanalista
P.S.: Lembro aos amigos que meu livro Reflexões do Psicanalista na Vida Cotidiana,  na edição eletrônica  está à disposição de todos. Pedidos pelo email andrelacerda15@gmail.com
 
 
    

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Medos ou Exagero!

- Controle-se André! Esse teu medo de ter um AVC está se tornando um exagero! As coisas estão controladas!
Era meu médico me falando....
- Acho que o senhor está exagerando, pois isso de efeito estufa é conversa desses radicais ecologistas! Essa coisa de mudanças climáticas, secas e enchentes sempre houveram! Relaxa!
Era uma dona de casa me respondendo quando eu falava da importância em reciclar o lixo e não despejar o óleo usado no ralo da pia da cozinha...
- Meu avô morreu com 100 anos e nunca deixou de comer carne gorda e beber  de tudo. Sem contar que seu último pedido foi um cigarro no leito de morte!
Era um amigo me contestando enquanto eu defendia uma dieta alimentar mais saudável e o evidenciava os malefícios do tabagismo...
- Não tem necessidade de trocar todas as fechaduras da casa! Quem iria se dar ao trabalho de fazer cópia e esperar o momento certo para cometer o assalto!
Era eu mesmo em 2009 dizendo pra mim mesmo pouco antes de fazer uma viagem de férias...
Depois de pensar sobre isso me preocupei. Estaria eu ficando paranoico? Estaria eu perdendo meu otimismo que sempre foi uma de minhas marcas registradas? Fui pra minha análise. E levei isso como demanda.
- De onde vem esse teu medo André?
Era minha psicanalista me fazendo estruturar...
- Recentemente descobri e estou tratando de severas cardiopatias. Somente depois disso abandonei o tabagismo, e apesar de manter uma dieta apropriada ainda vivo momentos de profundo stresse como todo mundo, e por todos esses motivos estou incluido no grupo de risco do AVC. E é claro, o AVC é a doença que mais mata no Brasil. E tenho realmente muito medo disso tudo!
Era eu no divã quase chorando...
- Calma André! Não vai ter um AVC aqui no meu divã!!!
Era a minha psicanalista tentando apaziguar minha angústia...
- Mas não para ai! Temos verão bem no meio do inverno, inverno na primavera, primavera em pleno outono e isso quanto não temos tudo isso num mesmo dia... O Sul sofre com enchentes e o sudeste amarga com a falta dágua... é lógico que o planeta está sendo muito agredido pela civilização. Isso só pode dar problema. E a violência??? É só olhar os jornais!!! E u mesmo já tive minha casa invadida e roubaram tudo o que tinha dentro. E o que não roubaram queimaram! Isso aconteceu quando eu fiz uma viagem de férias. Voltei e só tinha bagunça e sofrimento pelas sérias perdas.
A psicanalista calou-se e pensou um pouco... e logo retomou:
- Não estás paranoico André. Fica tranquilo. Mas por hoje temos que encerrar.
- Mas porque??? Ainda tenho coisas pra estruturar!
- Vamos deixar pra próxima sessão. Agora preciso ir no meu médico. Vou pedir check up geral e a indicação de uma dieta mais apropriada. E se der tempo, ainda vou procurar um chaveiro porque preciso trocar todas as fechaduras da minha casa...

Fraterno Abraço!
André Lacerda - Psicanalista

P.S.: Hoje é o dia Mundial do AVC. Procurem saber das causas, dos sintomas e principalmente da prevenção.
E não esqueçam: Meu livro Reflexões Do Psicanalista na Vida Cotidiana está à disposição de todos na edição eletrônica ao custo de 12 Reais. Pedidos no Email andrelacerda15@gmail.com
  
 
 

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Totem e Tabu - Sempre Importante!

Comecei a ler a obra de Freud ainda muito cedo. O primeiro livro "As Psicopatologias da Vida Cotidiana" de certa forma definiu meu caminho que era a Psicanálise.
Desde então nunca paro de ler Freud. Sempre estou lendo Freud. Não tem dia que não leio Freud. E acho que demora muito ainda pra descobrir tudo. E acho que não terei tempo hábil. Mas vou tentando... risos.
Estou agora encerrando pela enésima vez a leitura de Totem e Tabu. Repasso aos amigos leitores algumas anotações, e a lembrança, que à todos aqueles que de uma ou outra maneira se acham envolvidos com as ditas "humanidades", é uma leitura muito importante. Espero que gostem.
Até Totem e Tabu (1912/1913), Sigmund Freud sempre se limitara a obras dedicadas estritamente à Psicanálise, campo de estudos recém aberto. Porém, a indagação quanto às origens e ao modo de transmissão de uma culturas (no caso, na sociedade moderna) conduziu sua atenção para a antropologia e para a etnopsicologia; Freud via, nos homens primitivos, mecanismos semelhantes aos operantes no homem moderno.
Detectou dois fenômenos recorrentes nas tribos primitivas: a representação do pai primordial na forma de totem e o tabu do incesto. Por meio de uma "dedução histórica", Freud propõe a hipótese do "pai tirano", cujo assassinato pelos filhos estaria na base do sentimento de culpa, da exogamia e da religião.
Considerada pelo próprio Freud uma de suas obras mais importantes, Totem e Tabu sinaliza a aproximação da psicanálise às ciências humanas.
O ponto de partida de Freud para Totem e Tabu foi a origem das proibições (os tabus). Os tabus são definidos como obediência transmitida diante de certas proibições mantidas pela tribo, clã, grupo ou sociedade. Porém Freud montava seu problema a partir da investigação sobre a suposição de sua origem: o totem.
Para Freud, a fonte visível, dotada de força e autoridade sagrada e sobrenatural inquestionável, à qual todos os membros do mesmo clã deviam temor, obediência e respeito é o totem. O totem constitui a forma figurada, em geral representada por um animal, que condensa essas fantasias no seio de cada um dos clãs. Nesse mesmo sistema operam os tabus, prescrições e proibições dotadas de imensa força que determinam comportamentos sociais entre os que pertencem ao mesmo clã , acima deles, pelo totem que os rege. Os tabus são proibições sem genealogia, isto é, eles determinam a obediência a seus preceitos sem que seja necessário, de modo algum, uma explicação sobre sua origem e força (sobrenatural).
Freud viu nesses dois fenômenos, presentes, atuantes e interdependentes na cultura dos povos primitivos, dois elementos discutidos e trabalhados em profundidade na teoria e na clínica psicanalítica: a representação psíquica ambivalente do pai (totem) e o tabu do incesto como obediência e dívida inustrapassáveis a esse mesmo pai primevo.
O sujeito da psicanálise, o sujeito do inconsciente está nas antípodas do indivíduo atomizado e autossuficiente e, segundo a psicanálise, o psiquismo jamais pode ser compreendido como estrutura interiorizada e autorregulada, independente dos laços e ligações que mantém com o mundo e com os objetos. Foi o que Géza Róheim, antropólogo e psicanalista discípulo de Freud, e um dos responsáveis por manter via uma antropologia psicanalítica a partir dos preceitos de Freud, sugeriu ao dizer, em 1936: " o que nós chamamos de "neurose", no sentido clínico, também pode ser chamada de "civilização individual", assim como a civilização é uma " neurose grupal"".
Leitura obrigatória para todos aqueles trabalham na área. Leitura fácil para os leigos. Recomendo sempre Totem e Tabu.
 
Fraterno abraço!
André Lacerda - Psicanalista
   
   

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O Caso Psicoteste!

Antes de qualquer coisa, quero pedir auxílio aos amigos Psicólogos e depois de lerem o texto de hoje, por favor, lancem luz sobre a ignorância do Psicanalista aqui certo??
Então segue o baile:
 
Aina hoje passei por ela na principal rua do Centro Histórico de Porto Alegre e lembrei dos fatos que passo a narrar. Informo que esse caso realmente é verídico e tenho guardado todos os documentos porque ainda hoje não acredito quando lembro... então revejo os documentos e confirmo e sempre fico abasbacado.
Era o ano de 2006 ou 2007... não lembro bem...mas sei que a Clínica que sou sócio e Psicanalista, foi credenciada pelo Departamento de Polícia Federal para que realizasse os testes psicotécnicos que habilitam o cidadão interessado para aquisição e porte de arma de fogo. Era questão da lei etc...
Eu e meu sócio vimos que era uma oportunidade boa. Contudo tínhamos um problema. Eu não era Psicólogo. E meu sócio, apesar de ter origem na Psicologia há muito era Psicanalista e nem lembrava mais de como fazer os tais testes. Então buscamos a parceria de um Psicólogo especializado no assunto e tocamos o projeto. Eram dezenas de laudos realizados por dia e deixamos inclusive, um espaço físico esclusivo para tal atividade.
E tudo estava indo bem. Eu na verdade não me envolvia muito nisso. Até que um dia....
Cheguei na Clínica na primeira hora da tarde, e ela estava sentada na recepção. Vestia uma espécie de túnica romana branca e era loura...bonita até. Dei boa tarde à todos e entrei para meu consultório para preparar minha agenda de atendimentos para aquela tarde de calor senegalês em Porto Alegre.
Passadas uma duas horas, alguém bate na minha porta. Era  o Psicólogo que aplicava os tais testes psicotécnicos. E estava abismado com o resultado de um teste que tinha acabado de aplicar e me fala:
- André!!! Tenho anos de prática nisso e te garanto que raramente vi resultados tão bons quanto esses aqui.
E me mostrou 90% de aproveitamento nos risquinhos, 95 % nos números coloridos, 90% nas bolinhas, e etc... e confesso que aquilo tudo para o Psicanalista aqui, que  vive entre labirintos subjetivos, aquilo era aramaico. Ou seja... não entendia nada. Mas vi que era muito bom, pois o Psicólogo assinou o laudo que dizia: APTA PARA ADQUIRIR E PORTAR ARMA DE FOGO EM TODO TERRITÓRIO NACIONAL.
E nesse ponto, ouvimos um certo tumulto e gritos que vinham da recepção da Clínica. Nos adiantamos e fomos verificar.
A tal loura que havia acabado de dar um show no psicotécnico estava aos brados dizendo:
- Como ousam me cobrar para fazer testes psicotécnicos??? Com quem vocês pensam que estão falando? Vocês é que deveriam me pagar pelo simples fato de eu estar aqui!!!
O Psicólogo ainda argumentou:
- Sra Y... esse valor é cobrado de todos os candidatos e refere-se aos nossos honorários e mais as taxas governamentais.
- Tu falaste tudo. Cobrem dos candidatos. Eu não sou canditada!  
- Mas o que a senhora é então?
- Sou Procuradora da ONU. E estou diretamente ligada ao Presidente dos Estados Unidos e com o Presidente do Brasil!
- Mas porque a senhora precisa de licença para portar arma de fogo?
- Porque hoje fui aclamada Comandante em Chefe dos exércitos de Nosso Senhor Jesus Cristo e vamos declarar guerra à todo o resto do mundo profano!
Bem... não houve jeito. Tivemos que acionar o resgate que a levou para o Hospital Psiquiátrico numa camisa de força pois ela estava em fator de risco para ela e para todos os que estavam presentes.
É lógico que ela estava em crise permanente de delírio, com sintomas de psicose ou esquizofrenia.
Ainda hoje cruzei com ela na Rua da Praia. Ela estava vestindo uma túnica romana branca. E hoje ostentava um cora dourada sob os cabelos louros desgrenhados. E tem um crachá no pescoço onde se lê em letra redondinha a inscrição: Procuradora da ONU. Comandante do Exército de Deus!
Sempre que posso mostro os testes pra amigos que entendem disso, e todos são peremptórios. São resultados que habilitam para qualquer atividade que requeira testagem psicotécnica.
Como pode isso??? Como alguém em surto psicótico pode ser aprovado num psicoteste?  
Abro questão para quem possa me esclarecer:
Estou errado quando penso que esses testes não são fidedignos e por isso são facilmente derrubados quando os prejudicados os submetem à uma decisão judicial?
Estou errado quando penso que perfil psicológico não pode se fundamentar numa técnica simples de lógica de premissa maior e premissa menor, pois a psiqué é subjetiva e precisa ser analisada com muita dedicação, tempo e estudo?
Devo estar muito errado né? Perdoem... mas não sou Psicólogo e realmente isso não é ironia minha. Preciso de esclarecimentos.
Fraterno Abraço
 
André Lacerda - Psicanalista
 
  
 
  

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Tanta Amar???

E penso que o olhar da verdade é o olhar do amor. Ou não... afinal sou apenas um aspirante à menestrel que tenta contar as coisas dessa vida tão cigana...
Mas penso que se por acaso o olhar do amor não é o mais verdadeiro, certamente é o mais generoso. E dentro dessas circunstâncias evoco: Valei-me meu são Chico Buarque!!!
 
" Amo tanto e de tanto amar
Acho que ela é bonita
Tem um olho a pestanejar
e outro me fita..."
 
E digo que o olhar de quem ama se despe de conceitos e de opiniões, afinal dizem que o amor é cego. O que não concordo! E me explico:
O amor, não nos torna cegos. Quem vê no seu objeto de desejo a imagem do seu prórpio desejo. E ele sempre é o melhor de todos os desejos... e seu objeto é sempre o mais lindo de todos os objetos.
 
"Ela pode rodopiar
E mudar de figura
a paloma de seu mirar
vira miúra..."
 
E mesmo o amor harmônico tem seus dias de paz e conflito. E mesmo no conflito ele ainda se faz indispensável e imperdível.
Há quem o confunda com a paixão. E há quem diga que com paixão ele é profano. E eu penso que com paixão é muito bom... e não dá câncer... e não da ruga... e também não faz crescer pêlos na palma da mão. 
 
"Amo tanto e de tanto amar
Em Manágua temos um "chico"
Já pensamos em nos casar
Em Puerto Rico!!"
 
E mesmo tendo a parceria do Chico Buarque no texto, não foi minha intenção falar da alma femina e amada. Minha intenção foi falar de como quem ama vê o seu amor.
Recomendo o clip do Chico ... é só seguir o link.
 
Fraterno abraço!
André Lacerda - Psicanalista