quinta-feira, 23 de julho de 2015

O Corpo!

Começo minha crônica de hoje me explicando:
As meus leitores fiéis do blog  "O Criador e a Criatura" e da mídias sociais, peço desculpas pelas lacunas de tempo que tenho deixado entre uma e outra publicação. Estou inserido num novo projeto, que além de novo requer muito de meu tempo. Estou inserindo a minha atividade clínica psicanalítica, como coadjuvante no tratamento oncológico quimioterápico com pacientes que estão em tal situação. E creiam: Isso vai render belas e emocionantes crônicas num futuro bem próximo.
E foi observando e convivendo com essa situação que me deparei com uma reflexão inerente ao antagonismo que presencio na vida cotidiana. De um lado pessoas que entregam seus corpos numa luta hercúlea pela vida. De outro lado pessoas que entregam (muitas vezes) suas vidas pelo CORPO. Dentre os exemplos mais recentes e famosos posso citar no segundo caso, o genial Michael Jackson e a celebridade (e me refiro assim por desconhecer a profissão da moça, e me recuso a citar um ser humano apenas por miss bumbum) Andressa Urach.
Valei-me sensacional e competente Dra Maria Helena Fernandes, importante psicanalista do cenário nacional, em sua publicação O Corpo ( Coleção Clínica Psicanalítica, 2003, Ed Casa do Psicólogo), que eu recomendo com toda a ênfase.
Obrigado Dra Maria Helena pela publicação. Tomo-lhe emprestado as palavras e compartilho com meus leitores.
 
O corpo está em alta! Alta cotação, alta produção, alto investimento...alta frustação. Alvo do ideal de completude e perfeição, veiculado na pós-modernidade, o corpo parece servir de forma privilegiada, por intermédio da valorização da magreza, da boa forma e da saúde perfeita, como estandarte de uma época marcada pela linearidade anestesiada dos ideais.
Atualmente o intenso interesse da imprensa pelas questões que envolvem o corpo pode ser facilmente verificado pela quantidade de reportagens que invadem nosso cotidiano tratando da saúde ou da doença. E isso sem falar na abordagem estética, que se tornou um dos assuntos preferidos também das publicações sérias. O corpo toma a frente da cena social. Sua forma ou seu funcionamento é assunto frequente nas conversas entre amigos, nas piadas contadas na mesa de bar, nas novelas, no cinema, etc.
O corpo saiu do espaço privado do interior das casas e do espaço restrito das instituições de saúde e ganhou o espaço público: as academias, as clínicas de estética... a rua. Corpo nu, corpo vestido, corpo de mulher, corpo de homem, o corpo serve para vender qualquer coisa, até mesmo o próprio corpo, basta observar ainda a proliferação de outdoors com propagandas de tratamentos cirúrgicos e estéticos.   
Não se pode deixar de observar que os progressos tecnológicos da medicina e da genética vêm reformulando de maneira acelerada a relação do sujeito com o próprio corpo, tanto no que diz respeito às questões do adoecer quanto às questões ligadas ao envelhecimento. Habituados a transpor os limites do corpo, os cientistas nos informam entusiasmados que tais progressos nos permitirão viver mais e melhor. Livres de doenças que durante bom tempo perturbaram o sono da humanidade, somos convidados a nos deixar embalar pela perspectiva de vencermos também a luta contra o tempo.
As ressonâncias desses progressos certamente se fazem ouvir na clínica psicanalítica da atualidade. Estandarte de um ideal de perfeição que se busca insistentemente alcançar, o corpo é hoje hiperinvestido, porém frequentemente apontado como fonte de frustação e sofrimento, constituindo-se como meio de expressão do mal-estar contemporâneo.
Em entrevista concedida à revista Percurso, Jurandir Freire Costa chama a atenção para uma mudança de perfil clínico dos analisando, salientando o aumento de casos de depressão, toxicomanias e do que ele denominou "distúrbios da imagem do corpo".
Embora nos imagens da dor tenham surgido - reflexos da mudança dos tempos-, elas continuam, no entanto, a guardar a mesma característica das imagens dos corpos retorcidos das histéricas de outrora, ou seja, a imagem do velamento do sofrimento, do tumulto do conflito, da dor.
Assiste-se, assim, à emergência dos ditos "novos sintomas": os abundantes  e variados transtornos alimentares, a compulsão para trabalhar, para fazer exercícios físicos, as incessantes intervenções cirúrgicas de modelagem do corpo, a sexualidade compulsiva, o horror ao envelhecimento, a exigência da ação, o terror da passividade, a busca psicopatológica da saúde ou, ao contrário, um esquecimento patológico do corpo, e ainda a variedade dos quadros de somatização. Sintomas que denotam, a meu ver, de forma positiva ou negativa, a submissão completa do corpo
Essas imagens da dor, surgidas e evocadas pela clínica psicanalítica, funcionando como espelho da cultura, refletem, de forma diversificada, a imagem do mal-estar na atualidade.
No texto "Psicologia das massas e análise do ego" (1921), Freud afirma que não existe constituição solipsista do psiquismo. Se  a psicologia individual é simultaneamente psicologia social, pelo simples fato de que a subjetividade se constitui a partir da alteridade, da existência fundamental do outro como eixo constitutivo do psiquismo, então, pode-se avançar a ideia, de acordo com Freud, de que as formações psicopatológicas falam da cultura, ou melhor, retiram dela o material de base que lhes dará forma, que lhes dará imagem!
 
Essa crônica não manifesta minha opinião favorável ou desfavorável sobre qualquer coisa. À mim, cabe ser um menestrel narrador para uns e arauto a desgraça para outros. Por amar meu ofício, consigo me manter no lugar onde cada um me vê e coloca. 
 
Fraterno abraço!
André Lacerda - Psicanalista  
 
      
 
 


sexta-feira, 10 de julho de 2015

O Beijo da Mulher Aranha!

Alguém já disse que a força mais avassaladora do mundo são as paixões. Os mais românticos dizem que é o amor.... mas ainda acho que realmente são as paixões.
As paixões é que movem o mundo. Elas provocam guerras, assaltos à geladeiras pelas madrugadas, o surgimento de filhos, e quem sabe até altas resoluções no campo da política e da diplomacia.
Já o amor é aquela força sublime que.... bem... isso é assunto pra outra crônica....rs
Mas nesta crônica quero falar de uma avassaladora paixão platônica.
O psicanalista devia ter uns 9 ou 10 anos de idade e isso foi bem antes de quase todas as descobertas...
A primeira paixão platônica surgiu quando ele viu pela primeira vez a primeira professora. Sônia o nome dela. Porque meninos se apaixonam pela primeira professora. E porque ela era a mulher mais linda que ele já havia visto. Porque todas as primeiras professoras são. E aquela paixão durou um ano. Um ano letivo.
A segunda paixão platônica veio na terceira série. A professora. A mais linda de todas as mulheres. Ele entrava na fila do beijo no final da aula, três vezes.  As vezes quatro vezes. Mas o ano letivo acabou e vieram as férias.
Ele passava as férias com os avós, e tudo era muito bom. Até que tudo ficou ótimo. Explico:
O vô o levou para ver um daqueles espetáculos das bucólicas praças de antigamente.
No meio da praça, um ônibus todo colorido... e o anúncio luminoso:
"Conheça a incrível MULHER ARANHA".
Ele entrou agarrado na mão do avô.
E quando viu o que viu, a flecha de Eros atravessou-lhe o coraçãozinho infantil.
Era a criatura mais linda de toda a face da terra.
Olhos amendoados, o cabelo negro como a mais escura das noites, e um pingente brilhante sobre a testa que estava envolta numa fita vermelha. Os lábios vermelhos e a pele branca. Era uma mistura de Branca de Neve e Cleópatra. Porque para ele Cleópatra sempre foi e sempre será a Elizabeth Taylor, como hoje diz o seu amigo David Coimbra.
Mas...era só um rosto. Ela tinha o corpo de aranha. Sim.... ela era a mulher mais linda de todos os tempos com um corpo de aranha.
Ele de cara percebeu que aquilo era um truque de espelho dos mais vulgares. E podia ver que aquele corpo de aranha era do mesmo tecido de uma jaqueta de veludo que ele tinha e que achava feia demais e se recusa a vestir.
Mas qual o que... nem se abalou... se apaixonou pela mulher aranha.
Ela falava e interagia com os espectadores. Olhou fixo nos olhos dele e perguntou:
- Olá! Qual o seu nome?
Ele paralisou. Porque ela falava e a voz dela era tão linda quanto seu lindo rosto. Respondeu:
- An.... An.... An....dré.....
- Eu sou Tamara. Sou a princesa de um país distante e uma bruxa do mal me enfeitiçou e estou condenada a viver nesse corpo de aranha por muitos e muitos anos....
Certamente que ele não acreditou naquela história, mas ficou atento e sem piscar ouvindo daquela boca, os detalhes de seu  castigo produzido num tal país distante, por uma tal bruxa malvada.
Pensou naquela boca. Pensou em beijar aquela boca, como o menino fez com a linda Jennifer Oneal no filme Houve uma vez um verão. E pensou .... e pensou... e pensou naquilo. Porque meninos pensam naquilo também sabiam? Disso o Freud já sabia.
Passados os 15 minutos que o ingresso de 2 cruzeiros (era essa a moeda nacional à época dos fatos) permitia, ele teve que sair da cápsula que sua amada habitava que na verdade era um ônibus velho todo colorido.
Foi pra casa pela mão do avô, mas seu coração e sua mente ficaram com a linda mulher aranha.
Nos 15 ou 20 dias posteriores, pontualmente às duas horas da tarde estava lá na bucólica praça, esperando que o tal ônibus abrisse as portas.
Vendeu as garrafas do avô, chorou, pediu, implorou e sempre de alguma forma arranjava os dois cruzeiros que o maldito dono do ônibus cobrava.
Ele odiava aquele barbudo que era o dono do ônibus. Porque ele sabia que o barbudo também era o dona da mulher aranha ... sua amada Tamara, princesa enfeitiçada num país bem longe.
Até que um dia, ele foi e o barbudo disse que estavam partindo. Tinha que mostrar a Tamara para outros meninos de outras cidades.
Enquanto o barbudo ligava o motor, o rosto do menino encharcou-se e a tristeza tomou conta. Porque meninos que pensam coisas sofrem com a perda. Disso o Freud também já sabia.
E ele correu atrás daquele maldito ônibus colorido até não aguentar mais e quando não aguentou mais correr, ficou acenando e mandando beijos de adeus para sua Tamara que deveria estar dentro daquele maldito ônibus dando seus beijos de mulher aranha no maldito barbudo que estava lhe levando para outras cidades, e para outros meninos...
 
Fraterno Abraço
André Lacerda - Psicanalista
 
        
 


quarta-feira, 8 de julho de 2015

A Mais Antiga Profissão do Mundo!

A pessoa acorda todos os dias já pensando em servir e dar conforto à quem quer que seja não importando gênero, raça, credo, idade, nada enfim. Só se importava em atender o máximo de pessoas durante o dia. O dia não, que a pessoa trabalha durante as 24 horas do dia. Basta tocar o telefone de contato e em poucos minutos a pessoa já está a caminho. E atende em qualquer lugar. E quando pensa nisso sorri pra si mesmo pensando na música do Chico Buarque (Geni e o Zepelin), pois atende "tudo que é negro torto, no mangue, no cais do porto, atrás do tanque, no mato!"
E depois de alguns anos ralando mouramente, conseguiu ter o seu carro, e naquele começo de manhã já correndo para seu primeiro atendimento, ouve a música do Chico e começa a rir por entre os sinais e curvas. 
E ria tentando se consolar, pois vivia num país onde eram poucos os privilegiados e tal qual a Geni da música se sentia "rainha dos detentos, das loucas, dos lazarentos e dos moleques de internato".
E tal qual a Geni hoje também "vai à miúde, com os velhinhos sem saúde, e as viúvas sempre à ouvir: Ela é um poço de bondade , é por isso que a cidade vive sempre a repetir: Joga pedra na Geni, Joga bosta na Geni, ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir...".
Pensa que dadas as condições de seu ofício, muita gente se queixa e com razão de seus préstimos. Afinal, tem que fazer tudo correndo, e correndo passa seu dia de um canto a outro, atendendo todo mundo, e as vezes tem que ser rapidinho... Se bem que sempre dá alguma atenção extra aos mais necessitados. 
E até bem pouco tempo, fazia de tudo. Barba, cabelo e bigode. O começo sempre tem que ser assim. 
Com o tempo especializou-se, mas ainda hoje, em casos de extrema necessidade topa tudo. Tudo pelo "cliente".
E no final de cada turno, tal qual a Geni do Chico, a pessoa "vira de lado e tenta até dormir", pois logo quando raiar o dia, certamente o telefone vai tocar ... e a pessoa vai ter de ir. 
Caro leitor... olha de novo o título da crônica... estás pensando em que??
Errou!!!!!! risos... 
O psicanalista aqui surfou na licença literária, pois na verdade, eis o que pensou e refletiu:

Pense no primeiro primata no alto de seu galho, tendo a sua primeira coceira no meio das costas onde o braço não alcança para  coçar. Pensou?
Então...
Pense num outro primeiro primata que se dispôs a coçar as costas de seu igual para lhe aliviar o desconforto .... Pensou?
Então:
Penso que aquele foi o primeiro ato médico da história do desenvolvimento humano. 
Portanto, o exercício da medicina é a mais antiga profissão do mundo.
Dedico essa crônica aos médicos, enfermeiros, técnicos e à todos os profissionais da saúde, incluindo aqueles que exercem a segunda mais antiga profissão do mundo: Os psicanalistas como eu. Mas isso é assunto pra próxima crônica.
Fraterno abraço!
André Lacerda - Psicanalista 
       
    

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Caso Clínico: Um homem de fé!

Era uma segunda-feira feia. Enferruscada como se diz na minha terra. 
O psicanalista se surpreende quando vê na agenda a previsão de consulta daquele paciente que há muito tinha tido alta pela conclusão positiva do tratamento. Mas pensou que não eram incomuns as chamadas recaídas e novos conflitos emocionais. Porque "Esses demônios que enchem o ar, ninguém sabe onde encontrar"... Pelo menos foi isso que escreveu Goethe em seu Fausto e esse poema inspirou o Freud.
E eis que chega a hora do reencontro. 
Depois do fraterno abraço e as saudações de estilo, mesmo antes do psicanalista perguntar, o velho novo paciente elabora:

- Tu vais achar engraçado o que vais escutar hoje. E já adianto que estou muito bem. Na verdade nunca estive melhor. Mas estou preocupado porque acho que o mundo que me cerca está doente. E como o mundo que me cerca não vai deitar no teu divã, vim aqui para escutares de  mim os problemas do mundo.

O psicanalista pensou, porque psicanalistas pensam como qualquer pessoa, que o velho novo paciente não estava tão bem assim, e que provavelmente estava recalcando alguma coisa e que certamente daqui a pouco estaria a "ver emergir o monstro da lagoa".  Mandou ver:

- Vamos lá meu amigo. Quero escutar as dores do mundo que te cerca. 

O paciente, sem notar no ar preocupado do psicanalista, sobriamente disseca o sapo:

- Depois de seis anos me tratando aqui mesmo contigo, aprendi e ensinei a mim mesmo um monte de coisas boas e ruins. E te agradeço muito pelo que fizeste por mim nas minhas crises todas... mas te digo: A minha fé é que me faz ser uma pessoa melhor e me dá tudo de bom na vida. E o mundo que me cerca pensa que sou um sonhador, um visionário, e eu acho até que pensam que sou meio louco.

O psicanalista (já pensando nas antigas neuroses demoníacas faladas pelo Freud) silenciosamente sentenciou pra si mesmo ... "aiaiai... outro "milagre" das novas igrejas.... Mas perguntou:

- Fale-me dessa tua fé? Me diga de tua relação com deus e o que te impulsiona na fé. Tens frequentado alguma religião?

O paciente sentou-se frente a frente, e olhando nos olhos do psicanalista, não silenciosamente, também sentenciou:

- Meu amigo! Te conheço e conheço o que pensas. Já li teus livros e crônicas. Sei do teu ateísmo, do teu racionalismo, do teu pragmatismo e do teu compromisso com a ciência. Sei que és cartesiano e até confio muito nisso tudo. E não! Não estou frequentando igrejas nem religiões. Nem estou delirando com um deus salvador e aquelas coisas que os religiosos falam. Eu te falei apenas que minha fé me faz uma pessoa melhor e através dela consigo tudo de bom na minha vida. E que o mundo que me cerca não entende isso, e pelo jeito tu também não estás entendendo. Mas eu te explico:
O tratamento contigo, ou seja a Psicanálise, me fizeram ver a mim mesmo e a me conhecer. Entendi e elaborei minhas faltas e desatei os nós de meus conflitos. E domei os demônios que habitam em mim. E fiquei com minha alma tranquila e meu coração sereno. E comecei a ter fé. 
Fé em minhas potencialidades e sobretudo, fé nas minhas boas intenções em relação ao mundo que me cerca ou seja, amigos, trabalho, estudo, amores, dinheiros, e tudo enfim. 
Como te disse, conheço teus escritos. Gosto quando evocas símbolos como liberdade, igualdade, humanidade, fraternidade. Que nome tu dás ao fato de evocar conceitos tão positivos? Acaso acreditas que se não tivesses fé nestes conceitos eles reverberariam de maneira positiva? Onde achas que aprendi a ter fé? Naõ terá sido contigo mesmo?

O psicanalista silenciou por alguns minutos observando o sorriso franco do velho novo paciente. Só depois manifestou-se:

- Nosso tempo por hoje terminou. E acho que não precisas voltar e por isso, concluo:
Te agradeço por voltar aqui. Acho que tu estás bem e feliz. Quanto ao mundo que te cerca, creio que sim, precisa de divã por não estar conectado às almas tranquilas e aos corações serenos. Quando à mim, penso que precisava de tua fé para que eu visse os limites da minha própria pouca fé. 

O psicanalista despediu-se do paciente com um abraço fraterno e antes mesmo de chamar o paciente seguinte, marcou uma sessão extra com sua própria psicanalista. 

Fraterno abraço
André Lacerda
Psicanalista
         
    

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Um País no Divã!

Depois de uma parada por absoluta  falta de vontade de escrever, retomo minhas publicações tentando entender nosso momento cotidiano. 
Já fiz o exercício de analisar as nunces de algumas cidades, entre elas a minha amada Porto Alegre. Claro que num texto lúdico e restrito à licença literária.
Partindo desse contexto, poderíamos dizer que o País encontra-se acometido pelo que o Freud descreveu como sendo uma neurose de guerra (vide o homem dos ratos). 
No caso freudiano que citei, o homem, preso de guerra, temia a tortura que consistia em confinar o prisioneiro de modo que os ratos da cela penetrassem pelo seu ânus. Sugiro aos interessados que aprofundem a leitura na fonte. Ou seja , em Freud. 
Mas segue o baile... 
Vejamos... que:
Vivemos numa época insegura. Aqui mesmo no meu Estado, pelo que vejo nos jornais, a insegurança pública  está sob o comando de duas ou três facções criminosas que dominam o sub mundo. 
É gente morrendo que não é brincadeira não... 
E tem gente achando que pena de morte é solução, ditadura é solução, golpe é solução, que cadeia é solução, que tribunais de guerra e processos sumários são soluções. 
Ou seja... se seu cãozinho pega sarna,  dê uma paulada na cabeça dele que a sarna não se prolifera. A vida cessa... mas a sarna também... 
Mas isso não é problema pontual. O mundo está em crise de violência. Vejam nos Estados Unidos. Vejam na Europa. E Vejam nas suas cidades. 
E vejam nas redes sociais que surgiu como ferramenta de aproximação de pessoas e para a facilitação das relações humanas. Hoje se vê uma salada de frutas onde as frutas são fakes, tarados anônimos, pedófilos anônimos, nazistas anônimos (as vezes nem tão anônimos), perversos (de qualquer natureza!!!) anônimos e todo mundo vê isso com a legenda de kkkkkkkkk!
E vejam na fila do banco, nos corredores do super mercado, nas escolas, no trânsito cada vez mais igualmente neurótico, e até nos namoros de esquina. A neurose coletiva está à flor da pele. 
O Freud se referindo ao Stress, disse que era até compreensível e natural diante dos "tempos modernos" da Europa do século XIX.... 
Não sei o que o Freud diria nos dias atuais. Sei que uma das soluções pra isso (pra mim a única), seria diagnosticar a atual conjuntura não como de crise econômica, política, etc, mas sim como momentos de crise social e cultural. 
Acho que os males da civilização também relatados pelo Freud, estão se tornando tais como a neurose, visíveis à flor da pele. 
De resto, como disse um poeta popular do Rio Grande velho de Guerra: "Cada patriota gaúcho que faça sua parte!"   

Fraterno Abraço!
André Lacerda - Psicanalista


  

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Do Norte ao Sul. O Encontro de Eros e Diana!

Ele reinava absoluto no seu reino do Norte. Ela reinava absoluta no seu reino do Sul.
Ele tinha um deus no nome e era cercado por um harém mesmo tendo tenra idade. 
Ela tinha uma deusa no nome mas seu reino era só dela. 
As forças adjacentes se uniram para que ele conhecesse e desbravasse o reino dela no Sul. 
Ele chegou com sua jovialidade contagiante e com sua energia própria de sua idade. Era um infante conquistador de espaços e corações. 
Ela assustou-se com a chegada dele e resistiu inicialmente à todo o poder de sedução dele. Demostrou seu descontentamento mas não o agrediu. Ela deve ter pensado que não queria invasão ao seu domínio. 
As forças adjacentes que pensaram nessa aproximação entristeceram pelos fatos. Pensaram que um completaria o outro. E ela estava com medo de deixar de ser única. Porque as fêmeas gostam é de conquistar e se sentiu invadida porque ele já chegou conquistando. Porque o reizinho era mesmo encantador.
E o reino todo percebeu que ela estava começando a ceder e estava ficando óbvio que ela não resistiria aos encantos do jovenzinho hiper ativo. 
Os dias estão passando e eu observador participativo e atento, estou sentindo e vendo que está se formando uma relação absolutamente afetuosa e produtiva. 
Calma gente.... rs... Não é um conto de fadas (ou é... não sei...rs).
Trata-se da chegada de Eros - o deus do amor em nossa casa na zona sul. Ele que veio da zona norte. 
É o novo maninho de minha Diana - a deusa da caça. 
Vos apresento Eros....
Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista
P.S.: Obrigado Carolina Lessa pela dádiva!

Ela........Diana - A deusa da caça

Ele ..... Eros - o deus do amor


  

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Caso Clínico

Então me explico:
Terminei de fazer um laudo de um caso que trato há seis meses. Sempre que narro um caso clínico, procuro ter bem claros dois critérios: 1) a privacidade do paciente e o consequente cumprimento de meu dever ético; 2) o benefício que a informação publicada pode levar à todos os que acompanham meus escritos.
Dentro dessas circunstâncias, vou divulgar uma parte de meu laudo, obviamente omitindo nomes e qualquer meio de identificação. Afinal, creio que, apesar de não ser um tema novo, é pouco difundido e pouco visto pela propria comunidade da saúde. Espero contribuir com profissionais da área, e principalmente com os leitores leigos que podem se deparar com situação semelhante. 
.......

CLÍNICA PSICANALÍTICA LTDA
ALVARÁ Nº 03373843 - Prefeitura Municipal de Porto Alegre
Fone (51) ...... - .....
CNPJ 06.973.616/0001-25
ANDRÉ LACERDA – PSICANALISTA
Membro Sociedade Brasileira de Psicanálise – SBPI (WWW.sbpi.org.br) Registro nº 690

 




Caso Clínico:

Paciente busca nosso atendimento de emergência em 29 de novembro de 2014, após episódio crítico tendo sido atendido em serviço de emergência (documento em anexo), tendo como demanda principal, sintomas e perturbações de ordem  psico-emocional, cujas causas relacionam-se a Reação ao stress grave e transtornos de adaptação (CID - 10 = F43), com consequências que seguramente desencadearam em Episódio Depressivo ( CID -10  =  F32) e  ainda ( como HD) Transtorno Depressivo Recorrente (CID -10 = F33), que ainda vinculam-se a situação atual e persistente de pressões exógenas não elaboradas psiquicamente, que via de regra, podem também desencadear em trauma pós traumático relacionado com o momento em que vive, assim como situações pesarosas e torturantes com altíssimo nível de sofrimento.

Considerações:

            A grande maioria de estudos e trabalhos recentes no campo das psicopatologias e do comportamento humano tem defendido a ideia de que as situações de alta pressão e privação afetiva muitas vezes podem deflagrar um estado psíquico perturbador ou até mesmo doentio.
            O grau de perturbação ambiental que o indivíduo sofreu antes, durante e depois de traumas de natureza exógena de importância efetiva, influencia sobremaneira o seu desenvolvimento emocional e possibilita uma estimativa quanto à futura (no caso de ....., IMEDIATA) necessidade de uma interferência terapêutica em vez de cuidados comuns.
            Verifica-se, que há uma tendência a se encontrar sintomas ligados a comportamentos impulsivos, agressivos, antissociais. Observa-se cotidianamente um incremento de queixas de hipercinesia, condutas destrutivas, dificuldades nas atividades laborais e problemas de relacionamento com familiares e amigos.
            Deve ser levado em conta no caso, saber-se de que a leitura de uma repetição de trauma feita pelo aparelho psíquico, muito provavelmente causará o desencadeamento de uma ou mais psicopatologias.

            Hipótese Diagnóstica:

            No caso do paciente em questão, devo enfatizar que, optei por intensa frequência terapêutica por tempo indeterminado, considerando, sobretudo, o “poder” avassalador das psicopatologias referidas (CID F43, F32 e F33 - 10ª Edição) e ainda do possível  TRANSTORNO DE ESTRESSE POS TRAUMÁTICO, visando a segurança do paciente, e tentando evitar danos maiores, inclusive a possibilidade de suicídio.
            No processo anamnético verifiquei :
1)     O paciente ...... teve atendimento psiquiátrico do ano de 2002 até 2009 pelo Dr........ , tendo sido diagnosticado como portador do Transtorno do Pânico (Cid 10 F41.0, sendo que em diversas ocasiões apresentou relativa incapacitação laboral devido a recaídas sintomáticas, sem ter nunca solicitado licença laboral. (Anexo declaração do referido Médico)
2)      Nota-se que no ano de 2010 e anos seguintes, tendo abandonado tratamento por seu psiquiatra ter fixado residência no exterior, o paciente passa por diversos outros profissionais em virtude de crises e quadros considerados graves como esquizofrenia catatônica, quadro psicótico grave, transtorno do humor, sendo inclusive diversas vezes ter sido requisitada sua internação psiquiátrica. (Documentos em anexo)
3)     Que de 2002 até a presente data o paciente faz tratamento farmacológico de Venlafaxina de 75 a 150 mg ao dia, dependendo da situação sintomática que se encontra na sua rotina.
4)      Que SEMPRE, os gatilhos desencadeadores de crises psico emocionais, foram conflitos originários na sua atividade laboral, em virtude daquilo que os operadores do Direito chamam hoje de assédio moral, cujas ações no campo jurídico, não raro tem se estendido para os consultórios de psiquiatras, psicanalista e psicólogos. Reitero que me refiro á episódios ocorridos em 2002, 2010 e 2014, sendo que este último foi o motivo do paciente procurar meu atendimento terapêutico.

            Contudo, devo sublinhar que os problemas têm de ser compreendidos e tratados como questões multidisciplinares, pois é a partir do desempenho das relações parental, social e clínica/terapêutica, que se organiza a experiência do indivíduo e a qualidade de seu vínculo.
            Sabemos que o desenvolvimento psicossocial e afetivo de uma pessoa depende de múltiplos fatores, ligados a hereditariedade e principalmente à sua experiência com o ambiente que o cerca.

Fundamentação Teórica:

O Transtorno de Estresse pós Traumático ou TEPT é uma reação do organismo parecida com a Síndrome do Pânico, porém com uma característica importante:
É uma reação a acontecimento inesperado, ameaçador, imprevisível e traumático, por exemplo: Combate, sequestro, prisão, assalto, estupro, acidente, agressão física ou moral, etc.

Um diagnóstico preocupante, um resultado de exame de laboratório que indique doença grave, uma cirurgia difícil, um pós operatório complicado, uma perda financeira ou afetiva, incêndio, inundação, terremoto, combate.

Também pode desenvolver quando a pessoa testemunha ou fica sabendo de uma experiência semelhante que ocorreu com outra pessoa de sua família ou de seu relacionamento.

Sintomas do Estresse pós Traumático:

           
Taquicardia, sudorese, falta de ar, tremor, fraqueza nas pernas, ondas de frio ou de calor, tontura, sensação de que o ambiente está estranho, de que vai desmaiar, de que vai ter um infarto, de uma pressão na cabeça, de que vai "ficar louco", de que vai engasgar com alimentos, assim como crises noturnas de acordar sobressaltado com o coração disparando e com sudorese intensa, diarreias, sintomas de uma Labirintite, pensamentos que não saem da cabeça de que poderiam ter doenças graves mesmo que todos os exames sejam normais ou de que poderiam fazer mal a si mesmo ou a outras pessoas e  mais:
Pesadelos e terrores noturnos relacionados com o evento traumático.
Flash Backs (a pessoa tem a sensação de estar vendo ou vivenciando a mesma situação, como uma cena de filme).

Com o passar do tempo, o paciente de Estresse pós Traumático ou TEPT desenvolve um estado depressivo crônico com apatia, irritabilidade, desinteresse, diminuição de memória e culpa, diminuição de rendimento escolar e profissional, isolamento social, desesperança com relação a planos de vida de antes do evento traumático.

Algo que lembrar a situação desencadeante pode causar ataques de ansiedade.

A pessoa passa a evitar situações que possam lembrar o evento que provocou o Estresse pós Traumático.

            O transtorno de estresse pós-traumático pode ser entendido como a perturbação psíquica decorrente e relacionado a um evento fortemente ameaçador ao próprio paciente ou sendo este apenas testemunha da tragédia.

O transtorno consiste num tipo de recordação que é melhor definido como revivescência pois é muito mais forte que uma simples recordação. Na revivescência além de recordar as imagens o paciente sente como se estivesse vivendo novamente a tragédia com todo o sofrimento que ela causou originalmente. O transtorno então é a recorrência do sofrimento original de um trauma, que além do próprio sofrimento é desencadeante também de alterações neurofisiológicas e mentais.

Diagnóstico
            O primeiro aspecto a ser definido é a existência de um evento traumatizante. Aquele suficientemente marcante, não havendo dúvidas quanto a ser ameaçador à vida ou à integridade individual, como os sequestros, assaltos violentos, estupro.

 Há, contudo certos eventos que podem não ser considerados graves como um acidente de carro sem vítimas. Mesmo assim caso uma pessoa venha a apresentar o quadro de estresse pós-traumático perante uma situação que poderia não ser considerada forte o suficiente para causar danos à maioria das pessoas, pode causar danos para outras.

 Com certeza, um evento marcante, fora da rotina, que de alguma forma represente uma ameaça, tem que ter acontecido: sem isso não será possível fazer o diagnóstico, pois a definição dele envolve o evento externo.

 Os sintomas têm que estar diretamente relacionados ao evento estressante, as imagens, as recordações e as revivescência têm que ser a respeito do ocorrido e não sobre outros fatos quaisquer ainda que ameaçadores.

Para o diagnóstico é essencial que a pessoa tenha experimentado ou testemunhado um evento traumatizante ou gravemente ameaçador.

Quando esse evento ocorre é necessário também que a pessoa tenha apresentado uma resposta marcante de medo, desesperança ou horror imediatamente após o evento traumático. Depois isso o indivíduo deve passar a ter recordações vivas, intrusivas (involuntárias e abruptas) do evento, incluindo a recordação do que pensou, sentiu ou percebeu enquanto vivia o evento traumático.

 Podem ocorrer pesadelos baseados no tema. Sentir como se o evento fosse acontecer de novo, chegando a comportar-se como se estivesse de fato vivendo de novo o evento traumático. Nesses eventos é possível que o paciente tenha flashbacks ou alucinações com as imagens do evento traumático.

 As situações que lembram o evento causam intenso sofrimento e são evitadas. Ter de expor-se novamente ao local pode ser insuportável para o paciente. Por isso o paciente passa a evitar os assuntos que lembrem o evento, como também as conversas, pessoas, objetos e sensações, tudo que se relacione ao trauma.

 A recordação dos aspectos essenciais do trauma pode também ser apagada da memória. A pessoa pode afastar-se do convívio social e outras atividades mesmo que não relacionadas ao evento. Pode passar a sentir-se diferente das outras pessoas.

 Pode passar a ter dificuldade de sentir determinadas emoções, como se houvesse um embotamento geral dos afetos. Pode passar a encarar as coisas com uma perspectiva de futuro mais restrita, passando a viver como se fosse morrer dentro de poucos anos, sem que exista nenhum motivo para isso.

Outros sintomas podem ser também insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração, respostas exageradas a estímulos normais ou banais.
Para se fazer o diagnóstico é preciso que esses sintomas estejam presentes por no mínimo um mês. Caso o tempo seja inferior a isso não significa que a pessoa não teve nada, só não se pode dar esse diagnóstico.

            Certos sintomas não compõem o diagnóstico, mas podem ser encontrados nos paciente com estresse pós-traumático como dor de cabeça, problemas gastrintestinais, problemas imunológicos, tonteiras, dores no peito, desconfortos.

O transtorno de estresse pós-traumático é provavelmente um transtorno muito comum, porém pouco conhecido, como nas décadas passadas foram desconhecidos porém freqüentes os transtornos de pânico, fobia social, obsessivo compulsivo.

O estresse pós-traumático se diferencia dos demais transtornos de ansiedade e da maioria dos transtornos mentais por ser causado a partir de um fator externo.

 O aparato mental do homem é capaz de lidar com situações estressantes sem que isso deixe cicatrizes, da mesma forma que os vasos sanguíneos são capazes de suportar elevações da pressão arterial durante o exercício físico normalmente.

 Há, contudo limites a partir dos quais o funcionamento mental fica perturbado. Provavelmente isso ocorre quando os mecanismos de enfrentamento e suporte contra estresse são fracos ou quando os estímulos são fortes demais.

 Quando surgirá o transtorno não podemos saber, o fato de uma pessoa ter passado por um trauma não significa necessariamente que ela terá estresse pós-traumático.

Observa-se que num mesmo evento, algumas pessoas podem apresentar esse transtorno e outras não. Essas variações nos levam a julgar que existem também predisposições pessoais a este problema, o que de fato tem sido constatado.

Pessoas com outros problemas de ansiedade prévios apresentam maior susceptibilidade a desenvolverem o estresse pós-traumático.

Grupo de Risco e Curso

Qualquer pessoa pode desenvolver estresse pós-traumático, desde uma criança até um ancião. Os sintomas não surgem necessariamente logo após o evento, podem levar meses. O intervalo mais comum entre evento traumatizante e o início dos sintomas são três meses. Muitas pessoas se recuperam dos sintomas em seis meses aproximadamente, outras podem ficar com os sintomas durante anos.

Transtorno de estresse pós-traumático: uma neurose de guerra em tempos de paz

Como compreender e tratar pacientes que foram vítimas de episódios violentos, como estupro, assalto, sequestro? Quais as consequências psicológicas desses eventos?

Vejamos a visão psicanalítica sobre o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), já reconhecido internacionalmente como doença.

Trata-se de um tema que foi historicamente importante para o desenvolvimento da Psicanálise, pois se percebeu que os sintomas apresentados pelos pacientes que sofriam de neurose traumática não podiam ser explicados pela teoria usual, ou seja, como uma manifestação simbólica de algum conflito inconsciente.

 Apesar disso, o TEPT parece ter sido deixado de lado com o tempo. Preocupados com a responsabilidade do profissional de saúde em uma realidade em que a violência se faz cada vez mais presente e muito se debate o funcionamento mental do criminoso, mas se deixa de lado as consequências na psique da vítima, os autores oferecem compreensões teóricas e propostas de intervenção.

Devemos num primeiro momento rever a descrição do transtorno e, considerando a definição da CID-10 como vaga demais, explicar fatores como a experiência (resultante do evento factual que não é elaborado e da vivência) e também quais episódios da realidade poderiam ter maior capacidade traumática.

Pode-se começar vislumbrando a origem do TEPT na frustração libidinal associada a uma situação de perigo, de maneira que uma situação pode tornar-se um trauma quando o perigo presente nela excede as capacidades individuais de enfrentá-lo.

Em relação aos sintomas, detalhamos os critérios do DSM-IV, visto como mais específico se comparado com a CID-10, tomando o cuidado de diferenciar o TEPT do Transtorno Dissociativo.

 Já em relação à prevalência, existem pesquisas que indicam que quantidades significativas de pessoas não conseguem se restabelecer por conta própria após alguns meses do evento, considerando cinco fases de resposta ao trauma.

Em casos crônicos, o TEPT pode permanecer por muitos anos, especialmente quando o episódio violento foi provocado por humanos, fazendo o indivíduo remodelar sua vida de maneira a evitar situações perigosas.

 Importante, apresentar e discutir outros transtornos associados ao TEPT e como se dá a comorbidade.

Com relação às bases biológicas do transtorno de estresse pós-traumático, visando a uma interação entre estruturas teóricas diferentes, podemos verificar o transtorno como uma falha do organismo em se recuperar de eventos marcantes.

 Entre os neurotransmissores importantes no quadro, destacamos o cortisol, um mediador da resposta de estresse, que possui relação com as memórias intensas e inapropriadas do episódio.

Como o cortisol se apresenta em quantidade reduzida em pacientes com TEPT, aventa-se a possibilidade de se prever o desenvolvimento do transtorno no período imediatamente após o evento estressor.

Abordando, A metapsicologia do trauma, propõe-se uma teorização da ação do trauma no aparelho psíquico, segundo Freud e Ferenczi, apresentando evidências de uma teoria inconsciente sobre o paciente e as causas das dores, diferente da Medicina.

 Visando a descobrir como a psique lida com quantidades excessivas de estimulações, vamos rever os subsistemas j, y e w, sua função e diferenciação, e como eles agem com a distribuição de energia no trabalho psíquico.

 Propõe-se que o TEPT apareça como uma repetição compulsiva da dor de quando a vítima se sentiu abandonada e impotente perante uma ameaça a sua vida, o que sugere que o trauma seja uma ferida egóica que provoca um distúrbio narcísico.

Intensificando a questão crucial (psíquica) avocamos no estudo A fixação no trauma e a teoria da libido, retoma-se o conceito de pulsão de morte e compulsão à repetição na teoria freudiana.

 Propõe-se que o trauma apareça por causa de um excesso de estimulação e incapacidade do aparelho psíquico em se livrar dela, surgindo uma angústia semelhante à do nascimento.

 A fixação no trauma, assim, se daria como uma busca por uma nova experiência que proporcionasse uma descarga adequada.

A concepção psicanalítica de neurose e o TEPT, relembra que o transtorno surge a partir de um momento único e com sintomas não simbólicos, ao contrário das outras neuroses, onde trazemos o conceito de Neurose Traumática proposto por Freud.

 Após uma detalhada revisão histórica da obra freudiana sobre o tema, explica-se como o TEPT surge devido a três alterações no aparelho psíquico: inicialmente uma falha na descarga da excitação, surgindo, por diversos fatores, a compulsão à repetição e, por fim, falhas nas defesas.




Conclusão:

            Dentro de todas as circunstâncias apresentadas no presente documento, recomendo no caso do paciente ......., a observância dos seguintes itens considerados condição “sine qua non” para a segurança e recuperação:

1) Evitar, A QUALQUER CUSTO, ambientes, pessoas e coisas que possam estimular impulsos sintomáticos desencadeadores de novos eventos traumáticos;

2)   Manutenção de 3 sessões psicanalíticas semanais por tempo indeterminado, fator, aliás, ser de absoluta importância para o sucesso de pleito;  
 
3)   Acompanhamento rotineiro de profissional médico CARDIOLOGISTA e CLÍNICO, a fim de prevenir e/ou remediar sintomas e patologias  de ordem psicossomática;

4)   Revitalizar relações familiares;

5)   Comprometer-se com a CONSTRUÇÃO pessoal;

6)   Manutenção de acompanhamento psiquiátrico assim como da medicação prescrita pelo médico psiquiatra responsável por tal acompanhamento.

Porto Alegre, 25 fevereiro de 2015.



                                                                                   André Lacerda
                                                                                     Psicanalista
                                               Membro SBPI- Sociedade Brasileira de Psicanálise Integrativa
                                                                                     Reg nº 690