sexta-feira, 28 de agosto de 2015

As Verdades Secretas (?????)

Quem acompanha minhas crônicas, sabe que nas últimas semanas tenho realçado dois assuntos específicos: O tratamento oncológico e os pacientes submetidos aos efeitos da quimioterapia por estar envolvido no processo, e antagonicamente (nem sei se tão antagônica assim)) a reverberação do tema prostituição desencadeada pelo sucesso televisivo de uma novela exibida em rede nacional, diga-se de passagem na TV aberta. 
Hoje me detenho no segundo tema.
Ouvi um comentário hoje onde alguém disse que a tal novela estava na verdade, glamorizando a prostituição. Não sei se isso procede. Mas sei que se isso proceder, os alarmes naturais das pessoas devem ser imediatamente acionados. Me explico:
Escrevi uma crônica anos atrás onde se observa a seguinte referência:

" Do terreiro, a noite sai para os puteiros mais pobres onde as mulheres idosas vivem seu último tempo de amor e as meninas recém chegadas da área rural aprendem o difícil ofício de meretriz." (A noite brincalhona da Bahia, crônica publicada em 2009).

E escrevi isso, porque sim! O ofício de meretriz é difícil. A meretriz não é uma mulher de vida fácil. No meu entender  não formado de preconceitos, e sim da escuta clínica que faço ao longo de muitos anos, a prostituição é uma das formas mais perversas de produzir humilhação e degradação ao ser humano. E não importa se o resultado disso é um prato de comida nas estradas do sertão nordestino do Brasil, ou se é alguns milhares de euros com viagens de primeira classe e com direito à fotos na rede social onde a moça aparece feliz sob o esplendor da torre Eiffel.
E me valho da obra da Psicanalista Maria Helena Fernandes (O Corpo, da coleção Clínica Psicanalítica), que por sua vez cita os escritos de J.Birmann de 1997 (Le corps et l'affect en psychanalyse: une lecture critique du discours freudien).  
Ali se aprende que entendendo o percurso do corpo na metapsicologia, do corpo pulsional ao ego corporal, passando pelo corpo auto-erótico e narcísico, e após saber que para Freud o corpo se constrói a partir da relação com o outro parental, relação primordial e constitutiva da subjetividade, e considerando ainda que, segundo o dualismo pulsional, o corpo emerge também como lugar de encontro de Eros e Tânatos. Sim! Entre Eros (VIDA) e Tânatos (MORTE).
Dai estabelecer que o CORPO é um lugar de encontro de Eros e Tânatos. 
Esse encontro permitiu a Freud abordar o corpo sob o ângulo de um corpo, por assim dizer, masoquista, baseando-se na ideia de um masoquismo originário. Os avanços freudianos dos últimos cento e poucos anos, apontam que o acesso à representação de nosso próprio corpo está longe de poder ser adquirido simplesmente a partir de uma imagem. É a dor, diz Freud, que, dando acesso ao conhecimento de nossos órgãos, permite uma representação de nosso corpo em geral.
Em 1915, ao enunciar a diferença entre a força pulsional e os destinos das pulsões, Freud concede à força pulsional uma autonomia em relação às representações psíquicas. Enxerga-se aí as premissas de pulsão de morte tal como será formulada na década de 20, a saber, como pulsão sem representação.  Uma explosão da segunda teoria das pulsões, particularmente da noção de pulsão de morte, torna-se necessária já que a clínica analítica em geral mostra que o acontecimento somático, além de alimentar a rede de representações que servem de suporte para a angústia de castração, também remete ao caráter silencioso da pulsão de morte e aos efeitos mais ou menos duráveis e nefastos relacionados à desfunção pulsional.
Tenho convicção que essa crônica deverá ser lida mais de uma vez para o pleno entendimento, sobretudo pra quem não é psicanalista, e os não psicanalistas são a grande maioria de meus leitores. Contudo, tive que ser técnico para me afastar da pecha de preconceituoso que por mais que não seja serei adjetivado pelo pessoal da minha "gestapo" pessoal que insiste em me perseguir desde que comecei a escrever em 2008.
Então... se realmente a tal novelinha estiver glamorizando o exercício da prostituição e o difícil ofício de meretriz, os alarmes naturais devem ser acionados, pois o lugar menos tenebroso que o ser humano que cair nessa cilada frequentará, será o divã de um psicanalista... ou uma clínica psiquiátrica, porque a primeira coisa que descobrirão é que essa verdade JAMAIS será secreta!
E para as meninas que lerem, espero que tenham o  saber de que o CORPO é um lugar de encontro de Eros (VIDA) e Tânatos (MORTE).

Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista

   


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O Psicanalista No Tratamento Oncológico/Quimioterápico - A Grandeza do Espírito!

Reabilitados coração e psiquê, retomo com a série onde retrato a figura do psicanalista na vida e no tratamento de pacientes acometidos pelo câncer. 
E de imediato pego pelo nome : CÂNCER!!!!!
Sim. Essa doença tem nome. E o nome é Câncer. Não é aquilo; não é o mal; não é o indizível; É simplesmente o câncer, uma doença que pode ser tratada e na grande maioria dos casos pode haver sim a cura.
E foi assim que o psicanalista no final daquele primeiro mês de tratamento quimioterápico, iniciou a conversa com sua paciente oncológica. 
Foi um mês terrível, e as reações adversas do remédio estavam sendo mais terríveis do que se poderia imaginar. 
As dores eram intensas. As tonturas e enjoos eram terríveis. A fraqueza por falta de alimentação era arrasadora e já tinham se ido quase dez kilos naquele primeiro mês. E o pior: A depressão veio avassaladoramente. 
O remédio inibira a produção de dopamina, endorfina e serotonina. E isso gerou a chamada depressão física, que na verdade tem a mesma gravidade da depressão psicológica, com a diferença de que  ao final do tratamento a depressão física também chegaria ao fim.
O psicanalista ouvir todas essas demandas naquilo primeiro dia do segundo mês de tratamento. Sua paciente estava com todos os sinais de um estado depressivo recorrente, e naquele momento, ele pensou que o melhor lugar para ocupar seria o de consolador. 
E assim falou:
- Amada paciente. Acho que tudo é uma questão de pobreza e de riqueza. Não de valores na conta do banco, mas de espírito. 
Queres ver?  
Imagina um espírito pobre falando de sua pouca ração. Certamente ele vai dizer:
 " Meu café da manhã hoje só tinha pão com ovo!"  
A mesma ração sendo dita por um espírito rico:
" Meu desjejum de hoje foi esplêndido. Consistiu num ovo estrelado com a gema molezinha e as bordas levemente crocantes, acompanhado de um ainda quentinho pedaço de pão francês. E eu peguei o garfo e furei a gema com cuidado e um pedaço de pequeno de pão molhou-se naquele fio de ouro amarelo. Foi maravilhoso meu início de dia!"
Vi agora mesmo que quando a enfermeira chegou com o remédio tu te referiu a ele como sendo tua dose diária de veneno e que aquilo estava te matando. 
E vi o quanto erraste!
Deverias de ter pensado que somente para chegar até teu leito, aquele remédio passou por pelo menos quatro profissionais de saúde de formação superior (médico, farmacêutico, duas enfermeiras), por mais uma grande equipe de técnicos e auxiliares, e mais uma estrutura hospitalar de primeiro mundo. Deverias ter pensado que esse tratamento tem um custo médio de cem mil dólares e teu plano de saúde está cobrindo tudo. 
Deverias ter pensado que cada gota desse remédio significa um passo distante do câncer e por isso ele não é veneno e sim o teu bálsamo da vida. 
Alma tranquila e coração sereno!
Amanha estarei aqui contigo para a próxima sessão e certamente teu espírito terá assimilado minha fala. E tu já vais sair daqui hoje sentindo não o gosto do veneno. Mas a grandeza de teu espírito. 

Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista

sábado, 15 de agosto de 2015

O Book Rosa!

Sob o céu azul daquela manhã carioca, ele lembrava do início e do fim de tudo. Porque o fim tinha sido recente e ainda sangrava. E cada gota de sangue caída era a certeza de que o sangramento seria constante por um bom tempo ainda. 
Mas acreditava que  por mais sofrido que o momento transcorra, no início a dor foi mais lancinante. 
No início ela vendeu o próprio corpo para o mesmo ginecologista inescrupuloso que assistiu seu parto e acompanhou o pré natal de sua gestação indesejada e imprevista. 
Ela precisava. O perverso médico ofereceu os trinta dinheiros de sua iniciação destrutiva, Ela topou. 
Naquela primeira vez experimentou sentimentos terríveis. Mas engoliu o vômito de seu nojo. Os trinta dinheiros lhe ajudariam. 
E se deu ao primeiro "cliente" por trinta dinheiros por mais algumas dezenas de vezes. Mas já na primeira vez, encarou aquilo como um "trabalho" e estava pensando em diversificar a atividade até que conseguisse um emprego decente que lhe possibilitasse viver com certo conforto. 
Começou a frequentar boates. E porque era um raio de sol de linda no esplendor de seus vinte anos de idade, tornou-se rapidamente uma das mais requisitadas. E já não eram mais os trinta dinheiros. Voltava pra casa no final das madrugas com o corpo e as entranhas dilacerados. Mas na bolsa de grife cara habitavam centenas de dinheiros. Talvez milhares. Poderia alimentar o filho e quem sabe até ajudar mais alguém. 
Desenvolveu um mecanismo de defesa do ego específico para todo aquele turbilhão. Seria apenas um "trabalho". Uma atividade remunerada com tempo pré estabelecido. O telefone tocava. O "cliente" marcava e combinavam o preço. Combinavam em qual alcova se encontrariam. Ela ia. Fazia. Recebia o preço de sua alma. Pronto. Tudo se terminava em uma hora. Com sorte em duas, pois dai o preço dobrava. Voltava pra casa e pra sua vida onde tinha nome próprio. Pensava que tinha que cuidar em não confundir seu próprio nome com o nome de trabalho que adotara.
E assim se deu. Atendia nas 24 horas do dia. E eram 5, 6, 10 sessões de puro êxtase sexual a cada 24 horas. Para os "clientes". Para ela era 1 hora (duas, com sorte) de pura figuração e com o tempo tornou-se uma perfeita "profissional". Aquilo era o seu "trabalho".
Durante uma década viveu equilibrando-se na corda bamba de sombrinha. Afinal tinha uma vida com família e amigos e tinha uma vida paralela que ninguém sabia. E deus o livre se alguém descobrisse ... Teve que conviver  com a mentira e tornou-se também "profissional" na mentira. Aprendeu o difícil ofício. Tornou-se "expert" na arte de seduzir. Mas cada vez que "trabalhava" sentia que seu próprio sangue ia congelando... e congelando... e congelando...
E quando ele apareceu na sua vida ela já não tinha sangue nas veias. Era um gelo.... talvez (??) um pouco derretido porque ele era envolvente, mas ainda assim um gelo...
Contou a verdade (no fundo apenas uma pequena parte da verdade). Ele aceitou. Fizeram juras. Ela não cumpriu. Ele não cumpriu em contrapartida. Brigaram. Ofenderem-se:
- Cretino! Mentiroso! Enrolador!
- Mentirosa! Meretriz! Cretina!
Ele matou-se.
Ela seguiu a vida... Corpo e entranhas dilaceradas e escravizadas pelo difícil ofício.... Corpo e entranhas que sequer existiam mais... Era só uma máquina. Uma máquina e uma alma escravizada pelo vil metal dos trinta dinheiros...
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Essa crônica é apenas uma estória. Escrevi assustado com o glamourizado tema da prostituição. Sim. Book Rosa, Ficha Rosa, Acompanhamento VIP. Tudo é na verdade PROSTITUIÇÃO.  E tudo isso é produto da Exploração sexual, e sempre vinculado ao sofrimento humano. 
Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista 

      
    

sábado, 8 de agosto de 2015

Os Trinta Dinheiros!

Naquela manhã de sol releu fragmentos do poema de Pessoa:
".... E eu que tanto amo a morte e a vida, se tivesse coragem também me mataria!"
Não via outro caminho que não fosse o suicídio. Estava decidindo por duas hipóteses apenas: Ou o  suicídio indigno da desistência onde sua persona não mais tivesse face, ou o suicídio do corpo e da alma, mas achava que esse não teria coragem.
Fugir não.... Fugir seria pior que o suicídio.
Era o capitão de seu barco e afundaria entre as velas rolando por sobre o tombadilho, a popa e a proa. Com sorte a quilha arrancaria sua cabeça antes do afogamento que é morte cruel. Ou quem sabe com sorte, os cordames do velame se enroscassem no seu pescoço e ele morreria enforcado antes do afogamento. Que a morte do afogado é cruel. Com sorte o enforcamento.
Lembrou-se dos enforcados da história, e Judas morreu enforcado tendo no bolsos os trinta dinheiros da sua traição ou da sua crença. Há controvérsias. Certa vez quando leu a obra do historiador Flávio Josefo (A Guerra dos Judeus), pensou que Judas e Jesus de Nazaré na verdade tinham os mesmos propósitos.
Ambos queriam a libertação do povo de Israel que vivia sob a dominação de Roma. Jesus prometeu a libertação. Judas acreditou. Quando Jesus falou que seu reino não era aquele, e que dessem a César o que era de César, Judas ficou puto da cara e entregou seu mestre aos fariseus. Porque naquela época já tinha a corrupção.
Depois se arrependeu.
Escolheu uma árvore morta. Laçou o galho mais forte. Em lágrimas de sal envolveu o pescoço com o nó da forca. Pulou. Em um segundo pescoço quebrado. Morto. Balançando pendurado numa árvore no alto de um penhasco dantesco. No bolso da túnica... os trinta dinheiros.
Pensou que a forca seria um ato digno mesmo que infernalmente dramático. E não teria os trinta dinheiros no bolso da túnica. Não traiu e não se corrompeu. Buscou apenas a libertação. Perdeu pro sistema. Foi engolido.
Mas forca não....
Agora era esperar a fúria das águas e afundar com o barco...
Seria achado por algum resgate entre o passadiço. Entre a proa e a popa.
 
Fraterno Abraço
André Lacerda - Psicanalista   
 
 
 

quinta-feira, 30 de julho de 2015

O Psicanalista no Tratamento Oncológico/Quimioterápico - A DOR!

A paciente estava no meio da segunda semana de quimioterapia. Até agora estava indo tudo bem e os efeitos do remédio ainda não eram devastadores e o desconforto até então, estava sendo bem tolerado. Até então...
O psicanalista sabia que aquilo ia piorar. E ia piorar muito.
Naquela metade da segunda semana viu que sua paciente estava começando a sentir os efeitos medicamentosos e ele conseguia ver isso no semblante dela que começava a esboçar o sentido do golpe. E ele assimilou a força e a violência do golpe. Isso era inexorável. 
Sabia que a depressão seria mais rápida e mais poderosa que os antidepressivos;
Sabia que a dor das articulações chegaria e seria devastadora;
Sabia que a xerostomia (boca seca) seria comparável aquilo que sentem os caminhantes no mais escaldante deserto e que não haveria água que aliviasse;
Sabia que a falta de apetite impediria qualquer alimentação prazerosa (afinal comer sempre foi um prazer) e agora a alimentação teria um sentido de sobrevivência, mesmo que o mais requintado manjar tivesse gosto de alumínio; 
Sabia que aquela angústia que oprimia e apertava o peito seria uma constante naqueles doze meses de tratamento;
Sabia de tudo ....
E sabia também que sabia lidar bem com as "psico dores".
Pensou que o sintoma físico nos casos de histeria, o tratamento psicanalítico busca invalidar a importância daquele sintoma, procurando o nó psíquico à ser desatado.
Pensou que nas doenças de origem psicossomática, além do alívio e extermínio do sintoma tem de se buscar a origem desencadeadora, e que nesses casos quase sempre a inibição gerava o sintoma que gerava por sua vez a angústia. 
Mas sabia que naquele caso, e em todos os outros casos de pacientes oncológicos submetidos à quimioterapia, seu suposto saber deveria ser reformulado e deveria buscar outras alternativas.
Todos os efeitos não tinham origem psíquica. Nem mesmo a depressão e a angústia eram psicológicas. Tudo vinha da ação do remédio salvador. Tudo era realmente físico.
Pensou. Pensou. Pensou...e... nada...
Entristecido, pensou que sua paciente iria se decepcionar. Afinal, ela apostara que a presença do psicanalista naquele momento seria de grande valia e suporte. Nada lhe restava à não ser consolar e confiar no seu inconsciente.
O que? Confiar no inconsciente? Lógico!!!
Se na histeria se invalida o sintoma físico, era preciso nesse caso VALIDAR  o efeito do remédio. Afinal o remédio era na verdade a vida vencendo a morte. A dor causada pelo remédio era sinal de que ele estava agindo e fazendo efeito. A dor era na verdade,  o câncer sendo combatido e eliminado. A boca seca era sinal de que estava sendo deixado pra trás o deserto inóspito. O gosto de metal na boca significava que o corpo estava sendo protegido por uma armadura que nada iria perfurar. E a depressão e a angústia eram sinais que a paciente estava sim em guerra, mas que estava vencendo.
Lavou o rosto. Ajeitou o nó da gravata. Bebeu água. Voltou à sala quimioterápica onde a paciente estava muito abatida e falou:
- Quero conversar contigo sobre o Câncer.
A paciente arregalou os olhos esperando qualquer coisa de muito ruim. O psicanalista prossegui:
- Há bem pouco tempo, quase que a totalidade dos pacientes com câncer recebiam no diagnóstico uma sentença de morte. Hoje o câncer não é mais uma sentença de morte. Sabes porque? Porque o espírito humano desenvolve a cada dia formas de superar qualquer coisa, e o espírito humano é que desenvolveu a cura dessa doença. Então, a partir de agora, nós vamos falar sim sobre o câncer e principalmente, do milagre que a quimioterapia está promovendo em ti e em todos os pacientes daqui.  
Pode ter sido apenas impressão, mas naquele dia o psicanalista acredita ter visto sua paciente menos abatida quando a última gota do remédio caiu do frasco, e ela disse sorridente pra enfermeira:
- Até amanhã! Teremos um ano inteiro pra nos conhecer melhor!
 
Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista 
 
 
 
 
   
   

terça-feira, 28 de julho de 2015

O Psicanalista no Tratamento quimioterápico!

O Psicanalista se preparou para acompanhar os pacientes em tratamento oncológico, nas salas de diferentes cores. Era a sala verde, a sala azul, a sala lilás... Sem nenhum outro propósito que não fosse tornar um pouco lúdica a sessão quimioterápica.
Estudou sobre os efeitos do medicamento, e os protocolos médicos internacionais relativos à esses procedimentos.
Pensou:
- Estou preparado para acolher todas as demandas de meus pacientes que estão em situação de câncer. Penso que à mim, resta ofertar um pouco de conforto, muito consolo, e quem sabe falar mais do que ouvir. Somente desta vez.... falar mais do que ouvir!
Passados os primeiros quinze minutos do início da sessão de quimioterapia de sua paciente, o psicanalista percebeu que estava redondamente enganado.
Nada do que tinha programado seria suficiente.
Logo na entrevista inicial da paciente com a enfermeira encarregada, descobriu que as coisas não seriam como o programado.
Já sabia pelas informações do oncologista, que o remédio além de todos os efeitos colaterais físicos, tinha um forte efeito depressivo, por diminuir consideravelmente os níveis de substâncias reguladoras . Ou seja, não seria uma depressão psíquica. Seria uma depressão física mesmo. Mas isso o oncologista já havia previsto e já prescrito remédios devidos.
Mas tudo isso não era quase nada se comparado ao que viu naquele início de tratamento.
Descobriu que naquele momento, mesmo sendo atendida por muitos profissionais competentes, e mesmo ele estando ali, sua paciente sentiu-se a pessoa mais solitária, na mais solitária ilha do planeta.Quando a primeira gota do remédio pingou do frasco em direção à cânula.
Mesmo antes de o remédio entrar na sua veia fina, a paciente provou o gosto da solidão.
Deparou-se com todos os momentos de sua vida naquele filme que todos dizem que passa quando sentimos o perigo eminente.
Foi naquele momento que o psicanalista sentiu que era ali mesmo, naquela sala branca com nome de cor berrante, que ele deveria estar mesmo.
Descobriu naquele momento que era uma boa hora  (ou duas, ou três ou oito horas) para começar a ajudar na reconstrução das paredes derrubadas pelo câncer e, porque não dizer, pela própria cura.
Pegou na mão de sua paciente .... falou:
-Vai ser aqui que o tratamento oncológico e a quimioterapia vão te curar. E vai ser aqui, que eu e tu vamos começar a navegar por mares revoltos. E vai ser aqui, que eu e tu vamos iniciar a caminhada do resto de tua vida. Estarei contigo todos os dias.
A paciente apertou a mão do psicanalista e já esboçando uma reação perguntou:
- Por onde começamos André???
   
Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista
 
 

sábado, 25 de julho de 2015

O Psicanalista no Tratamento Oncológico/Quimioterápico

"Que ceco! Que rim! - pensou. - Nada! Nada!
Trata-se é da vida e da morte. Sim, a vida se esvai, se esvai, sem que possa impedir. É isso, só isso! Porque me iludir! Não é patente a todos, menos a mim, que eu estou morrendo e que é apenas uma questão de semanas, de dias, talvez agora mesmo?
Havia luz na minha frente, mas agora só trevas.
Eu estava no mundo e vou abandoná-lo! Para onde irei?
Eu deixarei de existir, mas o que haverá depois? Nada.
Então, onde estarei quando não mais existir?" (A Morte de Ivan Ilitch; Tolstói)

O trecho do livro do Tolstói fervilhava na sua mente naquele gélido final de tarde de inverno já saindo do prédio do consultório do cirurgião.
Há duas semanas aguardava o resultado da biópsia do carocinho extraído. "Aquilo" nem doía. "Aquilo" nem incomodava. "Aquilo" sequer aparecia aos olhos dos outros. Certo que tinha havido aquele evento há cinco anos atrás. Mas "aquilo" foi tirado por completo. E fez todo o acompanhamento oncológico regularmente e "aquilo" estava resolvido. Porque foi mexer "naquilo" ????  "Aquilo" era o câncer!
Aquele maldito papel lhe queimava as mãos que estavam frias e suadas. E o maldito papel era friamente assustador com suas letras frias e assustadoras escritas em caixa alta:
"METÁSTASE DE NEOPLASIA MALÍGNA".
No primeiro banco da primeira praça que apareceu sentou. Chorou. Fumou. Fumou de novo...
Cofiava no seu oncologista e agora era tocar a vida. Organizar a rotina e ter fé na ciência e em todos os santos do céu e da terra.
O tratamento seria duríssimo e longo. Um ano de quimioterapia. Os efeitos do remédio seriam devastadores ao mesmo tempo que salvadores. Agora era pensar numa babá em tempo integral pras crianças, e rezar para que o marido desenvolvesse milagrosamente habilidades femininas de dona de casa. Porque só uma mulher tem capacidade múltipla de ser mãe, mulher, faxineira, cozinheira, profissional de ponta, e de fazer tudo ao mesmo tempo.
Fumou mais um cigarro daqueles bem fraquinhos de cravo e menta. Pensou:
- Mas tem o psicanalista!!!!!!! Em segundos estava dirigindo à cem por hora rumo ao consultório do psicanalista.
...................
Ele conhecia bem aquela paciente. Jovem, formação superior, bem sucedida profissional e pessoalmente, e pela Psicanálise construiu sólidas estruturas emocionais.
E agora essa! Câncer....
Ela havia saído à pouco do consultório onde lhe solicitou acompanhamento durante o tratamento oncológico.
Imediatamente  começou a estabelecer as bases terapêuticas para aquele caso. Foi aos livros e anotou os pontos fundamentais.
Inexoravelmente teria de ir em direção à especificidade do objeto psicopatológico, entrando no cenário do câncer e a figura da morte e passando pelo drama do padecimento.
Pensou que Freud e sua formulação sobre o caráter de irrepresentabilidade da morte seriam de grande ajuda assim como os estudos da vertente psicopatológica do desemparo.
Teria que rever e rever cotidianamente as teorias da angústia e as suas relações com a experiência de separação do objeto. E passou o resto da noite e quase toda a madrugada estudando. Antes de dormir pensou que estava pronto para andar de mãos dadas com sua paciente pelos infernos que ela teria que percorrer.
Acompanhou na manhã seguinte a sua paciente na primeira sessão de quimioterapia. E foi ali que percebeu que tudo o que programou não seria suficiente.
Naquela manhã, o psicanalista descobriu que deveria pensar num jeito de transformar a sala de quimioterapia num consultório lacaniano. E a poltrona confortável seria um divã freudiano.
Prezados amigos leitores!!! Essa crônica não é uma mera peça literária. É um caso real e estou tendo a oportunidade de ser um dos protagonistas. Vou narrar aos amigos toda a rotina laboral do psicanalista  no tratamento oncológico/quimioterápico. E acreditem: Está sendo uma das mais marcantes experiências do velho psicanalista aqui. E está sendo uma experiência de VIDA. Não de morte. Espero que acompanhem e gostem.
 
Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista