terça-feira, 15 de setembro de 2015

Mais Uma dos Amores Virtuais!

Vou retomar um assunto recorrente: Os amores "virtuais"!
E faço isso por absoluta contingência informativa, uma vez que casos como os que citarei hoje tem sido muito frequentes não somente na minha atividade clínica, como na de muitos colegas psicanalistas, psiquiatras e psicólogos. 
O Caso:
Paciente adulto, formação acadêmica superior, sentindo-se à beira do abismo do suicídio (metafórico ou não), em virtude daquilo que o psicanalista num primeiro momento pensou na Hipótese Diagnóstica de Transtorno Depressivo Recorrente. 
Razão do desencadeamento do sintoma: Descobriu que seu amor de quase um ano, era na verdade um personagem inexistente da internet. 
Clássico: Inibição = sintoma = angústia. 
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Vou começar abordando algumas questões da anamnese:
- Como pode Doutor? Eu tenho formação superior, tenho mundo, tenho experiência de vida, sou inteligente... Como posso ter caído nesse conto tão primário?
- Como pude ter sido alvo de uma psicopata que se divertiu comigo durante quase um ano?
- Como pode existir uma pessoa que tenha coragem de fazer isso com outras pessoas sem a menor compaixão e misericórdia?
- O que faço com essa coisa que foi criada dentro de mim e que até agora me fazia um ser melhor e mais feliz?
- E agora Doutor??? Eu não vou aguentar!!!!!
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Ainda não sei como vou ajudar meu paciente na construção ou na destruição dessa estrutura. Só sei e ele sabe que estaremos de mãos dadas atravessando o inferno ou o paraíso. Não sei. 
Mas penso que é muito cedo e prematuro tentar identificar que por trás da tela do computador exista ou existam seres psicopatas e de tal maneira perversos que vivem seus dias em busca de vítimas. Deve existir sim. Mas cada caso é um caso. 
Penso que os idealizadores de falsos perfis e os ditos "fakes" de um modo geral, são pessoas solitárias que criam imagos baseadas nas suas próprias ausências. 
A tecnologia proporcionou ao humano, ser o que ele bem entender nesse dito mundo virtual. Criam-se alter egos suplementadores de carências com a facilidade que se toma um copo de água.
Mas isso é  não é fruto de um programa de computador. Isso é fruto da psique humana . E tudo que é semeado nessas relações também é humano. Não é virtual. 
Criam-se afetos, amores,paixões, ódios, prazeres, amizades... tudo que é humano. 
E surgem os sofrimentos. Mas os sofrimentos também surgem quando o encontro se inicia num barzinho ou numa reunião da faculdade. 
Se eu tivesse que fazer um alerta, faria dois:
1) Confie no seu desejo!
2) Confie no seu inconsciente!
Terminei a primeira consulta com meu paciente lhe orientando a aproveitar o que de bom surgiu dentro dele nesses últimos meses...
Fraterno abraço!
André Lacerda - Psicanalista

  

sábado, 12 de setembro de 2015

Só um Pôr de Sol!

Ele estava na beira do cais do porto. 
Um barco vinha e outro ia. 
Três mulheres negras vestidas de branco ofertavam flores amarelas pra deusa das águas.
O vento frio daquele fim de inverno cortava o calor do Sol e revoltava as ondas que batiam no pier.
Um desvalido da sorte (??) aconchega-se na grama e dorme sem a menor cerimônia e sem a menor culpa.
Os biguás pescadores se refocilam na água e se fartam de peixes de um cardume passageiro.
Os namorados passeiam de mãos dadas e buscam algum canto afastado ou para o exercício do amor ou para o exercício de inalar uma fumaça suspeita. Não deu pra saber e nem ver. 
A moça tira uma foto de si mesma pensando em ostentar o início do pôr do Sol, mas na verdade o destaque é para uma placa velha e suja que avisava: Cuidado! Águas profundas e poluídas.
Dois turistas se abraçavam e bebiam talvez a primeira das muitas cervejas. Ou a última. Não deu pra saber e nem ver. 
Aquela hora do dia era uma hora triste para o psicanalista. O entardecer era o ocaso do dia.
Mas pensou que amanhã outros barcos viriam e iriam.
E outras mulheres jogariam flores na água para a deusa, e os biguás se fartariam de um outro cardume passageiro.
As águas continuariam profundas e poluídas e as pessoas ainda retratariam o pôr do Sol.
Estava encerrado o dia enfim!
Ao ver o sol se pondo pensou no comentário que Freud fez referindo-se ao exílio em Londres:
"O sentimento de triunfo ao me ver libertado acha-se tão fortemente vinculado à dor, já que sempre amei profundamente a prisão da qual fui libertado."

Fraterno Abraço!
André Lacerda - Psicanalista
P.S.: Esse é o Pôr do Sol em Porto Alegre.



quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Em Busca do Tempo Perdido!

O título nos remete de imediato a obra de Marcel Proust, onde transformou o tempo em principal personagem de seu romance. 
Sei que a obra nem de longe é considerada popular e acessível. Muito pelo contrário. E não sei se eu teria capacidade de escrever sobre ela de uma maneira que agradasse à quem quer que seja. Ainda mais eu, que quando não tenho o que fazer, brinco de ser escritor segundo alguns. No entanto, quem tem padrinho não morre pagão. E com a devida licença, nesta minha crônica de hoje, vou me valer do meu amigo David Coimbra e sua obra  Um História do Mundo (2012- Ed LPM).
Proust foi considerado pela crítica literária um dos quatro escritores essenciais do século XX. Os quatro eram ele, James Joyce, Kafka e Freud. 
O David diz que ele era um homem estranho. Um autêntico filhinho da mamãe. 
A obra monumental desse menino mimado é um romance sobre a tragédia do tempo. O tempo que transforma as pessoas em outras pessoas, que passa e não volta mais, o tempo que pode ser aprisionado e que só pode ser recuperado através da arte  de eventuais investidas da memória. 
Do primeiro livro de Em Busca do Tempo perdido, repasso alguns pedaços, com a tradução feita por ninguém menos que... Mário Quintana.

"Acho muito razoável a crença céltica de que as almas daqueles a quem perdemos se acham cativas nalgum ser inferior, num animal, um vegetal, uma coisa inanimada, efetivamente perdidas para nós até o dia, que para muitos nunca chega, em que nos sucede passar por perto da árvore, entrar na posse do objeto que lhe serve de prisão. Então elas palpitam, nos chamam, e, logo que as reconhecemos, está quebrado o encanto. Libertadas por nós, venceram a morte e voltam a viver conosco.
É assim com o nosso passado. Trabalho perdido procurar evocá-lo, todos os esforços da nossa inteligência permanecem inúteis. Ele está oculto, fora de seu domínio e do seu alcance, nalgum objeto material (na sensação que nos daria esse objeto material) que nós nem suspeitamos. 
Esse objeto, só do acaso depende que o encontremos antes de morrer, ou que não o encontremos nunca."
Segue Proust:
"Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madeleines e que parecem moldados na valva estriada de uma concha de São Tiago........estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção da sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferentes as vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência; ou antes, essa essência não estava em mim; era eu mesmo. Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligada ao gosto do chá  e do bolo, mas que o ultrapassava infinitamente r não devia ser da mesma natureza." 
Explica e grande David Coimbra:
" Ao sentir o sabor de uma madeleine amolecida pelo chá quente, Proust sentiu o sabor do passado. Um objeto inanimado, um pequeno biscoito, foi o suficiente para desencadear todo um processo de recuperação do tempo perdido. Como se Proust fosse um arqueólogo, porque é precisamente isso que o arqueólogo faz: busca nos objetos o tempo perdido."

Espero que tenham gostado. Mas recomendo tanto a obra do Proust como a do David citados aqui.
Fraterno Abraço
André Lacerda - Psicanalista  



sexta-feira, 28 de agosto de 2015

As Verdades Secretas (?????)

Quem acompanha minhas crônicas, sabe que nas últimas semanas tenho realçado dois assuntos específicos: O tratamento oncológico e os pacientes submetidos aos efeitos da quimioterapia por estar envolvido no processo, e antagonicamente (nem sei se tão antagônica assim)) a reverberação do tema prostituição desencadeada pelo sucesso televisivo de uma novela exibida em rede nacional, diga-se de passagem na TV aberta. 
Hoje me detenho no segundo tema.
Ouvi um comentário hoje onde alguém disse que a tal novela estava na verdade, glamorizando a prostituição. Não sei se isso procede. Mas sei que se isso proceder, os alarmes naturais das pessoas devem ser imediatamente acionados. Me explico:
Escrevi uma crônica anos atrás onde se observa a seguinte referência:

" Do terreiro, a noite sai para os puteiros mais pobres onde as mulheres idosas vivem seu último tempo de amor e as meninas recém chegadas da área rural aprendem o difícil ofício de meretriz." (A noite brincalhona da Bahia, crônica publicada em 2009).

E escrevi isso, porque sim! O ofício de meretriz é difícil. A meretriz não é uma mulher de vida fácil. No meu entender  não formado de preconceitos, e sim da escuta clínica que faço ao longo de muitos anos, a prostituição é uma das formas mais perversas de produzir humilhação e degradação ao ser humano. E não importa se o resultado disso é um prato de comida nas estradas do sertão nordestino do Brasil, ou se é alguns milhares de euros com viagens de primeira classe e com direito à fotos na rede social onde a moça aparece feliz sob o esplendor da torre Eiffel.
E me valho da obra da Psicanalista Maria Helena Fernandes (O Corpo, da coleção Clínica Psicanalítica), que por sua vez cita os escritos de J.Birmann de 1997 (Le corps et l'affect en psychanalyse: une lecture critique du discours freudien).  
Ali se aprende que entendendo o percurso do corpo na metapsicologia, do corpo pulsional ao ego corporal, passando pelo corpo auto-erótico e narcísico, e após saber que para Freud o corpo se constrói a partir da relação com o outro parental, relação primordial e constitutiva da subjetividade, e considerando ainda que, segundo o dualismo pulsional, o corpo emerge também como lugar de encontro de Eros e Tânatos. Sim! Entre Eros (VIDA) e Tânatos (MORTE).
Dai estabelecer que o CORPO é um lugar de encontro de Eros e Tânatos. 
Esse encontro permitiu a Freud abordar o corpo sob o ângulo de um corpo, por assim dizer, masoquista, baseando-se na ideia de um masoquismo originário. Os avanços freudianos dos últimos cento e poucos anos, apontam que o acesso à representação de nosso próprio corpo está longe de poder ser adquirido simplesmente a partir de uma imagem. É a dor, diz Freud, que, dando acesso ao conhecimento de nossos órgãos, permite uma representação de nosso corpo em geral.
Em 1915, ao enunciar a diferença entre a força pulsional e os destinos das pulsões, Freud concede à força pulsional uma autonomia em relação às representações psíquicas. Enxerga-se aí as premissas de pulsão de morte tal como será formulada na década de 20, a saber, como pulsão sem representação.  Uma explosão da segunda teoria das pulsões, particularmente da noção de pulsão de morte, torna-se necessária já que a clínica analítica em geral mostra que o acontecimento somático, além de alimentar a rede de representações que servem de suporte para a angústia de castração, também remete ao caráter silencioso da pulsão de morte e aos efeitos mais ou menos duráveis e nefastos relacionados à desfunção pulsional.
Tenho convicção que essa crônica deverá ser lida mais de uma vez para o pleno entendimento, sobretudo pra quem não é psicanalista, e os não psicanalistas são a grande maioria de meus leitores. Contudo, tive que ser técnico para me afastar da pecha de preconceituoso que por mais que não seja serei adjetivado pelo pessoal da minha "gestapo" pessoal que insiste em me perseguir desde que comecei a escrever em 2008.
Então... se realmente a tal novelinha estiver glamorizando o exercício da prostituição e o difícil ofício de meretriz, os alarmes naturais devem ser acionados, pois o lugar menos tenebroso que o ser humano que cair nessa cilada frequentará, será o divã de um psicanalista... ou uma clínica psiquiátrica, porque a primeira coisa que descobrirão é que essa verdade JAMAIS será secreta!
E para as meninas que lerem, espero que tenham o  saber de que o CORPO é um lugar de encontro de Eros (VIDA) e Tânatos (MORTE).

Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista

   


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O Psicanalista No Tratamento Oncológico/Quimioterápico - A Grandeza do Espírito!

Reabilitados coração e psiquê, retomo com a série onde retrato a figura do psicanalista na vida e no tratamento de pacientes acometidos pelo câncer. 
E de imediato pego pelo nome : CÂNCER!!!!!
Sim. Essa doença tem nome. E o nome é Câncer. Não é aquilo; não é o mal; não é o indizível; É simplesmente o câncer, uma doença que pode ser tratada e na grande maioria dos casos pode haver sim a cura.
E foi assim que o psicanalista no final daquele primeiro mês de tratamento quimioterápico, iniciou a conversa com sua paciente oncológica. 
Foi um mês terrível, e as reações adversas do remédio estavam sendo mais terríveis do que se poderia imaginar. 
As dores eram intensas. As tonturas e enjoos eram terríveis. A fraqueza por falta de alimentação era arrasadora e já tinham se ido quase dez kilos naquele primeiro mês. E o pior: A depressão veio avassaladoramente. 
O remédio inibira a produção de dopamina, endorfina e serotonina. E isso gerou a chamada depressão física, que na verdade tem a mesma gravidade da depressão psicológica, com a diferença de que  ao final do tratamento a depressão física também chegaria ao fim.
O psicanalista ouvir todas essas demandas naquilo primeiro dia do segundo mês de tratamento. Sua paciente estava com todos os sinais de um estado depressivo recorrente, e naquele momento, ele pensou que o melhor lugar para ocupar seria o de consolador. 
E assim falou:
- Amada paciente. Acho que tudo é uma questão de pobreza e de riqueza. Não de valores na conta do banco, mas de espírito. 
Queres ver?  
Imagina um espírito pobre falando de sua pouca ração. Certamente ele vai dizer:
 " Meu café da manhã hoje só tinha pão com ovo!"  
A mesma ração sendo dita por um espírito rico:
" Meu desjejum de hoje foi esplêndido. Consistiu num ovo estrelado com a gema molezinha e as bordas levemente crocantes, acompanhado de um ainda quentinho pedaço de pão francês. E eu peguei o garfo e furei a gema com cuidado e um pedaço de pequeno de pão molhou-se naquele fio de ouro amarelo. Foi maravilhoso meu início de dia!"
Vi agora mesmo que quando a enfermeira chegou com o remédio tu te referiu a ele como sendo tua dose diária de veneno e que aquilo estava te matando. 
E vi o quanto erraste!
Deverias de ter pensado que somente para chegar até teu leito, aquele remédio passou por pelo menos quatro profissionais de saúde de formação superior (médico, farmacêutico, duas enfermeiras), por mais uma grande equipe de técnicos e auxiliares, e mais uma estrutura hospitalar de primeiro mundo. Deverias ter pensado que esse tratamento tem um custo médio de cem mil dólares e teu plano de saúde está cobrindo tudo. 
Deverias ter pensado que cada gota desse remédio significa um passo distante do câncer e por isso ele não é veneno e sim o teu bálsamo da vida. 
Alma tranquila e coração sereno!
Amanha estarei aqui contigo para a próxima sessão e certamente teu espírito terá assimilado minha fala. E tu já vais sair daqui hoje sentindo não o gosto do veneno. Mas a grandeza de teu espírito. 

Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista

sábado, 15 de agosto de 2015

O Book Rosa!

Sob o céu azul daquela manhã carioca, ele lembrava do início e do fim de tudo. Porque o fim tinha sido recente e ainda sangrava. E cada gota de sangue caída era a certeza de que o sangramento seria constante por um bom tempo ainda. 
Mas acreditava que  por mais sofrido que o momento transcorra, no início a dor foi mais lancinante. 
No início ela vendeu o próprio corpo para o mesmo ginecologista inescrupuloso que assistiu seu parto e acompanhou o pré natal de sua gestação indesejada e imprevista. 
Ela precisava. O perverso médico ofereceu os trinta dinheiros de sua iniciação destrutiva, Ela topou. 
Naquela primeira vez experimentou sentimentos terríveis. Mas engoliu o vômito de seu nojo. Os trinta dinheiros lhe ajudariam. 
E se deu ao primeiro "cliente" por trinta dinheiros por mais algumas dezenas de vezes. Mas já na primeira vez, encarou aquilo como um "trabalho" e estava pensando em diversificar a atividade até que conseguisse um emprego decente que lhe possibilitasse viver com certo conforto. 
Começou a frequentar boates. E porque era um raio de sol de linda no esplendor de seus vinte anos de idade, tornou-se rapidamente uma das mais requisitadas. E já não eram mais os trinta dinheiros. Voltava pra casa no final das madrugas com o corpo e as entranhas dilacerados. Mas na bolsa de grife cara habitavam centenas de dinheiros. Talvez milhares. Poderia alimentar o filho e quem sabe até ajudar mais alguém. 
Desenvolveu um mecanismo de defesa do ego específico para todo aquele turbilhão. Seria apenas um "trabalho". Uma atividade remunerada com tempo pré estabelecido. O telefone tocava. O "cliente" marcava e combinavam o preço. Combinavam em qual alcova se encontrariam. Ela ia. Fazia. Recebia o preço de sua alma. Pronto. Tudo se terminava em uma hora. Com sorte em duas, pois dai o preço dobrava. Voltava pra casa e pra sua vida onde tinha nome próprio. Pensava que tinha que cuidar em não confundir seu próprio nome com o nome de trabalho que adotara.
E assim se deu. Atendia nas 24 horas do dia. E eram 5, 6, 10 sessões de puro êxtase sexual a cada 24 horas. Para os "clientes". Para ela era 1 hora (duas, com sorte) de pura figuração e com o tempo tornou-se uma perfeita "profissional". Aquilo era o seu "trabalho".
Durante uma década viveu equilibrando-se na corda bamba de sombrinha. Afinal tinha uma vida com família e amigos e tinha uma vida paralela que ninguém sabia. E deus o livre se alguém descobrisse ... Teve que conviver  com a mentira e tornou-se também "profissional" na mentira. Aprendeu o difícil ofício. Tornou-se "expert" na arte de seduzir. Mas cada vez que "trabalhava" sentia que seu próprio sangue ia congelando... e congelando... e congelando...
E quando ele apareceu na sua vida ela já não tinha sangue nas veias. Era um gelo.... talvez (??) um pouco derretido porque ele era envolvente, mas ainda assim um gelo...
Contou a verdade (no fundo apenas uma pequena parte da verdade). Ele aceitou. Fizeram juras. Ela não cumpriu. Ele não cumpriu em contrapartida. Brigaram. Ofenderem-se:
- Cretino! Mentiroso! Enrolador!
- Mentirosa! Meretriz! Cretina!
Ele matou-se.
Ela seguiu a vida... Corpo e entranhas dilaceradas e escravizadas pelo difícil ofício.... Corpo e entranhas que sequer existiam mais... Era só uma máquina. Uma máquina e uma alma escravizada pelo vil metal dos trinta dinheiros...
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Essa crônica é apenas uma estória. Escrevi assustado com o glamourizado tema da prostituição. Sim. Book Rosa, Ficha Rosa, Acompanhamento VIP. Tudo é na verdade PROSTITUIÇÃO.  E tudo isso é produto da Exploração sexual, e sempre vinculado ao sofrimento humano. 
Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista 

      
    

sábado, 8 de agosto de 2015

Os Trinta Dinheiros!

Naquela manhã de sol releu fragmentos do poema de Pessoa:
".... E eu que tanto amo a morte e a vida, se tivesse coragem também me mataria!"
Não via outro caminho que não fosse o suicídio. Estava decidindo por duas hipóteses apenas: Ou o  suicídio indigno da desistência onde sua persona não mais tivesse face, ou o suicídio do corpo e da alma, mas achava que esse não teria coragem.
Fugir não.... Fugir seria pior que o suicídio.
Era o capitão de seu barco e afundaria entre as velas rolando por sobre o tombadilho, a popa e a proa. Com sorte a quilha arrancaria sua cabeça antes do afogamento que é morte cruel. Ou quem sabe com sorte, os cordames do velame se enroscassem no seu pescoço e ele morreria enforcado antes do afogamento. Que a morte do afogado é cruel. Com sorte o enforcamento.
Lembrou-se dos enforcados da história, e Judas morreu enforcado tendo no bolsos os trinta dinheiros da sua traição ou da sua crença. Há controvérsias. Certa vez quando leu a obra do historiador Flávio Josefo (A Guerra dos Judeus), pensou que Judas e Jesus de Nazaré na verdade tinham os mesmos propósitos.
Ambos queriam a libertação do povo de Israel que vivia sob a dominação de Roma. Jesus prometeu a libertação. Judas acreditou. Quando Jesus falou que seu reino não era aquele, e que dessem a César o que era de César, Judas ficou puto da cara e entregou seu mestre aos fariseus. Porque naquela época já tinha a corrupção.
Depois se arrependeu.
Escolheu uma árvore morta. Laçou o galho mais forte. Em lágrimas de sal envolveu o pescoço com o nó da forca. Pulou. Em um segundo pescoço quebrado. Morto. Balançando pendurado numa árvore no alto de um penhasco dantesco. No bolso da túnica... os trinta dinheiros.
Pensou que a forca seria um ato digno mesmo que infernalmente dramático. E não teria os trinta dinheiros no bolso da túnica. Não traiu e não se corrompeu. Buscou apenas a libertação. Perdeu pro sistema. Foi engolido.
Mas forca não....
Agora era esperar a fúria das águas e afundar com o barco...
Seria achado por algum resgate entre o passadiço. Entre a proa e a popa.
 
Fraterno Abraço
André Lacerda - Psicanalista