segunda-feira, 1 de julho de 2019

CAMINHANDO PARA O INFERNO,  numa estrada de pó!

Eis meu novo projeto literário.
Não vou falar de flores.
Não será lúdico o meu texto. Não haverá poesia.
Haverá sim choro e ranger de dentes.
Vou expor casos clínicos que acompanhei e acompanho, e posso garantir e alertar que não será uma leitura agradável e leve.
Espero que meus leitores entendam, que a legítimidade de quem escreve, se mede pela verdade e esclarecimento que ela encerra.
Insisto na afirmação de que ao psicanalista não é  permitido o preconceito à qualquer coisa.
Mas eu, abomino o sofrimento humano.
E sendo assim, mais uma vez não vou falar.
Pensei em criar nomes fictícios para o relato dos casos clínicos,  e abandonei a ideia,  pois não quero incorrer no perigo da mera coincidência.
Dito isso...
Devemos identificar o sujeito dessa terrível desgraça que é  o vício da cocaína.
O homem dependente do pó,  muda da noite para o dia.
Primeiro ele se transforma num mentiroso.
Depois se transforma num golpista.
De golpista vira ladrão.
De ladrão vira traficante.
E nesse caminho, tem tudo para virar homicida.
E em qualquer momento, pode virar um cadáver pra ser reconhecido no DML.
A mulher dependente, de cara se transforma numa mentirosa.
O segundo passo, vira prostituta.
E pronto. Homens e mulheres, são escravos. Sem alforria,  serão em qualquer tempo, um corpo atirado no porão escuro de um necrotério.
E assim, não é  nada florida essa estrada de pó, que inexoravelmente só leva ao inferno.

Fraterno abraço
André Lacerda  - Psicanalista

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Pra Não Dizer Que Não Falo de Flores!

Por aquele dias, o Psicanalista já não estava tão, tão, tão triste. Mas estava triste.
Homem de amores, estava carente de amor. Ou pelo menos se sentia carente de amor. Porque psicanalistas também...enfim...
O copo de tinto pela metade, tinha o mesmo gosto de fel das ervas daninhas de um chá que recentemente havia bebido ...
Estava triste. Mas nem tanto. Não era nenhum temporal. Mas estava nublado. 
Foi quando ela chegou...
Das nuvens, ela desceu numa estrada de neon pintada em tecnicolor. 
Não lhe disse nada. Só lhe soprou com hálito de flores da manhã, e o rosto de psicanalista triste ensaiou um tímido riso...
Ele paralisou calado e lembrou da primeira vez que a vira. Era enquanto ele bebia aquele chá sem ainda sentir o gosto amargo da erva daninha. 
Seus olhos apenas se cruzaram e naquela hora ele viu apenas uma linda mulher. Esqueceu.
Voltou a vê-la no final do dia, quando ela acomodava carinhosamente duas florzinhas num cesta mágica que as levaria pro seu reino encantado no reino das fadas. Porque isso é que ela era. Uma fada assexuada na forma de uma linda mulher. 
Ao vê-la saindo cantou pensando: ...." és láctea estrela és mãe da realeza, és tudo enfim que tem de belo, todo resplendor da santa natureza..."
E se foram os dias... o chá de ervas fez mal, e só ficou o amargo gosto na boca ... e o coração nebuloso. 
E agora ela estava ali novamente...flutuando numa estrada de neon em tecnicolor que veio daquela nuvem cor de rosa lá de cima...
E ela soprou seu rosto com seu hálito de flores...
E ele paralisou calado procurando palavras, versos e quem sabe o mundo para lhe entregar... não achava...
Então... ela generosa, porque todas as fadas são generosas, do seu  seio nu assexuado, tira uma flor da manhã, beija a flor, e oferta ao psicanalista que já não sentia o fel na boca...
E como veio, se foi, naquela estrada celeste colorida à caminho de sua nuvem cor de rosa...
E o psicanalista acordou e pensou:
- Como pode ser lúdico e cheio de lirismo, o sonho de um psicanalista que bebe fel e tem o coração encoberto de nuvens..... 

Fraterno Abraço
André Lacerda - Psicanalista
  

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O Psicanalista no Mundo Encantado dos Orixás! O Suposto Saber!

Todos Sangram. Até o Super Man sangra como foi fantasiosamente demonstrado pela industria cinematográfica recentemente. 
O Psicanalista sangrou. 
Meus amigos leitores, devem ter estranhado, pois o último capítulo escrito desse projeto que hoje retomo, escrevi no distante 11 de maio. Mais de 5 meses portanto. 
Eu estava sangrando. Fui acometido pelos sintomas da mais terrível das doenças, a que mais mata no mundo moderno, A depressão.
Estou me recuperando pela força da paciência de minha amada irmã, pela dedicação abnegada de uma amigo que hoje vejo como filho, pela sobriedade sincera e responsável de meu sobrinho que sempre teve status de filho, e mais recentemente pela gloriosa minha primeira dama (como se refere à esposa um amigo jornalista que admiro desde sempre).
Minha primeira especialização clinica foi exatamente a Depressão, e desde então sempre tive contato com as terríveis dores que essa doença provoca.
Contudo.... nada se compara a sentir o corte profundo na própria carne.
O velho Freud já havia dito que a verdadeira cura vem da palavra e do amor.
Fui acariciado pela mão delicadamente forte da palavra.
Fui indelevelmente abraçado pelos bracos generosos do amor.
E.... Cá estamos pra seguir nesse baile ... afinal, tudo vai ser melhor...
Como diz o provérbio... " O melhor médico é aquele que já ficou doente!"
Ah.... agora sei que antes de cair no buraco da depressão, fui alertado e avisado.
Lembrando os amigos que sou irremediavelmente racional e ciente da ciência que sigo, o que relato aqui tem absoluto conho cartesiano, e é resultado da observação e da experimentação.
Como disse, fui alertado e avisado pelas entidades da umbanda e da quimbanda do que estava me avizinhando. Não me dei conta na hora. Mas hoje, lúcido e me recuperando, percebi que fui avisado e chego até a pensar que "eles" estiveram me amparando enquanto roía meu próprio fígado tentando matar minhas dores e desavisado, quase matei meu corpo.
" Quem tiver olhos que veja! Quem tiver ouvidos que ouça!"
Humildemente o psicanalista sabe que seu saber é aquilo que os psicanalistas chamam de "SUPOSTO SABER".
Mas... o Marabô soube. E disse:
" Nêgo. Isso que vem pela frente é pior do que o câncer!E Isso que vem pela frente pode te matar mais rápido que o câncer.
Mas eu vou te ajudar.
O psicanalista prestou atenção... mas não teve olhos de ver... e nem ouvidos de ouvir. E foi ver e ouvir enquanto o punhal da melancolia se recolhia depois de ter feito muito estrago.
 Mas isso vou explicar melhor no próximo capítulo.
Agradeço em meu nome e da minha família, ao meu amigo Wladimir, que é pai de muitos filhos, e à estes filhos,  que sei e sinto que pediram aos céus por minha felicidade. E minha felicidade estará plena quando nos reencontrarmos. 

Fraterno Abraço,

André Lacerda - Psicanalista




   

sexta-feira, 11 de maio de 2018

O Psicanalista no Mundo Encantado dos Orixás! O Encontro!

O psicanalista estava seco.
Não haviam mais lágrimas. Elas se esgotaram...
Inerte, estava empurrando seus dias sem apetite (qualquer apetite), numa forma nebulosa feita de sombra. Somente de sombra, e sem luz como disse o poeta.
Seus últimos 18 anos haviam sido voltado quase que exclusivamente pra clinica psicanalítica e acreditava ter ajudado muita gente e os resultados eram significativamente positivos. 
Os últimos 3 anos, exclusivamente voltados para os pacientes oncológicos e terminais. E achava que esteve nos lugares certos. Esteve em lugares que acreditava, ser os lugares onde o psicanalista deveria estar.
Isso era bom...mas....
Buscava em Freud, Lacan e mesmo na depressiva Melanie Klein, algum conforto psíquico. Mas nada surtia efeito amenizador em sua alma que mesmo serena, estava destroçada.
O último ano tinha sido devastador.
Fazia um ano, de forma precoce, sofrida e absurdamente cruel, tinha perdido seu primeiro amor numa batalha cruel e incombatível de 25 dias contra um câncer fatal.
No dia que ela foi cremada plantou uma roseira. 
Ainda não aceitava aquela perda. Mas a roseira cresceu e floriu....
Fazia um mês, tinha perdido seu maior e eterno amor. A mãe amada, sem avisar, e de forma não menos sofrida, já estava cantando tangos e encantando espíritos em outro plano.
No dia que foi enterrada, sentiu-se enterrado nas sombras das ausências.
E por aqueles dias, perdera seu segundo amor. Mas com o coração sereno, agradecia pelo fato dela estar viva e bem, e torcia pra que ela fosse feliz e sempre estivesse segura. 
Sabia que a vida era uma caminhada onde os seres viventes viviam entre Eros (vida) e Tânatos (morte).
Mas nele, Tânatos reinava...
E na verdade, já trazia no bolso da camisa Prada (sempre branca), as duas moedas para entregar à Caronte, o barqueiro de Hades que o levaria a navegar pelos rios Estige e Aqueronte, e assim transporia as águas que separam o mundo dos vivos para o mundo dos mortos. 
E foi assim, que naquela noite, sem nem saber porque, caminhou rumo aquela casa religiosa.
Já tinha tido contato com  os ritos afro-brasileiros, e achava legal o ritual. Pensou que seria uma noite divertida. Assim como seria divertido um bom filme na TV ou ainda um documentário do discovery civilization.
Ao chegar, portas abertas, foi entrando encabuladamente...
Alguém lhe observou e ele notou.
Foi se apresentar. Não precisou.
Homem educado e receptivo, com fidalguia e cavalheirismo o recepcionou:
"- Entre, sinta-se em paz. A casa é tua e seja bem vindo!"
O psicanalista admirou-se. Comentou com seus botões:
" Sequer precisei me apresentar..."
Procurou e achou um lugar discreto e acomodou-se e passou a observar o ambiente.
Olhou as imagens e os movimentos iniciais e estava aguardando iniciar os rituais quando algo inusitado aconteceu.
As pessoas iam chegando e todos, ao chegar buscavam uns aos outros e trocavam um beijo na mão e um beijo na face. 
O psicanalista viu e sua observação cartesiana concluiu:
Aquele gesto não era um ritual. Aquele gesto era um gesto de amor. Amor fraternal. 
E na sequência, alguém que nunca tinha visto, dirigiu-se à ele. E sem mais nem menos, repetiu com ele o gesto. 
Alguém que ele, nem mesmo hoje sabe quem é, lhe beijou a mão e a face.
E veio mas alguém, e outro alguém, e não era só com ele, pois à todos que estavam ali, era distribuído assim, naturalmente, o carinho e o afeto através de um gesto de puro amor fraternal. 
Ficou sem palavras. E meio que sem chão. E meio que sem graça. E meio que sem sua ambidestra lógica racional.
Os participantes se uniram em um grande círculo e de mãos dadas, e palavras acolhedoras foram proferidas indicando que iniciaria o trabalho. E então veio uma prece. E outra prece. E pra espanto do psicanalista, eram preces cristãs. O mesmo Pai Nosso e a mesma Ave Maria que eram rezadas na catedral metropolitana. Só então, os tambores africanos começaram tocar. 
O psicanalista estava numa sessão de Umbanda. E estava prestes a testemunhar uma sessão de entidades conhecidas como EXUS. 
Entusiasmou-se.
Admirou-se vendo os médiuns incorporarem suas entidades. Havia uma disciplina espartana naquilo tudo. E não identificou a teatralização que já havia visto em outras casas e mesmo em outras crenças e religiões. Estava tudo sendo sereno e equilibrado. 
Foi quando algo aconteceu, que marcaria indelevelmente a alma sequiosa do psicanalista ateu. 
Foi ai, que o psicanalista que tinha já percebido o amor fraterno daquele povo, deu o primeiro passo para entrar no Mundo Encantado dos Orixás.

Fraterno Abraço
André Lacerda - Psicanalista

P.S.: Esse projeto, além de publicado semanalmente aqui no blog, também estará disponível na página REFLEXÕES DA PSICANÁLISE do Facebook, a qual sou um dos 3 psicanalistas que publica, e no meu próprio perfil pessoal que é público.
  
      
      
   


sábado, 5 de maio de 2018

O Psicanalista No Mundo Encantado dos Orixás!

Por aqueles dias, o psicanalista não passava por seus melhores momentos. Provavelmente passava por uma das piores fases de sua já não tão curta vida, e já se considerava (desejava?) encaminhado para o começo da derradeira caminhada rumo ao cosmo desconhecido...aquele lugar que ele mesmo acreditava ser apenas o lugar do eterno dormir...
Há exatos treze meses amargava a dor de lutos e de perdas pessoais consecutivas e avassaladoras e nem mesmo sua atividade clínica (que sempre o fez ter fé) o animava.
Havia enfim, perdido a fé, a coragem e a vontade...
Tinha concluído (com láurea acadêmica) o trabalho onde colocou psicanalista no cenário do câncer e dos pacientes terminais, e achava por fim, que, chegava... Tinha combatido o bom combate. Mas perdido a fé...
Agora era esperar o beijo derradeiro daquela balzaquiana gostosona, bronzeada de sol e com marquinha de biquíni (como o próprio psicanalista havia definido a morte anos atrás) .... e torcia para que este lhe fosse breve e sem muita intensidade...
Já tinha percebido em si próprio os sintomas de uma depressão... ou talvez, um Transtorno Depressivo Recorrente, e depois de algumas tentativas sem sucesso, entregou-se. Estava entregue. Mas, com  a serenidade dos racionais, assimilou a finitude.
Que venha pois aquela que ninguém quer ver... pensou: 
- "Pelo menos, a minha virá em forma de balzaquiana gostosona, com cabelos negros, bronzeada de sol, e com marquinhas de biquíni..." 
E quase que ensaiou um riso debochado de si mesmo pensando na sua fantasia com a sua própria morte.
E segue o baile mesmo que sem música...
E então, numa manhã do abafado verão de Porto Alegre, na beira das águas do seu Guarujá, conversando com  amigo, recebe deste um convite:
-" Tchê... tu tens que ir conhecer a casa de religião que eu frequento. É bem pertinho daqui da tua casa... leva a tua irmã... tu vais gostar!"
O Psicanalista, delicadamente, mas sem nenhuma convicção, e acho até quer por mera formalidade social respondeu:
-" Tudo bem. Qualquer dia apareço..."
O psicanalista passou o resto da manhã pensando naquele convite e naquela questão.
Desde tenra idade era ateu. E tinha convicção do seu ateísmo e tinha até orgulho do seu racionalismo.
Já tinha visto muitas mortes pra entender a lógica natural da vida e da morte.
Já tinha visto muita vida pra entender que a busca humana pela eternidade, nada mais era do que um mecanismo de defesa do ego em busca de consolo para sua inexorável finitude. Por isso a humanidade buscava nas crenças, na metafísica, na metapsicologia e até na ufologia seus próprios desejos de jamais morrer.
Por força de ofício (afinal o psicanalista deve entender e saber ouvir todas as linguagens), e por curiosidade filosófica ou até por mera e simples curiosidade, desde sempre andou "passeando" pelos mais diversos ritos religiosos.
Conheceu o cristianismo e seus dogmas nas mais variadas religiões, que mesmo ante evidências de pedofilia, lavagem de dinheiro (pastores com dólares em cuecas), orgias sexuais e financeiras, enriquecimento ilícito ( podia citar vários artigos do Código Penal), autointituladas cristãs.
Procurou entender o Islamismo e mesmo em meio à Jihads, terrorismo, talibã e degolas transmitidas ao vivo pela Al Jazira, percebeu uma mensagem de amor nos ensinamentos do profeta Maomé.
Estudou a doutrina de Kardec. Gostou da decodificação do espiritismo feita pelo francês. Achou coerência na mensagem de amor de Chico Xavier. 
Freudiano até a medula, estudou o judaísmo pela obra de Freud. Não simpatizou muito com aquele deus colérico e vingativo. E se perguntava:
-" Que maldito deus é esse que manda um pai sacrificar seu próprio filho em holocausto, apenas pra testar a fé???"
Conviveu com as religiões afro e seus cultos. Achava lindo o ritual. A vó materna, batuqueira umbandista levava o menino que um dia habitou em mim nas matas, praias, cachoeiras e rios, e aquele movimento todo fascinava a criança ( certamente hiperativa) pelas cores, cantos e mistérios.
Respeitava todas as religiões. 
Mas não se emocionou ao pé da cruz do Cristo morto. 
Não se emocionou na mesquita e nem ouvindo os cânticos voltados pra Meca.
Também não se emocionou quando visitou a casa de Chico Xavier em Uberaba e comparou o livro e o filme Nosso Lar, com a obra utópica de Aldous Huxley ( Admirável Mundo Novo).
Não pediu nada nem se emocionou ante o dito sagrado Muro das Lamentações.
Dançou, bebeu e comeu e ficou muito feliz no terreiro da Mãe Menininha do Gantois em Salvador (a Roma Negra como Caetano citou). Vibrou ao som dos atabaques africanos. Mas também não se emocionou.
Continuava ateu. E afirmava isso numa pedância intelectual tão obtusa e cartesiana que faria o próprio rei da pedância intelectual Jaques Lacan (sim...lacaniano. Freudiano/lacaniano) corar de vergonha.
Em diálogos com a mãe morta recentemente, se superava :
Dizia a amada mãe quase que pedindo:
-" Meu filho, tu tens que acreditar em algo.... o próprio Shakespeare que tu gostas já escreveu que "entre o céu e a terra existem mais coisas do que pode imaginar tua vã filosofia". "
E ainda a mãe saudosa perguntava:
-" Tu não acreditas no Grande Arquiteto do Universo?" ( Fazendo uma alusão ao principal dogma da Maçonaria).
Ele sempre respondia com um riso incontido:
-" Acredito Norma (como chamava a mãe). Esse projetou Brasília. E projetou o nosso lindo museu Iberê Camargo às margens do nosso Guaíba. O grande arquiteto do Universo. Oscar Niemeyer!!" 
Enfim.... o psicanalista passou o resto daquela manhã de verão pensando nessas coisas todas.
Mas aquilo não ia parar por ai... 
O convite do amigo não lhe saia da cabeça.
Algo aconteceria naquele dia.... 

Fraterno Abraço
André Lacerda - Psicanalista

P.S.: Inicio assim, o Projeto  " O PSICANALISTA NO MUNDO ENCANTADO DOS ORIXÁS" que vai virar livro. E desde já informo que toda e qualquer renda obtida em torno desse projeto, será destinada à comunidade necessitada da Zona Sul de Porto Alegre.
       
    







  


terça-feira, 25 de julho de 2017


Prezados Amigos.
Na publicação de hoje, abordo um tema delicado e, pra dizer o básico, algo bastante subjetivo e que ao meu juízo, pouco discutido no Brasil.
Saúdo e abraço meus amigos da bela capital do Estado do Mato Grosso do Sul, Campo Grande, a linda cidade Morena de minhas fantasias infantis ( já escrevi crônica explicando isso) onde tenho grandes amigos e um número considerável de leitores.
Eis que sei, que a população de Campo Grande tem discutido bastante o tema em virtude de eventos ocorridos e as opiniões se dividem.
Os que me conhecem, e realmente sabem quem eu sou enquanto cidadão e profissional, sabem que mesmo antes de ser psicanalista, sempre fui alguém que lutou pela democracia e pelo Estado Democrático de Direito, que felizmente nós todos conquistamos a duras penas e temos (ou devemos ter) a convicção de que a liberdade democrática que temos não nos foi dada por João, e sim foi resultado da vontade do povo Brasileiro.
Dito isso, por crer no Estado Democrático de Direito, sigo o princípio que sentença judicial não se discute. Sentença judicial se cumpre, ou se recorre no foro devido.
Contudo, publico a seguir, estudo realizado em 2013 à pedido do blog Re-Tecendo a Vida, destinado à pacientes portadores do Transtorno e aos grupos de apoio e a familiares.
Espero que tal estudo, seja minha modesta colaboração aos amigos do Mato Grosso do Sul, na formulação de suas opiniões. 
   



BORDERLINE
Por: André Lacerda - Psicanalista
Clínica Psicanalítica Ltda-
P.Alegre-RS 
Membro SBPI Reg. nr 690

Ultimamente uma patologia que vem acometendo nossos jovens é o que tem sido chamado de Transtorno Borderline de Personalidade. 

Borderline vêm do inglês limítrofe e assim, significa algo que está no limite entre duas coisas que nesse caso é a neurose e a psicose. O termo já causou grande polêmica sendo que alguns teóricos e pesquisadores são contra o uso da denominação porque consideram-na ambígua.

Outros acham que tais pacientes deveriam ser classificados como psicóticos. Mas se partirmos das questões de ordem prática, não poderíamos deixar de dizer que qualquer dos transtornos mentais que surgem na clínica prática, são na verdade, um coquetel de traços encontrados em muitas patologias. Ás vezes você encontra sinais de quase todas as principais patologias presentes no quadro de um único paciente.

Curiosamente, como veremos mais à frente, o Transtorno de Personalidade Borderline é um Transtorno onde se consegue estabelecer um diagnóstico mais preciso justamente porque há uma característica determinante no diagnóstico: os micros surtos psicóticos. Mas de uma forma geral você vai perceber que muitos dos traços encontrados no borderline, são absolutamente semelhantes aos traços encontrados nos paciente com Transtorno Narcísico da Personalidade sendo que, a diferença se estabelece unicamente pela forma de obtenção das provisões narcísicas que no borderline é a atenção incondicional do outro.

Como resultado de inúmeras pesquisas feitas a partir dos trabalhos de colegas ao redor do mundo, reuni aqui um razoável número de informação sobre os pacientes Borderline, para que tanto os colegas como os leigos possam ter uma idéia do significado dessa patologia, e seus efeitos na vida daqueles que são por ela vitimados. Talvez algumas pessoas possam, através das informações, buscar a ajuda se não para livrarem-se completamente da patologia, pelo menos para atenuar aqueles traços mais ruins e que impedem um adequado relacionamento com a vida.

Farei a apresentação desses dados em duas etapas. Na primeira faremos uma descrição mais sucinta, com orientações sobre como reconhecer esse tipo de Transtorno e, numa segunda etapa, explicaremos mais detalhadamente os aspectos que consideramos importantes nos traços predominantes dessa patologia.

O PADRÃO COMPORTAMENTAL

Existem seis padrões comportamentais que identificam um paciente Borderline ou o TPB - Transtorno de Personalidade Borderline:

1. VULNERABILIDADE EMOCIONAL

Os indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline têm dificuldades severas de lidar com emoções negativas, incluindo-se ai uma exacerbada sensibilidade para estímulos emocionais negativos, grande angústia diante de situações emocionalmente intensas e uma séria dificuldade para retornar às condições emocionais normais.

2. AUTO ANULAÇÃO

Indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline têm altos padrões de expectativas para si próprios e uma tendência a invalidar ou não reconhecer suas próprias respostas emocionais, pensamentos, convicções, e comportamentos.

3. CRISES E MANIPULAÇÕES

Indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline sempre estão envolvidos em comportamentos manipulatório suicida, ou seja, são comportamentos que normalmente simulam o suicídio mas não o levam a cabo. São movimento não fatais, auto agressões intencionais que resultam em algum tipo de ferimento corporal, auto-mutilação ou queimaduras que o indivíduo infringe a si mesmo. Geralmente o desejo de morrer é nulo ou se existe é frágil.

4. AFLIÇÃO INIBIDA

Indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline geralmente são incapazes de chorar ou expressar uma grande tristeza de forma apropriada.

5. PASSIVIDADE ATIVA

Indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline não conseguem solucionar os problemas de sua própria vida de maneira ativa e assim procuram fazer com que os problemas sejam solucionados por outras pessoas.

6. COMPETÊNCIA APARENTE

Indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline sempre parecem mais competentes do que realmente são ou do que mostram seus comportamentos e realizações.

ENTREVISTA DIAGNÓSTICA COM PACIENTES BORDERLINES.

Geralmente numa entrevista com um paciente borderline devemos estar atentos aos seguintes aspectos:

1. Afetos (aspectos subjetivos)

Depressão crônica (que eles sempre negam*), desesperança, desamparo, sentimento de inutilidade, culpa, raiva (incluindo freqüentes expressões de raiva aberta ou velada), ansiedade, isolamento, tédio e sentimento de vazio.

2. Cognição (raciocínio/Intelectual)

Pensamentos estranhos, percepções não usuais, paranóia que não é passível de ser descrita e micro surtos psicóticos.

3. Impulsividade (comportamental)

Adição de drogas, desvios sexuais, suicídio manipulativo, gestos suicidas e outros comportamentos impulsivos como cleptomania e abuso alimentar. Muitos dos casos de Compulsão Sexual podem estar inseridos nesse tipo de Transtorno já que o sexo pode funcionar como uma adição importante na obtenção de contato com o outro.

4. Relações Interpessoais

Intolerância para solidão, abandono, engolfamento (no sentido de envolver o outro completamente), medos de aniquilação e fantasias de destruição, relacionamentos tempestuosos, manipulação, dependência, desvalorização, sadismo/masoquismo, demandas excessivas, auto intitulação (tentativa de parecer mais importante do que realmente é).

CRENÇAS CARACTERÍSTICAS DOS INDIVÍDUOS COM ESSE TRANSTORNO DE PERSONALIDADE.

Geralmente é importante que algumas perguntas fundamentais sejam respondidas na entrevista com o borderline. Muitos deles são hábeis no sentido de terem aprendido a dissimular alguns padrões comportamentais. Geralmente, nas entrevistas, observo tanto a linguagem corporal como também as linguagens, verbal e paraverbal. Abaixo eu fixo um tipo de roteiro que eu utilizo como referência e que foi acrescido de informações obtidas na experiência de outros colegas. Tais dados são fundamentais para definir com alguma clareza o diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline. Muitas dessas declarações são observadas durante as entrevistas com esse tipo de paciente.

1. Eu sempre vou estar só. Nesse caso observa-se uma crença fortemente arraigada de que eles não tem meios de conseguir afetividade e nem mesmo um vínculo legitimo e duradouro com outras pessoas significativas. Mesmo quando esse vínculo ocorre, tal paciente não crêm que o outro possa vincular-se a ele;

2. Eu não acredito que alguém possa cuidar de mim com sinceridade ou que alguém esteja realmente disponível para ajudar-me.

3. Quando as pessoas me conhecerem de verdade, elas me rejeitarão e dessa forma, não poderão me amar e assim, vão me abandonar.

4. Tenho dificuldade de dar conta da vida por meus próprios meios. Eu sempre preciso de alguém por perto.

5. Geralmente eu tenho que adaptar minhas necessidades às necessidades de outras pessoas. Caso eu não faça isso elas poderão me abandonar ou atacar-me.

6. Não tenho controle sobre mim mesmo.

7. Não consigo ter disciplina comigo mesmo.

8. Se você me perguntar sobre minhas reais preferências, eu realmente não sei o que eu quero.

9. Prefiro que as demais pessoas tomem decisões, pois, nunca sei quando de fato estou certo. È muito confuso e eu estou sempre em dúvida quanto às minhas opiniões.

10. Preciso ter um completo domínio sobre meus sentimentos senão as coisas não sairão bem como deveriam sair.

11. Sinto-me uma pessoa má e eu devo ser punido por isso.

12. Se alguém falhar em manter uma promessa que feita para mim, essas pessoa já não terá mais a minha confiança.

13. Eu nunca vou ter o que eu quero ou desejo. Nem alimento ilusões quanto a isto.

14. Meus sentimentos ou opiniões são sem pé nem cabeça, não acho que possa fundamentá-las de forma coerente.

15. Se eu concordar com as coisas que algumas pessoas falam, Corro o risco de perder minha própria autonomia.

16. Se eu me recuso a atender um pedido de outra pessoa , corro o risco de perder a amizade dela.

17. Se disser o que eu quero, as pessoas vão ficar aborrecidas comigo.

18. As pessoas são más e tendem a abusar de você.

19. Eu sou impotente e vulnerável e dessa forma, não posso proteger a mim mesmo.

20. Se as pessoas realmente me conhecerem, quero dizer, conhecer a fundo, elas vão ver que sou um fracasso, um embuste e assim, vão me abandonar.

21. As outras pessoas não estão dispostas a ajudar ninguém sinceramente.

22. Há sempre uma sensação de que se você se deixa levar, acreditar em alguém e, nesses casos, você vai acabar ferido, decepcionado.

Espero ter somado no entendimento da doença, e sobretudo no compreendimento das circunstâncias que envolvam indivíduos que acreditem, sofrem muito com esse mal.
Fraterno Abraço.

André Lacerda
Psicanalista

quarta-feira, 19 de julho de 2017

PSICANALISTA: Menestrel do amor? Ou Arauto da Desgraça?

Meus caros amigos leitores!
Antes de qualquer coisa penso que devo explicações aos que sempre me prestigiaram. Afinal não tenho feito nenhuma publicação desde de outubro do ano passado.
Os que me acompanham, por certo sabem que desde 2015 estou dedicado em projeto que insere o psicanalista no cenário de tratamento oncológico/quimioterápico de onde minha querida e atenta editora Laura já adiantou para breve o lançamento do livro que nasceu disto tudo.
Inobstante, ainda lambo feridas muito recentes de uma perda traumática, cruel e inesperada que ainda hoje sangram, mas tenho fé que a dor da ausência aos poucos vá se transformando apenas em saudade.
Dito isso...
Vivemos tempos sombrios. Tempos de medo. Tempos de dúvida. Tempos de incredulidade ante os pavores que surgem a cada dia nos jornais e mídias diversas.
O psicanalista que habita em mim, por vezes se cala para não ter de falar da realidade brutal das ruas e dos bastidores da nação, e depois de tudo ainda tentar ajudar no alívio de quem se deprime com a dor que já virou rotina.
Que alivio pode ter um pai que teve seu filho morto pela mão desamparada do ladrão de telefones, ou pela falta de mão dos responsáveis pelas  políticas públicas de saúde que nos atira cada vez mais no rol dos esquecidos???
Como ajudar a desconstruir o medo de parar no sinal vermelho, se em cada sinal vermelho existe a real possibilidade de se ter a cabeça explodida por uma bala nem sempre perdida??
Como incitar ao trabalho e ao desenvolvimento pessoal quando vemos o criminoso virar delator que vira amigo e que depois  vira inimigo e logo em seguida volta a ser criminoso mas com direito a virar multimilionário livre que navega ouvindo Barry Manilow em águas ianques??
Como incentivar a alma tranquila e o coração sereno para evitar o stress e assim, dar menos chances para que o câncer conquiste seu espaço, se a cada alvorecer só temos a certeza de que a nossa rotina é absurdamente estressante?
Assim... não resta dúvida, que enfrentando esses tão presentes demônios, o psicanalista só pode se sentir o arauto da desgraça...
Mas e o amor? Mas é a amizade? E o encontro com amigos queridos? e a família? E a liberdade???
...
Penso que no ofício de tratar da dor humana, inclusive no combate aos sintomas produzidos pelos demônios citados, os principais remédios são exatamente o amor, a amizade, a esperança e a liberdade. 
E isso, mesmo que seja só um pouquinho, transforma o arauto da desgraça em menestrel do amor. 
Eu pelo menos tento imaginar isso....

Fraterno Abraço
André Lacerda
Psicanalista

P.S. Dedico essa crônica aos meu leitores do Blog, aos amigos da página Reflexões da Psicanálise e aos seguidores da página André Lacerda - Psicanalista da minha querida editora Laura. 
Dedico em especial, à Ana Paula Dias, mãe esplêndida, professora dedicada, e sobretudo uma alma grandiosa, que depois de ter sido minha paciente reencontrei depois de muitos anos e que tive a maior felicidade de dizer: Fico feliz de te reencontrar e ver que de mulher guerreira sobrevivente, te tornaste uma mulher guerreira e VIVENTE.