sexta-feira, 11 de abril de 2025

O "novo" Bullying e a "velha" Psicanálise

 Na psicanálise, o bullying é compreendido como um fenômeno que revela dinâmicas inconscientes tanto de quem agride quanto de quem sofre a agressão. Ele é visto como uma repetição de conflitos internos, muitas vezes ligados a sentimentos de angústia, inveja, ódio ou insegurança.

De modo geral:

Para o agressor, o bullying pode ser uma tentativa inconsciente de lidar com sentimentos internos intoleráveis — como fragilidade, medo de exclusão ou inferioridade. Ao atacar o outro, o agressor "projeta" no colega aspectos de si mesmo que ele não aceita. Ou seja, ataca no outro o que não suporta em si.

Para a vítima, a psicanálise considera que o sofrimento causado pelo bullying pode reativar traumas anteriores ou feridas narcísicas (atingindo a autoestima e o sentimento de identidade). Em alguns casos, a vítima pode também, inconscientemente, ocupar uma posição de passividade ou de “bode expiatório” em grupos, repetindo padrões de exclusão que já tenha vivido antes.

No nível coletivo (grupal), o bullying também pode ser interpretado como um mecanismo de defesa do grupo para manter uma coesão interna: ao eleger um alvo, o grupo “projeta” suas tensões e ansiedades em um indivíduo, tentando expulsar o que é vivido como "estranho" ou ameaçador.

Autores como Freud (noções de agressividade e pulsão de morte), Melanie Klein (inveja e identificação projetiva) e Winnicott (relacionamentos e amadurecimento emocional) ajudam a pensar o bullying a partir de conceitos como pulsões, defesas primitivas e relações objetais.

Para Freud, o bullying pode ser entendido principalmente a partir da ideia de que a agressividade é uma parte constitutiva do ser humano. Ela não é algo que vem apenas do meio ou da educação, mas algo interno, ligado às pulsões.

Alguns conceitos importantes para entender isso:

Pulsão de morte (Thanatos): Freud, no final da sua obra (principalmente em Além do Princípio do Prazer, 1920), propôs que existe no ser humano uma pulsão voltada para a destruição — tanto do outro quanto de si mesmo. A agressividade do bullying seria uma manifestação externa dessa pulsão de morte, uma maneira de descarregar essa força destrutiva.

Narcisismo e agressividade: Em Introdução ao Narcisismo (1914), Freud mostra como o narcisismo é frágil e precisa ser defendido. O bullying poderia ser visto como um ataque narcisista — o agressor sente que sua autoestima está ameaçada e, para se proteger, diminui o outro.

Mal-estar na civilização (O Mal-Estar na Civilização, 1930): Freud diz que a vida em sociedade exige a repressão das pulsões agressivas, mas essa repressão nunca é completa. O bullying seria, então, uma espécie de “vazamento” dessa agressividade reprimida, dirigida contra um alvo mais fraco.

Para Freud, o bullying é a expressão de impulsos destrutivos internos (pulsão de morte), agravados pela necessidade de proteger o próprio ego (narcisismo) e pelas tensões entre as exigências da sociedade e os desejos instintivos do indivíduo.

O olhar do Winnicott sobre o bullying é bem diferente de Freud e Klein, porque ele coloca o foco na relação com o ambiente — ou seja, o bullying não surge só das pulsões internas ou das fantasias, mas da forma como o indivíduo foi cuidado (ou não foi cuidado) nos primeiros anos de vida.

Algumas ideias centrais para entender:

Falso self: Winnicott fala que, quando o ambiente (os pais, cuidadores) não é suficientemente bom — ou seja, não responde de forma adequada às necessidades emocionais do bebê — a criança pode construir um falso self. O agressor no bullying pode ser alguém que vive muito "protegido" atrás de um falso self: ele ataca o outro porque não consegue entrar em contato com suas emoções verdadeiras.

Ambiente falho e agressividade: Se, no começo da vida, o ambiente não foi capaz de lidar com a agressividade natural do bebê de forma acolhedora, essa agressividade pode ficar desorganizada. O bullying, então, seria uma forma patológica de expressar uma agressividade que não foi integrada de forma saudável.

Capacidade de concernimento: Winnicott diz que, para amadurecer emocionalmente, a pessoa precisa desenvolver uma preocupação genuína com o outro (concernimento). O agressor de bullying ainda não desenvolveu isso — ele não consegue perceber o outro como alguém real, que sofre. É como se o outro fosse apenas um objeto a ser usado para descarregar sentimentos ruins.

Violência como busca de limites: Às vezes, o ato agressivo é, inconscientemente, uma tentativa de encontrar um ambiente que imponha limites claros e confiáveis. Em outras palavras, o bullying seria uma maneira distorcida de pedir ajuda ou de testar se existe alguém que o contenha.

Winnicott entenderia o bullying como o resultado de uma falha no ambiente inicial. O agressor é alguém que não conseguiu desenvolver um self verdadeiro, que tem dificuldade para se relacionar de forma autêntica e para reconhecer o sofrimento dos outros.

Mesmo sendo 100% freudiano/lacaniano, pessoalmente e pela experiência clínica pessoal, estou inclinado pela teoria de Winnicott, observando que em se tratando de dramas psíquicos, os entendimentos multidisciplinares são sempre a melhor opção.

Fraterno abraço 

André Lacerda  - Psicanalista




sexta-feira, 4 de abril de 2025

Que venha o meteoro!

 Depois de combater o bom combate, volto a combater o bom combate...
Pelo amor de todos os santos!!!!! Estamos, sem sobra de dúvida, regredindo enquanto seres evoluídos. 
Me explico:
Vi a série adolescência...
Li, ouvi, assisti todos os debates sobre a série e imploro que quem não viu veja.
Ou não...
Será que todo mundo vai entender???
Me explico:
Primeiro, que alertado pelas coisas que vi, não posto mais coisas de minha amada filhinha nas redes sociais. 
Segundo, hoje mesmo vi a repercussão de um vídeo em que o youtuber (tchê...nem sei definir muito bem o que é isso) Felipe Neto se pronuncia pela sua candidatura à presidência da República.  Fui ver...é claríssimo que o comunicador faz uma alusão crítica e irônica do livro 1984 e ao domínio das redes sociais e da involução cultural à que estamos sendo engolidos. E ninguém entendeu??????
E o atentado proferido à professora em Caxias do Sul por 3 adolescentes??? Facadas premeditadas sem nenhum motivo (e mesmo que tivesse motivos)????
E as loucuras do Trump???? Não existem mais democratas nos Estados Unidos?? E no Brasil tem gente (muita gente) com o boné do MAGA???
E tem a coisa da pobre mãe de família que foi condenada à 14 anos de cadeia, o que me fez pensar:
Ela chega na sexta feira, reúne o marido, os pais, os filhos, e diz:
- Olha só pessoal... a pobre mamãe aqui vai dar uma saída por uns 3 dias porque vai ficar algumas (ou uma sei lá) noites num acampamento na frente de um quartel, depois vai invadir os prédios representativos da República,  vai desaforar a estátua da justiça,  e espero que vocês se comportem tá??? Segunda feira mamãe está de volta.
Isso bate??? Fiquei pensando na minha mãe... ou na minha mulher... ou na minha irmã...ou em qualquer pobre mamãe,  mulher, irmã...
Sei lá...
E tudo enfim me diz que estou vivendo um pesadelo...
Hoje  cheguei a falar pra minha mulher:
QUE VENHA O METEORO...
Voltei atrás porque minha filha ainda tem muito que viver... mas......
Sei lá...
Triste.
Temos mais ou menos 6 ou 8 mil anos de civilização...um nada na história do tempo...
Mas... isso tudo em 6 anos????
De onde saiu isso tudo???
Que venha o METEORO...

Fraterno abraço 
André Lacerda  - Psicanalista





domingo, 19 de janeiro de 2025

O Complexo de Édipo que eu penso!

 Meus Prezados!

Tive o prazer inenarrável de participar na semana passada de uma festa onde se reuniram os coleguinhas da minha filha.

Tudo ótimo e de cara, agradeço ao meu amigo Dr Alex e esposa, pais da Melissa aniversariante ,pelo convite e pelo encantamento da acolhida e da festa.

Nessa reunião, com os outros pais e mães, falamos especialmente da minha preocupacao com a evolução da Inteligência Artificial. Essa "ferramenta" realmente me impressionou pois diferente de outras formas, ela por exemplo produziu o texto que vou compartilhar a seguir.

Pra fazer o teste, perguntei pra IA, o que André Lacerda,  psicanalista, pensa sobre o complexo de édipo e suas repercussões clínicas. Tudo à seguir foi a IA que produziu. Vou editar algumas coisas porque ela cita: Lacerda, que é um dos "pensadores do Uol" (e eu não sei nada sobre isso) ...menos mal que me inclui no UOL, e poderia ser pior me incluindo como pensador da Jovem Pan, que nos últimos anos se transformou num diário oficial da extrema direita fascista, nojenta e tudo de ruim na minha opinião.

Outro ponto que edito, é que a IA buscou texto meu escrito no início de carreira, defendendo tese, e sendo texto acadêmico era escrito pra iguais (na formação) e mestres da minha área. 

Portanto...quando aparece "fase fálica" onde ocorre os tempos de Édipo ou Trama edípica,  lemos que isso ocorre entre os 3 e os 6 anos de idade.

Outra coisa, sobre as psicopatologias que podem ser consequência de um Édipo não resolvido. Pra psicanálise,  Neuroses , Psicoses e Perversões,  são os três grupos já citados em Freud. Nas neuroses, estão todos os transtornos citados na psiquiatria moderna (TDAH, etc). Nas Psicoses estão aquelas precedidas do sintoma alucinação (esquizofrenia etc). Já as Perversões encerra tudo aquilo que chamamos atualmente de psicopatia e sociopatia. 

Era isso meus amigo...então eis o que a IA disse que EU penso sobre um tema que estudo há mais de 30 anos e tenho dezenas de publicações inclusive nos meus dois livros já falados aqui.

..................

 Complexo de Édipo, no contexto da teoria psicanalítica de Jacques Lacan, é uma releitura e ampliação do conceito originalmente desenvolvido por Sigmund Freud. Lacan integra o Complexo de Édipo ao que ele chama de ordem simbólica, dando destaque ao papel da linguagem, do desejo e da estruturação do sujeito. A seguir, explico os pontos principais dessa abordagem:

1. O Nome-do-Pai e a Função Paterna

Lacan substitui a figura do pai literal pelo conceito de Nome-do-Pai (Nom-du-Père), que não se refere necessariamente ao pai biológico, mas sim à função simbólica que estabelece a lei e a proibição. Essa função:

Introduz o sujeito à ordem simbólica (a dimensão da linguagem e das leis sociais).

Rompe a relação simbiótica entre a mãe e a criança, ao proibir o acesso direto ao desejo materno.

2. Os Três Tempos do Complexo de Édipo

Lacan estrutura o Complexo de Édipo em três momentos:

Primeiro tempo: A criança percebe que a mãe é objeto de desejo, mas esse desejo não se dirige exclusivamente a ela. Aqui, surge a figura do pai como aquele que compete pela atenção da mãe.

Segundo tempo: A criança descobre que o desejo da mãe está submetido a algo maior, o que Lacan chama de falo. O falo não é um órgão físico, mas um significante que representa o que falta à mãe e organiza os desejos no campo simbólico.

Terceiro tempo: A criança internaliza a proibição do incesto, aceita a lei simbólica (a função do Nome-do-Pai) e passa a ocupar seu lugar na estrutura social e no campo do desejo.

3. A Castração Simbólica

A castração em Lacan não é literal, mas simbólica. Ela representa o limite que a linguagem e a lei impõem ao desejo. Aceitar a castração simbólica é fundamental para a entrada na ordem simbólica e para a constituição do sujeito como ser desejante.

4. O Falo como Significante

No Édipo lacaniano, o falo desempenha um papel central. Ele não é um objeto concreto, mas sim um significante do desejo que regula as relações entre os sujeitos na ordem simbólica. A criança percebe que ninguém o possui plenamente, nem o pai, nem a mãe, nem ela mesma, o que organiza o desejo de maneira estrutural.

5. A Formação do Sujeito

A passagem pelo Complexo de Édipo é essencial para a constituição do sujeito. É nesse momento que o sujeito se estrutura em relação ao desejo do Outro (principalmente o desejo da mãe) e aceita a diferença sexual e a separação como parte de sua existência.

Em resumo, Lacan desloca o foco do Édipo freudiano da questão puramente edipiana (a rivalidade com o pai pelo amor da mãe) para uma abordagem mais ampla, que enfatiza o papel da linguagem, da lei e da função simbólica na constituição do sujeito e na estruturação do desejo.

A análise clínica do Complexo de Édipo é uma abordagem central na psicanálise, especialmente no pensamento freudiano, e envolve a investigação de dinâmicas emocionais e inconscientes entre a criança e os pais ou figuras parentais. Este conceito é fundamental para entender o desenvolvimento psicossexual, relações familiares e estruturas de desejo e identidade.

O que é o Complexo de Édipo?

O Complexo de Édipo é a manifestação de desejos inconscientes da criança direcionados ao pai do sexo oposto e sentimentos ambivalentes em relação ao pai do mesmo sexo. No modelo freudiano, ele ocorre principalmente durante a fase fálica do desenvolvimento (entre 3 e 6 anos de idade). Este complexo pode ser dividido em duas dimensões:

Positivo: Desejo pela figura parental do sexo oposto e rivalidade com a do mesmo sexo.

Negativo: Identificação com o pai do sexo oposto e hostilidade em relação à figura do mesmo sexo.

Expressões clínicas do Complexo de Édipo

Clinicamente, o Complexo de Édipo pode ser observado por meio de:

1. Ansiedades ou conflitos em relações interpessoais: Dificuldades em estabelecer laços afetivos ou padrões de atração e rejeição podem refletir conflitos edipianos não resolvidos.

2. Repressão ou deslocamento: Desejos e impulsos edipianos podem ser reprimidos, surgindo de maneira indireta, como sintomas neuróticos, fobias ou comportamentos obsessivos.

3. Relações parentais disfuncionais: Interações excessivamente possessivas ou conflitantes com os pais podem indicar resquícios não resolvidos do complexo.

4. Transferência em análise: Durante a psicanálise, o paciente pode projetar no analista figuras parentais, revivendo os conflitos edipianos. Esta transferência oferece uma oportunidade terapêutica para compreender e trabalhar os sentimentos inconscientes.

Diagnóstico clínico

Na prática clínica, a investigação do Complexo de Édipo envolve:

História psicossexual do paciente: Exploração de relações familiares, narrativas infantis e a dinâmica emocional entre pais e filhos.

Sintomas psíquicos ou comportamentais: Ansiedade, culpa, ciúme ou sentimentos de inadequação podem ser reflexos de conflitos edipianos.

Análise dos sonhos: O conteúdo dos sonhos muitas vezes reflete desejos e conflitos inconscientes associados à dinâmica edipiana.

Observação do padrão de relações: Análise das relações do paciente com figuras de autoridade, parceiros românticos e amigos.

Desenvolvimento saudável e resolução

A resolução do Complexo de Édipo é fundamental para o desenvolvimento emocional saudável. Segundo Freud, a resolução ocorre quando a criança:

Aceita a impossibilidade do desejo incestuoso.

Identifica-se com o pai do mesmo sexo, internalizando valores, normas e limites.

Sublima os impulsos sexuais e redireciona as energias para outros interesses.

Se não resolvido adequadamente, o Complexo de Édipo pode resultar em:

Fixações: Permanência em conflitos edipianos não resolvidos, gerando dificuldades emocionais e relacionais.

Regressões: Retorno a estágios anteriores de desenvolvimento em momentos de estresse.

Transtornos psíquicos: Depressão, ansiedade ou transtornos de personalidade.

Aplicações na clínica contemporânea

Embora o conceito de Complexo de Édipo tenha sido questionado e revisado, ele permanece relevante em várias práticas clínicas:

1. Psicoterapia psicanalítica: Investigação dos conflitos infantis e suas repercussões na vida adulta.

2. Terapia familiar: Compreensão de padrões disfuncionais herdados de gerações anteriores.

3. Psicodinâmica do desejo: Análise das escolhas de parceiro e das dinâmicas emocionais em relacionamentos.

O Complexo de Édipo, mesmo reformulado por correntes contemporâneas, continua sendo um instrumento valioso para explorar a constituição do psiquismo humano e os conflitos que permeiam as relações familiares e sociais.

Ainda boquiaberto, e com medo de que realmente estejamos próximos do final dos tempos que conhecemos até então... espero ter ajudado (enquanto ainda o velho psicanalista seja útil)...

Fraterno Abraço 

André Lacerda - Psicanalista





sábado, 28 de setembro de 2024

Do Iluminismo à "moda" do chinelo com meia branca!!

 Eu juro que queria falar das maravilhas experiências que estou tendo acompanhando o desenvolvimento de minha filha numa das mais bem conceituadas escolas de Porto Alegre.

Andando pelo colégio fico imaginando a luta de Marcelino, estando o mundo ainda com a ressaca da idade das trevas e por fim começando a respirar o iluminismo, na maravilhosa Lyon, idealizando a educação que se tornaria global e de sólida importância na vida de milhões e milhões de jovens...a começar pela minha.

E foi no meio desse pensamento que vi...e vi novamente...e vi dezenas...daí...embasbaquei!

Erwing Goffman, prestigiado psicólogo e escritor, escreveu um livro que deveria ser leitura obrigatória para quem ousasse pensar em porque as coisas são como são. Falo de MANICÔMIOS,PRISÕES E CONVENTOS. Ali, o autor fala das instituições totais, e principalmente dos protagonistas desses nichos da vivência humana.

E daí...lembrei de uma coisa que não sei se é verossímil ou se é apenas uma lenda urbana. Provavelmente é verdade, porque já ouvi de pessoas oriundas do sistema prisional.

Eis a coisa:

Quando um indivíduo (pelas vias mais diversas e que nessa crônica não vamos abordar) começa a cumprir pena na prisão,  é sabido que ele é alvo de importunação sexual (estou cuidando pra não mostrar muita violência no que escrevo, mas entendasse como importunação sexual, estupro, curra e toda espécie de violência física).

Pois bem...antes de ser efetivamente estuprado, currado etc, o indivíduo apanha muito...apanha até perder o poder de reagir...e daí....

Até que um dia desiste de querer reagir e pelo menos das surras homéricas ele se livra...

Pra todo mundo saber que não precisa bater mais e que está tudo "certo", o indivíduo adota uma postura de praxe dentro do sistema prisional. Pra mostrar que ele está "aberto" a todo tipo de relacionamento sexual, ele passa a usar as calças bem abaixo da linha da cintura. Mas bem abaixo...aparece a cueca e até partes mais íntimas da anatomia se é que me entendem...

Mas...isso livra o indivíduo apenas do espancamento prévio. Continua no entanto, o estupro, a curra, e todo tipo de agressão sexual...

O sistema se molda. "Mutatis mutandis "...

Então o sistema criou outra convenção. 

Quando o indivíduo cansa da rotina "grupal", basta ele manifestar a vontade de casar. Ou seja...não quer mais ser estuprado, currado, violentado por muitos. Escolhe (como se isso pudesse ser chamado de escolha) ser a "noiva" ou a "esposa" de algum outro indivíduo (que tenha capacidade de protegê-lo) e para demonstrar isso, adota outra característica no vestuário: passa a usar meias brancas com chinelo. Isso significa que:

" estou disponível para ser a "noiva" e posso lhe servir como "esposa".

Reli o que escrevo até agora é confesso que fiquei nauseado...

Mas vamos em frente.

O que tem isso a ver com o Iluminismo, com a belíssima história de Marcelinho Champagna,  com o Erwing Goffman e a coisa lúdica de lembrar meu tempo de aluno andando pela escola da minha filha????

Tem a ver com o que vi...e vi novamente e vi dezenas de vezes...

Dezenas de meninos e meninas, jovens adolescentes (13,14,15,16,17,18 anos calculo eu),"desfilam" pelos corredores da escola a "moda" das calças caídas (não muitos), e das meias brancas sob os chinelos ( muitos...dezenas)...

Esta escola, uma das mais bem conceituadas de Porto Alegre, não é uma Instituição Total, e a orientação pedagógica é progressista, humanista e de primeira grandeza.

Os meninos e meninas não vivem em fétidas masmorras sob o domínio do medo e da obscuridade.

Será que eles e elas e os pais deles e delas sabem da origem desses "modismos"?????

Ou sera que Umberto Ecco estava certo quando falou que a evolução da tecnologia da comunicação (Internet e as redes sociais) além do acesso fácil à todo o saber humano, também traria a brutal epidemia de imbecis e ignorantes????

Sei lá...

Valei-me São Marcelino.

Valei-me todos os priores do santo iluminismo.

Fraterno abraço. 

André Lacerda- Psicanalista



quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Alma Tranquila e Coração Sereno!!

 Não sei como começar. E normalmente não gosto de começar com a palavra não. Mas desta vez ela se superou...
Por obvio que a delicadeza e a sensibilidade da professora Andréia e a cada vez mais maravilhosa experiência no Studio Andréia Andanças, me fez lavar a alma e me serenou o coração. 
Era a aula com a participação do pai...
Pai da bailarina...
No caminho pro Studio ela me advertiu:
- Papai...tu vai dançar comigo hoje, mas a bailarina sou eu viu???
- Tá bem minha filha. Espero estar digno de ser teu par...
-  Ah pai.. eu também te amo...mas a bailarina sou eu!!!
Fiquei pensando que talvez ela lá no seu cristalino e puro consciente, tenha sentido alguma espécie de invasão por expor o pai...ou quem sabe até possa ter sentido algum ciúme, pois todo mundo sabe que o pai é só dela...
Não sei...
Fui...
E fomos tão felizes que nem sei o que falar...
Tentei fazer tudo que a professora mandava, e sim, fazer jus à toda leveza e alegria da minha filhinha...
Ela não sabia se olhava pra professora, ou pro espelho, ou pra mim...mas estava radiante. 
A cada passo que eu dava ela me devolvia um sorriso e me deixava vermelho de vergonha...
Ao fim... o Studio ficou em "la media luz",e ela me fez relaxar com sua mãozinha delicada acariciando minha cabeça.
Experiência maravilhosa e ficará pra sempre na minha alma, que sim, pela minha filha, está cada vez mais tranquila e esta deixa meu coração já tão abalado, cada vez mais sereno.

Fraterno abraço!
André Lacerda  -  Psicanalista 


sábado, 10 de agosto de 2024

Reinundei a Zona Sul!!

 Ela me alertou a semana toda:
- Papai...você vai chorar muito de amor...
Eu certamente já estava certo que realmente ia chorar...sempre choro de amor quando minha filha apresenta alguma coisa nova.
Mas essa...!!! 
Quando a turminha começou a cantar, e eu só via ela, reinundei a minha amada zona sul que ainda não se recuperou por completo da tragédia das águas...
Espero que o sal dos meus olhos tenham feito o enxugamento das águas do velho Guaiba...

"Eu não existo longe de você 
E a solidão é meu pior castigo..."

E eu só via ela. As mãozinhas pequenas fazendo coraçãozinho pra mim...
Eu só ouvia a voz dela...

"Eu conto as horas pra poder de ver
Mas o relógio tá de mal comigo..."

Era a festa da família na Escola. Estando desatualizado sobre os novos conceitos pedagógicos e sociais do desenvolvimento acadêmico, amei a FESTA DA FAMÍLIA,  e não a Festa dos Pais. Achei inclusiva, abrangente e tudo de bom enfim.
Mas pra ELA...era a festa do pai...rs

"Futebol sem bola
Piu-piu sem Frajola
Sou eu assim sem você..."

Ela me olhava e quando meu olho batia no dela eu quase nem enxergava porque o meu choro de amor me obliterava a visão...
Que dia! Que manhã de sábado gelado em Porto Alegre!!!
Eu acho que chamei atenção das pessoas porque realmente chorei...de soluçar...
Que dia!!! Que vida a minha!!!

Meu abraço especial nesse dia aos Pais.
Todos os pais. 
Parabéns Colégio Marista Ipanema de Porto Alegre. Obrigado professores e todos envolvidos.

Fraterno Abraço 
André Lacerda  - Psicanalista




quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Das Olimpíadas à venezuela.

 Uma pausa nas crônicas. Uma pausa curta, mas foi feita.
Aconteceram muitas coisas...
E daí começo a pensar:
Eu lembro que deveria de ter 11 ou 12 anos e era um guri tutelado pelo ensino Marista, e estávamos em viagem pela América do Sul. Credo...parece que foi ontem...
Lembro que ao entrarmos no Uruguai (em plena ditadura tenebrosa e cruel diga-se de passagem) já de cara, nossa comitiva passou a ser acompanhada por um militar uruguaio, e lembro principalmente que o Irmão Marista Ewaldo Neis que morreu em 2016, falou pro nosso professor regente ( que omito o nome por estar bem vivo e inclusive me segue nas redes sociais), que ali também tinha milicos ...o ano era 1975/76.
Muitos anos depois, eu já adulto quase velho, o irmão Ewaldo que já em idade avançada, no colégio Champagna me revelou que naqueles idos de 75/76, já era adepto (certamente anônimo) da teoria da libertação.
Já eu, hoje sei que foi ali naqueles idos de 75/76 que me tornei adepto da esquerda socialista.
Me explico:
Me tornei realmente um ser de esquerda, quando comecei a estudar a Revolução francesa. E foi por pouco...porque como sabemos (????)  esquerda e direita nasceram da posição em que girondinos e jacobinos ocupavam na mesa que estava definindo a Constituição pós revolução. À direita, estavam os girondinos, membros da alta burguesia e que eram moderados e liberais à ponto de fazerem a revolução contra o absolutismo de Luis XVI. À esquerda, os jacobinos que liderados por Robispierre (entre outros) eram a baixa burguesia (que eram aqueles que não eram senhores de terra nem nobres mas, professores, médicos, advogados, camponeses, trabalhadores enfim), que era extremista e não admitia negociações com pensamentos liberais.
Quase que me tornei adepto da direita. Não gosto de extremismos. Mas.. não abro mão da IGUALDADE. E a direita girondina não admitia na constituinte parte da população francesa. Aquela parte que nunca teve voz nem vez. A esquerda jacobina não admitia por sua vez, que ninguém fosse excluído. Muito menos aqueles que a direita não não queria que fizesse parte das decisões.
Por isso...me tornei um ser se esquerda. Porque não existe liberdade sem igualdade. Não existe fraternidade sem igualdade. Não existe democracia sem igualdade. Não existe justiça social sem igualdade. Ponto. 
Por falar nisso,  a abertura da Olimpíada de Paris foi um tapa na cara do conservadorismo fascista, misógino, racista, homofóbico e etc.
Tapa não, porque aqueles que "acreditam nas flores vencendo o canhão " não dão tapa na cara de ninguém. 
E por falar nisso, minha filha participou de uma gincana na Escola, onde todos foram medalhas. A gincana arrecadou itens que foram destinados às vítimas da enchente que assolou o Rio Grande do Sul.
E por falar nisso, a CIÊNCIA,  alertou as autoridades sobre os eventos em 2021...
E por falar nisso, aplausos a sociedade civil que voluntariamente ajudou muito...mas.. já pensou se não fosse o Estado Público e Democrático, agora que os voluntários retomaram suas atividades pessoais???? Pensem nosso senhores e senhoras defensores do Estado mínimo...
E por falar nisso...Nicolas Maduro, é tão fascista quanto o fascista que está inelegível...só que parece que o Maduro está tendo mais sucesso na sua obsessão opressora. Pensem nisso senhoras e senhores da extrema esquerda esquizofrênica...
E por falar nisso...Robispierre perdeu a cabeça na guilhotina exatamente por ter se tornando um extremista esquizofrênico....

Fraterno abraço 
André Lacerda  - Psicanalista