sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Conhecendo os Mitos - ANTÍGONA

Antígona é a mais antiga obra conservada de Sófocles, representada provavelmente no ano de 442 A.C. Antígona é a filha de Édipo, pelo que se segue uma pequena introdução da vida deste para seguida de um resumo da obra. Partes desta introdução estão patentes na obra, mas não voltam a ser repetidas no resumo, e outras partes não estão nem explícita nem implicitamente na obra de Sófocles.
Como alguns leitores não perceberam que o objetivo destes textos é só contar o resumo da Obra que retrata o mito, repasso o texto de ontem que seria o primeiro e o de hoje seria sua sequência.
Espero que gostem...

Édipo era filho de Jocasta e Laio. Delfos tinha previsto que Laio morreria às mãos do próprio filho, que casaria com a mãe. Por isso ele deixou o filho no Monte Citerão pregado pelos pés, de forma a que morresse. Foi, no entanto, recolhido por um pastor e, mais tarde, adotado pelo rei de Corinto, sem que nunca soubesse as suas origens, nem os seus pais soubessem que estava vivo.
Um dia voltou a Tebas para matar a esfinge, mas pelo caminho encontrou Laio, o qual o mandou desviar-se da frente, pois ele era o rei de Tebas. Édipo não só não se desviou como ainda brigou com o "desconhecido" que acabou por matar. Acabou por matar a esfinge resolvendo o seu enigma e casou com Jocasta, a mãe. Tudo isto atraiu as Erínias.
Teve dois filhos da mãe, Etéocles e Polinices, e duas filhas, Antígona e Ismene. Quando descobriu quem eram Laio e Jocasta cegou-se e Jocasta suicidou-se. Antígona foi-lhe fiel e acompanhou-o enquanto estava vivo até ao exílio em Colono, onde morreu.
Entretanto Polinices tenta destruir Tebas, onde Creonte, irmão de Jocasta, se tinha tornado rei. O seu irmão, Etéocles, defende a cidade e é morto por Polinices, o qual acaba também por morrer. Tebas é salva, quando Menoceu, filho de Creonte, se atira para uma fogueira, pois fora previsto que a cidade só se salvaria se um dos filhos de Creonte fosse sacrificado aos Deuses.
Antígona volta à cidade e a história começa quando ela descobre o édito de Creonte: Etéocles será enterrado, mas Polinices será deixado a apodrecer para servir de comida às aves sem que tenha direito sequer a prantos.

 Resumo da Peça  Antígona

Antígona quer enterrar o irmão Polinices mesmo indo contra a lei de Creonte. Ismene, pelo contrário, aconselha-a a não o fazer, mas acaba por não a convencer e promete não contar nada a ninguém. No entanto, como se descobre mais tarde, começa a agir de forma comprometida.
O corpo de Polinices era vigiado por várias sentinelas, de forma a que a lei fosse cumprida, mas um dia as sentinelas encontram o corpo enterrado. Hesitante um dos guardas acaba por contar o sucedido a Creonte, que os obriga a desenterrar o corpo e os ameaça de morte caso não encontrei o culpado, acusando-os de terem sido subornados.
Eventualmente os guardas apanham Antígona que, entretanto, está noiva de Hémon, filho de Creonte, o qual está perdidamente apaixonado por ela. A jovem confessa tudo e Creonte acusa Ismene, que tenta ficar com parte da culpa, enquanto que a irmã diz que tem vergonha dela por não ter honrado os mortos. Creonte acaba por perdoar Ismene, mas condena Antígona a ser enterrada numa gruta, onde não poderá ver o sol ou falar com ninguém, apenas deixando um pequeno buraco para lhe darem o mínimo indispensável de comida, de forma a não atraírem a vingança dos Deuses.
Hémon fala com o pai. Ao princípio tenta conter as emoções, tentando convencer o pai a soltar Antígona através da razão, mas não consegue e acaba por fugir angustiado. Depois o próprio adivinho Tirésias recebe um terrível presságio e corre, guiado por uma criança, visto ser cego, para aconselhar o rei a libertar Antígona e enterrar Polinices, dizendo que pedaços do corpo dele estão espalhados por toda a cidade, trazidos pelas aves, e a contaminam. Ainda assim, Creonte recusa e Tirésias prevê que, por isso, correrá sangue da sua família e em breve.
Temeroso, Creonte pede conselho ao coro de anciãos tebanos, que lhe dizem que o melhor é fazer o que o adivinho disse. Ele enterra Polidices e depois vai soltar Antígona. Mas ouve gritos do filho dentro da caverna e corre, para encontrar Antígona enforcada, por suicídio, e Hémon chorando agarrado a ela. O filho cospe-lhe na cara, odiando-o, e mata-se enterrando a sua própria espada no peito.
Creonte sofre, mas um sentinela corre ao palácio, onde Eurídice, mulher de Creonte, se inteira do sucedido e vai para o palácio em silêncio. Quando Creonte volta a Tebas recebe a notícia de que a mulher o culpa de tudo, incluindo a morte do outro filho, e se matara furando o fígado com as próprias mãos.
Esse é o mito retratado na peça de Sófocles.
Fraterno abraço
André


quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Conhecendo os Mitos - ÉDIPO


Freud na sua genialidade compreendeu cedo de que para conhecer o homem, um bom começo seria conhecer o mito. E Freud adorava a mitologia.
A mitologia grega foi transmitida por vários poetas clássicos, e assim como Freud, adoto a obra de Sófocles como base de minhas reflexões cujo objetivo é tornar mais fácil a compreensão de como o mestre desenvolveu a teoria do complexo de Édipo.
Nesta teoria, Freud aborda a questão da criança, que ao atingir a maturidade sexual (segunda infância) entende as diferenças entre os sexos e tem sentimentos contraditórios de amor e hostilidade (amor à mão e ódio ao pai).
Então... Vamos ao mito???.

A lenda da família dos labdácidas, à qual pertencem Laio e Édipo, faz parte do Ciclo Tebano. Há várias versões, um tanto conflitantes; a mais conhecida, adotada aqui, foi transmitida pelo poeta trágico (e bota trágico nisso...risos) Sófocles que viveu entre 495 AC e 406 AC em Atenas na Grécia. Foi um dos maiores intelectuais da antiguidade clássica. Autor prolífico e consagrado em seu tempo, produziu cerca de 120 peças das quais restaram conservadas somente sete, entre as quais, Antígona, Ajax, Electra e Édipo Rei que passo a contar.

Laio era filho de Lábdaco, rei de Tebas, e reinou na cidade logo depois de Anfion e Zeto. Consta que os deuses amaldiçoaram toda a família devido aos seus amores não-naturais com Crisipo, filho de Pélops que governava a região do peloponeso. Mais tarde, casado com Jocasta, evitava ter filhos, pois o Oráculo de Delfos revelara que seria morto por um filho seu. Mas Jocasta embebedou-o certa vez e, decorridos os meses de praxe, Édipo nasceu.
Horrorizado, Laio mandou expor a criança aos perigos da natureza (crimes contra seu próprio sangue era o maior dos pecados), mas o servidor apiedou-se dela e o entregou a uns servos do rei de Corinto (ou de Sicion), Pólibo, que criou Édipo como um filho. Já homem feito, Édipo encontrou-se acidentalmente com Laio em uma encruzilhada e, durante a luta que se seguiu a uma discussão, matou-o.
Morto Laio, Creonte, irmão de Jocasta, assumiu provisoriamente o trono de Tebas; Édipo simplesmente seguiu seu caminho.
Tebas, algum tempo depois, foi assolada por uma terrível maldição: a Esfinge, monstro alado com corpo de leão e cabeça de mulher, postou-se nas imediações da cidade e devorava todos os seres humanos ao seu alcance. Consta que ela antes apresentava às suas vítimas um enigma e devorava somente aqueles incapazes de decifrá-lo — mas ninguém nunca atinava com a resposta correta...
Nessa altura Édipo havia descoberto, graças ao Oráculo de Delfos, que estava destinado a matar o pai e casar com a mãe. Assustado, exilou-se voluntariamente de Corinto e, ao saber do problema dos tebanos, decidiu enfrentar a Esfinge. Ela perguntou-lhe qual era o animal que de manhã andava com quatro pernas, ao meio-dia com duas e à noite com três. Édipo respondeu — corretamente — que se tratava do homem, pois ele engatinhava quando jovem, andava ereto na juventude e se apoiava em uma bengala na velhice. Enraivecida e frustrada com a perspectiva de uma longa dieta, a Esfinge atirou-se de um precipício e morreu.
Édipo foi nomeado rei de Tebas e ainda recebeu, como recompensa, a mão de Jocasta, viúva do rei anterior, que lhe deu os seguintes filhos: Antígona, Ismene, Etéocles e Polinices. Cumpriu-se, dessa forma, o oráculo, mas Édipo reinou sossegado em Tebas durante muitos anos.
Um dia, porém, a cidade foi assolada pela peste e, de acordo com mais um oráculo, a única maneira de debelar a doença era identificar e punir o assassino de Laio. Édipo conduziu as investigações e acabou descobrindo tudo: ele matara o próprio pai e se casara com a própria mãe.
Jocasta, ao saber da terrível verdade, enforcou-se; Édipo furou os próprios olhos com os grampos do vestido de sua mãe-esposa e abandonou Tebas, acompanhado apenas de sua filha Antígona. Antes de deixar a cidade, amaldiçoou seus filhos, Etéocles e Polinices, pois eles o desrespeitaram e destrataram. Em algumas versões, Édipo foi expulso da cidade por Creonte.
Já ancião Édipo chegou a Colono, na Ática, levado por sua filha Antígona. Foi bem acolhido por Teseu, então rei de Atenas e, agradecido, pediu para ser enterrado ali mesmo. Revelou então, ao rei, que a terra que recebesse seu corpo seria abençoada pelos deuses. Ciente disso, e na iminência do ataque dos sete chefes, Creonte tentou forçá-lo a voltar para Tebas; Teseu, porém, defendeu o hóspede e Édipo, ao morrer, foi enterrado em um local de Colono que apenas Teseu conhecia.
Bem... isso por si só, já seria muita tragédia não concordam?
Então aguardem até amanhã quando falarei de Antígona ...risos
Fraterno Abraço
André



quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Retorno à Freud - Os Escandalizados!

Antes de escrever o texto da série atual, quero comentar uma coisa que tenho acompanhado pelos jornais nos últimos dias. O caso da menina de 16 anos que tem sua foto mostrando os seios divulgada nas redes sociais pelo namoradinho também adolescente. A menina se matou quando se viu semi nua na rede, e antes do suicídio, avisa sua melhor amiga que iria faze-lo pois não suportaria a vergonha que o fato produziria. A amiga avisa aos familiares, mas estes chegam atrasado. Quando chegaram em casa a menina estava morta. O fato se deu essa semana no Rio Grande do Sul, e está nos jornais.
Pensemos meus amigos... qual foi a causa do suicídio?
Foi o fato de o garoto ter postado a foto da namorada semi nua na rede?
Foi o fato dela ter ficado semi nua numa web cam num momento de intimidade com seu namoradinho?
Foi o fato  da menina viver numa sociedade em que a (in) cultura estabelecida nega-se a tratar a sexualidade como uma matéria humana e por isso deveria ser tema obrigatório (nos moldes da realidade humana e não dos moldes do preconceito e da repressão) entre pais, filhos, médicos, psicanalistas, professores e todos os segmentos sociais???
Reflitam...
À propósito, no capítulo de hoje, vou mencionar  os eventos que deixaram muitos escandalizados quando Freud expôs a teoria da sexualidade...Mas isso foi no início do século passado né???? ( risos )
Os primeiros trabalhos de Freud não tiveram, quando publicados, eco na cultura dominante,  que preferiu ignorá-los. Os poucos eventuais leitores não formavam coro. Por exemplo, em 1900, num congresso de neurologistas e psiquiatras em Halle (Alemanha), sobre a patologia da histeria, ninguém citou Estudos sobre a Histeria publicado por Freud cinco anos antes. Mas, a partir de 1906, com a publicação de Três Ensaios e O Caso Dora, o silêncio não pôde mais ser mantido. Então, a cultura vigente, amparada por uma moral dita "sã", mas na realidade preconceituosa, e por uma ciência que preferia ignorar os processos psíquicos inconscientes e a sexualidade, com sua origem infantil, começou a berrar altos seus "retro-satanás", esperando assim solapar, nas bases, uma teoria e técnica que pareciam ameaçar a manutenção imobilizadora do status quo. E isso não somente na Áustria e na Alemanha, mas também na Inglaterra, Canadá, França, Hungria, etc.  
Seira impossível reunir aqui, todos os impropérios e acusações que Freud recebeu quando, com suas descobertas, foi sentido como o perturbador do doce sono em que descansava a humanidade. Contamos com um bom registro, feito por Jones em sua biografia de Freud, especificamente sob o título "Oposição". 
Embora com o passar do tempo a reação de opróbrio se apaziguasse bastante, ela foi particularmente acentuada nos anos que antecederam a primeira guerra mundial. Nessa época, o fundador da psicanálise e seus adeptos foram considerados perversos sexuais que favoreciam a licenciosidade; irresponsáveis que ameaçavam os altos valores da sociedade; paranoicos que avaliavam os outros pela perspectiva da própria loucura.
Em 1910, o professor Weygandt, num congresso em Hamburgo exclamou horrorizado:
"Esse ( a Psicanálise) não é um assunto que mereça ser discutido numa assembléia científica; é a polícia que se deve ocupar disso."
Em Budapeste, na Sociedade Médica, quando Ferenczi terminou uma conferência sobre a obra de Freud, foi informado tratar-se de pura pornografia e de que o lugar adequado para todo analista era a cadeia. No congresso de neurologia de Berlin ainda em 1910, o célebre professor Oppenheim propôs que se boicotassem todos os estabelecimentos onde as ideia freudianas fossem toleradas. Então, todos os presentes, inteiramente de acordo com a sugestão, levantaram-se, proclamando a própria inocência. Incentivando ainda mais o pathos, nessa atmosfera de caça às bruxas, o professor Raimann proclamou então:
" O inimigo deve ser perseguido em sua guarida!"
Em compensação, alguns anátemas daquela época soam hoje muito divertidos. Em 1910, num congresso na associação americana de neurologia, em Washington, o neurologista Joseph Collins referiu-se à tudo estudo psicanalítico como um trabalho "cheio de histórias pornográficas a respeito de puras virgens". Em Hamburgo, no mesmo ano, Weygandt afirmou que as interpretações de Freud nada mais eram do que "baixa literatura"; que seu método era perigoso porque provocava nos doentes ideias sexuais e que seu tratamento equivalia a "massagens nos órgãos genitais". Em 1912, Allan Starr, na Academia Médica de New York, qualificou Freud de " O libertino de Viena". Para Oppenheim, o relacionamento que se estabelecia no tratamento psicanalítico era uma forma moderna de "bruxaria delirante".
Enfim... ainda bem que isso era no início do século passado... né??? Ainda bem que as coisas mudaram e hoje, sabemos que quando o tema é sexo, não existe mais essa coisa de expulsar do paraíso ou necessidade de suicidar-se né??? ou não????

Fraterno Abraço
André
    

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Retorno à Freud - Obras da Maturidade

É interessante observar como algumas obras de Freud no período de maturidade encontram inspiração no que ocorrera com seus discípulos. Em 1913, na época da ruptura com Jung, um e dois anos, respectivamente, após a ida de Stekel e Adler, Freud publica Totem e Tabu, no qual dala do assassinato do pai da horda primitiva pelos filhos que se sentem subjugados por ele. Na história da humanidade, disso discorreriam restrições sobre os impulsos (culpa), originando as práticas religiosas (pelo receio de que outro crime se repetisse agora com eles) e o estabelecimento das normas sociais, com suas leis.
Também em 1913 conclui o ensaio Moisés de Michelangelo. Examinando os pormenores dessa estátua, observa representar Moisés vencendo o impulso de despedaçar a Tábua dos mandamentos no momento em que percebe que seu povo, ao construir o bezerro de ouro e dançar ao redor dele, regredira a uma crença anterior. Embora Freud não se refira especificamente a isto, neste ensaio, é possível, pela época, supor-se sua ira contida, identificando-se com Moisés, quando comenta, ao interpretar a postura da estátua:
" a luta bem sucedida contra a paixão anterior, em benefício de uma causa a que ele se dedicou", quando há " o conflito que deve surgir entre tal gênio reformulador e os resto da humanidade".
Freud considerava que, deixando de lado a teoria da sexualidade, seus discípulos dissidentes tinham buscado algo mais facilmente aceitável pela cultura, embora com isso fizessem regredir as conquistas alcançadas pela Psicanálise. Quase confirmando essa ideia, Jung escrevera-lhe da América: "Acho que minha versão da Psicanálise conquistou muitas pessoas que tinham até então permanecido afastadas em virtude do problema da sexualidade na neurose".
Em 1918 Freud publica História de uma neurose infantil ( o homem dos lobos), onde contesta as afirmações de Adler e de Jung, ao trazer um caso no qual se evidencia ter havido uma angústia sexual traumática infantil precedendo o desencadeamento posterior da neurose, na idade adulta.
Freud, preocupado pelo destino que teria a sua teoria e técnica nas ma~so de seus discípulos, começou a sentir certa saudade dos anos anteriores de "esplêndido isolamento", nos quais, como um Robinson Crusoé, embora sozinho, podia explorar sem intromissões sua ilha desconhecida, isto é, a Psicanálise. Comenta então em 1914:
"Quando penso nesses anos de solidão e os comparo com os anos de desordem e de tormentos nos quais vivemos atualmente, eles me parecem ter sido uma época bela e heroica". 
As dissidências de Adler e Jung foram as que mais tocaram Freud. Outros discípulos, ao se afastarem dele, deixaram-no muito menos atingido. Em parte por lhe serem menos importantes; em parte por ele ter, com o passar do tempo, um número sempre crescente de pessoas que o procuravam, assegurando-lhe, indiretamente, não haver risco de desmoronar o edifício psicanalítico por causa de alguém que se fosse.

Fraterno Abraço
André
  

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Retorno à Freud - A Maturidade

Em 1918, terminada a I Guerra, os livros de Freud começam a ser procurados com grande interesse e a ser traduzidos em várias línguas. Em todas as partes do mundo suas teorias eram discutidas  e seguidas, sobretudo nos meios culturais, apesar da oposição de pessoas de ideias antiquadas.
As descobertas de Freud sobre o inconsciente tinham também grande aceitação entre artistas, escritores e pintores. André Gide, um dos diretores da Nouvelle Revue Française, pedia autorização para a publicação das obras de Freud. Romalin Rolland e Stefan Zeweig visitavam-no e correspondiam-se com ele. Contatos íntimos pessoais e através de cartas estabeleceram-se com Arnold Zweig e Thomas Mann, fascinados pela perspectiva psicanalítica que tanto enriquecimento trazia a seus romances. Os surrealistas notavam mútuas confirmações entre suas inspirações e a descrição da psique dada pelo fundador da Psicanálise. André Breton, autor de Manifesto do Surrealismo, de 1924, aconselhava o usa da associação livre freudiana na escrita automática, para poder extravasar no papel a misteriosa riqueza das vivências mais profundas. Entre os que escreveram obras literárias em consonância com a Psicanálise, podemos lembrar: René Laforgue, F. Scott Fitzgerald, Aldous Huxley, James Joyce. O Pintor Dali, não somente quis visitar Freud, mas, traduzia em consonância  com ele, através de seus quadros, a complexidade conturbada da dimensão do inconsciente. Também a escola expressionista não se distanciou do reconhecimento dos dramas e conflitos humanos tão claramente captados por Freud.Com o passar do tempo, outra forma de arte, o cinema, interessou-se pela interpretação psicanalítica das personagens e de seus relacionamentos; dava-se idêntica perspectiva no teatro. Em 1936, quando já se delineavam no horizonte os perigos de uma perseguição nazista contra Freud, este recebeu, por ocasião de seu aniversário, como prova de estima e solidariedade, uma declaração trazida por Thomas Mann e assinada por mais de 191 escritores, entre os quais Romain Rolland, Jules Romains, H.G Wells, Virgínia Woolf, Stefen Zweig e outros importantes literatos.
Outra característica freudiana chama a atenção se olhar a foto (imagem de hoje) da reunião de 1929 em Oxford, onde observa-se o grande número de mulheres psicanalistas ao lado de seus colegas homens. Se pensamos que nas primeiras décadas  do século XX a mulher, por ser injustamente desvalorizada, era praticamente ausente nos meios científicos, devendo contentar-se, em caso de trabalho,  com empregos ínfimos, podemos facilmente concluir que o ambiente que Freud criara ao redor de si favorecia a colaboração igualitária  das mulheres, através de escritos e de iniciativas nas novas técnicas de tratamento.
Cito as que algumas que estavam presentes  na reunião de 1929 : Anna Freud (a dedicada filha de Freud que se tornou psicanalista especializada em crianças), Edith Jacobson, Melita Schmideberg, Karen Horney, Joan Rivière, Melanie Klein ( futuramente conhecida pela sua técnica de tratamento  e teoria referentes à criança), Ruth Brunswick, Barbara Low, Marie Bonapate ( fiel amiga de Freud já citada nesta série), Ella Sharpe , Helene Deutsch, Sybille Yates, Hermine von Hug- Hellmuth (que descobriu a técnica do brinquedo como instrumento para análise de crianças), Mira Oberholzer, Dorothy Burlingham, Eva Rosenfeld, Anny Katan, Marianne Kris e a brilhante Lou Andreas-Salomé que ingressou no movimento em 1912 já com 51 anos, e contribui para este com reflexões, pesamentos e dados por 24 anos. Até 1937, ano de sua morte.
estas foram as primeiras correligionárias da causa psicanalítica. Citei os nomes para facilitar,ao interessados, a eventual busca no "google" os nos manuais da literatura psicanalítica.
Vejam... isso, nas primeira décadas do século XX... Os amigos leitores lembras de alguma outra prática humana tão inclusiva com relação as mulheres antes da revolução da década de 1960???
Ainda sobre o apogeu, cabe dizer que Freud foi amplamente reconhecido:
Em 1921 eleito membro honorário da Sociedade Holandesa de Psiquiatria e Neurologia.
Em 1925, lord Balfour, em discurso famoso de Jerusalém, referiu-se aos três homens que mais tinha influenciado o pensamento contemporâneo, citando Bergson, Einsten e Freud. 
Em 1930, recebe o Prêmio Goethe de literatura.
Em maio de 1935, designado membro honorário da Royal Society Of Medicine.
Em 1936, eleito membro honorário da Associação Psiquiátrica Americana, da Associação Psicanalítica Americana, da Sociedade Psicanalítica Francesa, da Sociedade Neurológica de New York e da Real Associação Médico-Psicológica.

Fraterno abraço
André
          

sábado, 16 de novembro de 2013

Retorno à Freud - A Luta contra o Câncer e a Morte.

Insisto: O melhor estudo de Freud, está em Freud. Ou seja: O ideal, é ler a Obra completa do mestre, e sobre sua vida, tudo se vê nas famosas cartas de Freud.  Eu pessoalmente, tenho a obra completa com capa de couro na minha estante, mas nos últimos anos, tenho lido Freud no notebook e nos últimos meses, no tablet. A coleção eletrônica é completa e fácil de ter, portanto recomendo. 
Então, como dizem no meu amado Rio Grande do Sul... segue o baile e abre a gaita gaiteiro!
Reitero que na série em curso, me utilizo da maestria da psicanalista Amina Maggi Piccini através de seus estudos publicados em 1986.

Em abril de 1923 Freud informava, numa carta a Jones: 
"Detectei, há dois meses, um crescimento leucoplásico em meu maxilar e no meu palato, na parte direita, que removi no dia 20. Não voltei ainda ao meu trabalho e não posso engolir. Fui assegurado quanto à benignidade desse crescimento...Meu próprio diagnóstico foi de epitelioma, mas não foi aceito. O ato de fumar é estigmatizado como fator da etiologia dessa rebelião do tecido."  
Poucos dias antes de ser operado, Freud, no fim de uma conversa com seu colega médico Felix Deutsch, que fora encontrar-se com ele para discutir outras questões, pedira-lhe para dar uma olhada em sua boca, e foi  prevenindo de que lá veria "uma coisa desagradável". Deutsch, logo à primeira vista, percebeu tratar-se de um câncer em estado avançado, mas nada comentou a respeito, limitando-se a confirmar os conselhos dados pelo dermatologista Steiner de realizar uma ablação (oque foi feito) e de suspender definitivamente o fumo (o que foi seguido só esporadicamente). Conforme se pode deduzir das cartas a Jones, o Freud logo suspeitou da verdade que lhe foi ocultada. Sem avisar a família, Freud submeteu-se a essa cirurgia, não numa clínica bem equipada, mas num setor para pacientes externos dirigido por um tal Hajek, não havendo naquele momento nenhum quarto ou mesmo cama à disposição dentro do hospital e parecendo tratar-se, pela orientação do médico, de um problema fácil de ser resolvido. Só após a operação é que a família foi informada. A esposa Martha e a filha Anna, correndo ao hospital, encontraram Freud sentado numa cadeira de cozinha, banhado em sangue. Nenhum médico ou enfermeira estava de plantão naquele momento, mas somente uma freira. Na ocasião, ele foi salvo por um paciente internado, um anão débil mental mas amável e solícito que se precipitara para pedir socorro ao conseguir entender o perigo pelo qual estava passando o recém operado, impossibilitado de falar ou de pedir ajuda por intermédio de uma campainha desativada, mas enquanto isso esvaindo-se em sangue. Foi nesse clima que ocorreu a primeira das 33 operações que o martirizaram na tentativa de lutar contra o câncer. O laudo patológico revelou tratar-se de um epitelioma maligno, mas nada foi dito a Freud, que em seguida foi submetido a um tratamento doloroso de radiações.
Infelizmente, a operação não somente reduzira a abertura da boca, pela retração do tecido devido à cicatriz, mas tinha sido incompleta. Deutsch, percebendo pouco tempo depois a recorrência do tumor, comunicou aos discípulos mais próximos, reunidos em grupo (chamado de "Comitê"), Abraham, Eitington, Ferenczi, Jones, Rank e Sachs, a necessidade de uma cirurgia mais profunda, mas estes decidiram informar Freud somente depois da viagem que o mestre e sua filha Anna haviam programado meses antes a qual esperavam ansiosos ( viagem à Roma). Em seu último ano de vida, Freud sobre por Jones, dessa antiga e secreta decisão do "comitê" e com os olhos em brasa perguntou:
"Com que direito?".
Retornando de Roma, foi escolhido, por sugestão de Deutsch, o maior especialista em cirurgia bucal, Pichler, pessoa extremamente humana que não somente tratou de Freud com grande dedicação durante quinze anos, mas usou de sua autoridade e influência para protegê-lo quando da invasão da Áustria por Hitler.
Num plano operatório, feito em duas etapas (em 4 e em 12 de outubro de 1923), removeu-se todo o maxilar superior e palatar do lado direito. Essa operação mutiladora, que deixou a cavidade nasal e bucal unidas, foi realizada sob anestesia local porque a técnica de anestesia geral não estava ainda desenvolvida na Áustria. Poucos dias depois, percebendo não ter retirado tecido suficiente, Pichler efetuou uma terceira intervenção, desta vez completa. Freud não morreu de metástase desse tumor, mas de outro que apareceu posteriormente.
Sei e todos podem ter acesso as informações que mostram o quando Freud sofreu de 1923 até sua morte em 1939. Pensei em escrever os detalhes. Não me autorizo. Me recuso na verdade. Freud jamais deixou de analisar seus pacientes e nunca parou de escrever. Mesmo sem falar, compareceu à todos os seminários, e sua filha Anna lia suas palavras nas palestras que proferia. E me lembro que alguns anos atrás depois de extrair um dente que estava sobrando, fiquei 3 dias sem atender...
Em 1938, em Londres, Pichler realiza a 33ª cirurgia em Freud. Mas em fevereiro de 1939 reaparecia um novo epitelioma maligno, não muito  longe da base da órbita, num local que não permitia acesso para nova intervenção. Freud estava então definitivamente condenado.
"Sinto dores paralisadoras" escrevia à Arnold Zweig. E, a Marie Bonaparte: 
"Meu mundo é uma pequena ilha de dores flutuando num oceano de indiferença". 
Na região da última lesão havia agora tecido pútrido e um osso necrosado, o que dava origem a um desagradável odor que obrigou Freud à dolorosa decisão de não mais atender pacientes. Max Schur comenta a respeito:
"Seu estúdio transformou-se também no seu refúgio de doente, e do seu leito podia ver o jardim com as flores que amava. Contudo, o cãozinho chow a que Freud era tão ligado não podia suportar o mau cheiro...Quando levado até a sala do estúdio, o chow corria para o canto mais recuado. Freud sabia o que significava aquilo, e olhava para o seu cãozinho com uma tristeza trágica e consciente."
A doença continuou a avançar, causando-lhe terríveis sofrimentos, até que finalmente (dizem alguns que com a ajuda da filha Anna que ministrou altíssimas doses de morfina procedendo a eutanásia à pedido do pai) o pai da psicanálise, morreu em 23 de setembro de 1939.
Uau!!!!!!! Sofri para escrever isso...chorei escrevendo isso!
Na imagem abaixo, um vaso grego de 4 A.C., presente da princesa Marie Bonaparte à Freud. Esta peça, ostenta uma cena da lenda de Édipo e a Esfinge. Hoje, é a urna mortuária onde repousam as cinzas de Freud e sua amada Martha.
Fraterno abraço
André
       

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

De Filosofia em Filosofia....

Não sou apegado a essa coisa de datas comemorativas e alusivas ao que quer que seja. Penso que emoções, sentimentos e memórias inclusive, são atemporais e se inserem em cada indivíduo conforme as demandas do cotidiano e da própria história de vida.
Contudo, hoje comemora-se no Brasil a proclamação da república.
Eu poderia escrever sobre isso a começar pela definição de Republica, de suas origens gregas e falar da RES = coisa,  Publica = do povo. Mas não vou falar....risos
Hoje, também comemora-se o Dia Mundial da Filosofia....
Desejei filosofar...
Mas filosofar num mundo onde o avanço tecnológico é milhares de milhões de vezes mais efetivo que o avanço filosófico é meio complicado...
Penso que Sartre, Roterdã, Schopenhauer e outros tantos mais antigos não tiveram tamanha concorrência desleal...
Penso que a filosofia hoje tem mais adeptos reclusos ante uma lareira acolhedora com um generoso copo de cabernet sauvignon cintilando sob o reflexo do fogo,  do que nos bancos acadêmicos...
E penso como disse o velho recluso Belchior, que se um analista amigo meu falasse hoje, ele diria que "o amor é uma coisa mais profunda que um encontro casual......".
E repenso que filosofar é um exercício também de vida e morte. Vida que vem e precisa ser atualizada a cada dia, mesmo que seja nas teclas F5 do computador que há muito deixou de ser um mero aparelho eletro eletrônico...
Vida que vai entre pingos de reconfortante néctar e cascatas torrenciais de uma mistura do mais terrível fel de nossos dissabores e da cachaça amarga que nos "consola" pois o velho recluso Chico Buarque já filosofou " que também, sem a cachaça, ninguém segura esse rojão...".
E tem a morte...
E penso que cada vez penso mais, que desejo que ela me venha como já descrevi aqui:  "Como uma balzaquiana gostosa, bronzeada de sol e com marquinhas de biquíni...".
E complemento repensando que depois que ela me sugasse com seu beijo gelado e depois de incinerados todos os meus podres, alguma alma generosa jogasse minhas cinzas no rio ou no mar que jamais estive, e que neste momento, tocasse no seu I Phone  uma ária de Puccini cantada pelo Pavarotti.

Bom feriado à todos... e fraterno abraço!
André
P.S.: A ária é Nessun Dorma ... e vos ofereço... risos

http://www.youtube.com/watch?v=k0J-Ur04_qE