quinta-feira, 24 de abril de 2014

Reflexões da Vida Cotidiana

De que são feitas as reflexões? Dos fatos? Dos atos? Dos conflitos? Dos tempos presente, passado e futuro?
Penso que se formos refletir sobre a vida, teremos uma boa análise de tudo. E para que a análise englobe todos os tempos penso que se ela for baseada nas reflexões da vida cotidiana, será global. 
Já foi dito e escrito que um bom caminho para entender o Homem enquanto espécie, é buscar entender os mitos criados pelo desenvolvimento humano. 
O Freud mesmo elencou magistralmente as "Psicopatologias da Vida Cotidiana" que para muitas escolas é o primeiro dos temas que deve ser estudado pelos aspirantes à Psicanalista.
É disso tudo que quero falar. E penso que é disso que venho falado desde 2008 quando iniciei a escrever pras mais diversas mídias, e que o advento da popularização da internet e das tecnologias aumentou o universo de pessoas que me acompanham.
Então desde já, apresento aos meus amigos leitores, as minhas Reflexões da Vida Cotidiana.
Será meu primeiro projeto destinado à todos os públicos.
Para tal feito, devo deixar explícitos meus agradecimentos à todos os que me leem, e individualizo estes nas figuras da saudosa Wally Martins fundadora da página Reflexões da Psicanálise, da Dra. Ana Kaminski incentivadora de sempre, e da Dra. Laura Nunes da Cunha, que além de incentivar e promover meu trabalho literário, é a administradora e responsável pelo projeto e também a procuradora de meus direitos autorais e de imagem. Sem ela eu não teria a energia positiva que Laura me passa e que provavelmente ela busca nas plantas mágicas de sua bela Campo Grande.
Falaremos pois dos mitos, dos conflitos e de tudo que envolva nossa vida cotidiana. Se fosse música, eu acho que tocaria até nos lugares da moda... risos.
Aguardem para o segundo semestre.
Fraterno Abraço
André
  

domingo, 20 de abril de 2014

Um Domingo Qualquer!

Era domingo. Domingo de páscoa. E ele era ateu. 
Acordou cedo e como de costume leu os jornais. 
E viu como foi fácil um pai e sua amada acabarem com a vida de um filho não amado. 
E viu que os passarinhos parece que ficam mais alegres nessa época de outono.
E viu que pelas manhãs, nem todos os gatos são pardos, pois aos seus pés, rondava um gatinho de rua... e preto. E  o gatinho era um filhote... E o gatinho estava naturalmente carente.... E o gatinho ainda não tinha aprendido a ser ladrão... e o gatinho só queria ser visto... e o gatinho só queria atenção tal qual o menino morto...
E veio um cristão... e expulsou o gatinho carente... e chamou o gatinho de ladrão... e o gatinho fugiu... 
E fugindo, o gatinho falou (que naquele domingo de páscoa os gatinhos podiam falar): 
- Da próxima vez vou optar por pedir carinho pro ateu... eu acho que ele me entenderia... 
E veio a moça...
E a moça disse:
- Preciso de ti... 
E sumiu!
E ele ascendeu a fogueira de suas fainas dominicais... 
E a gordura da carne pingava na brasa fazendo aquele ruído de festa...
E todos comeram... 
E todos estavam felizes... 
O ateu, o cristão,os passarinhos, os assassinos e a moça...
Não estava feliz o menino morto... nem o gatinho escorraçado...
E pensar que a páscoa originou-se da lembrança das épocas em que os oprimidos atravessaram o deserto fugindo do opressor...
E os chocolates derretiam na mesa da sala de estar...
Então... bom domingo ... e feliz páscoa!

Fraterno Abraço
André

    




quinta-feira, 10 de abril de 2014

O Regresso!

Ele acordou de um sono que naquele momento classificou de mais que profundo. O ambiente claríssimo e o cheiro de nada o levaram a  crer na sua não vida. Pensou:
- Devo rever meus conceitos! Logo eu que de tão racional por vezes até machucava os mais crentes. Logo eu que até tinha orgulho do meu ateísmo e de minha convicção cartesiana. Logo eu...
E estava tudo tão bem apesar da cardiopatia... Devia ter desconfiado daquela dorzinha no lado direto da cabeça que antecedeu o apagão...Sempre aceitei tranquilo que tudo morre. O próprio Lacan dizia que o homem só aguenta  sobreviver por que tem a absoluta certeza de que um dia vai morrer. Mas esse negócio de não dormir pra sempre é dose... e agora??? 
Em tese estou no inferno... mas até que não é tão terrível como diziam... e não tem aquele lance de fogo e ranger de dentes. Até está bem agradável a temperatura e o silêncio daqui é de uma paz intensa. E por falar em intensa, se não fosse essa claridade intensa tudo estaria muito bem até. Parece até o céu!!! Céu??? Será que erraram o meu destino de ateu e me mandaram pro céu??? Com esse branco todo, com essa luz toda só pode ser o céu! Provavelmente aquele papo de inferno era alegoria... todos os mortos vem pra cá. E daqui a pouco vai aparecer um velhinho simpático pra me falar das regras de minha nova morada. Velhinho simpático??? Caramba.... O Freud deve estar por aqui!!!! 
Preciso pensar em como chegar no Freud. Será que cabe tietar??? Acho melhor ser sério e buscar a admiração dele.Quem sabe se eu falar do adicionamento da linguística e da antropologia como o Lacan fez depois que ele se foi. Se foi não... veio pra cá né??? 
Mas... espera... Lacan??? Cacete!!!!! Lacan também deve estar por aqui e já deve ter falado tudo isso com o Freud... vou ser apenas tiete... e com sorte eles deixem eu escutar à distância seus diálogos... quem sabe deixem até eu entrar nas discussões! Espera... discutir com Lacan??? Tá doido!!! Nem morto! Nem depois de morto! Nem no céu....
Mas tem outras coisas também... todas as minhas heroínas estão aqui...Vou deixar o Freud e o Lacan pra um segundo momento. Quero é ver a Cleópatra com seus cabelos negros e corpo de deusa. Jesus também quero ver... mas o deixo no time dos mestres e primeiro quero ver a Maria Madalena que sempre me atraiu. E quero ver a Maysa cantar em dueto com a Amy... vai ser muito bom isso... Estou com vontade de rir... mas será que morto ri?
Não paro de pensar que daqui a pouco vou cruzar com a Gracie Kelly e quem sabe até tome uns mates com a Elis ... se ela estiver de bom humor é claro...

Ele fecha os olhos e sabe que está sorrindo e nem pensa mais nos que ficaram lá no mundo dos vivos. 
Sente que alguém lhe puxa o dedo do pé. Abre os olhos ainda afetado pela claridade e nem acredita no que vê. Ela estava lá... linda.. loura e com os olhos mais azuis que ele tinha visto. Estava com o manto azul da realeza. Ele quase chorou de emoção... a primeira que veio lhe saudar era a mais linda de todas. Pensou:

- Caramba!!!! Como devo me portar morto ante a linda Helena de Tróia?????
E acho que ele não pensou... acho que ele falou... por que ela respondeu sorrindo:
- Seu doido sedutor! Sou a Dra Marília da UTI. Já estás fora do coma há mais de 24 horas e aos poucos vais te recuperar. Vai com calma. Daqui a pouco o enfermeiro Páris vem aqui e vai providenciar um belo banho tá??? Te vejo mais tarde....

Fraterno Abraço
André

   
  
     

sexta-feira, 28 de março de 2014

Tudo Normal!

João ama Maria que ama João e ama também Pedro que ama Ana que ama João e Maria.
Mas Maria também ama Pedro que ainda pensa se ama apenas Ana e sente que isso pode dar problema porque sabe que Ana pode também amar Maria.
Mas isso não é tão complicado como parece. Afinal, João, maria, Pedro e Ana vão fazer uma festa e vão se entender....
Mas na festa aparece Sofia... 
E Sofia passa amar Maria, mas em breve vai admitir que ama Pedro e que acha que vai amar João e talvez amanhã acorde amando também Ana. 
E eis que surge também Juliano... e ele entra na festa...e vai amar Pedro, Maria, Ana,... etc...
Quem está lendo pode pensar que isso vai virar uma grande sacanagem né???
Não...
A grande sacanagem acontece sempre... e cada dia mais e mais... 
Sabem qual é??
João, Maria, Pedro, Ana, Sofia e Juliano estão na festa. 
Então...
João da um soco em Maria...
Juliano da um tiro em Sofia....
Pedro se assusta e tem um infarto e morre...
Ana esfaqueia João  por pura raiva...
E nos jornais do outro dia a manchete:

" Episódio comum no fim de semana do Brasil: 
João quebra Maria que vê Juliano matar Sofia que era namorada de Pedro que morre de susto ao ver Ana matando João degolado!" 

Fraterno Abraço!
André


quinta-feira, 20 de março de 2014

As palavras por dizer!

Pelos labirintos de minhas lembranças (inconsciente??!!!) em cada quebrada de cada pedaço de caminho me deparo com experiências vividas, e no meu caso, na maior parte das vezes com casos clínicos desses muitos anos de atividade psicanalítica. 
Hoje faço uma narrativa de caso clínico muito comum. Caso semelhante foi mostrado no filme de produção francesa de 1983 com o título de "LES MOTS POUR LE DIRE" ou AS PALAVRAVAS POR DIZER, mas que no Brasil (não sei porque) o título ficou como Voltar a Viver. No filme, a competente Nicole Garcia interpreta Marie (uma histérica contemporânea) e o não menos competente Daniel Mesguish vive o psicanalista (lacaniano é claro...risos).
Relato o caso para mostrar (principalmente aos leitores leigos) o quanto uma perturbação emocional (psíquica) pode comprometer a qualidade de vida de um pessoa e até mesmo a integridade dos profissionais de saúde que se envolvem na tentativa de ajudar o paciente.
O Caso Clínico:
Paciente mulher, 35 anos, divorciada, produtora executiva de televisão (na época do caso havia abandonado o emprego), com dois filhos (menino de 9 anos e menina de 12), em crise profissional e financeira, morando com a mãe. E sangrando. Literalmente sangrando. 
Desde antes da separação ela sangrava. Bastava precisar sair de casa e começa um hemorragia. E mancha as roupas e os bancos dos coletivos, dos táxis, dos bancos da praça... deixava em todos os lugares as marcas de seu sangramento. 
O ginecologista solicitara e conferira todos os exames cabíveis. Nada à constatar que explicasse tal situação. Encaminhara à outros especialistas das mais diversas áreas da medicina. Dezenas de exames. Dezenas de testes. Nada... nenhuma explicação... 
Passam-se meses... investigações, etc... e nada... bastava sair de casa, e o sangue começava a fluir já na saída do prédio. Por fim o médico lhe convoca:
- Não vejo outra saída. Vamos operar. Deveremos achar alguma coisa num procedimento cirúrgico. Mas antes quero que tenhas uma conversa com um amigo meu. Ele é psicanalista e provavelmente vai te tranquilizar para que possas enfrentar essa cirurgia com mais calma.
A paciente sai resignada (sangrando é claro) com um cartão do psicanalista.
De imediato o médico telefona ao seu amigo psicanalista
- Te peço que atendas uma paciente minha. Vamos operar (e relata todo o caso). Acho que deve ser coisa grave. Ela está com os nervos em frangalhos. Te peço que converses com ela e que a acalme. Pode ser?
- Tens certeza que nada foi diagnosticado nos exames clínicos e laboratoriais? Nem nos diagnósticos por imagem?
- Não! Nada! Não achamos nada! Estamos em junta médica há 30 dias e não achamos nada!
- Certo. Atendo ela hoje mesmo.
- Ela já deve estar chegando no teu consultório. Mandei agora direto pra ai. Sabia que tu atenderias.
- Tudo bem. Obrigado pela confiança. 
- Te agradeço. Abraço!
O interfone toca. A secretária avisa ao psicanalista:
- A paciente do Dr Fulano acaba de chegar. 
- Pode mandar passar.
Ela chega e permanece de pé. Olha pra todos os lados do consultório. Se fixa por minutos no quadro do narcíso. Olha nos olhos do psicanalista com olhos de poucos amigos e metralha de cara:
- Sou paciente do Dr Fulano. Ele me mandou aqui. Aliás, acho que ele está mais perdido do que eu. Não preciso de um psicanalista. 
- Boa tarde pra senhora também. Sente-se por favor, vamos conversar. 
- Não vou sentar... e pode perder as esperanças de me ver deitada naquele divã ali.
- Porque não sentar? Nossa conversa será demorada... fique mais a vontade!
- Não vou sentar. E se eu sentasse teu prejuízo seria maior, pois esse veludo branco da poltrona ficaria mais vermelho que uma bandeira do PT... afinal, eu sangro... tu sabes né?
O psicanalista pede à secretária um forro de plástico. Aquela não era a primeira paciente propensa a deixar marcas de substâncias orgânicas nas poltronas e divã do consultório. 
Cadeira forrada, a paciente senta. Mas não se acomoda. Não relaxa. Encara o psicanalista tesa. Agressiva até. Um tanque de guerra prestes a disparar. O Psicanalista pergunta:
- Em que posso te ajudar?
- Não pode. Eu sangro. Querem me operar. Vão me abrir sem saber o que eu tenho. 
- Me fale de tua vida, de teus desejos, de tuas dores... me conte tua história!
- Já te disse: EU SANGRO. Esse sangue é meu problema. O resto não tem problema nenhum comigo!
- Bem... me fale de tudo... quero saber de tudo... menos do teu sangue. Fales o que quiseres... tudo de ti será ouvido e acolhido. Mas não quero ouvir falar de teu sangue. 
- Então vai à merda! Tchau!
Levanta-se... olha pro forro da cadeira manchado de sangue... olha pro analista e sai a passos largos e batidos e bate a porta com força...
A secretária entra com olhos arregalados e assustada pergunta:
- Posso mandar retirar o forro da cadeira??? está tudo bem???
- Não retire o forro! A paciente vai voltar em breve. Está tudo bem. Não se assuste. Tu trabalhas numa clínica onde os sofrimentos se manifestam de todas as formas.... fique tranquila e quando a paciente voltar, encaminhe sem anunciar. Mande passar direto. 
Passados vinte minutos a paciente volta... ainda com rompantes agressivos e querendo demonstrar indiferença:
- Minha cirurgia será daqui há 20 dias... até lá, vou conversar contigo. Mas já te aviso: Não preciso de psicanalista. 
- Tudo bem... vamos conversar! Vou mandar limpar o forro da poltrona... espere um minuto apenas.
- Não... deixa o forro ai. Esse sangue é meu. Vou sentar assim mesmo. Manda tirar depois!
E seguiu-se uma longa conversa. Ela falou de sua vida e de seus amores e desamores, de sua relação com os pais e com os filhos, e de seus problemas no emprego. Falou das vezes em que traiu e das vezes em que foi traída. No fim da conversa se surpreendeu, pois incrivelmente não sangrou uma gota sequer enquanto falava. Quando manifestou isso o psicanalista verbaliza:
- Não quero ouvir falar de teu sangue. Te espero amanhã no mesmo horário. Tenha uma boa tarde. 
Ela levanta-se e recolhe o forro de plástico da poltrona e envia com raiva dentro da bolsa e diz:
- Vai pro inferno!!! Nunca mais volto aqui!
No outro dia, ela voltou... trouxe o forro de plástico limpo e de imediato arrumou-o sobre a poltrona... e mostrou ao psicanalista um forro de plástico maior... e diz ao psicanalista:
- Esse forro maior é pro divã... quando quiseres, eu vou pro divã. 
E falou... falou... e falou... Na terceira semana já não tinha tantas hemorragias e o cirurgião optou por esperar mais um tempo antes de opera-la. 
Passadas algumas semanas não sangrava mais. Não precisou operar. Em seis meses retomou o emprego e os cuidados da casa e dos filhos. Achou um namorado que a amava e não tinha vontade de traí-lo. 
Passados três anos, com a vida retomada lhe é sugerida a alta pelo analista, ao que explode ( mas sem a agressividade da primeira vez... e até com um sorriso verdadeiro):
- Bem capaz!!! Tu estás maluco??? Só de pensar em não vir aqui duas vezes na semana, fico morrendo de saudades do meu sangue!!!! Até quinta feira Doutor!!!!!
E saiu caminhando leve pela Rua da Praia... e levou frutas e flores que comprou no velho Mercado Público. 

Fraterno abraço!
André 
P.S.: Recomendo o filme citado.
 

         
    
      
       

sábado, 15 de março de 2014

Houve uma vez um Verão!

Eis que chegamos no fim do verão tropical. 
Eis que chega o outono e as folhas caem. 
E com as folhas caídas, as árvores parecem mortas. Nuas e mortas. 
Assim somos nós quando nosso nome é retirado dos poemas e das odes românticas.
Nossas verdades são como folhas secas que se desintegram quando alguém pisa em cima.
Nossa forma que brilhava pelos salões e palcos, agora é forma nebulosa feita de restos de luz e de sombras. Um caule... desfolhado... nu e morto.
Mas.... a raiz ainda vive. E nela está toda a esperança. E toda a verdade que é a seiva da vida. E toda a luz!
E a força viva da raiz vai nos sustentar no outono e nos manter no inverno de nossas cruzes, para enfim, florescer novamente na primavera que inexoravelmente virá. E ela virá! Podem (todos) acreditar. A primavera virá!
Fraterno abraço
André


   

quarta-feira, 5 de março de 2014

O Caso clínico das Baratas!

Maldita e bendita seja a tal rede social que nos expõe aos maus e nos brinda com o carinho dos bons. Torço para que os maus e na verdade pífios (apesar de eles se acharem absurdamente definitivos) lancem sobre mim todo seu veneno. Sou reconhecido no meu meio e aos 50 anos já atingi praticamente todas as minhas pretensões pessoais e profissionais. Cada vez mais, me importo apenas com meus pacientes e mais recentemente (desde 2008 quando comecei a escrever pras grandes mídias)  com meus leitores. O resto??? Me importo somente um pouquinho...risos... afinal, é sempre bom um pouco de adrenalina nesse coraçãozinho que já começa a me dar trabalho. 
Quanto ao veneno dos pífios??? Que seja lançado sobre mim.Não me causará dano. Há muito que me vacinei da peçonha  dos ofídios, prefiro admirar a beleza de suas cores e a graça de sua sinuosidade.
Dito isso... segue o baile.
Relato mais um caso clínico. 
Paciente mulher, 19 anos, encaminhada a mim pelo seu médico Dr..... (pensando bem, vou omitir o nome do médico no sentido de preservá-lo. Afinal, ter confiado sua paciente à mim poderia depor contra seu currículo) com sintomas cujas origens não foram detectadas nem por exames clínicos, laboratoriais ou mesmo pelos exames de diagnóstico por imagens.
O principal sintoma, além da melancolia cotidiana e da incapacidade de relacionar-se, consistia num medo extremo de baratas. 
Mas era medo mesmo. Pânico. Pavor. A menina inclusive fazia todas as necessidades fisiológicas na cama por absoluto medo de ir ao banheiro e encontrar uma barata.
Isso era rotina há dois anos. E assim que chegou na minha clínica da Rua dos Andradas. 
Várias sessões. Muitos silêncios. De concreto só pude descobrir que os sintomas começaram logo após o falecimento de seu pai. E as baratas. O simples questionamento meu sobre as baratas era motivo dela entrar numa terrível crise de choro com gritos e murros no divã. 
Eu estava começando a ficar triste com minha incompetência. Eram três... as vezes quatro sessões semanais e nada vinha a tona... e ela sofria cada vez mais. E eu só tinha a morte do pai... e as malditas baratas... e tinha um sonho... em que uma barata saía de dentro de uma garrafa. Mais baratas!
Até que numa sessão,no silêncio da paciente, resolvi escrever a palavra... e escrevi: BARATA!
E assim os deuses da psicanálise vieram ao meu socorro. 
Comecei a conversa:
- Menina Y (obviamente que não vou citar o nome da paciente) tu tens um Iate ancorado no pier do Veleiros do Sul para passeares no fim de semana?
- Claro que não André!!
- Porque não??? Não gostas de iates?
- Adoro iates! Mas não posso ter um! Tu estás doido?
- Porque que não podes ter um Menina Y?
- Porque é CARO ué??? Bebeu??
Peguei no porta canetas de couro uma caneta Bic... e já estava na minha mão, a minha A.G. Spalding & Bros, manufaturada em ébano e ponta de platina, no famoso endereço do número 320 da 7ª Avenida em New York, presente de conclusão de curso que ainda me acompanha.  
Falei:
- Menina Y... esta é minha caneta. É uma A.G. Spalding! Custa quase cinco mil dólares! Que achas?
- Bonita. 
-Que mais?
- Estranha!
- Que mais?
- Cara né André???? Acho que realmente tu bebeu hoje!!!! 
Então peguei a Bic comum e falei:
- Mas essa também escreve né??
- Sim. 
- E qual é a diferença entre as duas? 
- A tua é cara ué?
- E a outra Menina Y?
- A outra é... a outra é.... BARATA! 
Pronto. Choro convulsivo e murros no divã!
Naquela sessão, consegui que ela falasse que tudo começou, quando recebeu a notícia da morte de seu pai numa terra distante. Chorando, deu a notícia à mãe que agressivamente falou:
- Engole esse choro. Não chore por esse vagabundo. Teu pai não valia nada. Até meio acobreado era (qual a cor da barata inseto??) ! E mais... nos abandonou porque deu mais valor para uma garrafa de cachaça BARATA! Engole o Choro! 
Depois daquela sessão, ela chorou muito a morte do pai, e a mãe inclusive entendeu e o luto foi finalmente feito.
Melhorou.... e hoje só tem nojo das baratas, assim como todo mundo... risos ...
Fraterno Abraço
André