quinta-feira, 8 de maio de 2014

Eu acredito em anjos!

Era uma jovem paciente... bonita... vinte e muito poucos anos... e fazia algum tempo que se analisava com disciplina e frequência espartanas.
Por aqueles dias o Psicanalista estava atento às novas atividades que a moça estava desenvolvendo. Estava escrevendo poesias....elaborando melodias novas no piano... buscando antigas manifestações musicais e literárias (coisa que ela não conhecia)... e estava mais serena e calma do que nunca.
O Psicanalista pensou:
- Na próxima sessão, vou abordar os mecanismos de defesa do ego....
E buscou nos alfarrábios...e achou em Freud ( O Ego e o Id- 1923)... e achou em Anna Freud (O Ego e os Mecanismos de Defesa- 1946) ... e preparou a introdução para a sessão seguinte da moça. 
O sol brilhava naquela manhã de inverno e ela chegou pontualmente como sempre e sua jovialidade fez o sol parecer uma mera velinha moribunda...
Ocupou o divã ao mesmo tempo em que declarava com entusiasmo juvenil:
- Estou amando as músicas do ABBA! É do teu tempo né??? 
- Sim... mas te proponho uma questão: Noto que tens sublimado  extraordinariamente nos últimos dias... Já ouviste falar dos mecanismos de defesa do ego? 
- Não... mas tenho certeza de que tu vai me falar né??? Sou toda ouvidos....
O Psicanalista evocou todos os seus demônios cartesianos e lascou:

"Mecanismos de defesa são processos psíquicos inconscientes que aliviam o ego do estado de tensão psíquica entre o id intrusivo, o superego ameaçador e as fortes pressões que emanam da realidade externa.
Devido a esse jogo de forças presente na mente, em que as mesmas se opõem e lutam entre si, surge a ansiedade cuja função é a de assinalar um perigo interno. Esses mecanismos entram em ação para possibilitar que o ego estabeleça soluções de compromisso (para problemas que é incapaz de resolver), ao permitir que alguns componentes dos conteúdos mentais indesejáveis cheguem à consciência de forma disfarçada."

O Psicanalista percebeu que na medida que ia falando a jovem paciente cantarolava bem baixinho a música do ABBA:

" I have a dream (eu tenho um sonho)
a song to sing (uma canção para cantar)
To help me cope (Que me ajuda a enfrentar)
With anything (qualquer coisa)...."

Com a frieza de uma nádega de esquimó pescando sentado, o Psicanalista prosseguiu:

"Anna Freud em "O Ego e os Mecanismos de Defesa" (1946), formula a hipótese de que o maior temor do ego é o retorno ao estado de fusão inicial com o id, caso a repressão falhe ou os impulsos sejam intensos demais. Para manter o grau de organização atingido, o ego procura proteger-se da invasão das demandas instintivas/pulsionais, provenientes do id, e do retorno dos conteúdos reprimidos.
Assim, em "O Ego e o Id" (1923), Freud diz que a psicanálise é o instrumento que permite ao ego uma conquista progressiva do id.
A psicanálise visa uma transformação paulatina de maiores porções do id em recursos do ego, em seu propósito de tornar consciente o que é inconsciente. Assim, a mente poderá vir a encontrar soluções, previamente inacessíveis ao ego imaturo."

E o Psicanalista falava tudo isso tendo como fundo musical a voz suave e baixinha da moça cantando:

" If you see de wonder (se você vê maravilhas)
of a fairy tail (em um conto de fadas)
You can take de future (você pode agarrar o futuro)
even if you fail (mesmo se você falhar)
I believe in angels ( eu acredito em anjos)..."

E o Psicanalista (com um sorriso sincero  nos olhos) prossegui:

Os principais mecanismos de defesa são os seguintes:
1. Repressão - retirada de ideias, afetos ou desejos perturbadores da consciência, pressionando-os para o inconsciente.
2. Formação reativa - fixação de uma ideia, afeto ou desejo na consciência , opostos ao impulso inconsciente temido.
3. Projeção - sentimentos próprios indesejáveis são atribuídos a outras pessoas.
4. Regressão - retorno às formas de gratificação de fases anteriores, devido aos conflitos que surgem em estágios posteriores do desenvolvimento.
5. Racionalização - substituição do verdadeiro, porém assustador, motivo do comportamento por uma explicação razoável e segura.
6. Negação - recusa consciente para perceber fatos perturbadores. Retira do indivíduo não só a percepção necessária para lidar com os desafios externos, mas também a capacidade de valer-se de estratégias de sobrevivência adequadas.
7. Deslocamento - redirecionamento de um impulso para um alvo substituto.
8. Anulação - através de uma ação, busca-se o cancelamento da experiência prévia e desagradável.
9. Introjeção - estreitamente relacionada com a identificação, visa resolver alguma dificuldade emocional do indivíduo, ao tomar para a própria personalidade certas características de outras pessoas.
10. Sublimação - parte da energia investida nos impulsos sexuais é direcionada à consecução de realizações socialmente aceitáveis (p.ex. artísticas ou científicas)."

E a moça ainda cantarolava:

"I have a dream (eu tenho um sonho)
a fantasy (uma fantasia)
to help me trought reality (que me ajuda a atravessar a realidade)
and my destination ( e o meu destino)
makes it worth the while (faz valer a pena)
pushing through the darkness (enquanto me empurra através da escuridão)
I believe in angels ( eu acredito em anjos)"

Notando que o Psicanalista havia parado de falar interrompeu a canção e sentenciou:

- Estou sofrendo demais nos últimos dias (e foram perdas terríveis e dramáticas que não importam agora) e a poesia, a música e até a leitura tem me ajudado muito. E essa musiquinha do ABBA tem feito milagres nos meus piores momentos. Ah... adorei tua aula sobre os mecanismos de defesa do ego. Beijo André!!!! Até segunda!!!
E foi embora levando o sol com ela...
Ainda hoje o Psicanalista, em momentos de angústia, se pega cantarolando:
"I belivie in angels....." 

Acessem o link abaixo e escutem a musiquinha... rs

Fraterno Abraço
André






       

sábado, 3 de maio de 2014

Obrigado Querida! Uma das origens da violência.

Não tenho certeza, mas acho que era um sábado chuvoso de temperatura amena apesar do calor infernal daqueles últimos dias.
Ele pagou suas compras e enquanto reconduzia o cartão de crédito ao lugar de origem na carteira de couro, dirige-se à moça do caixa no Super Mercado:
- Obrigado Querida!
Ele só então notou que amoça era muito branca e de olhos claros. Mas notou também que a moça branca estava ficando vermelha e seus olhos começaram a faiscar e faiscando lhe fuzilavam. E a moça vermelha e beligerante o trucidou:
- Quem tu tá pensando que és vagabundo??? Achas que eu estou aqui brincando? Tá me confundindo com as tuas negas (sic) ??? Vai chamar de querida a tua mãe que aliás deve estar trabalhando na zona!!!! Chinelão!!!!
Ele paralisou segurando uma sacola de Super Mercado...
O queixo caído e a boca aberta fez com que a cara do incauto parecesse um pastel de fim de feira...
Nem notou que todos os clientes do mercado estavam também de queixo caído e boca aberta empastelados com a reação da moça branca/vermelha e beligerante.
Tentou lembrar em algum ato falho que deva ter proferido. Nada... 
Tentou lembrar se deixou escapar um palavrão na hora de pagar a conta. Nada...
Olhou para os pés. Quem sabe pisou no pé da moça sem notar! Nada...
Olhou para o zíper das próprias calças. Quem sabe está desgraçadamente aberto. Não estava...
Resolveu se manifestar:
- Mas moça...
Ela interrompeu com munição de calibre maior:
- E não tem nada de mas moça. Vai chamar de querida a puta que te pariu! E vai andando que tem gente na fila. 
Ele não deu ouvidos às manifestações dos demais clientes e nem do gerente do Super Mercado. Saiu catatônico empurrando um carrinho cheio de sacolas e com cérebro frito.
E o gerente falava:
- O senhor nos desculpe... tomaremos providências... ela deve ter surtado... e blá...blá... blá... 
Ele não ouviu. 
Como um autômato arrumou as sacolas na mala do carro. E entrou no carro. E manobrou. E foi até em casa. Então paralisou dentro do carro já dentro da garagem. E começou a pensar falando sozinho e olhando no espelho do carro para si mesmo:
- Mas eu chamei ela de querida mecanicamente.... como faço com todo mundo... porque ela se ofendeu tanto? Eu devo ter feito ou dito alguma coisa muito ofensiva... não acredito que ela se ofendeu por causa do querida... Ou quem sabe a moça branca foi estuprada e o estuprador ao invés de violentá-la chamando-a de vagabunda, cadela, etc,  a maculava chamando-a de querida?!?! Ou quem sabe ela ouviu por acaso o próprio marido chamando a vizinha gostosa de querida numa cena sensual?! Pior... Quem sabe o marido morreu vendo ela mesma em cena sensual com o vizinho sarado que à chamava de querida?!?!? 
A paralisia começou a ceder e ele começou a reagir...
Enquanto carregava as compras do idílio ainda teve espírito e pensou:
- Felizmente não tenho o hábito de muitos que dizem: "Obrigado Fofinha!"

Fraterno abraço
André 



       

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Reflexões da Vida Cotidiana

De que são feitas as reflexões? Dos fatos? Dos atos? Dos conflitos? Dos tempos presente, passado e futuro?
Penso que se formos refletir sobre a vida, teremos uma boa análise de tudo. E para que a análise englobe todos os tempos penso que se ela for baseada nas reflexões da vida cotidiana, será global. 
Já foi dito e escrito que um bom caminho para entender o Homem enquanto espécie, é buscar entender os mitos criados pelo desenvolvimento humano. 
O Freud mesmo elencou magistralmente as "Psicopatologias da Vida Cotidiana" que para muitas escolas é o primeiro dos temas que deve ser estudado pelos aspirantes à Psicanalista.
É disso tudo que quero falar. E penso que é disso que venho falado desde 2008 quando iniciei a escrever pras mais diversas mídias, e que o advento da popularização da internet e das tecnologias aumentou o universo de pessoas que me acompanham.
Então desde já, apresento aos meus amigos leitores, as minhas Reflexões da Vida Cotidiana.
Será meu primeiro projeto destinado à todos os públicos.
Para tal feito, devo deixar explícitos meus agradecimentos à todos os que me leem, e individualizo estes nas figuras da saudosa Wally Martins fundadora da página Reflexões da Psicanálise, da Dra. Ana Kaminski incentivadora de sempre, e da Dra. Laura Nunes da Cunha, que além de incentivar e promover meu trabalho literário, é a administradora e responsável pelo projeto e também a procuradora de meus direitos autorais e de imagem. Sem ela eu não teria a energia positiva que Laura me passa e que provavelmente ela busca nas plantas mágicas de sua bela Campo Grande.
Falaremos pois dos mitos, dos conflitos e de tudo que envolva nossa vida cotidiana. Se fosse música, eu acho que tocaria até nos lugares da moda... risos.
Aguardem para o segundo semestre.
Fraterno Abraço
André
  

domingo, 20 de abril de 2014

Um Domingo Qualquer!

Era domingo. Domingo de páscoa. E ele era ateu. 
Acordou cedo e como de costume leu os jornais. 
E viu como foi fácil um pai e sua amada acabarem com a vida de um filho não amado. 
E viu que os passarinhos parece que ficam mais alegres nessa época de outono.
E viu que pelas manhãs, nem todos os gatos são pardos, pois aos seus pés, rondava um gatinho de rua... e preto. E  o gatinho era um filhote... E o gatinho estava naturalmente carente.... E o gatinho ainda não tinha aprendido a ser ladrão... e o gatinho só queria ser visto... e o gatinho só queria atenção tal qual o menino morto...
E veio um cristão... e expulsou o gatinho carente... e chamou o gatinho de ladrão... e o gatinho fugiu... 
E fugindo, o gatinho falou (que naquele domingo de páscoa os gatinhos podiam falar): 
- Da próxima vez vou optar por pedir carinho pro ateu... eu acho que ele me entenderia... 
E veio a moça...
E a moça disse:
- Preciso de ti... 
E sumiu!
E ele ascendeu a fogueira de suas fainas dominicais... 
E a gordura da carne pingava na brasa fazendo aquele ruído de festa...
E todos comeram... 
E todos estavam felizes... 
O ateu, o cristão,os passarinhos, os assassinos e a moça...
Não estava feliz o menino morto... nem o gatinho escorraçado...
E pensar que a páscoa originou-se da lembrança das épocas em que os oprimidos atravessaram o deserto fugindo do opressor...
E os chocolates derretiam na mesa da sala de estar...
Então... bom domingo ... e feliz páscoa!

Fraterno Abraço
André

    




quinta-feira, 10 de abril de 2014

O Regresso!

Ele acordou de um sono que naquele momento classificou de mais que profundo. O ambiente claríssimo e o cheiro de nada o levaram a  crer na sua não vida. Pensou:
- Devo rever meus conceitos! Logo eu que de tão racional por vezes até machucava os mais crentes. Logo eu que até tinha orgulho do meu ateísmo e de minha convicção cartesiana. Logo eu...
E estava tudo tão bem apesar da cardiopatia... Devia ter desconfiado daquela dorzinha no lado direto da cabeça que antecedeu o apagão...Sempre aceitei tranquilo que tudo morre. O próprio Lacan dizia que o homem só aguenta  sobreviver por que tem a absoluta certeza de que um dia vai morrer. Mas esse negócio de não dormir pra sempre é dose... e agora??? 
Em tese estou no inferno... mas até que não é tão terrível como diziam... e não tem aquele lance de fogo e ranger de dentes. Até está bem agradável a temperatura e o silêncio daqui é de uma paz intensa. E por falar em intensa, se não fosse essa claridade intensa tudo estaria muito bem até. Parece até o céu!!! Céu??? Será que erraram o meu destino de ateu e me mandaram pro céu??? Com esse branco todo, com essa luz toda só pode ser o céu! Provavelmente aquele papo de inferno era alegoria... todos os mortos vem pra cá. E daqui a pouco vai aparecer um velhinho simpático pra me falar das regras de minha nova morada. Velhinho simpático??? Caramba.... O Freud deve estar por aqui!!!! 
Preciso pensar em como chegar no Freud. Será que cabe tietar??? Acho melhor ser sério e buscar a admiração dele.Quem sabe se eu falar do adicionamento da linguística e da antropologia como o Lacan fez depois que ele se foi. Se foi não... veio pra cá né??? 
Mas... espera... Lacan??? Cacete!!!!! Lacan também deve estar por aqui e já deve ter falado tudo isso com o Freud... vou ser apenas tiete... e com sorte eles deixem eu escutar à distância seus diálogos... quem sabe deixem até eu entrar nas discussões! Espera... discutir com Lacan??? Tá doido!!! Nem morto! Nem depois de morto! Nem no céu....
Mas tem outras coisas também... todas as minhas heroínas estão aqui...Vou deixar o Freud e o Lacan pra um segundo momento. Quero é ver a Cleópatra com seus cabelos negros e corpo de deusa. Jesus também quero ver... mas o deixo no time dos mestres e primeiro quero ver a Maria Madalena que sempre me atraiu. E quero ver a Maysa cantar em dueto com a Amy... vai ser muito bom isso... Estou com vontade de rir... mas será que morto ri?
Não paro de pensar que daqui a pouco vou cruzar com a Gracie Kelly e quem sabe até tome uns mates com a Elis ... se ela estiver de bom humor é claro...

Ele fecha os olhos e sabe que está sorrindo e nem pensa mais nos que ficaram lá no mundo dos vivos. 
Sente que alguém lhe puxa o dedo do pé. Abre os olhos ainda afetado pela claridade e nem acredita no que vê. Ela estava lá... linda.. loura e com os olhos mais azuis que ele tinha visto. Estava com o manto azul da realeza. Ele quase chorou de emoção... a primeira que veio lhe saudar era a mais linda de todas. Pensou:

- Caramba!!!! Como devo me portar morto ante a linda Helena de Tróia?????
E acho que ele não pensou... acho que ele falou... por que ela respondeu sorrindo:
- Seu doido sedutor! Sou a Dra Marília da UTI. Já estás fora do coma há mais de 24 horas e aos poucos vais te recuperar. Vai com calma. Daqui a pouco o enfermeiro Páris vem aqui e vai providenciar um belo banho tá??? Te vejo mais tarde....

Fraterno Abraço
André

   
  
     

sexta-feira, 28 de março de 2014

Tudo Normal!

João ama Maria que ama João e ama também Pedro que ama Ana que ama João e Maria.
Mas Maria também ama Pedro que ainda pensa se ama apenas Ana e sente que isso pode dar problema porque sabe que Ana pode também amar Maria.
Mas isso não é tão complicado como parece. Afinal, João, maria, Pedro e Ana vão fazer uma festa e vão se entender....
Mas na festa aparece Sofia... 
E Sofia passa amar Maria, mas em breve vai admitir que ama Pedro e que acha que vai amar João e talvez amanhã acorde amando também Ana. 
E eis que surge também Juliano... e ele entra na festa...e vai amar Pedro, Maria, Ana,... etc...
Quem está lendo pode pensar que isso vai virar uma grande sacanagem né???
Não...
A grande sacanagem acontece sempre... e cada dia mais e mais... 
Sabem qual é??
João, Maria, Pedro, Ana, Sofia e Juliano estão na festa. 
Então...
João da um soco em Maria...
Juliano da um tiro em Sofia....
Pedro se assusta e tem um infarto e morre...
Ana esfaqueia João  por pura raiva...
E nos jornais do outro dia a manchete:

" Episódio comum no fim de semana do Brasil: 
João quebra Maria que vê Juliano matar Sofia que era namorada de Pedro que morre de susto ao ver Ana matando João degolado!" 

Fraterno Abraço!
André


quinta-feira, 20 de março de 2014

As palavras por dizer!

Pelos labirintos de minhas lembranças (inconsciente??!!!) em cada quebrada de cada pedaço de caminho me deparo com experiências vividas, e no meu caso, na maior parte das vezes com casos clínicos desses muitos anos de atividade psicanalítica. 
Hoje faço uma narrativa de caso clínico muito comum. Caso semelhante foi mostrado no filme de produção francesa de 1983 com o título de "LES MOTS POUR LE DIRE" ou AS PALAVRAVAS POR DIZER, mas que no Brasil (não sei porque) o título ficou como Voltar a Viver. No filme, a competente Nicole Garcia interpreta Marie (uma histérica contemporânea) e o não menos competente Daniel Mesguish vive o psicanalista (lacaniano é claro...risos).
Relato o caso para mostrar (principalmente aos leitores leigos) o quanto uma perturbação emocional (psíquica) pode comprometer a qualidade de vida de um pessoa e até mesmo a integridade dos profissionais de saúde que se envolvem na tentativa de ajudar o paciente.
O Caso Clínico:
Paciente mulher, 35 anos, divorciada, produtora executiva de televisão (na época do caso havia abandonado o emprego), com dois filhos (menino de 9 anos e menina de 12), em crise profissional e financeira, morando com a mãe. E sangrando. Literalmente sangrando. 
Desde antes da separação ela sangrava. Bastava precisar sair de casa e começa um hemorragia. E mancha as roupas e os bancos dos coletivos, dos táxis, dos bancos da praça... deixava em todos os lugares as marcas de seu sangramento. 
O ginecologista solicitara e conferira todos os exames cabíveis. Nada à constatar que explicasse tal situação. Encaminhara à outros especialistas das mais diversas áreas da medicina. Dezenas de exames. Dezenas de testes. Nada... nenhuma explicação... 
Passam-se meses... investigações, etc... e nada... bastava sair de casa, e o sangue começava a fluir já na saída do prédio. Por fim o médico lhe convoca:
- Não vejo outra saída. Vamos operar. Deveremos achar alguma coisa num procedimento cirúrgico. Mas antes quero que tenhas uma conversa com um amigo meu. Ele é psicanalista e provavelmente vai te tranquilizar para que possas enfrentar essa cirurgia com mais calma.
A paciente sai resignada (sangrando é claro) com um cartão do psicanalista.
De imediato o médico telefona ao seu amigo psicanalista
- Te peço que atendas uma paciente minha. Vamos operar (e relata todo o caso). Acho que deve ser coisa grave. Ela está com os nervos em frangalhos. Te peço que converses com ela e que a acalme. Pode ser?
- Tens certeza que nada foi diagnosticado nos exames clínicos e laboratoriais? Nem nos diagnósticos por imagem?
- Não! Nada! Não achamos nada! Estamos em junta médica há 30 dias e não achamos nada!
- Certo. Atendo ela hoje mesmo.
- Ela já deve estar chegando no teu consultório. Mandei agora direto pra ai. Sabia que tu atenderias.
- Tudo bem. Obrigado pela confiança. 
- Te agradeço. Abraço!
O interfone toca. A secretária avisa ao psicanalista:
- A paciente do Dr Fulano acaba de chegar. 
- Pode mandar passar.
Ela chega e permanece de pé. Olha pra todos os lados do consultório. Se fixa por minutos no quadro do narcíso. Olha nos olhos do psicanalista com olhos de poucos amigos e metralha de cara:
- Sou paciente do Dr Fulano. Ele me mandou aqui. Aliás, acho que ele está mais perdido do que eu. Não preciso de um psicanalista. 
- Boa tarde pra senhora também. Sente-se por favor, vamos conversar. 
- Não vou sentar... e pode perder as esperanças de me ver deitada naquele divã ali.
- Porque não sentar? Nossa conversa será demorada... fique mais a vontade!
- Não vou sentar. E se eu sentasse teu prejuízo seria maior, pois esse veludo branco da poltrona ficaria mais vermelho que uma bandeira do PT... afinal, eu sangro... tu sabes né?
O psicanalista pede à secretária um forro de plástico. Aquela não era a primeira paciente propensa a deixar marcas de substâncias orgânicas nas poltronas e divã do consultório. 
Cadeira forrada, a paciente senta. Mas não se acomoda. Não relaxa. Encara o psicanalista tesa. Agressiva até. Um tanque de guerra prestes a disparar. O Psicanalista pergunta:
- Em que posso te ajudar?
- Não pode. Eu sangro. Querem me operar. Vão me abrir sem saber o que eu tenho. 
- Me fale de tua vida, de teus desejos, de tuas dores... me conte tua história!
- Já te disse: EU SANGRO. Esse sangue é meu problema. O resto não tem problema nenhum comigo!
- Bem... me fale de tudo... quero saber de tudo... menos do teu sangue. Fales o que quiseres... tudo de ti será ouvido e acolhido. Mas não quero ouvir falar de teu sangue. 
- Então vai à merda! Tchau!
Levanta-se... olha pro forro da cadeira manchado de sangue... olha pro analista e sai a passos largos e batidos e bate a porta com força...
A secretária entra com olhos arregalados e assustada pergunta:
- Posso mandar retirar o forro da cadeira??? está tudo bem???
- Não retire o forro! A paciente vai voltar em breve. Está tudo bem. Não se assuste. Tu trabalhas numa clínica onde os sofrimentos se manifestam de todas as formas.... fique tranquila e quando a paciente voltar, encaminhe sem anunciar. Mande passar direto. 
Passados vinte minutos a paciente volta... ainda com rompantes agressivos e querendo demonstrar indiferença:
- Minha cirurgia será daqui há 20 dias... até lá, vou conversar contigo. Mas já te aviso: Não preciso de psicanalista. 
- Tudo bem... vamos conversar! Vou mandar limpar o forro da poltrona... espere um minuto apenas.
- Não... deixa o forro ai. Esse sangue é meu. Vou sentar assim mesmo. Manda tirar depois!
E seguiu-se uma longa conversa. Ela falou de sua vida e de seus amores e desamores, de sua relação com os pais e com os filhos, e de seus problemas no emprego. Falou das vezes em que traiu e das vezes em que foi traída. No fim da conversa se surpreendeu, pois incrivelmente não sangrou uma gota sequer enquanto falava. Quando manifestou isso o psicanalista verbaliza:
- Não quero ouvir falar de teu sangue. Te espero amanhã no mesmo horário. Tenha uma boa tarde. 
Ela levanta-se e recolhe o forro de plástico da poltrona e envia com raiva dentro da bolsa e diz:
- Vai pro inferno!!! Nunca mais volto aqui!
No outro dia, ela voltou... trouxe o forro de plástico limpo e de imediato arrumou-o sobre a poltrona... e mostrou ao psicanalista um forro de plástico maior... e diz ao psicanalista:
- Esse forro maior é pro divã... quando quiseres, eu vou pro divã. 
E falou... falou... e falou... Na terceira semana já não tinha tantas hemorragias e o cirurgião optou por esperar mais um tempo antes de opera-la. 
Passadas algumas semanas não sangrava mais. Não precisou operar. Em seis meses retomou o emprego e os cuidados da casa e dos filhos. Achou um namorado que a amava e não tinha vontade de traí-lo. 
Passados três anos, com a vida retomada lhe é sugerida a alta pelo analista, ao que explode ( mas sem a agressividade da primeira vez... e até com um sorriso verdadeiro):
- Bem capaz!!! Tu estás maluco??? Só de pensar em não vir aqui duas vezes na semana, fico morrendo de saudades do meu sangue!!!! Até quinta feira Doutor!!!!!
E saiu caminhando leve pela Rua da Praia... e levou frutas e flores que comprou no velho Mercado Público. 

Fraterno abraço!
André 
P.S.: Recomendo o filme citado.