quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Totem e Tabu - Sempre Importante!

Comecei a ler a obra de Freud ainda muito cedo. O primeiro livro "As Psicopatologias da Vida Cotidiana" de certa forma definiu meu caminho que era a Psicanálise.
Desde então nunca paro de ler Freud. Sempre estou lendo Freud. Não tem dia que não leio Freud. E acho que demora muito ainda pra descobrir tudo. E acho que não terei tempo hábil. Mas vou tentando... risos.
Estou agora encerrando pela enésima vez a leitura de Totem e Tabu. Repasso aos amigos leitores algumas anotações, e a lembrança, que à todos aqueles que de uma ou outra maneira se acham envolvidos com as ditas "humanidades", é uma leitura muito importante. Espero que gostem.
Até Totem e Tabu (1912/1913), Sigmund Freud sempre se limitara a obras dedicadas estritamente à Psicanálise, campo de estudos recém aberto. Porém, a indagação quanto às origens e ao modo de transmissão de uma culturas (no caso, na sociedade moderna) conduziu sua atenção para a antropologia e para a etnopsicologia; Freud via, nos homens primitivos, mecanismos semelhantes aos operantes no homem moderno.
Detectou dois fenômenos recorrentes nas tribos primitivas: a representação do pai primordial na forma de totem e o tabu do incesto. Por meio de uma "dedução histórica", Freud propõe a hipótese do "pai tirano", cujo assassinato pelos filhos estaria na base do sentimento de culpa, da exogamia e da religião.
Considerada pelo próprio Freud uma de suas obras mais importantes, Totem e Tabu sinaliza a aproximação da psicanálise às ciências humanas.
O ponto de partida de Freud para Totem e Tabu foi a origem das proibições (os tabus). Os tabus são definidos como obediência transmitida diante de certas proibições mantidas pela tribo, clã, grupo ou sociedade. Porém Freud montava seu problema a partir da investigação sobre a suposição de sua origem: o totem.
Para Freud, a fonte visível, dotada de força e autoridade sagrada e sobrenatural inquestionável, à qual todos os membros do mesmo clã deviam temor, obediência e respeito é o totem. O totem constitui a forma figurada, em geral representada por um animal, que condensa essas fantasias no seio de cada um dos clãs. Nesse mesmo sistema operam os tabus, prescrições e proibições dotadas de imensa força que determinam comportamentos sociais entre os que pertencem ao mesmo clã , acima deles, pelo totem que os rege. Os tabus são proibições sem genealogia, isto é, eles determinam a obediência a seus preceitos sem que seja necessário, de modo algum, uma explicação sobre sua origem e força (sobrenatural).
Freud viu nesses dois fenômenos, presentes, atuantes e interdependentes na cultura dos povos primitivos, dois elementos discutidos e trabalhados em profundidade na teoria e na clínica psicanalítica: a representação psíquica ambivalente do pai (totem) e o tabu do incesto como obediência e dívida inustrapassáveis a esse mesmo pai primevo.
O sujeito da psicanálise, o sujeito do inconsciente está nas antípodas do indivíduo atomizado e autossuficiente e, segundo a psicanálise, o psiquismo jamais pode ser compreendido como estrutura interiorizada e autorregulada, independente dos laços e ligações que mantém com o mundo e com os objetos. Foi o que Géza Róheim, antropólogo e psicanalista discípulo de Freud, e um dos responsáveis por manter via uma antropologia psicanalítica a partir dos preceitos de Freud, sugeriu ao dizer, em 1936: " o que nós chamamos de "neurose", no sentido clínico, também pode ser chamada de "civilização individual", assim como a civilização é uma " neurose grupal"".
Leitura obrigatória para todos aqueles trabalham na área. Leitura fácil para os leigos. Recomendo sempre Totem e Tabu.
 
Fraterno abraço!
André Lacerda - Psicanalista
   
   

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O Caso Psicoteste!

Antes de qualquer coisa, quero pedir auxílio aos amigos Psicólogos e depois de lerem o texto de hoje, por favor, lancem luz sobre a ignorância do Psicanalista aqui certo??
Então segue o baile:
 
Aina hoje passei por ela na principal rua do Centro Histórico de Porto Alegre e lembrei dos fatos que passo a narrar. Informo que esse caso realmente é verídico e tenho guardado todos os documentos porque ainda hoje não acredito quando lembro... então revejo os documentos e confirmo e sempre fico abasbacado.
Era o ano de 2006 ou 2007... não lembro bem...mas sei que a Clínica que sou sócio e Psicanalista, foi credenciada pelo Departamento de Polícia Federal para que realizasse os testes psicotécnicos que habilitam o cidadão interessado para aquisição e porte de arma de fogo. Era questão da lei etc...
Eu e meu sócio vimos que era uma oportunidade boa. Contudo tínhamos um problema. Eu não era Psicólogo. E meu sócio, apesar de ter origem na Psicologia há muito era Psicanalista e nem lembrava mais de como fazer os tais testes. Então buscamos a parceria de um Psicólogo especializado no assunto e tocamos o projeto. Eram dezenas de laudos realizados por dia e deixamos inclusive, um espaço físico esclusivo para tal atividade.
E tudo estava indo bem. Eu na verdade não me envolvia muito nisso. Até que um dia....
Cheguei na Clínica na primeira hora da tarde, e ela estava sentada na recepção. Vestia uma espécie de túnica romana branca e era loura...bonita até. Dei boa tarde à todos e entrei para meu consultório para preparar minha agenda de atendimentos para aquela tarde de calor senegalês em Porto Alegre.
Passadas uma duas horas, alguém bate na minha porta. Era  o Psicólogo que aplicava os tais testes psicotécnicos. E estava abismado com o resultado de um teste que tinha acabado de aplicar e me fala:
- André!!! Tenho anos de prática nisso e te garanto que raramente vi resultados tão bons quanto esses aqui.
E me mostrou 90% de aproveitamento nos risquinhos, 95 % nos números coloridos, 90% nas bolinhas, e etc... e confesso que aquilo tudo para o Psicanalista aqui, que  vive entre labirintos subjetivos, aquilo era aramaico. Ou seja... não entendia nada. Mas vi que era muito bom, pois o Psicólogo assinou o laudo que dizia: APTA PARA ADQUIRIR E PORTAR ARMA DE FOGO EM TODO TERRITÓRIO NACIONAL.
E nesse ponto, ouvimos um certo tumulto e gritos que vinham da recepção da Clínica. Nos adiantamos e fomos verificar.
A tal loura que havia acabado de dar um show no psicotécnico estava aos brados dizendo:
- Como ousam me cobrar para fazer testes psicotécnicos??? Com quem vocês pensam que estão falando? Vocês é que deveriam me pagar pelo simples fato de eu estar aqui!!!
O Psicólogo ainda argumentou:
- Sra Y... esse valor é cobrado de todos os candidatos e refere-se aos nossos honorários e mais as taxas governamentais.
- Tu falaste tudo. Cobrem dos candidatos. Eu não sou canditada!  
- Mas o que a senhora é então?
- Sou Procuradora da ONU. E estou diretamente ligada ao Presidente dos Estados Unidos e com o Presidente do Brasil!
- Mas porque a senhora precisa de licença para portar arma de fogo?
- Porque hoje fui aclamada Comandante em Chefe dos exércitos de Nosso Senhor Jesus Cristo e vamos declarar guerra à todo o resto do mundo profano!
Bem... não houve jeito. Tivemos que acionar o resgate que a levou para o Hospital Psiquiátrico numa camisa de força pois ela estava em fator de risco para ela e para todos os que estavam presentes.
É lógico que ela estava em crise permanente de delírio, com sintomas de psicose ou esquizofrenia.
Ainda hoje cruzei com ela na Rua da Praia. Ela estava vestindo uma túnica romana branca. E hoje ostentava um cora dourada sob os cabelos louros desgrenhados. E tem um crachá no pescoço onde se lê em letra redondinha a inscrição: Procuradora da ONU. Comandante do Exército de Deus!
Sempre que posso mostro os testes pra amigos que entendem disso, e todos são peremptórios. São resultados que habilitam para qualquer atividade que requeira testagem psicotécnica.
Como pode isso??? Como alguém em surto psicótico pode ser aprovado num psicoteste?  
Abro questão para quem possa me esclarecer:
Estou errado quando penso que esses testes não são fidedignos e por isso são facilmente derrubados quando os prejudicados os submetem à uma decisão judicial?
Estou errado quando penso que perfil psicológico não pode se fundamentar numa técnica simples de lógica de premissa maior e premissa menor, pois a psiqué é subjetiva e precisa ser analisada com muita dedicação, tempo e estudo?
Devo estar muito errado né? Perdoem... mas não sou Psicólogo e realmente isso não é ironia minha. Preciso de esclarecimentos.
Fraterno Abraço
 
André Lacerda - Psicanalista
 
  
 
  

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Tanta Amar???

E penso que o olhar da verdade é o olhar do amor. Ou não... afinal sou apenas um aspirante à menestrel que tenta contar as coisas dessa vida tão cigana...
Mas penso que se por acaso o olhar do amor não é o mais verdadeiro, certamente é o mais generoso. E dentro dessas circunstâncias evoco: Valei-me meu são Chico Buarque!!!
 
" Amo tanto e de tanto amar
Acho que ela é bonita
Tem um olho a pestanejar
e outro me fita..."
 
E digo que o olhar de quem ama se despe de conceitos e de opiniões, afinal dizem que o amor é cego. O que não concordo! E me explico:
O amor, não nos torna cegos. Quem vê no seu objeto de desejo a imagem do seu prórpio desejo. E ele sempre é o melhor de todos os desejos... e seu objeto é sempre o mais lindo de todos os objetos.
 
"Ela pode rodopiar
E mudar de figura
a paloma de seu mirar
vira miúra..."
 
E mesmo o amor harmônico tem seus dias de paz e conflito. E mesmo no conflito ele ainda se faz indispensável e imperdível.
Há quem o confunda com a paixão. E há quem diga que com paixão ele é profano. E eu penso que com paixão é muito bom... e não dá câncer... e não da ruga... e também não faz crescer pêlos na palma da mão. 
 
"Amo tanto e de tanto amar
Em Manágua temos um "chico"
Já pensamos em nos casar
Em Puerto Rico!!"
 
E mesmo tendo a parceria do Chico Buarque no texto, não foi minha intenção falar da alma femina e amada. Minha intenção foi falar de como quem ama vê o seu amor.
Recomendo o clip do Chico ... é só seguir o link.
 
Fraterno abraço!
André Lacerda - Psicanalista
 
 
   

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Pílulas do Mal-Estar

Penso que muitos autores, principalmente nas últimas três décadas, se dedicam à chamada literatura de auto ajuda, que muitas vezes ao meu juízo, sofrem até críticas injustas e cruéis.
Atire a primeira pedra aquele que nunca ficou esperançado com uma frase do Paulo Coelho ou do Josefh Murfy.... risos...
De minha parte, depois de publicar artigos sobre o Mal-Estar da Cultura, vou inaugurar o gênero "Pílulas do Mal-Estar"... risos...
Não se assustem queridos leitores...Ou se assustem (pessoal da gestapo e doi codi de minhas poucas angústias). Na verdade vou cotidianamente fazer uma publicação abordando pedaços da Obra O Mal-Estar da Cultura, no sentido e cumprir meu papel de divulgar a Psicanálise, e de repartir com os leitores amigos o entendimento freudiano.
Espero que muitos gostem. Espero que muitos aproveitem. Espero que muitos comentem. Afinal, com essas pílulas abro o debate sobre o Mal - Estar. Topam? risos
 
" Em meu escrito intitulado O Futuro de uma Ilusão, tratou-se muito menos das fontes mais profundas do sentimento religioso e muito mais daquilo que o homem comum entende por sua religião, do distema de doutrinas e promessas, que, por um lado, lhe esclarece os enigmas desse mundo com invejável completude e, por outro, lhe assegura que uma Providência cuidadosa zelará por sua vida e, numa existência no além, compensará eventuais frustações. O homem comum não consegue imaginar essa Providência de outro modo a não ser na pessoa de um pai gradiosamente elevado. Somente um pai assim é capaz de conhecer as necessidades da criança humana, compadecer-se com suas súplicas, apaziguar-se com os sinais de seu arrependimento. Isso tudo é tão manifestamente infantil, tão alheio à realidade, que se torna doloroso para uma mentalidade humanitária pensar que o grande maioria dos mortais nunca poderá se elvar acima dessa concepção de vida. Mais vergonhoso ainda é saber do grande número de nossos contemporrâneos que não podem deixar de reconhecer que essa religião é insustentável e mesmo assim procuram defendê-la parte por parte em lamentáveis combates de retirada." (Sigmund Freud- O Mal-Estar na Cultura, 1930)
 
E embrulho a pílula de hoje, sempre com o Freud, na mesma obra já citada, onde o mestre cita o poema de Goethe, Xênias mansas IX:
 
"Voltemos ao homem comum e à sua religião, a única que deveria levar esse nome. O que primeiro nos ocorre é a conhecida declaração de um de nossos maiores poetas e sábios, que trata da relação da religião com a arte e a ciência:
"Quem tem arte e ciência
Tem também religião;
Quem não tem nenhuma das duas,
Que tenha religião!"
 
Fraterno abraço!
 
André Lacerda - Psicanalista
 
 
     

terça-feira, 29 de julho de 2014

O Mal-Estar Na Cultura - Parte Final

Já inicio me justificano: Tenho espaçado as publicações por absoluta contigência pessoal e em virtude de ainda estar me recuperando de pequenos problemas de saúde. Mas agora tudo bem... e segue o baile... Baile aliás, com música nada leve, afinal essa obra do Freud deu e ainda dá muito pano pra manga.
Já citei e recito o grande Professor Márcio Seligmann Silva que prefaciou a edição que estou seguindo de cujos ensinamentos estou me valendo e repassando aos leitores.
Acho que a parte mais polêmica e discutida deste  ensaio do Freud, é extamente aquela em que o mestre retoma sua análise da religião e localiza a sua origem na sensação de desamparo da criança, que é oposta ao seu nasrcisismo originário e o violenta. Para comprovar essa tese, Freud lança mão de dois procedimentos que lhe são muito caros.
Primeiro ele faz um cruzamento (uma tradução, poderíamos dizer) entre elementos que foram conquistadosw pela psicanálise no estudo de indivíduos e a situação de toda a humanidade. O que vale para o indivíduo (ontogênese)  vale também para a espécie (filogênese). Tal gesto marca todo o ensaio de Freud e boa parte de seus estudos mais históricos e antropológicos. A outra característica deste ensaio a ser destacada é de certo modo derivada desse primeiro procedimento. A fim de traduzir descobertas referentes a indivíduos (que possuem uma história relativamente breve e são apenas um organismo) para sociedades (com bilhões de organismos e que se estende por uma temporalidade de centenas de milhares de anos), Freud precisa pensar um modelo de passagem de geração para geração de certos dados que são, por assim dizer, inconscientes.
Existe, portanto, uma teoria da temporalidade e da inscrição mnemônica transgeracional que ocupa um papel de destaque neste ensaio.  
Verifica Freud que o sentimento oceânico proposto pelas religiões é uma projeção posterior do sentimento do bebê de indistinção com o mundo e de ampara absoluto. O bebê é puro "behagen" (sentir-se protegido). Para ele, não existe o mundo. Esse ponto zero do desenvolvimento de certo modo é visto por Freud neste ensaio como o fim de toda a libido, que visaria a atingir novamente um estágio de completude, sem conflito com o mundo.
Mas todas as outras partes do ensaio mostram justamente a batalha titânica entre a humanidade e a natureza. Em algum momento, Freud nos dá a terrível notícia de que na verdade não estamos programados para a felicidade, como se observa:
 
" Toda permanência de uma situação anelada pelo princípio do prazer fornece apenas uma sensação tépica de bem-estar; somos feitos de tal modo que apenas podemos gozar intensamente o contraste e somente muito pouco o estado."
 
A toda satisfação segue imediatamente um renovado desejo e uma nova necessidade. Essa visão de mundo trágica Freud pôde encontrar largamente entre os tragediógrafos gregos, como em Eurípides, cuja Medeia afirma que "Viver é ter desgostos", ou ainda na tragédia Orestes, na qual Electra profere as palavras: "A mudança é entre todas as coisas a mais agradável." E na mesma peça o coro profere também a máxima: " A grande felicidade não é durável entre os mortais".
Por fim, observa-se que não deixa de ser desconcertante para nós - ao estudarmos este ensaio oito décadas depois de sua composição, ou seja, após não apenas a Segunda Guerra Mundial, Auschwitz, Hiroshima, centenas e milhares de massacres, genocídios e ditaduras sangrentas, mas também em meio a um processo vertiginoso de globalização e de construção de grandes blocos de nações que está transformando o mapa-mundi- pensar nessa concomitância detectada por Freud da tendência a se construírem unidades culturais sempre maiores, ao lado da tendência à destruição e ao aniquilamento.
 
Assim, encerro a série sobre o Mal-Estar na Cultura, sugerindo sempre que bebam na fonte... ou seja... a obra do Freud.
Espero que tenham gostado...
Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista
 
   

quinta-feira, 17 de julho de 2014

O Mal -Estar na Cultura - Parte 2

Retomo conforme o combinado, publicação sobre O Mal - Estar na Cultura.
Reitero que esse ensaio do Freud, considerado uma obra difícil por muitos, é, ao meu juízo, uma das mais importantes obras literárias do século XX. Espero que todos aproveitem...
 
Como já disse na publicação anterior, Freud estava cético em 1930. Assim, é impotante ressaltar também a importância do outro termo do título original: Unbehagen (mal - estar). O significado do termo behagen (que é negado pelo prefixo un-) é algo como "sentir-se protegido".
Unbehagen remete a uma fragilidade, a uma falta de abrigo, a estar desprotegido. É interessante que esse termo também se aproxima de outro termo-chave para a psicanálise, a saber, Unheimlich (estranho, sinistro), que deu título a um famoso e fundamental ensaio de Freud de 1919: "O estranho".
Um dos sentidos de unheimlich, como o próprio Freud destacou, é justamente o de unbehaglich (o que provoca mal-estar). Se de certo modo podemos dizer que a psicanálise procedeu à revelação do Unheimlich da psique do indivíduo, ou seja, revelou "tudo aquilo que deveria ter permanecido em segredo e oculto e veio à luz" ( na definição do filósofo idealista Schelling, aprovada por Freud), no caso desde ensaio de 1930 Freud procura mostrar o oculto, o segredo, por detrás de toda cultura e da nossa humanidade, ou seja, seu mal-estar e suas origens mais profundas.
 
Fraterno Abraço
 
André Lacerda - Psicanalista
 
     

quarta-feira, 16 de julho de 2014

O Mal-Estar Na Cultura - Introdução

Não sou uma imagem criada pra marketing. Sou Psicanalista e vivo para minha atividade (leia-se meus pacientes) e sempre me defino como um pedreiro que ajuda a construir (as vezes demolir) paredes nessa obra que é a vida.
Nessas últimas semanas andei publicando alguns temas que muitas vezes foram criticados como sendo futebolísticos demais, festivos demais, subversivos demais, e etc...
Sem a mínima demagogia, retomo hoje temas mais ortodoxos e com uma abrangência mais técnica.
De quando em vez vou retomar meus rompantes guevarianos... afinal, já não vivo sem a pressão da gestapo que me vigia e sem o controle do dops que me quer cativo... risos!
Dito isso... segue o baile!
Começo hoje a tratar de uma obra Freudiana muito discutida e como já reproduzi aqui, tida por alguns (muitos) como "um dos mais perturbadores ensaios jamais escritos no que diz respeito ao desenvolvimento cultural da humanidade."
Falo do Mal- Estar na Cultura  escrito em 1929 e publicado em1930.
Desde já convido à todos que comentem... critiquem... façam sugestões. A série vai ser longa. Serão vários textos.
Vou me utilizar da edição da L&PM , vol. 850 de 2012 que teve a tradução do Renato Zwick com revisão técnica de Márcio Seligmann Silva.
Na verdade, aumentando o leque e mergulhando em oceanos insuspeitos, O Mal-Estar na Cultura dá continuidade ao ensaio  O Futuro de uma Ilusão (1927)e retoma também de modo evidente tanto o Além do Princípio do Prazer (1920) como o ensaio de 1913, Totem e Tabu. Contudo, se em 1927 Freud ainda apresentava um entusiasmo com relação à ciência e sua capacidade superior à da religião de descrever a realidade e de oferecer uma técnica de vida mais saudável, em 1930 - não por acaso já com 73 anos, após uma longa doença e em meio ao recrudescimento do nacionalismo nazista - ele retoma sua teoria do impulso de morte/destruição e mostra a ciência como sendo tão ilusória como a religião.
No que tange à diferenças na tradução do original entre cultura e civilização (confusão criada na primeira edição feita na Inglaterra, deixo o próprio Freud explicar:
 
" Como se sabe, a cultura humana - me refiro a tudo aquilo em que a vida humana se elevou acima de sua condições animais e se distingue da vida dos bichos; e eu me recuso a separar cultura (kultur) e civilização (zivilisation) - mostra dois lados ao observador. Ela abrange, por um lado, todo o saber e toda a capacidade adquiridos pelo homem com o fim de dominar as forças da natureza e obter seus bens para a satisfação das necessidades humanas e, por outro, todas as instituições necessárias para regular as relações dos homens entre si e, em especial, a divisão dos bens acessíveis." ( Em O Futuro de Uma Ilusão, 1927)
 
Se Freud desprezava a distinção entre os termos, não é menos verdade que os dois estão dados em alemão, e ele muito sabiamente elegeu Kultur para seu ensaio que depois se tornaria muito conhecido: Das Unbehagen in der Kultur.
A crítica da civilização remonta na modernidade à Rousseu e seu culto do "bom selvagem"; já Freud recusa a tese da felicidade superior dos "selvagens" e localiza o mal-estar muito antes da construção das cidades. Na sua definição de cultura, já se encontra um ponto que será fundamental no texto de 1930: a ideia da distinção entre o homem e a natureza/animalidade que, por sua vez, se liga à conquista de uma séria de técnicas de extração e conquista de riquiezas, mas também de convívio social.
 
Amanhã, seguimos...
 
Fraterno abraço!
 
André Lacerda - Psicanalista