quarta-feira, 20 de maio de 2015

Um País no Divã!

Depois de uma parada por absoluta  falta de vontade de escrever, retomo minhas publicações tentando entender nosso momento cotidiano. 
Já fiz o exercício de analisar as nunces de algumas cidades, entre elas a minha amada Porto Alegre. Claro que num texto lúdico e restrito à licença literária.
Partindo desse contexto, poderíamos dizer que o País encontra-se acometido pelo que o Freud descreveu como sendo uma neurose de guerra (vide o homem dos ratos). 
No caso freudiano que citei, o homem, preso de guerra, temia a tortura que consistia em confinar o prisioneiro de modo que os ratos da cela penetrassem pelo seu ânus. Sugiro aos interessados que aprofundem a leitura na fonte. Ou seja , em Freud. 
Mas segue o baile... 
Vejamos... que:
Vivemos numa época insegura. Aqui mesmo no meu Estado, pelo que vejo nos jornais, a insegurança pública  está sob o comando de duas ou três facções criminosas que dominam o sub mundo. 
É gente morrendo que não é brincadeira não... 
E tem gente achando que pena de morte é solução, ditadura é solução, golpe é solução, que cadeia é solução, que tribunais de guerra e processos sumários são soluções. 
Ou seja... se seu cãozinho pega sarna,  dê uma paulada na cabeça dele que a sarna não se prolifera. A vida cessa... mas a sarna também... 
Mas isso não é problema pontual. O mundo está em crise de violência. Vejam nos Estados Unidos. Vejam na Europa. E Vejam nas suas cidades. 
E vejam nas redes sociais que surgiu como ferramenta de aproximação de pessoas e para a facilitação das relações humanas. Hoje se vê uma salada de frutas onde as frutas são fakes, tarados anônimos, pedófilos anônimos, nazistas anônimos (as vezes nem tão anônimos), perversos (de qualquer natureza!!!) anônimos e todo mundo vê isso com a legenda de kkkkkkkkk!
E vejam na fila do banco, nos corredores do super mercado, nas escolas, no trânsito cada vez mais igualmente neurótico, e até nos namoros de esquina. A neurose coletiva está à flor da pele. 
O Freud se referindo ao Stress, disse que era até compreensível e natural diante dos "tempos modernos" da Europa do século XIX.... 
Não sei o que o Freud diria nos dias atuais. Sei que uma das soluções pra isso (pra mim a única), seria diagnosticar a atual conjuntura não como de crise econômica, política, etc, mas sim como momentos de crise social e cultural. 
Acho que os males da civilização também relatados pelo Freud, estão se tornando tais como a neurose, visíveis à flor da pele. 
De resto, como disse um poeta popular do Rio Grande velho de Guerra: "Cada patriota gaúcho que faça sua parte!"   

Fraterno Abraço!
André Lacerda - Psicanalista


  

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Do Norte ao Sul. O Encontro de Eros e Diana!

Ele reinava absoluto no seu reino do Norte. Ela reinava absoluta no seu reino do Sul.
Ele tinha um deus no nome e era cercado por um harém mesmo tendo tenra idade. 
Ela tinha uma deusa no nome mas seu reino era só dela. 
As forças adjacentes se uniram para que ele conhecesse e desbravasse o reino dela no Sul. 
Ele chegou com sua jovialidade contagiante e com sua energia própria de sua idade. Era um infante conquistador de espaços e corações. 
Ela assustou-se com a chegada dele e resistiu inicialmente à todo o poder de sedução dele. Demostrou seu descontentamento mas não o agrediu. Ela deve ter pensado que não queria invasão ao seu domínio. 
As forças adjacentes que pensaram nessa aproximação entristeceram pelos fatos. Pensaram que um completaria o outro. E ela estava com medo de deixar de ser única. Porque as fêmeas gostam é de conquistar e se sentiu invadida porque ele já chegou conquistando. Porque o reizinho era mesmo encantador.
E o reino todo percebeu que ela estava começando a ceder e estava ficando óbvio que ela não resistiria aos encantos do jovenzinho hiper ativo. 
Os dias estão passando e eu observador participativo e atento, estou sentindo e vendo que está se formando uma relação absolutamente afetuosa e produtiva. 
Calma gente.... rs... Não é um conto de fadas (ou é... não sei...rs).
Trata-se da chegada de Eros - o deus do amor em nossa casa na zona sul. Ele que veio da zona norte. 
É o novo maninho de minha Diana - a deusa da caça. 
Vos apresento Eros....
Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista
P.S.: Obrigado Carolina Lessa pela dádiva!

Ela........Diana - A deusa da caça

Ele ..... Eros - o deus do amor


  

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Caso Clínico

Então me explico:
Terminei de fazer um laudo de um caso que trato há seis meses. Sempre que narro um caso clínico, procuro ter bem claros dois critérios: 1) a privacidade do paciente e o consequente cumprimento de meu dever ético; 2) o benefício que a informação publicada pode levar à todos os que acompanham meus escritos.
Dentro dessas circunstâncias, vou divulgar uma parte de meu laudo, obviamente omitindo nomes e qualquer meio de identificação. Afinal, creio que, apesar de não ser um tema novo, é pouco difundido e pouco visto pela propria comunidade da saúde. Espero contribuir com profissionais da área, e principalmente com os leitores leigos que podem se deparar com situação semelhante. 
.......

CLÍNICA PSICANALÍTICA LTDA
ALVARÁ Nº 03373843 - Prefeitura Municipal de Porto Alegre
Fone (51) ...... - .....
CNPJ 06.973.616/0001-25
ANDRÉ LACERDA – PSICANALISTA
Membro Sociedade Brasileira de Psicanálise – SBPI (WWW.sbpi.org.br) Registro nº 690

 




Caso Clínico:

Paciente busca nosso atendimento de emergência em 29 de novembro de 2014, após episódio crítico tendo sido atendido em serviço de emergência (documento em anexo), tendo como demanda principal, sintomas e perturbações de ordem  psico-emocional, cujas causas relacionam-se a Reação ao stress grave e transtornos de adaptação (CID - 10 = F43), com consequências que seguramente desencadearam em Episódio Depressivo ( CID -10  =  F32) e  ainda ( como HD) Transtorno Depressivo Recorrente (CID -10 = F33), que ainda vinculam-se a situação atual e persistente de pressões exógenas não elaboradas psiquicamente, que via de regra, podem também desencadear em trauma pós traumático relacionado com o momento em que vive, assim como situações pesarosas e torturantes com altíssimo nível de sofrimento.

Considerações:

            A grande maioria de estudos e trabalhos recentes no campo das psicopatologias e do comportamento humano tem defendido a ideia de que as situações de alta pressão e privação afetiva muitas vezes podem deflagrar um estado psíquico perturbador ou até mesmo doentio.
            O grau de perturbação ambiental que o indivíduo sofreu antes, durante e depois de traumas de natureza exógena de importância efetiva, influencia sobremaneira o seu desenvolvimento emocional e possibilita uma estimativa quanto à futura (no caso de ....., IMEDIATA) necessidade de uma interferência terapêutica em vez de cuidados comuns.
            Verifica-se, que há uma tendência a se encontrar sintomas ligados a comportamentos impulsivos, agressivos, antissociais. Observa-se cotidianamente um incremento de queixas de hipercinesia, condutas destrutivas, dificuldades nas atividades laborais e problemas de relacionamento com familiares e amigos.
            Deve ser levado em conta no caso, saber-se de que a leitura de uma repetição de trauma feita pelo aparelho psíquico, muito provavelmente causará o desencadeamento de uma ou mais psicopatologias.

            Hipótese Diagnóstica:

            No caso do paciente em questão, devo enfatizar que, optei por intensa frequência terapêutica por tempo indeterminado, considerando, sobretudo, o “poder” avassalador das psicopatologias referidas (CID F43, F32 e F33 - 10ª Edição) e ainda do possível  TRANSTORNO DE ESTRESSE POS TRAUMÁTICO, visando a segurança do paciente, e tentando evitar danos maiores, inclusive a possibilidade de suicídio.
            No processo anamnético verifiquei :
1)     O paciente ...... teve atendimento psiquiátrico do ano de 2002 até 2009 pelo Dr........ , tendo sido diagnosticado como portador do Transtorno do Pânico (Cid 10 F41.0, sendo que em diversas ocasiões apresentou relativa incapacitação laboral devido a recaídas sintomáticas, sem ter nunca solicitado licença laboral. (Anexo declaração do referido Médico)
2)      Nota-se que no ano de 2010 e anos seguintes, tendo abandonado tratamento por seu psiquiatra ter fixado residência no exterior, o paciente passa por diversos outros profissionais em virtude de crises e quadros considerados graves como esquizofrenia catatônica, quadro psicótico grave, transtorno do humor, sendo inclusive diversas vezes ter sido requisitada sua internação psiquiátrica. (Documentos em anexo)
3)     Que de 2002 até a presente data o paciente faz tratamento farmacológico de Venlafaxina de 75 a 150 mg ao dia, dependendo da situação sintomática que se encontra na sua rotina.
4)      Que SEMPRE, os gatilhos desencadeadores de crises psico emocionais, foram conflitos originários na sua atividade laboral, em virtude daquilo que os operadores do Direito chamam hoje de assédio moral, cujas ações no campo jurídico, não raro tem se estendido para os consultórios de psiquiatras, psicanalista e psicólogos. Reitero que me refiro á episódios ocorridos em 2002, 2010 e 2014, sendo que este último foi o motivo do paciente procurar meu atendimento terapêutico.

            Contudo, devo sublinhar que os problemas têm de ser compreendidos e tratados como questões multidisciplinares, pois é a partir do desempenho das relações parental, social e clínica/terapêutica, que se organiza a experiência do indivíduo e a qualidade de seu vínculo.
            Sabemos que o desenvolvimento psicossocial e afetivo de uma pessoa depende de múltiplos fatores, ligados a hereditariedade e principalmente à sua experiência com o ambiente que o cerca.

Fundamentação Teórica:

O Transtorno de Estresse pós Traumático ou TEPT é uma reação do organismo parecida com a Síndrome do Pânico, porém com uma característica importante:
É uma reação a acontecimento inesperado, ameaçador, imprevisível e traumático, por exemplo: Combate, sequestro, prisão, assalto, estupro, acidente, agressão física ou moral, etc.

Um diagnóstico preocupante, um resultado de exame de laboratório que indique doença grave, uma cirurgia difícil, um pós operatório complicado, uma perda financeira ou afetiva, incêndio, inundação, terremoto, combate.

Também pode desenvolver quando a pessoa testemunha ou fica sabendo de uma experiência semelhante que ocorreu com outra pessoa de sua família ou de seu relacionamento.

Sintomas do Estresse pós Traumático:

           
Taquicardia, sudorese, falta de ar, tremor, fraqueza nas pernas, ondas de frio ou de calor, tontura, sensação de que o ambiente está estranho, de que vai desmaiar, de que vai ter um infarto, de uma pressão na cabeça, de que vai "ficar louco", de que vai engasgar com alimentos, assim como crises noturnas de acordar sobressaltado com o coração disparando e com sudorese intensa, diarreias, sintomas de uma Labirintite, pensamentos que não saem da cabeça de que poderiam ter doenças graves mesmo que todos os exames sejam normais ou de que poderiam fazer mal a si mesmo ou a outras pessoas e  mais:
Pesadelos e terrores noturnos relacionados com o evento traumático.
Flash Backs (a pessoa tem a sensação de estar vendo ou vivenciando a mesma situação, como uma cena de filme).

Com o passar do tempo, o paciente de Estresse pós Traumático ou TEPT desenvolve um estado depressivo crônico com apatia, irritabilidade, desinteresse, diminuição de memória e culpa, diminuição de rendimento escolar e profissional, isolamento social, desesperança com relação a planos de vida de antes do evento traumático.

Algo que lembrar a situação desencadeante pode causar ataques de ansiedade.

A pessoa passa a evitar situações que possam lembrar o evento que provocou o Estresse pós Traumático.

            O transtorno de estresse pós-traumático pode ser entendido como a perturbação psíquica decorrente e relacionado a um evento fortemente ameaçador ao próprio paciente ou sendo este apenas testemunha da tragédia.

O transtorno consiste num tipo de recordação que é melhor definido como revivescência pois é muito mais forte que uma simples recordação. Na revivescência além de recordar as imagens o paciente sente como se estivesse vivendo novamente a tragédia com todo o sofrimento que ela causou originalmente. O transtorno então é a recorrência do sofrimento original de um trauma, que além do próprio sofrimento é desencadeante também de alterações neurofisiológicas e mentais.

Diagnóstico
            O primeiro aspecto a ser definido é a existência de um evento traumatizante. Aquele suficientemente marcante, não havendo dúvidas quanto a ser ameaçador à vida ou à integridade individual, como os sequestros, assaltos violentos, estupro.

 Há, contudo certos eventos que podem não ser considerados graves como um acidente de carro sem vítimas. Mesmo assim caso uma pessoa venha a apresentar o quadro de estresse pós-traumático perante uma situação que poderia não ser considerada forte o suficiente para causar danos à maioria das pessoas, pode causar danos para outras.

 Com certeza, um evento marcante, fora da rotina, que de alguma forma represente uma ameaça, tem que ter acontecido: sem isso não será possível fazer o diagnóstico, pois a definição dele envolve o evento externo.

 Os sintomas têm que estar diretamente relacionados ao evento estressante, as imagens, as recordações e as revivescência têm que ser a respeito do ocorrido e não sobre outros fatos quaisquer ainda que ameaçadores.

Para o diagnóstico é essencial que a pessoa tenha experimentado ou testemunhado um evento traumatizante ou gravemente ameaçador.

Quando esse evento ocorre é necessário também que a pessoa tenha apresentado uma resposta marcante de medo, desesperança ou horror imediatamente após o evento traumático. Depois isso o indivíduo deve passar a ter recordações vivas, intrusivas (involuntárias e abruptas) do evento, incluindo a recordação do que pensou, sentiu ou percebeu enquanto vivia o evento traumático.

 Podem ocorrer pesadelos baseados no tema. Sentir como se o evento fosse acontecer de novo, chegando a comportar-se como se estivesse de fato vivendo de novo o evento traumático. Nesses eventos é possível que o paciente tenha flashbacks ou alucinações com as imagens do evento traumático.

 As situações que lembram o evento causam intenso sofrimento e são evitadas. Ter de expor-se novamente ao local pode ser insuportável para o paciente. Por isso o paciente passa a evitar os assuntos que lembrem o evento, como também as conversas, pessoas, objetos e sensações, tudo que se relacione ao trauma.

 A recordação dos aspectos essenciais do trauma pode também ser apagada da memória. A pessoa pode afastar-se do convívio social e outras atividades mesmo que não relacionadas ao evento. Pode passar a sentir-se diferente das outras pessoas.

 Pode passar a ter dificuldade de sentir determinadas emoções, como se houvesse um embotamento geral dos afetos. Pode passar a encarar as coisas com uma perspectiva de futuro mais restrita, passando a viver como se fosse morrer dentro de poucos anos, sem que exista nenhum motivo para isso.

Outros sintomas podem ser também insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração, respostas exageradas a estímulos normais ou banais.
Para se fazer o diagnóstico é preciso que esses sintomas estejam presentes por no mínimo um mês. Caso o tempo seja inferior a isso não significa que a pessoa não teve nada, só não se pode dar esse diagnóstico.

            Certos sintomas não compõem o diagnóstico, mas podem ser encontrados nos paciente com estresse pós-traumático como dor de cabeça, problemas gastrintestinais, problemas imunológicos, tonteiras, dores no peito, desconfortos.

O transtorno de estresse pós-traumático é provavelmente um transtorno muito comum, porém pouco conhecido, como nas décadas passadas foram desconhecidos porém freqüentes os transtornos de pânico, fobia social, obsessivo compulsivo.

O estresse pós-traumático se diferencia dos demais transtornos de ansiedade e da maioria dos transtornos mentais por ser causado a partir de um fator externo.

 O aparato mental do homem é capaz de lidar com situações estressantes sem que isso deixe cicatrizes, da mesma forma que os vasos sanguíneos são capazes de suportar elevações da pressão arterial durante o exercício físico normalmente.

 Há, contudo limites a partir dos quais o funcionamento mental fica perturbado. Provavelmente isso ocorre quando os mecanismos de enfrentamento e suporte contra estresse são fracos ou quando os estímulos são fortes demais.

 Quando surgirá o transtorno não podemos saber, o fato de uma pessoa ter passado por um trauma não significa necessariamente que ela terá estresse pós-traumático.

Observa-se que num mesmo evento, algumas pessoas podem apresentar esse transtorno e outras não. Essas variações nos levam a julgar que existem também predisposições pessoais a este problema, o que de fato tem sido constatado.

Pessoas com outros problemas de ansiedade prévios apresentam maior susceptibilidade a desenvolverem o estresse pós-traumático.

Grupo de Risco e Curso

Qualquer pessoa pode desenvolver estresse pós-traumático, desde uma criança até um ancião. Os sintomas não surgem necessariamente logo após o evento, podem levar meses. O intervalo mais comum entre evento traumatizante e o início dos sintomas são três meses. Muitas pessoas se recuperam dos sintomas em seis meses aproximadamente, outras podem ficar com os sintomas durante anos.

Transtorno de estresse pós-traumático: uma neurose de guerra em tempos de paz

Como compreender e tratar pacientes que foram vítimas de episódios violentos, como estupro, assalto, sequestro? Quais as consequências psicológicas desses eventos?

Vejamos a visão psicanalítica sobre o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), já reconhecido internacionalmente como doença.

Trata-se de um tema que foi historicamente importante para o desenvolvimento da Psicanálise, pois se percebeu que os sintomas apresentados pelos pacientes que sofriam de neurose traumática não podiam ser explicados pela teoria usual, ou seja, como uma manifestação simbólica de algum conflito inconsciente.

 Apesar disso, o TEPT parece ter sido deixado de lado com o tempo. Preocupados com a responsabilidade do profissional de saúde em uma realidade em que a violência se faz cada vez mais presente e muito se debate o funcionamento mental do criminoso, mas se deixa de lado as consequências na psique da vítima, os autores oferecem compreensões teóricas e propostas de intervenção.

Devemos num primeiro momento rever a descrição do transtorno e, considerando a definição da CID-10 como vaga demais, explicar fatores como a experiência (resultante do evento factual que não é elaborado e da vivência) e também quais episódios da realidade poderiam ter maior capacidade traumática.

Pode-se começar vislumbrando a origem do TEPT na frustração libidinal associada a uma situação de perigo, de maneira que uma situação pode tornar-se um trauma quando o perigo presente nela excede as capacidades individuais de enfrentá-lo.

Em relação aos sintomas, detalhamos os critérios do DSM-IV, visto como mais específico se comparado com a CID-10, tomando o cuidado de diferenciar o TEPT do Transtorno Dissociativo.

 Já em relação à prevalência, existem pesquisas que indicam que quantidades significativas de pessoas não conseguem se restabelecer por conta própria após alguns meses do evento, considerando cinco fases de resposta ao trauma.

Em casos crônicos, o TEPT pode permanecer por muitos anos, especialmente quando o episódio violento foi provocado por humanos, fazendo o indivíduo remodelar sua vida de maneira a evitar situações perigosas.

 Importante, apresentar e discutir outros transtornos associados ao TEPT e como se dá a comorbidade.

Com relação às bases biológicas do transtorno de estresse pós-traumático, visando a uma interação entre estruturas teóricas diferentes, podemos verificar o transtorno como uma falha do organismo em se recuperar de eventos marcantes.

 Entre os neurotransmissores importantes no quadro, destacamos o cortisol, um mediador da resposta de estresse, que possui relação com as memórias intensas e inapropriadas do episódio.

Como o cortisol se apresenta em quantidade reduzida em pacientes com TEPT, aventa-se a possibilidade de se prever o desenvolvimento do transtorno no período imediatamente após o evento estressor.

Abordando, A metapsicologia do trauma, propõe-se uma teorização da ação do trauma no aparelho psíquico, segundo Freud e Ferenczi, apresentando evidências de uma teoria inconsciente sobre o paciente e as causas das dores, diferente da Medicina.

 Visando a descobrir como a psique lida com quantidades excessivas de estimulações, vamos rever os subsistemas j, y e w, sua função e diferenciação, e como eles agem com a distribuição de energia no trabalho psíquico.

 Propõe-se que o TEPT apareça como uma repetição compulsiva da dor de quando a vítima se sentiu abandonada e impotente perante uma ameaça a sua vida, o que sugere que o trauma seja uma ferida egóica que provoca um distúrbio narcísico.

Intensificando a questão crucial (psíquica) avocamos no estudo A fixação no trauma e a teoria da libido, retoma-se o conceito de pulsão de morte e compulsão à repetição na teoria freudiana.

 Propõe-se que o trauma apareça por causa de um excesso de estimulação e incapacidade do aparelho psíquico em se livrar dela, surgindo uma angústia semelhante à do nascimento.

 A fixação no trauma, assim, se daria como uma busca por uma nova experiência que proporcionasse uma descarga adequada.

A concepção psicanalítica de neurose e o TEPT, relembra que o transtorno surge a partir de um momento único e com sintomas não simbólicos, ao contrário das outras neuroses, onde trazemos o conceito de Neurose Traumática proposto por Freud.

 Após uma detalhada revisão histórica da obra freudiana sobre o tema, explica-se como o TEPT surge devido a três alterações no aparelho psíquico: inicialmente uma falha na descarga da excitação, surgindo, por diversos fatores, a compulsão à repetição e, por fim, falhas nas defesas.




Conclusão:

            Dentro de todas as circunstâncias apresentadas no presente documento, recomendo no caso do paciente ......., a observância dos seguintes itens considerados condição “sine qua non” para a segurança e recuperação:

1) Evitar, A QUALQUER CUSTO, ambientes, pessoas e coisas que possam estimular impulsos sintomáticos desencadeadores de novos eventos traumáticos;

2)   Manutenção de 3 sessões psicanalíticas semanais por tempo indeterminado, fator, aliás, ser de absoluta importância para o sucesso de pleito;  
 
3)   Acompanhamento rotineiro de profissional médico CARDIOLOGISTA e CLÍNICO, a fim de prevenir e/ou remediar sintomas e patologias  de ordem psicossomática;

4)   Revitalizar relações familiares;

5)   Comprometer-se com a CONSTRUÇÃO pessoal;

6)   Manutenção de acompanhamento psiquiátrico assim como da medicação prescrita pelo médico psiquiatra responsável por tal acompanhamento.

Porto Alegre, 25 fevereiro de 2015.



                                                                                   André Lacerda
                                                                                     Psicanalista
                                               Membro SBPI- Sociedade Brasileira de Psicanálise Integrativa
                                                                                     Reg nº 690
                                                                                                         



sábado, 17 de janeiro de 2015

Manicômios, Prisões e Conventos!

Duas histórinhas pra brindar esse sábado de muita chuva na parte mais meridional da América do Sul.

A primeira trata-se de uma questão envolvendo as ditas (famigeradas???) instituições totais, que tão bem o Erving Goffman (psicólogo americano) retratou em seu ótimo Manicômios, Prisões e Convetos que, aliás, recomendo à todos os aspirantes à psicocoisos.... rs
Uma jovem psicóloga manifestou ao experiente psicanalista sua vontade de trabalhar com os estudos das psicopatologias em uma instuição total, específicamente num presídio. 
O psicanalista imaginou que ela talvez tivesse a boa intenção de buscar as origens da perversão, das psicopatias em geral ou mesmo dos ditos novos transtornos que via de regra surgem a cada dia... 
Com uma pedância digna de Lacan nos melhores momentos de Lacan pedante, do alto de seu suposto saber questionou:

- De que valem os conceitos nosocomiais se não sabemos as vezes como amenizar o sofrimento de nossos pacientes? Achas que vale priorizar o conceito etmológico em detrimento do alívio e do consolo de quem sofre? Que uso farias de diagnósticos de TEPT(transtorno do estresse pós traumático) ou PMD(psicose maníaco depressiva hoje conhecida como transtorno bipolar do humor) dentro de um presídio????

E porque os psicanalistas são expressivos, levantou-se e prosseguiu:

- Conheço mais do que queria os presídios. E conheço mais do que queria os manicômios. Conheço pouco os conventos (se bem que tem o caso daquela freirinha no início da carreira... rs... mas isso é outra história...) e posso te garantir: As instituições totais são fechadas para o alívio da dor. Elas cumprem sua unica função que é exatamente institucionalizar. Porque instituições institucionalizam. Existem apenas quem domina e quem é dominado. O melhor e, ao meu juízo o único,  verdadeiro laboratório é o mundo livre. Onde pessoas livres manifestam suas dores, seus medos, suas angonias, suas vontade (endógenas e exógenas) e onde sobretudo, deixam fluir os seus instintos mais primitivos e os mais elaborados pela dita civilização. Guria??? Como fazer anamnese num presídio? e num hospício? e num convento???
Quando a jovem psicóloga saiu, o psicanalista pensou que tinha exagerado na pedância...

A segunda história tem a ver com um rei medieval e suas três esposas... e o rei tinha escolher a preferida... mas essa história vou deixar pra próxima crônica. 
E não esqueçam que ainda está a disposição o meu livro Reflexões do Psicanalista na Vida Cotidiana no formato EBOOK.. pedidos pelos email andrelacerda15@gmail.com e laura.ncunha@gmail.com

Fraterno abraço!
André Lacerda - Psicanalista
   

  

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O Além do Horizonte!

A terra estava árida e cansada e mesmo assim aquela semente germinou.
A moça falou que amava e levou chocolates e tudo o que de melhor tinha na sua alma e no seu  corpo. O moço não quis e a moça chorou. Porque moças choram quando não são desejadas. Mas a moça sobreviveu. Porque as moças sobrevivem.
O homem chegou com um brilhante e com as intenções para uma vida longa e provida de filhos e de segurança. A mulher duvidou e desprezou o diamante e a vida longa e segura. E gargalhou dos filhos. O homem trocou o diamante por um Camaro vermelho e a mulher voltou a sonhar na sua janela florida. 
A criança queria o sorvete. O sorveteiro negou-se a trabalhar naquele dia e o sorvete não veio. E a criança choramingou. Porque crianças choramingam. Mas logo passou o cara do algodão doce e a criança adorou. Porque crianças adoram algodão doce e sorvetes. 
O trabalhador chegou com seu hiper super mega currículo atualizado e com uma simpatia digna de miss universo em dia de desfile de apresentação. O patrão não contratou. Porque não é sempre que patrões contratam. O trabalhador se calou com a boca de feijão e se foi em direção a outro patrão. Porque em algum lugar haverá de ter um patrão que contrate. 
O velho entrou naquele hospital achando que ia morrer e enfim descançar. Voltou pra casa com AAS para desentupir artérias, paracetamol para as dores, sonífero para dormir, anti depressivo para não chorar e ansiolítico para viver. 
E eu que vi tudo isso pensei:
O além do horizonte é apenas o dia que nasce amanhã. E depois vem outro e mais outro.. e mais outro como disse o velho poeta de minha terra.
 Aproveitem os dias. 
Fraterno abraço!
E não esqueçam, que meu livro REFLEXÕES DO PSICANALISTA NA VIDA COTIDIANA na versão EBOOK continua a venda. Pedidos pelo email andrelacerda15@gmail.com ou pelo email da editora laura.ncunha@gmail.com

André Lacerda - Psicanalista



  

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O Tempo que Passa!

Entao: Acabou 2014! 
Apesar de ter passado voando, ele passou como passam todos os anos. O tempo passa do mesmo jeito. Ou pelo menos do mesmo jeito que nós entendemos que ele passa. Porque em outras circunstâncias ( no espaço, em outros planetas, etc) o tempo passa de maneira diferente daquela que nós medimos. 
E foi tempo. E muita coisa aconteceu. 
Nada de fazer retrospectiva, e apenas penso que se aprendeu bastante nesse 2014. Quem quiz. Porque teve gente que não quiz. E não aprendeu. 
Eu aprendi.
Aprendi que foi oportuno eu ter entregue meu coração.
Entreguei aos que eu amo e aos que me amam. E isso me fez mais feliz e sensível à todas as questões que exigem amor. E todas as questões exigem amor. 
Entreguei ao meu competente cardiologista André (também!! com esse nome só pode ser bom... rs)  que com alguns (muitos) toques de mestre reviveu meu coração para que eu tivesse mais pra entregar e amar. 
Entreguei aos meus pacientes. Mesmo pra aqueles que duvidam que o psicanalista tenha coração. Porque isso sempre fiz. Porque isso também faz parte de meu ofício. 
Entreguei aos meus credores. Porque isso faz parte.
Entreguei aos meus devedores. Porque isso faz parte. 
Entreguei meu coração também às minhas esperanças. Porque são elas que fazem meu coração bater. 
Entreguei aos meus medos. Porque eles existem. E são eles que fazem meu coração quase parar de bater.
Entreguei aos meus projetos. Porque eles são frutos do amor que sinto pelo que faço. 
Então: Acabou 2014. 
Eu aprendi, entreguei, amei, vivi, paguei, cobrei, trabalhei e isso tudo com muita esperança. 
E em 2015 desejo que todos os medos sejam banidos do meu e do coração de todos os que acabam de ler essa última crônica do ano.
E não esqueçam, que meu livro REFLEXÕES DO PSICANALISTA NA VIDA COTIDIANA na versão EBOOK continua a venda. Pedidos pelo email andrelacerda15@gmail.com ou pelo email da editora laura.ncunha@gmail.com

Fraterno abraço e feliz ano novo !
  
    

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

A Solidão do Psicanalista!

- E o que será que eu posso fazer com essa dor aguda que atormenta o peito, a alma e todo meu ser?? Me ensina como lidar com essa tristeza de perder algo muito especial e querido mesmo sem ter perdido ainda? E como eu faço com o alimento que não consigo digerir porque o estômago rejeita qualquer coisa? E como faço com essa vontade incontrolável de chorar e por incontrolável me desmancha a maquiagem e mesmo a minha nata fisionomia? E minhas unhas roídas pela ansiedade e pelo medo? E o meu sono que não chega e quando chega me cansa mais do que o  mais árduo dos trabalhos? E o Sol que sempre amei?? Será que um dia ainda vou voltar a gostar de ver ele nascendo? Ou o nascimento do Sol sempre vai despertar em mim o medo do dia que inicia?? E a luz do luar? Um dia ainda voltarei a ver o luar com a esperança e expectativa dos amantes? E a água que bebo e que se transforma em sal nos olhos e lava minha face com água do mar? E as feridas que já são chagas sangrantes? Me diga que elas vão cicatrizar?? Por favor???

Isso foi o apelo desesperado daquela paciente naquela tarde de calor intenso. 
O psicanalista não podia dar-se ao luxo de simplismente deslocar-se para um lugar da zona de conforto dentro da técnica e do pragmatismo. Ele sentiu que naquela hora ele precisava, hipocraticamente, consolar. Lembrou-se do juramento de Hipócrates: "....consolar SEMPRE!"

- Não sei o que fazer com essa dor, mas sei que estarei contigo enquanto essa dor te estiver maltratando. Não posso te ensinar a lidar com a dor da perda daquilo que não perdeste. Mas quando perderes estarei contigo na estrada amarga do luto e juntos acharemos o bálsamo que vai fazer a falta transformar-se em saudade. E eu não posso te prometer a volta do apetite,nem a falta de choro, nem o Sol e a Lua e nem o estancamento do sangue de tuas feridas. Mas te juro: Só me afastarei de teu lado, quando tu estiveres segura e reencontrado a felicidade, pois a minha será ter ver segura e feliz!

E é por isso que alguns (sábios) dizem que o único diploma que deveria ter no consultório do psicanalista é aquele em que está escrito: Um solitário feliz!

Fraterno abraço!
André Lacerda - Psicanalista

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