quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

O Psicanalista no Tratamento Oncológico/ Quimioterápico - A desistência!

Começo minha crônica citando "in verbis" ;

Título [Principal]: Fatores associados a não-adesão ao tratamento de mulheres com cancer ginecologico ou mamario
Autor(es): Nancy Mineko Koseki
Palavras-chave [PT]:
Câncer, Adesão , Mama, Aparelho genital feminino,
Área de concentração: Tocoginecologia

Resumo: O objetivo deste trabalho foi identificar fatores associados à não adesão das mulheres com câncer ginecológico ou mamário à conduta terapêutica proposta, avaliando, conjuntamente, as causas de tratamento incompleto, por progressão da doença, toxicidade à terapia e abandono pela paciente; em seguida, considerando apenas o abandono. É um estudo de coorte retrospectivo realizado com os dados de 213 mulheres, atendidas como caso novo, no Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher da Universidade Estadual de Campinas (CAISM/UNICAMP), em 1990. A avaliação estatística foi realizada por meio dos testes do Qui-Quadrado, com nível de significância de 5%; risco relativo e risco relativo ponderado, Mantel Haenszel, com seu correspondente intervalo de confiança de 95%. Com o objetivo de estudar a influência de algumas variáveis, foi utilizada a análise de regressão logística. Das 213 pacientes incluídas, 26% não concluíram o tratamento e mais da metade destas, por abandono. Mulheres com mais de 64 anos apresentaram um risco duas vezes maior de não completar o tratamento que aquelas com menos de 55 anos. Esse risco foi três vezes maior entre as pacientes com câncer de mama. O risco de não concluir o tratamento aumentou progressivamente com o estádio da doença. Tanto a quimioterapia quanto a radioterapia estiveram associadas a não-adesão por progressão, toxicidade ou abandono; porém, a associação foi maior entre as usuárias de quimioterapia. Das cirurgias propostas, menos de 10% não foram realizadas. O abandono, como causa de não-adesão, esteve associado com idade acima de 64 anos, estádio avançado da doença, câncer de mama e quimioterapia. Pode-se inferir, neste estudo, que a não-adesão ao tratamento prescrito também ocorre entre mulheres com câncer e, que o aconselhamento, educação e motivação das pacientes e seus familiares desde o diagnóstico, possibilitariam o aumento da proporção de mulheres que completariam o tratamento.

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Mas e dai senhor psicanalista??? Onde é que tu entras nisso? Com que base tu vais direcionar o tratamento de teu paciente oncológico no sentido de aconselhar, educar e motivar para que o mesmo não desista do tratamento oncológico??
Pergunto eu e respondo eu!
Tudo está em Freud!
Diz o mestre:

"É quase humilhante que, após trabalharmos por tanto tempo, ainda estejamos tendo dificuldade para compreender os fatos mais fundamentais. Mas decidimos nada ocultar. Se não conseguirmos ver as coisas claramente, pelo menos veremos claramente quais são as obscuridades." ( Inibição, Sintoma e Ansiedade, 1926)

Na primeira teoria das neuroses de angústia, Freud estabelece que a explicação da origem da angústia estava no acúmulo de excitação (libido) e esta , recalcada, transformar-se-ia diretamente em angústia.
Na segunda teoria, entretanto, a ênfase é colocada na situação de PERIGO. Os perigos variam ao longo da vida, mas guardam sempre algo em comum: estão relacionados à separação, à perda de um objeto amado, à perda de um amor ou.... o surgimento de um câncer. Esta perda produz situações de insatisfação, e com o acúmulo de desejos insatisfeitos (no caso do paciente oncológico o desejo de estar livre do câncer) surge o desemparo: a situação traumática ´descendente direta do estado de tensão acumulada.
Qual é, pois, a função da angústia, e quando ela se produz? Trata-se de uma reação a um perigo, e ressurge quando algo associado àquilo que ameça se faz presente. O perigo é o câncer. O tratamento oncológico (pois ninguém duvida que o tratamento é extremamente avassalador) é portanto o fator de associação ao que ameaça e causa medo. Ela (angústia) pode surgir tanto como uma reação inadequada quanto como um sinal para evitar que a situação de perigo se concretize. 
Assim, no caso do tratamento oncológico/quimioterápico, é ai que entra o psicanalista.
Fraterno Abraço!
André Lacerda - Psicanalista


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O Psicanalista no Tratamento Oncológico Quimioterápico! A dor do cuidador!

O psicanalista já tinha observado aquele jovem médico circulando pelos centros oncológicos onde ambos circulavam (e se cruzavam) e lhe chamava a atenção a jovialidade e entrega do oncologista que certamente estava no início de carreira. 
O Psicanalista pensou (porque psicanalistas pensam as vezes) que ali estava um homem com a entrega e altruísmo indispensáveis ao ofício de cuidar de pessoas. 
Mas...
Mas um dia o psicanalista viu que num dos consultórios do centro oncológico, o jovem médico estava sendo socorrido pela equipe de enfermagem e por um dos outros oncologistas.
Sim.... o jovem oncologista estava com câncer e além de cuidador, era também um paciente oncológico. Estava portanto inserido no combate ao câncer, por todos os prismas e circunstâncias que se pudesse imaginar do front de batalha.
O psicanalista não conseguiu esconder o choque que sofreu quando soube do caso. Não pela doença em si, mas talvez pela juventude e entusiasmo do médico que mesmo estando sendo atendido não parava de manifestar preocupação e cuidados relativos aos seus pacientes que estavam em atendimento, 
Não pelo câncer. Porque alguns oncologistas sofrem de câncer. Porque alguns cardiologistas são cardiopatas. Porque alguns traumatologistas as vezes quebram o pé. E... TODOS os psicanalistas tem avessos!!!!
Mas o choque se deu porque o psicanalista sabia dos efeitos da quimioterapia, e o quanto estava sendo difícil para aquele oncologista desenvolver seu trabalho, mesmo ele mesmo estando em tratamento quimioterápico.
Mas... vida que segue...
Passados alguns dias o psicanalista e o jovem médico compartilharam a mesma mesa do café num dos anexos do hospital. 
O assunto não poderia ser outro. Ou poderia sei lá... mas o fato é que o jovem oncologista foi (como de regra) cordial e generoso:

- Parabéns André pelo teu trabalho junto aos pacientes oncológicos. Quero te encaminhar alguns dos meus pacientes caso tua disponibilidade permita. Tudo bem?
- Claro que sim meu amigo (obviamente que não vou citar o nome do médico, apesar de ele não tem nenhum problema com isso), teus pacientes serão bem vindos e sempre acolhidos. Na verdade não vejo a hora de ser eu mesmo acolhido por eles. 
- Que bom André. Amanha mesmo já te encaminho os primeiros cinco. Agora preciso ir que o dia será longo e ainda não comecei a atender. 
- Como assim?  Estavas em reunião? Te vi chegar logo cedo no hospital? 
- Não André! Não era reunião! Hoje vim cedo porque é dia da minha própria quimioterapia. Acabou agora mesmo uma sessão que me deixou com uma vontade doida de ir pra casa dormir e esperar passar os efeitos da droga. 
- E porque não vai então meu amigo? Queres que eu te leve?
- Não... obrigado psicanalista... volto ao centro oncológico e vou atender 15 pacientes que estão me esperando. A quimioterapia é a minha arma contra meu câncer. Os meus pacientes me dão a vida que preciso para continuar os vendo vivos!

Naquele dia o psicanalista pensou que talvez houvesse alguma coerência no dito popular que "O melhor médico é aquele que já sofreu a dor!".

Fraterno Abraço
André Lacerda - Psicanalista



terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O Psicanalista no Tratamento Oncológico/ Quimioterápico - A Estrutura.

Li recentemente uma citação do Dr. Adib Jatene:
"A primeira e mais importante especialização do médico deve ser a de Especialista em SER HUMANO!" 
Penso que todo o indivíduo profissional da saúde deve antes mesmo de escolher a profissão, ter em mente que sua vida sera a vida do ser humano. Não se pode ter outras prioridades quando se cuida de gente. Se bem que tive uma assistente que adorava trabalhar na minha clínica... mas... odiava ter que lidar com as pessoas....???!!! Óbvio que nossa parceria não deu certo por muito tempo.
Quando se trata do tratamento do câncer então... nem se fala. 
Não que eu pense que o câncer deva ser elevado a categoria de super doença como o preconceito e a desinformação fazem. Mas justamente por existir essa cultura(???) preconceituosa e desinformada é que o paciente oncológico requer intensa e especial atenção. 
Claro que tudo isso começa com a estrutura que as entidades de saúde devem dispor. 
Infelizmente, salvo raras (tomara que por enquanto) exceções, as instituições públicas do Brasil não oferecem a mínima estrutura para o tratamento oncológico. E sem estrutura, nem todo o amor do mundo vai fazer o profissional ter sucesso no tratamento de qualquer paciente. 
E quanto falo de estrutura, falo principalmente de equipe multidisciplinar além de todos os recursos materiais. Conheço por exemplo, centros oncológicos que ao invés de terem um profissional especialista da área psíquica, oferecem aos pacientes  com câncer visitas rotineiras de padres. 
Não tenho nada contra padres. Mas dai à César o que é de César, e um padre não pode substituir um psicanalista ou um psicólogo ou um psiquiatra. 
Como os que me acompanham sabem, desde a metade de 2015 estou envolvido de corpo e alma no projeto de inserir a Psicanálise no tratamento oncológico. E a experiência tem sido uma das melhores e mais produtivas de minha carreira psicanalítica. 
Do ambiente que estou inserido (que infelizmente não faz parte do sistema público de saúde), posso dizer que toda a estrutura é digna dos maiores centros oncológicos de referência do mundo, e só não cito a nome da instituição por questões éticas e de respeito para com aquelas instituições que não possuem condições para a mesma estrutura.
Mas.... o que vale mesmo nesse contexto todo, é o carinho, amor e consolo com os quais os pacientes são brindados cotidianamente. Isso não pode ser dado somente pelo médico ou pelo psicanalista. Isso deve começar pela recepcionista, passando pelos enfermeiros e técnicos de enfermagem.
Poderia citar centenas de abdicados profissionais. Poderia citar Jessicas, Sandros, Carines, Ivanas, Adas e Silenes. Ops... citei... risos...
Meus respeitos e admiração à todos. Vocês são Especialistas em SER HUMANO!
Fraterno Abraço!
André Lacerda - Psicanalista
   


   

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O Psicanalista no Tratamento Oncológico/ Quimioterápico - Novembro Azul!

Amanheceu novembro e o psicanalista já acordou com o lacinho azul na lapela.
Mês de combate ao câncer de próstata. Será??? Ou será o mês de combate ao preconceito (esse maldito que nos acompanha há 12 mil anos) ??
Me explico:
As mulheres do planeta são realmente fantásticas e penso que estão há milhões de anos luz de nós homens. 
O eventual leitor deve estar se perguntando o quem isso tem a ver com o novembro azul e o câncer de próstata que todo mundo sabe atinge o universo masculino. 
Me explico: Mas não tão objetivamente.
Algum dos amigos (homens) já viu como é feita uma mamografia? Eu já.... e te digo... todo vez que vejo fico horrorizado. 
O exame se realiza apertando de tal forma os seios da mulher, que quem vê (no meu caso, alguém de extrema sensibilidade) tem vontade de chorar.
No meu caso a primeira vez que vi fiquei com dor nos..... testículos... 
Imagina se nós homens tivéssemos que fazer uma exame cujo procedimento consistiria e apertar os testículos como os seios são apertados na mamografia???? 
Mas não vejo as mulheres tendo preconceito quanto ao ato de lhes tocarem os seios nus. Algumas se queixam (e com razão) da dor. Afinal ninguém nasceu pra sentir dor. 
Mas tudo bem... 
As mulheres frequentemente devem realizar os exames ginecológicos habituais. 
E esses exames sempre são extremamente  invasivos, alguns não apenas com o dedo do médico, mas com instrumentos que só de falar o nome lembram os instrumentos da tortura da "santa" inquisição!
Já vi algumas se queixarem do desconforto... porque ninguém nasceu pra ter desconforto. Mas ELAS vão lá e fazem sem nenhum preconceito e nem estão ai que foram invadidas por dedos, tubos, colheres, etc... 
E tu já viste um parto caro amigo leitor? Eu já.... E (com todo os respeito) um parto é uma das coisas mais terríveis que já vi na vida. Toda vez que vejo me pergunto se a natureza não foi meio perversa quando preconizou que um parto tinha que ser do jeito que é....
Mas nunca vi uma mulher que não chorasse de alegria segundos depois do parto e tendo seu filho ainda coberto de sangue encostado no próprio regaço. 
Mas enfim.... é novembro. E novembro azul. Temos que combater o câncer de próstata. 
A medicina descobriu que o exame mais eficaz, barato e indispensável é o do toque retal. 
Já ouvi muito macho dizendo que prefere morrer de câncer do que permitir que algo de forma fálica(??) como um dedo invada se sacrossanto rabo.
Aos que pensam assim, só posso perguntar:
Tens medo de que? 
Da dor? Posso garantir que é indolor.
Do tempo que dura? Dura menos de 2 segundos. 
Ou tens medo de sentir alguma outra coisa que esteja perambulando por esse teu inconsciente que faz teu consciente ser esse poço de ignorância?
De qualquer forma forma... já que tenho 50 anos e desde os 40 faço anualmente tal exame, posso garantir. NUNCA senti absolutamente nada!
Mas... tranquilizo os preconceituosos:
Fiquem tranquilos... acho que o câncer de próstata não vai matá-los. O preconceito e a ignorância vão trazer a morte antes mesmo do câncer!
Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista     

     

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

O Psicanalista no Tratamento Oncológico/Quimioterápico - Dai à Cesar O Que é de Cesar!

O psicanalista já andava com certa desenvoltura pelos corredores e salas da quimioterapia. Passaram-se três meses desde que pulou no abismo que representa o mundo do câncer. E pulou com a alegria do demente acróbata de Piazzolla. E estava cada vez mais positivamente enlouquecido pelo beijo da morte e da vida. Mas isso era poesia. E uma poesia triste do Piazzolla, mas que ele via igualmente numa ilusão em tecnicolor. E porque a Psicanálise sempre esteve ligada à poesia, por vezes gostava de tentar passar a delicadeza da poesia aos pacientes que sentia as dores do abismo e muitas vezes não sentiam o doce beijo da vida e só sentiam o beijo gelado da morte. 
Mas foi aquele paciente de cinquenta anos que o trouxe do devaneio poético e o ancorou no mundo da matéria ao lado da poltrona que servia de divã. 
E foi assim que começou aquela sessão....
- Não está sendo fácil André! Mesmo com o plano de saúde cobrindo todas as despesas, sempre tem a conta da luz, o aluguel, os filhos no colégio e a geladeira pra ser ocupada. Estou no segundo mês de tratamento que ainda vai levar mais tempo e não consigo trabalhar, pois tu sabes que nos dias de quimioterapia não é possível sequer levantar da cama. E as economias estão se esgotando. E eu sou ainda o provedor de minha família. Estou começando a desesperar também nesse quesito. Que devo fazer?
O psicanalista sentiu que um tijolo estava se formando no seu estômago e buscou inspiração em todas as teorias freudianas e até mesmo na álgebra lacaniana dos significantes e significados passando pelo objeto de desejo. Não encontrou a resposta. Pelo menos não encontrou a palavra de conforto que sentia que precisava ser dita. Apelou para o sentimento de seu próprio desejo. E deseja naquele momento consolar... e tentou:
- Não posso te mentir meu amigo. Não tenho palavras que te façam ter uma esperança no quesito que me expuseste agora. E sinto tua dor. E sou solidário com tua preocupação. 
O Freud, aquele senhor que começou com tudo isso que hoje chamamos de Psicanálise e que é o meu ofício, falou que o psicanalista deve entender e falar todas as linguagens. Então te digo que vou tentar entender a linguagem jurídica e tentar te trazer boas novas. Fique bem... e até amanhã meu amigo. 
E naquele dia o psicanalista dirigiu até sua casa com aquele tijolo já formado completamente dentro de seu estômago. E aquilo o estava perturbando. Precisava de respostas para aquele paciente. 
A aguá com gás gelada ajudou.... e foi bem mais fácil que o psicanalista pensava. 
E naquela noite, logo no primeira "googlada" achou:
OS DIREITOS SOCIAIS DA PESSOA COM CÂNCER!
São alguns os direitos sociais que o paciente com câncer tem. No caso em questão, o portador de câncer tem direito ao benefício de auxílio-doença do INSS, independente de estar ou não fazendo contribuições. O INSS não exige carência para conceder o auxílio doença para os pacientes de câncer. Basta ligar para o número 135 e marcar a perícia e levar os laudos e documentos necessários. 
O Psicanalista não esperou o outro dia pra dar a notícia ao paciente sem esperanças. Na mesma hora telefonou e recomendou.... e no outro dia o paciente já estava com a perícia agendada e em breve estará um pouco mais tranquilo na questão que o atormentava. 
Naquela noite o psicanalista sentiu que o cabernet sauvignon de sempre estava muito mais aromático e prazeroso. Sorriu... e pensou na frase do velho professor:
"PROCURE UM ADVOGADO POIS VOCÊ TEM DIREITOS! PROCURE UM PSICANALISTA POIS VOCÊ TEM AVESSOS!" 
Ao leitor amigo que me brinda com a leitura dessa crônica peço que informe isso à todos de suas relações que estão numa situação parecida. 

Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista


  
    

sábado, 10 de outubro de 2015

O Psicanalista no Tratamento Oncológico/Quimioterápico - Outubro Rosa!

Outubro. Estamos nele. Mês de combate ao câncer de mama. Vou falar de câncer.
Tenho uma reflexão. Peço calma ao amigo leitor. Pode ser meio chato. Mas é importante... creia!
A ciência nos oferece dados muito interessantes que me fazem refletir. 
O universo nasceu a mais ou menos 13,82 bilhões de anos. A Terra, nosso planeta azulzinho que tanto emporcalhamos, tem 4,56 bilhões de anos. Veja bem: 4,56 BILHÕES de anos.
Se levarmos em conta esse número, é correto afirmar que até bem pouco tempo atrás, coisa de 13 milhões de anos, o planeta era habitado apenas por seres microscópicos que viviam ou solitários ou em colônias segundo a biologia. Basicamente (pra não encher muito o saco) só viviam células por aqui....
Depois vieram os peixes. Dai começou a complicar. Mas nem tanto. Me explico. 
Alguém já viu peixe transando? Não. Porque peixem não tem relação sexual. Não como nós humanos entendemos a relação sexual. A fêmea do peixe vai lá no fundo da água, e deposita os ovos. O macho, passa por cima dos ovos e lança à distância seu sêmen que com sorte vão cair em cima dos ovos e pronto. Virão os bebês peixes. 
Depois dos peixes vieram os anfíbios.... e depois os répteis. Dai ferrou geral. Me explico.
Somente com os répteis é que iniciou-se a relação sexual tal qual conhecemos hoje com intercurso carnal (que coisa triste chamar uma boa transa de intercurso carnal). Ou seja, os répteis inventaram aquela coisa que tanto gostamos e que geralmente é antecedida por um belo cabernet sauvignon e termina em assaltos à geladeira. Então penses bem quando cruzares com uma cobra e sentires uma vontade imbecil de matá-la. Foram os tatatatataravós dela que inventaram essa coisa que habita teu ser desejoso desde o tempo que tu nem te lembras. 
O Homem (sapiens sapiens) tem sua origem estimada em mais ou menos 2 milhões de anos. Ou seja, o ser mais inexperiente do planeta. Daí a Terra começou a tremer. Mas nem tanto. Me explico.
Até surgir a dita civilização há mais ou menos 12 mil anos (praticamente ontem isso...) o Homem vivia tranquilo e não muito diferente dos mais antigos seres vivos do planeta. Ops... dos mais antigos não... não vivia muito diferente dos répteis. Ou seja... comia, bebia, dormia e fazia sexo. 
Dai surgiu a civilização. Notem há meros 12 mil anos. Ou seja, nada. Dai ferrou mesmo. Peremptoriamente. Inexoravelmente destinada ao fim. Isso é certo. Me explico.
Somente a civilização, nesses 4,56 bilhões de anos da Terra, num curtíssimo espaço de tempo criou o tabu e o preconceito. Ou seja.... em apenas 1 segundo, NÓS estragamos tudo!
E onde entra o câncer nisso???
Entra lá no começo! O câncer é uma das mais antigas formas biológicas do planeta. Ou seja, o câncer está na Terra desde o começo. Afinal, penso eu que o câncer fazia parte daqueles micro-organismos que habitavam a tal "sopa nutritiva"!
Observe que :

 As células que constituem os animais são formadas por três partes: a membrana celular, que é a parte mais externa; o citoplasma (o corpo da célula); e o núcleo, que contêm os cromossomas, que, por sua vez, são compostos de genes. Os genes são arquivos que guardam e fornecem instruções para a organização das estruturas, formas e atividades das células no organismo. Toda a informação genética encontra-se inscrita nos genes, numa "memória química" - o ácido desoxirribonucleico (DNA). É através do DNA que os cromossomas passam as informações para o funcionamento da célula.
Uma célula normal pode sofrer alterações no DNA dos genes. É o que chamamos mutação genética. As células cujo material genético foi alterado passam a receber instruções erradas para as suas atividades. As alterações podem ocorrer em genes especiais, denominados protooncogenes, que a princípio são inativos em células normais. Quando ativados, os protooncogenes transformam-se em oncogenes, responsáveis pela malignização (cancerização) das células normais. Essas células diferentes são denominadas cancerosas.  

Claro que a civilização nos trouxe a medicina. A tecnologia. A cultura. E a cura do câncer. 
Sabes porque falei sobre tudo isso pra falar do câncer, meu caro e paciencioso leitor?
Porque a natureza e sua evolução criou todas as formas biológicas do planeta. Inclusive o câncer. Inclusive eu e tu. 
Nós criamos o TABU e o PRECONCEITO! E a burrice. Porque tabu e preconceito levam à desinformação. 
É claro que tu sabes que as duas coisas que mais sofrem as consequências do preconceito são exatamente o câncer e o sexo. E elas (câncer e sexo)  existem muito antes de nós.
Nós criamos a cura do câncer! A oncologia está operando essa cura. 
Mas... nós alimentamos o câncer com o tabu e o preconceito!
O câncer de ovário mata em 3 meses. Mas com o tratamento iniciado ele é curado antes do óbito. Para o tratamento começar é preciso informação. Com tabu e preconceito não existe informação. 
A maior arma contra o câncer é a informação!
Entendeste minha reflexão???? 
Principalmente tu que viste alguém de fitinha cor de rosa no peito e pensaste com teus botões civilizados: 
" Mais um veado na cidade!!!!"

Fraterno abraço!
André Lacerda - Psicanalista   

            

terça-feira, 6 de outubro de 2015

O Psicanalista no Tratamento Oncológico/Quimioterápico - A Reunião!

O psicanalista experimentava sempre um pouco de ansiedade sempre que tinha alguma reunião marcada com o oncologista. Porque ele era O oncologista.Super doutor e professor da matéria, reconhecido nos mais altos círculos médicos do planeta. Mas já eram conhecidos há muitos anos e se tornaram amigos. 
O médico com um sorriso acolhedor saúda e recepciona o psicanalista como fazem os patrícios das terras meridionais do Brasil:
- E daí Tchê!!! Como andam as coisas?
O psicanalista já sem ansiedade e sentindo-se acolhido pela simpatia contagiante do médico, respondeu aos costumes:
- Buenas Tchê. Eis o relato e vou tentar ser objetivo. Sei que és cidadão do mundo e hoje Viena, amanhã Boston, depois de amanha Londres, etc e temos falado mais pelo whatsapp do que pessoalmente. Então vamos lá:
Nesses três meses acompanhando os pacientes oncológicos, observei algumas coisas e tenho tentado trabalhar nelas. 
Veja que o paciente sofre de cara quatro traumas no mínimo:
1) Na HD (hipótese diagnóstica) já na primeira consulta. Ali é dado o primeiro soco na boca;
2) Na cirurgia de retirada do material pra biopsia. Ali é dado o primeiro chute na boca do estômago;
3) No resultado da biopsia (normalmente 10 dias depois). Ali é um soco e um chute e nem se escolhe onde bater;
4) No início do tratamento. Quando senta naquela cadeira da sala da quimioterapia e escuta a palestra inicial da enfermeira encarregada, se estabelece o início de todos os efeitos colaterais do medicamento. Ali, é uma pauleira digna de Anderson Silva em tempos áureos. 
Me inseri, caro doutor, nessa fase do tratamento. Acompanhei os pacientes nas horas da quimioterapia. Descobri que o momento é de extrema solidão. E descobri que o discurso psicanalítico ajuda.
O inconsciente se estrutura em linguagem tanto pra se expressar como para receber informação. E quando o paciente houve todas as informações farmacológicas e dos efeitos colaterais já se estabelece  inexoravelmente um estado depressivo recorrente independente da depressão física que também inexoravelmente o remédio vai causar.
Acho que ali naquela sala, com o remédio entrando e curando, é o lugar de um psicanalista!  
O Super médico concorda. 
O psicanalista enfatiza que em alguns centros quimioterápicos a figura do psicanalista é substituída por um religioso. 
O médico finaliza:
- Continue teu trabalho! Vamos ver os resultados! E te cuida!
O psicanalista deseja bom trabalho  e enfatiza:
- Meu cardiologista duplicou os remédios da pressão. E pela manhã estou tomando bupropiona. E as vezes... a noite um clonazepam...(brincadeirinha...mas aumentei minhas sessões com  minha psicanalista)....

Fraterno abraço!
André Lacerda - Psicanalista