segunda-feira, 6 de junho de 2016

O Psicanalista no Tratamento Oncológico/Quimioterápico - A Metástase - Parte 1

Naquele dia ela não estava se sentindo plena de seus próprios sentidos. Na verdade já fazia alguns dias que as coisas estavam meio estranhas. Mas tudo bem. Aquilo devia ser normal uma vez que estava terminando o décimo mês da quimioterapia e conhecia bem os efeitos e todas as nuances de um tratamento que, via de regra,  era devastador.
Não se lembr do caminho percorrido de casa até o hospital. Mas chegou ao centro quimioterápico com o mesmo bom humor e otimismo de sempre.  Instalou-se na poltrona confortável e abriu a rede social enquanto esperava o remédio. Então... um clique! Plim! Apagou...
O Psicanalista chegou e ela estava completamente desorientada. Não sabia onde estava. Não se lembrava do nome dos pais e sequer de sua data de nascimento. Não reconhecia sequer aquele grupo de técnicos e enfermeiras que estavam com ela há 10 meses cotidianamente.  
O primeiro dos medos era o AVC. Feitas as verificações iniciais o AVC foi descartado. Daí pra emergência. O estado afásico não cedia. Tomografia. Nem precisou do laudo... a imagem era claríssima e evidente mesmo para um leigo em neurologia. Tratava-se de uma lesão de cerca de quatro centímetros no lobo frontal esquerdo relacionada a metástase de neoplasia maligna por melanoma.
Era a terceira vez em seis anos... e agora no cérebro. Estava explicada a afasia e estava se prenunciando momentos de extrema gravidade e de extrema preocupação.
O psicanalista lembrou-se de Freud no seu modelo final da mente de 1933 onde estabeleceu que o limite entre o processamento consciente e inconsciente estava localizado entre o córtex posterior e o córtex central frontal. O tumor surgiu e lesionou o lobo frontal da paciente e o edema produzido pela lesão atingia a região do córtex posterior.
Mapeamentos neurológicos combinam com a concepção de Freud que identificou que o tronco encefálico reticulado e o sistema límbico – responsável pelos instintos e impulsos- correspondem ao ID freudiano. A região frontal ventral, que lida com a inibição seletiva, a região frontal dorsal, que controla as funções conscientes, e o córtex posterior, que percebe o mundo exterior, equivale ao ego e ao supergo.
O tumor da paciente havia atingido em cheio o córtex dorsal frontal e o edema prejudicava toda a estrutura cerebral. Isso significava que a cognição, equilíbrio, identificação e comportamento estavam dramaticamente afetados.
Agora era torcer pela inspiração e talento do neuro cirurgião e fazer o que sempre fez. Caminhar de mãos dadas com a paciente por aquele que certamente seria o seu mais terrível inferno.
Pensou com seus botões: “ Inicia-se aqui um capítulo dramático de minha trajetória!”

Fraterno Abraço
André Lacerda - Psicanalista
A imagem abaixo é real, e trata-se do caso relatado.




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