terça-feira, 25 de julho de 2017


Prezados Amigos.
Na publicação de hoje, abordo um tema delicado e, pra dizer o básico, algo bastante subjetivo e que ao meu juízo, pouco discutido no Brasil.
Saúdo e abraço meus amigos da bela capital do Estado do Mato Grosso do Sul, Campo Grande, a linda cidade Morena de minhas fantasias infantis ( já escrevi crônica explicando isso) onde tenho grandes amigos e um número considerável de leitores.
Eis que sei, que a população de Campo Grande tem discutido bastante o tema em virtude de eventos ocorridos e as opiniões se dividem.
Os que me conhecem, e realmente sabem quem eu sou enquanto cidadão e profissional, sabem que mesmo antes de ser psicanalista, sempre fui alguém que lutou pela democracia e pelo Estado Democrático de Direito, que felizmente nós todos conquistamos a duras penas e temos (ou devemos ter) a convicção de que a liberdade democrática que temos não nos foi dada por João, e sim foi resultado da vontade do povo Brasileiro.
Dito isso, por crer no Estado Democrático de Direito, sigo o princípio que sentença judicial não se discute. Sentença judicial se cumpre, ou se recorre no foro devido.
Contudo, publico a seguir, estudo realizado em 2013 à pedido do blog Re-Tecendo a Vida, destinado à pacientes portadores do Transtorno e aos grupos de apoio e a familiares.
Espero que tal estudo, seja minha modesta colaboração aos amigos do Mato Grosso do Sul, na formulação de suas opiniões. 
   



BORDERLINE
Por: André Lacerda - Psicanalista
Clínica Psicanalítica Ltda-
P.Alegre-RS 
Membro SBPI Reg. nr 690

Ultimamente uma patologia que vem acometendo nossos jovens é o que tem sido chamado de Transtorno Borderline de Personalidade. 

Borderline vêm do inglês limítrofe e assim, significa algo que está no limite entre duas coisas que nesse caso é a neurose e a psicose. O termo já causou grande polêmica sendo que alguns teóricos e pesquisadores são contra o uso da denominação porque consideram-na ambígua.

Outros acham que tais pacientes deveriam ser classificados como psicóticos. Mas se partirmos das questões de ordem prática, não poderíamos deixar de dizer que qualquer dos transtornos mentais que surgem na clínica prática, são na verdade, um coquetel de traços encontrados em muitas patologias. Ás vezes você encontra sinais de quase todas as principais patologias presentes no quadro de um único paciente.

Curiosamente, como veremos mais à frente, o Transtorno de Personalidade Borderline é um Transtorno onde se consegue estabelecer um diagnóstico mais preciso justamente porque há uma característica determinante no diagnóstico: os micros surtos psicóticos. Mas de uma forma geral você vai perceber que muitos dos traços encontrados no borderline, são absolutamente semelhantes aos traços encontrados nos paciente com Transtorno Narcísico da Personalidade sendo que, a diferença se estabelece unicamente pela forma de obtenção das provisões narcísicas que no borderline é a atenção incondicional do outro.

Como resultado de inúmeras pesquisas feitas a partir dos trabalhos de colegas ao redor do mundo, reuni aqui um razoável número de informação sobre os pacientes Borderline, para que tanto os colegas como os leigos possam ter uma idéia do significado dessa patologia, e seus efeitos na vida daqueles que são por ela vitimados. Talvez algumas pessoas possam, através das informações, buscar a ajuda se não para livrarem-se completamente da patologia, pelo menos para atenuar aqueles traços mais ruins e que impedem um adequado relacionamento com a vida.

Farei a apresentação desses dados em duas etapas. Na primeira faremos uma descrição mais sucinta, com orientações sobre como reconhecer esse tipo de Transtorno e, numa segunda etapa, explicaremos mais detalhadamente os aspectos que consideramos importantes nos traços predominantes dessa patologia.

O PADRÃO COMPORTAMENTAL

Existem seis padrões comportamentais que identificam um paciente Borderline ou o TPB - Transtorno de Personalidade Borderline:

1. VULNERABILIDADE EMOCIONAL

Os indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline têm dificuldades severas de lidar com emoções negativas, incluindo-se ai uma exacerbada sensibilidade para estímulos emocionais negativos, grande angústia diante de situações emocionalmente intensas e uma séria dificuldade para retornar às condições emocionais normais.

2. AUTO ANULAÇÃO

Indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline têm altos padrões de expectativas para si próprios e uma tendência a invalidar ou não reconhecer suas próprias respostas emocionais, pensamentos, convicções, e comportamentos.

3. CRISES E MANIPULAÇÕES

Indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline sempre estão envolvidos em comportamentos manipulatório suicida, ou seja, são comportamentos que normalmente simulam o suicídio mas não o levam a cabo. São movimento não fatais, auto agressões intencionais que resultam em algum tipo de ferimento corporal, auto-mutilação ou queimaduras que o indivíduo infringe a si mesmo. Geralmente o desejo de morrer é nulo ou se existe é frágil.

4. AFLIÇÃO INIBIDA

Indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline geralmente são incapazes de chorar ou expressar uma grande tristeza de forma apropriada.

5. PASSIVIDADE ATIVA

Indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline não conseguem solucionar os problemas de sua própria vida de maneira ativa e assim procuram fazer com que os problemas sejam solucionados por outras pessoas.

6. COMPETÊNCIA APARENTE

Indivíduos com Transtorno de Personalidade Borderline sempre parecem mais competentes do que realmente são ou do que mostram seus comportamentos e realizações.

ENTREVISTA DIAGNÓSTICA COM PACIENTES BORDERLINES.

Geralmente numa entrevista com um paciente borderline devemos estar atentos aos seguintes aspectos:

1. Afetos (aspectos subjetivos)

Depressão crônica (que eles sempre negam*), desesperança, desamparo, sentimento de inutilidade, culpa, raiva (incluindo freqüentes expressões de raiva aberta ou velada), ansiedade, isolamento, tédio e sentimento de vazio.

2. Cognição (raciocínio/Intelectual)

Pensamentos estranhos, percepções não usuais, paranóia que não é passível de ser descrita e micro surtos psicóticos.

3. Impulsividade (comportamental)

Adição de drogas, desvios sexuais, suicídio manipulativo, gestos suicidas e outros comportamentos impulsivos como cleptomania e abuso alimentar. Muitos dos casos de Compulsão Sexual podem estar inseridos nesse tipo de Transtorno já que o sexo pode funcionar como uma adição importante na obtenção de contato com o outro.

4. Relações Interpessoais

Intolerância para solidão, abandono, engolfamento (no sentido de envolver o outro completamente), medos de aniquilação e fantasias de destruição, relacionamentos tempestuosos, manipulação, dependência, desvalorização, sadismo/masoquismo, demandas excessivas, auto intitulação (tentativa de parecer mais importante do que realmente é).

CRENÇAS CARACTERÍSTICAS DOS INDIVÍDUOS COM ESSE TRANSTORNO DE PERSONALIDADE.

Geralmente é importante que algumas perguntas fundamentais sejam respondidas na entrevista com o borderline. Muitos deles são hábeis no sentido de terem aprendido a dissimular alguns padrões comportamentais. Geralmente, nas entrevistas, observo tanto a linguagem corporal como também as linguagens, verbal e paraverbal. Abaixo eu fixo um tipo de roteiro que eu utilizo como referência e que foi acrescido de informações obtidas na experiência de outros colegas. Tais dados são fundamentais para definir com alguma clareza o diagnóstico de Transtorno de Personalidade Borderline. Muitas dessas declarações são observadas durante as entrevistas com esse tipo de paciente.

1. Eu sempre vou estar só. Nesse caso observa-se uma crença fortemente arraigada de que eles não tem meios de conseguir afetividade e nem mesmo um vínculo legitimo e duradouro com outras pessoas significativas. Mesmo quando esse vínculo ocorre, tal paciente não crêm que o outro possa vincular-se a ele;

2. Eu não acredito que alguém possa cuidar de mim com sinceridade ou que alguém esteja realmente disponível para ajudar-me.

3. Quando as pessoas me conhecerem de verdade, elas me rejeitarão e dessa forma, não poderão me amar e assim, vão me abandonar.

4. Tenho dificuldade de dar conta da vida por meus próprios meios. Eu sempre preciso de alguém por perto.

5. Geralmente eu tenho que adaptar minhas necessidades às necessidades de outras pessoas. Caso eu não faça isso elas poderão me abandonar ou atacar-me.

6. Não tenho controle sobre mim mesmo.

7. Não consigo ter disciplina comigo mesmo.

8. Se você me perguntar sobre minhas reais preferências, eu realmente não sei o que eu quero.

9. Prefiro que as demais pessoas tomem decisões, pois, nunca sei quando de fato estou certo. È muito confuso e eu estou sempre em dúvida quanto às minhas opiniões.

10. Preciso ter um completo domínio sobre meus sentimentos senão as coisas não sairão bem como deveriam sair.

11. Sinto-me uma pessoa má e eu devo ser punido por isso.

12. Se alguém falhar em manter uma promessa que feita para mim, essas pessoa já não terá mais a minha confiança.

13. Eu nunca vou ter o que eu quero ou desejo. Nem alimento ilusões quanto a isto.

14. Meus sentimentos ou opiniões são sem pé nem cabeça, não acho que possa fundamentá-las de forma coerente.

15. Se eu concordar com as coisas que algumas pessoas falam, Corro o risco de perder minha própria autonomia.

16. Se eu me recuso a atender um pedido de outra pessoa , corro o risco de perder a amizade dela.

17. Se disser o que eu quero, as pessoas vão ficar aborrecidas comigo.

18. As pessoas são más e tendem a abusar de você.

19. Eu sou impotente e vulnerável e dessa forma, não posso proteger a mim mesmo.

20. Se as pessoas realmente me conhecerem, quero dizer, conhecer a fundo, elas vão ver que sou um fracasso, um embuste e assim, vão me abandonar.

21. As outras pessoas não estão dispostas a ajudar ninguém sinceramente.

22. Há sempre uma sensação de que se você se deixa levar, acreditar em alguém e, nesses casos, você vai acabar ferido, decepcionado.

Espero ter somado no entendimento da doença, e sobretudo no compreendimento das circunstâncias que envolvam indivíduos que acreditem, sofrem muito com esse mal.
Fraterno Abraço.

André Lacerda
Psicanalista

quarta-feira, 19 de julho de 2017

PSICANALISTA: Menestrel do amor? Ou Arauto da Desgraça?

Meus caros amigos leitores!
Antes de qualquer coisa penso que devo explicações aos que sempre me prestigiaram. Afinal não tenho feito nenhuma publicação desde de outubro do ano passado.
Os que me acompanham, por certo sabem que desde 2015 estou dedicado em projeto que insere o psicanalista no cenário de tratamento oncológico/quimioterápico de onde minha querida e atenta editora Laura já adiantou para breve o lançamento do livro que nasceu disto tudo.
Inobstante, ainda lambo feridas muito recentes de uma perda traumática, cruel e inesperada que ainda hoje sangram, mas tenho fé que a dor da ausência aos poucos vá se transformando apenas em saudade.
Dito isso...
Vivemos tempos sombrios. Tempos de medo. Tempos de dúvida. Tempos de incredulidade ante os pavores que surgem a cada dia nos jornais e mídias diversas.
O psicanalista que habita em mim, por vezes se cala para não ter de falar da realidade brutal das ruas e dos bastidores da nação, e depois de tudo ainda tentar ajudar no alívio de quem se deprime com a dor que já virou rotina.
Que alivio pode ter um pai que teve seu filho morto pela mão desamparada do ladrão de telefones, ou pela falta de mão dos responsáveis pelas  políticas públicas de saúde que nos atira cada vez mais no rol dos esquecidos???
Como ajudar a desconstruir o medo de parar no sinal vermelho, se em cada sinal vermelho existe a real possibilidade de se ter a cabeça explodida por uma bala nem sempre perdida??
Como incitar ao trabalho e ao desenvolvimento pessoal quando vemos o criminoso virar delator que vira amigo e que depois  vira inimigo e logo em seguida volta a ser criminoso mas com direito a virar multimilionário livre que navega ouvindo Barry Manilow em águas ianques??
Como incentivar a alma tranquila e o coração sereno para evitar o stress e assim, dar menos chances para que o câncer conquiste seu espaço, se a cada alvorecer só temos a certeza de que a nossa rotina é absurdamente estressante?
Assim... não resta dúvida, que enfrentando esses tão presentes demônios, o psicanalista só pode se sentir o arauto da desgraça...
Mas e o amor? Mas é a amizade? E o encontro com amigos queridos? e a família? E a liberdade???
...
Penso que no ofício de tratar da dor humana, inclusive no combate aos sintomas produzidos pelos demônios citados, os principais remédios são exatamente o amor, a amizade, a esperança e a liberdade. 
E isso, mesmo que seja só um pouquinho, transforma o arauto da desgraça em menestrel do amor. 
Eu pelo menos tento imaginar isso....

Fraterno Abraço
André Lacerda
Psicanalista

P.S. Dedico essa crônica aos meu leitores do Blog, aos amigos da página Reflexões da Psicanálise e aos seguidores da página André Lacerda - Psicanalista da minha querida editora Laura. 
Dedico em especial, à Ana Paula Dias, mãe esplêndida, professora dedicada, e sobretudo uma alma grandiosa, que depois de ter sido minha paciente reencontrei depois de muitos anos e que tive a maior felicidade de dizer: Fico feliz de te reencontrar e ver que de mulher guerreira sobrevivente, te tornaste uma mulher guerreira e VIVENTE.
         

terça-feira, 18 de outubro de 2016

O Psicanalista no Tratamento Oncológico/Quimioterápico - A Cura e o Fim! (I)

Entro na fase final da série onde relato a experiência vivida (e posso adiantar que jamais vou abandonar os segmentos oncológicos no meu âmbito profissional) com pacientes oncológicos.
Foram dezessete  meses em que o psicanalista viveu quase que exclusivamente para os estudos e acompanhamento de pacientes com câncer.
Aprendeu sobre as metástases. Entendeu a oncogênese. Procurou decifrar os significados e os significantes das disfasias. E sentiu junto com os pacientes as dores, os cheiros e os medos que o câncer produz inexoravelmente. E chorou com as famílias o luto das perdas cujo processo, as vezes, começava semanas ou meses antes da total falência. Vibrou com todas as vitórias e se inseriu em todas as propostas de prevenção, acompanhamento e cura da doença.
Mas.... principalmente descobriu que definitivamente estava certo quando pensou que o psicanalista (cujo lugar é o lugar da falta como preconizou Lacan) também estava no lugar certo quando estava ao lado do leito do paciente oncológico.
David Spiegel, psiquiatra e psicanalista,  diretor do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Stanford, é muito claro numa fala de quase 20 anos atrás: "Os sentimentos e as emoções que não expressamos se tornam um obstáculo interior. Ao nos esforçarmos para mantê-los fora de nossa consciência, frequentemente aumentamos o efeito do estresse que os provocou e fazemos uso de certos recursos psíquicos que são ainda muito mal conhecidos. Como isso se traduz na maneira como o corpo luta contra a doença? É ainda um mistério. Mas adquiri a convicção de que é assim mesmo que as coisas acontecem e nós estamos começando a compreender os mecanismos."
Hoje se compreende melhor como a biologia do estresse pode pesar sobre a evolução do câncer. Sabemos que o estresse desencadeia a liberação de hormônios que ativam as funções de urgência do organismo - como os mecanismos de inflamação -, facilitando assim a produção de tumores. Paralelamente, o estresse reduz a atividade de todas as funções que podem esperar, como a digestão, a reparação dos tecidos e, sabe-se hoje, o sistema imunológico.
Nos últimos 30 anos, um novo domínio científico surgiu para estudar explicitamente o elo entre os fatores psicológicos e a atividade do sistema imunológico. trata-se da psiconeuroimunologia. São três dimensões que compõe esta nova abordagem. Quando temos a sensação de que nossa vida não está mais administrável, ou está nos trazendo mais sofrimento do que alegria (é o aspecto "psico"), nosso cérebro libera hormônios do estresse como a noradrenalina e o cortisol. Eles ativam o sistema nervoso, aceleram o ritmo cardíaco, fazem subir a pressão arterial, tensionam os músculos para que estejam prontos para o esforço ou para aparar os golpes (aspecto "neuro"). Ora, sabe-se hoje que seu efeito se faz sentir bem além. Essas mesmas substâncias químicas que ativam os reflexos neurológicos e viscerais do estresse agem também sobre as células do sistema imunológico. Com efeito, os glóbulos brancos têm receptores na sua superfície que detectam o que se passa dentro do cérebro emocional e reagem em função dessas oscilações. Algumas dessas células começam a liberar citocinas e quemocinas inflamatórias. Por outro lado, as células NK são bloqueadas pela noradrenalina e pelo cortisol. Elas permanecem passivamente coladas na parede dos vasos, em vez de atacar os vírus que penetram no organismo ou as células cancerosas que proliferam nas proximidades. Quando aprendeu (e se convenceu) disso, a psicanalista pensou que realmente estava no lugar certo. E ... estaria nesse lugar sempre que necessário... pelo resto de sua vida.

Fraterno abraço

André Lacerda - Psicanalista
        

quarta-feira, 29 de junho de 2016

O Psicanalista no Tratamento Oncológico/Quimioterápico- A Metástase Parte André Lacerda - Psicanalista 2

Estava tudo definido. A cirurgia deveria ser feita o mais breve possível, afinal o tumor estava lesionando cada vez mais o cérebro, e tudo estava inexorável e tristemente encaminhado para o pior.
Feita a internação hospitalar todos os esforços clínicos estavam sendo direcionados para deixar a paciente apta para a realização da cranioplastia salvadora. 
O psicanalista de imediato se integrou com o clínico e com a oncologia. E logo se integrou com o neurocirurgião. 
A rotina era exames clínicos e laboratoriais, medicamentos, fisioterapia, nutrição e todos os cuidados da equipe de enfermagem.
O psicanalista sabia de todos os passos e progressos naqueles dezoito dias que antecederam a cirurgia. 
Contudo algo mais efetivo o mantinha ocupado em 100 por cento do tempo em que a paciente estava acordada. Acordada. Não consciente. O tumor e o consequente edema produziram a afasia e a confusão mental e mudança comportamental.
A " Interpretação das Afasias" escrito de 1891, é talvez o primeiro escrito teórico de Freud, em todo o caso o seu escrito inaugural publicado. A Afasia é uma desordem neurológica que faz com que a capacidade de pronunciar palavras ou nomear objetos comuns se perca, em resultado de uma doença orgânica do cérebro (no caso uma metástase de melanoma). O estudo da afasia levará ao estudo do lapso, do ato falho, do chiste, do sonho, como resulta alias das referências implícitas nos respectivos ensaios sucessivos escritos por Freud. 
Freud escreve sobre os exemplos em que o resto de linguagem pode ser interpretado pela associação ao momento do trauma:
 “tais exemplos permitem a hipótese de que os restos de linguagem são as últimas palavras, as quais o aparelho de linguagem formara antes de seu adoecimento, talvez já em premonição a esse”.
 A particularidade do que Freud concebe sobre o adoecimento do aparelho de linguagem é a suposição de que tal aparelho pode pressentir, adivinhar a doença e de algum modo representá-la: nesse contexto, o aparelho de linguagem não é apenas aquele que adoece, mas também aquele que significa para si mesmo o evento da doença. 
O aparelho de linguagem, como grupo de representações associadas, forma palavras e expressões continuamente, as quais, em um momento em que a integridade cerebral – que não coincide com ele – é ameaçada, passam a representar o evento ameaçador.
Tal certeza permite a Freud supor até mesmo uma distinção entre uma palavra que está formada no momento da lesão, mas não responde propriamente a essa, e uma segunda palavra, que talvez represente o pressentimento do aparelho diante de uma situação que o ameaça (vielleicht bereits in Ahnung derselben). Compreende-se que o que está em jogo é um certo funcionamento da linguagem diante de um perigo, que por meio desse funcionamento pode formar um pressentimento, uma representação do que não coincide com ela mesma. Não se trata, portanto, de pesquisar o perigo/lesão, mas sim a função da linguagem nessa situação – e Freud descreve tal função como sendo afim a uma adivinhação.
E assim... o psicanalista entendeu que estava no lugar certo. Inserido dentro de um contexto de internação hospitalar, no tratamento do câncer e na fase pré operatória de uma cranioplastia que iria remover um tumor no cérebro. 
O neurocirurgião se referiu a ter tido algum contato acadêmico com o tema, e ficou satisfeito com a presença do psicanalista. 
Mas... como seria para a equipe de enfermagem que não tinha essas informações? Como seria o atendimento daquela paciente? 
Realmente o psicanalista percebeu que estava no lugar certo. E neste lugar, não se tinha notícia alguma de ter estado algum psicanalista.
Seriam longos os dias até a cirurgia... mas seriam produtivos. Eles (psicanalista e  paciente) estariam juntos.

Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista



segunda-feira, 6 de junho de 2016

O Psicanalista no Tratamento Oncológico/Quimioterápico - A Metástase - Parte 1

Naquele dia ela não estava se sentindo plena de seus próprios sentidos. Na verdade já fazia alguns dias que as coisas estavam meio estranhas. Mas tudo bem. Aquilo devia ser normal uma vez que estava terminando o décimo mês da quimioterapia e conhecia bem os efeitos e todas as nuances de um tratamento que, via de regra,  era devastador.
Não se lembr do caminho percorrido de casa até o hospital. Mas chegou ao centro quimioterápico com o mesmo bom humor e otimismo de sempre.  Instalou-se na poltrona confortável e abriu a rede social enquanto esperava o remédio. Então... um clique! Plim! Apagou...
O Psicanalista chegou e ela estava completamente desorientada. Não sabia onde estava. Não se lembrava do nome dos pais e sequer de sua data de nascimento. Não reconhecia sequer aquele grupo de técnicos e enfermeiras que estavam com ela há 10 meses cotidianamente.  
O primeiro dos medos era o AVC. Feitas as verificações iniciais o AVC foi descartado. Daí pra emergência. O estado afásico não cedia. Tomografia. Nem precisou do laudo... a imagem era claríssima e evidente mesmo para um leigo em neurologia. Tratava-se de uma lesão de cerca de quatro centímetros no lobo frontal esquerdo relacionada a metástase de neoplasia maligna por melanoma.
Era a terceira vez em seis anos... e agora no cérebro. Estava explicada a afasia e estava se prenunciando momentos de extrema gravidade e de extrema preocupação.
O psicanalista lembrou-se de Freud no seu modelo final da mente de 1933 onde estabeleceu que o limite entre o processamento consciente e inconsciente estava localizado entre o córtex posterior e o córtex central frontal. O tumor surgiu e lesionou o lobo frontal da paciente e o edema produzido pela lesão atingia a região do córtex posterior.
Mapeamentos neurológicos combinam com a concepção de Freud que identificou que o tronco encefálico reticulado e o sistema límbico – responsável pelos instintos e impulsos- correspondem ao ID freudiano. A região frontal ventral, que lida com a inibição seletiva, a região frontal dorsal, que controla as funções conscientes, e o córtex posterior, que percebe o mundo exterior, equivale ao ego e ao supergo.
O tumor da paciente havia atingido em cheio o córtex dorsal frontal e o edema prejudicava toda a estrutura cerebral. Isso significava que a cognição, equilíbrio, identificação e comportamento estavam dramaticamente afetados.
Agora era torcer pela inspiração e talento do neuro cirurgião e fazer o que sempre fez. Caminhar de mãos dadas com a paciente por aquele que certamente seria o seu mais terrível inferno.
Pensou com seus botões: “ Inicia-se aqui um capítulo dramático de minha trajetória!”

Fraterno Abraço
André Lacerda - Psicanalista
A imagem abaixo é real, e trata-se do caso relatado.




quinta-feira, 7 de abril de 2016

O Psicanalista no Tratamento Oncológico/Quimioterápico - O Inexorável!

Era o final do oitavo mês que o Psicanalista estava envolvido de corpo, alma, consciente e inconsciente no projeto onde a figura dele (psicanalista) estava inserida no tratamento oncológico e mais especificamente na quimioterapia.
Respirava, pensava, sentia, estudava, vivia enfim, o câncer...
E no início daquele nono mês pensou que diariamente se deparava com o inexorável: A morte!
E sabia que a morte e o câncer eram dois dos mais terríveis demônios temidos por toda a humanidade.
E sabia que sua função era estar junto com os pacientes enfrentando exatamente esses dois demônios. E sabia (porque o Freud já tinha dito) que jamais sairia incólume desse processo todo...
Inexoravelmente a morte chegou para aquele paciente no terceiro mês de tratamento. 
O psicanalista sabia que ele pedia a morte todo o santo (ou puto) dia de sua vida. Várias vezes ao dia... e com veemência...
E o câncer doía. E o tratamento doía. E a comida fazia mal e também doía. E mesmo o oxigênio  doía a cada respirada. A vida enfim doía. Queria por fim a última dor: A morte...
Mas... cumpriu rigorosamente todos os procedimentos naqueles noventa e três inacabáveis dias de tratamento.
No início apegou-se à humana esperança e com o passar dos dias não teve mais tempo para ter esperança. A dor não dava tempo pra nada...
O psicanalista estava junto com o paciente no dia da visita da maldita ou bendita morte. 
Naquele dia a dor deu uma folga e o psicanalista aproveitou o momento. Passou muito tempo com o paciente e este estruturou todo o desejo que na folga da dor recomeçou a surgir. O desejo da cura. O desejo da vida. 
Mas a inexorável morte chegou naquele final de tarde e veio harmônica e calmamente. Sem dor. O psicanalista sabia que a falta de dor vinha da morfina... mas preferiu acreditar que a fatal senhora atendeu o pedido do paciente e chegou vestida de fada trazendo flores brancas e água fresca. 
O psicanalista sentiu. Porque psicanalistas sentem. E naquela noite pensou na frase do Freud onde o mestre fala que temos um coração de carne quando deveria ser de ferro. 
Na manhã seguinte o psicanalista já estava à postos novamente. Porque mesmo a morte sendo um fato, também a vida e a cura são uma rotina. 
E aquela paciente, jovem mulher, sua primeira paciente do projeto, estava lá... firme e forte... 
As células afetadas pela oncogênese não mais existiam e o tratamento estava quase no final. 
Aquela paciente era a prova que também a vida e a esperança são também inexoráveis. 
E naquele dia inteiro respirou, estudou, pensou e viveu com todos os pacientes a inexorável VIDA.
E naquela noite o tinto honesto desceu harmonicamente. E estava em paz, pois sentia que estava onde tinha de estar. 

Fraterno abraço

André Lacerda - Psicanalista
P.S.: Nesse dia mundial da Saúde meu abraço especial à todos os que promovem a VIDA! 
  
  

terça-feira, 15 de março de 2016

O Psicanalista no Tratamento Oncológico/ Quimioterápico: Quando a Fala Falta!

Por vezes o psicanalista sentia-se completamente impotente e inútil nos centros oncológicos que frequentava. Naquela manhã sentia que sua presença estava sendo absolutamente pífia. 
Ouvia... e só ouvia, os ruídos que vinham de uma das salas de quimioterapia....
Percebeu que não eram gritos de dor apenas. Intuiu que eram sons proferidos por mulher jovem e que as dores e queixas só podiam ser do remédio que estava sendo ministrado. 
Blindava-se com seus próprios mecanismos de defesa pensando que aquela dor era do remédio que na verdade estava curando e que tudo ia passar. Aos seus pacientes era esse seu principal argumento terapêutico. Mas aquela que sofria na sala ao lado não era sua paciente. Resolveu conferir e quem sabe consolar...afinal??? que mal poderia fazer??? Entrou ...
Ela era jovem. 18? Talvez 19... mas o câncer e o tratamento lhe davam uma aparência de 25... talvez 30...era muito jovem...
A cada tentativa de inciar diálogo obtinha como resposta um ai de dor acompanhado daquele movimento típico estimulado pela náusea.
Tocou levemente sobre a testa dela... estava gelada ... retirou rapidamente a mão imaginando que o toque poderia produzir mais pressão e mais dor....
Percebeu que a comunicação seria impossível naquele momento. Pensou em sair e socorrer-se do auxilio da experiente equipe de enfermagem...Ficou!
Os olhos da paciente se cruzaram com os olhos do psicanalista. Pronto! Vínculo estabelecido. 
Os olhos da menina diziam tudo e o psicanalista ouviu com olhos de ver e alma de sentir.
Lembrou-se do Freud que chamava atenção dos aspirantes à psicanalistas que estes deveriam estar atentos à toda forma de estrutura. E como o inconsciente se estrutura em linguagem cabe ao psicanalista entender todas as linguagens. 
E aqueles olhos falavam. Não se queixavam. Eles falavam. Eles questionavam:
- E quando eu não tiver mais voz? E quando meus ais não forem mais ouvidos? E quando as pessoas sentirem que o cheiro da minha dor é mais intenso que o meu suave perfume? 
E ele ouviu. E ouviu. E ouviu...
Permaneceu amparando e ouvindo até que a jovem adormecesse de dor ou de cansaço. 
Não sabe ao certo se ela ouviria o que ele queria falar. Mas ao sair... falou:
- Isso vai passar!

Fraterno Abraço!
André Lacerda - Psicanalista