segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O Psicanalista no Tratamento Oncológico/ Quimioterápico - Novembro Azul!

Amanheceu novembro e o psicanalista já acordou com o lacinho azul na lapela.
Mês de combate ao câncer de próstata. Será??? Ou será o mês de combate ao preconceito (esse maldito que nos acompanha há 12 mil anos) ??
Me explico:
As mulheres do planeta são realmente fantásticas e penso que estão há milhões de anos luz de nós homens. 
O eventual leitor deve estar se perguntando o quem isso tem a ver com o novembro azul e o câncer de próstata que todo mundo sabe atinge o universo masculino. 
Me explico: Mas não tão objetivamente.
Algum dos amigos (homens) já viu como é feita uma mamografia? Eu já.... e te digo... todo vez que vejo fico horrorizado. 
O exame se realiza apertando de tal forma os seios da mulher, que quem vê (no meu caso, alguém de extrema sensibilidade) tem vontade de chorar.
No meu caso a primeira vez que vi fiquei com dor nos..... testículos... 
Imagina se nós homens tivéssemos que fazer uma exame cujo procedimento consistiria e apertar os testículos como os seios são apertados na mamografia???? 
Mas não vejo as mulheres tendo preconceito quanto ao ato de lhes tocarem os seios nus. Algumas se queixam (e com razão) da dor. Afinal ninguém nasceu pra sentir dor. 
Mas tudo bem... 
As mulheres frequentemente devem realizar os exames ginecológicos habituais. 
E esses exames sempre são extremamente  invasivos, alguns não apenas com o dedo do médico, mas com instrumentos que só de falar o nome lembram os instrumentos da tortura da "santa" inquisição!
Já vi algumas se queixarem do desconforto... porque ninguém nasceu pra ter desconforto. Mas ELAS vão lá e fazem sem nenhum preconceito e nem estão ai que foram invadidas por dedos, tubos, colheres, etc... 
E tu já viste um parto caro amigo leitor? Eu já.... E (com todo os respeito) um parto é uma das coisas mais terríveis que já vi na vida. Toda vez que vejo me pergunto se a natureza não foi meio perversa quando preconizou que um parto tinha que ser do jeito que é....
Mas nunca vi uma mulher que não chorasse de alegria segundos depois do parto e tendo seu filho ainda coberto de sangue encostado no próprio regaço. 
Mas enfim.... é novembro. E novembro azul. Temos que combater o câncer de próstata. 
A medicina descobriu que o exame mais eficaz, barato e indispensável é o do toque retal. 
Já ouvi muito macho dizendo que prefere morrer de câncer do que permitir que algo de forma fálica(??) como um dedo invada se sacrossanto rabo.
Aos que pensam assim, só posso perguntar:
Tens medo de que? 
Da dor? Posso garantir que é indolor.
Do tempo que dura? Dura menos de 2 segundos. 
Ou tens medo de sentir alguma outra coisa que esteja perambulando por esse teu inconsciente que faz teu consciente ser esse poço de ignorância?
De qualquer forma forma... já que tenho 50 anos e desde os 40 faço anualmente tal exame, posso garantir. NUNCA senti absolutamente nada!
Mas... tranquilizo os preconceituosos:
Fiquem tranquilos... acho que o câncer de próstata não vai matá-los. O preconceito e a ignorância vão trazer a morte antes mesmo do câncer!
Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista     

     

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

O Psicanalista no Tratamento Oncológico/Quimioterápico - Dai à Cesar O Que é de Cesar!

O psicanalista já andava com certa desenvoltura pelos corredores e salas da quimioterapia. Passaram-se três meses desde que pulou no abismo que representa o mundo do câncer. E pulou com a alegria do demente acróbata de Piazzolla. E estava cada vez mais positivamente enlouquecido pelo beijo da morte e da vida. Mas isso era poesia. E uma poesia triste do Piazzolla, mas que ele via igualmente numa ilusão em tecnicolor. E porque a Psicanálise sempre esteve ligada à poesia, por vezes gostava de tentar passar a delicadeza da poesia aos pacientes que sentia as dores do abismo e muitas vezes não sentiam o doce beijo da vida e só sentiam o beijo gelado da morte. 
Mas foi aquele paciente de cinquenta anos que o trouxe do devaneio poético e o ancorou no mundo da matéria ao lado da poltrona que servia de divã. 
E foi assim que começou aquela sessão....
- Não está sendo fácil André! Mesmo com o plano de saúde cobrindo todas as despesas, sempre tem a conta da luz, o aluguel, os filhos no colégio e a geladeira pra ser ocupada. Estou no segundo mês de tratamento que ainda vai levar mais tempo e não consigo trabalhar, pois tu sabes que nos dias de quimioterapia não é possível sequer levantar da cama. E as economias estão se esgotando. E eu sou ainda o provedor de minha família. Estou começando a desesperar também nesse quesito. Que devo fazer?
O psicanalista sentiu que um tijolo estava se formando no seu estômago e buscou inspiração em todas as teorias freudianas e até mesmo na álgebra lacaniana dos significantes e significados passando pelo objeto de desejo. Não encontrou a resposta. Pelo menos não encontrou a palavra de conforto que sentia que precisava ser dita. Apelou para o sentimento de seu próprio desejo. E deseja naquele momento consolar... e tentou:
- Não posso te mentir meu amigo. Não tenho palavras que te façam ter uma esperança no quesito que me expuseste agora. E sinto tua dor. E sou solidário com tua preocupação. 
O Freud, aquele senhor que começou com tudo isso que hoje chamamos de Psicanálise e que é o meu ofício, falou que o psicanalista deve entender e falar todas as linguagens. Então te digo que vou tentar entender a linguagem jurídica e tentar te trazer boas novas. Fique bem... e até amanhã meu amigo. 
E naquele dia o psicanalista dirigiu até sua casa com aquele tijolo já formado completamente dentro de seu estômago. E aquilo o estava perturbando. Precisava de respostas para aquele paciente. 
A aguá com gás gelada ajudou.... e foi bem mais fácil que o psicanalista pensava. 
E naquela noite, logo no primeira "googlada" achou:
OS DIREITOS SOCIAIS DA PESSOA COM CÂNCER!
São alguns os direitos sociais que o paciente com câncer tem. No caso em questão, o portador de câncer tem direito ao benefício de auxílio-doença do INSS, independente de estar ou não fazendo contribuições. O INSS não exige carência para conceder o auxílio doença para os pacientes de câncer. Basta ligar para o número 135 e marcar a perícia e levar os laudos e documentos necessários. 
O Psicanalista não esperou o outro dia pra dar a notícia ao paciente sem esperanças. Na mesma hora telefonou e recomendou.... e no outro dia o paciente já estava com a perícia agendada e em breve estará um pouco mais tranquilo na questão que o atormentava. 
Naquela noite o psicanalista sentiu que o cabernet sauvignon de sempre estava muito mais aromático e prazeroso. Sorriu... e pensou na frase do velho professor:
"PROCURE UM ADVOGADO POIS VOCÊ TEM DIREITOS! PROCURE UM PSICANALISTA POIS VOCÊ TEM AVESSOS!" 
Ao leitor amigo que me brinda com a leitura dessa crônica peço que informe isso à todos de suas relações que estão numa situação parecida. 

Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista


  
    

sábado, 10 de outubro de 2015

O Psicanalista no Tratamento Oncológico/Quimioterápico - Outubro Rosa!

Outubro. Estamos nele. Mês de combate ao câncer de mama. Vou falar de câncer.
Tenho uma reflexão. Peço calma ao amigo leitor. Pode ser meio chato. Mas é importante... creia!
A ciência nos oferece dados muito interessantes que me fazem refletir. 
O universo nasceu a mais ou menos 13,82 bilhões de anos. A Terra, nosso planeta azulzinho que tanto emporcalhamos, tem 4,56 bilhões de anos. Veja bem: 4,56 BILHÕES de anos.
Se levarmos em conta esse número, é correto afirmar que até bem pouco tempo atrás, coisa de 13 milhões de anos, o planeta era habitado apenas por seres microscópicos que viviam ou solitários ou em colônias segundo a biologia. Basicamente (pra não encher muito o saco) só viviam células por aqui....
Depois vieram os peixes. Dai começou a complicar. Mas nem tanto. Me explico. 
Alguém já viu peixe transando? Não. Porque peixem não tem relação sexual. Não como nós humanos entendemos a relação sexual. A fêmea do peixe vai lá no fundo da água, e deposita os ovos. O macho, passa por cima dos ovos e lança à distância seu sêmen que com sorte vão cair em cima dos ovos e pronto. Virão os bebês peixes. 
Depois dos peixes vieram os anfíbios.... e depois os répteis. Dai ferrou geral. Me explico.
Somente com os répteis é que iniciou-se a relação sexual tal qual conhecemos hoje com intercurso carnal (que coisa triste chamar uma boa transa de intercurso carnal). Ou seja, os répteis inventaram aquela coisa que tanto gostamos e que geralmente é antecedida por um belo cabernet sauvignon e termina em assaltos à geladeira. Então penses bem quando cruzares com uma cobra e sentires uma vontade imbecil de matá-la. Foram os tatatatataravós dela que inventaram essa coisa que habita teu ser desejoso desde o tempo que tu nem te lembras. 
O Homem (sapiens sapiens) tem sua origem estimada em mais ou menos 2 milhões de anos. Ou seja, o ser mais inexperiente do planeta. Daí a Terra começou a tremer. Mas nem tanto. Me explico.
Até surgir a dita civilização há mais ou menos 12 mil anos (praticamente ontem isso...) o Homem vivia tranquilo e não muito diferente dos mais antigos seres vivos do planeta. Ops... dos mais antigos não... não vivia muito diferente dos répteis. Ou seja... comia, bebia, dormia e fazia sexo. 
Dai surgiu a civilização. Notem há meros 12 mil anos. Ou seja, nada. Dai ferrou mesmo. Peremptoriamente. Inexoravelmente destinada ao fim. Isso é certo. Me explico.
Somente a civilização, nesses 4,56 bilhões de anos da Terra, num curtíssimo espaço de tempo criou o tabu e o preconceito. Ou seja.... em apenas 1 segundo, NÓS estragamos tudo!
E onde entra o câncer nisso???
Entra lá no começo! O câncer é uma das mais antigas formas biológicas do planeta. Ou seja, o câncer está na Terra desde o começo. Afinal, penso eu que o câncer fazia parte daqueles micro-organismos que habitavam a tal "sopa nutritiva"!
Observe que :

 As células que constituem os animais são formadas por três partes: a membrana celular, que é a parte mais externa; o citoplasma (o corpo da célula); e o núcleo, que contêm os cromossomas, que, por sua vez, são compostos de genes. Os genes são arquivos que guardam e fornecem instruções para a organização das estruturas, formas e atividades das células no organismo. Toda a informação genética encontra-se inscrita nos genes, numa "memória química" - o ácido desoxirribonucleico (DNA). É através do DNA que os cromossomas passam as informações para o funcionamento da célula.
Uma célula normal pode sofrer alterações no DNA dos genes. É o que chamamos mutação genética. As células cujo material genético foi alterado passam a receber instruções erradas para as suas atividades. As alterações podem ocorrer em genes especiais, denominados protooncogenes, que a princípio são inativos em células normais. Quando ativados, os protooncogenes transformam-se em oncogenes, responsáveis pela malignização (cancerização) das células normais. Essas células diferentes são denominadas cancerosas.  

Claro que a civilização nos trouxe a medicina. A tecnologia. A cultura. E a cura do câncer. 
Sabes porque falei sobre tudo isso pra falar do câncer, meu caro e paciencioso leitor?
Porque a natureza e sua evolução criou todas as formas biológicas do planeta. Inclusive o câncer. Inclusive eu e tu. 
Nós criamos o TABU e o PRECONCEITO! E a burrice. Porque tabu e preconceito levam à desinformação. 
É claro que tu sabes que as duas coisas que mais sofrem as consequências do preconceito são exatamente o câncer e o sexo. E elas (câncer e sexo)  existem muito antes de nós.
Nós criamos a cura do câncer! A oncologia está operando essa cura. 
Mas... nós alimentamos o câncer com o tabu e o preconceito!
O câncer de ovário mata em 3 meses. Mas com o tratamento iniciado ele é curado antes do óbito. Para o tratamento começar é preciso informação. Com tabu e preconceito não existe informação. 
A maior arma contra o câncer é a informação!
Entendeste minha reflexão???? 
Principalmente tu que viste alguém de fitinha cor de rosa no peito e pensaste com teus botões civilizados: 
" Mais um veado na cidade!!!!"

Fraterno abraço!
André Lacerda - Psicanalista   

            

terça-feira, 6 de outubro de 2015

O Psicanalista no Tratamento Oncológico/Quimioterápico - A Reunião!

O psicanalista experimentava sempre um pouco de ansiedade sempre que tinha alguma reunião marcada com o oncologista. Porque ele era O oncologista.Super doutor e professor da matéria, reconhecido nos mais altos círculos médicos do planeta. Mas já eram conhecidos há muitos anos e se tornaram amigos. 
O médico com um sorriso acolhedor saúda e recepciona o psicanalista como fazem os patrícios das terras meridionais do Brasil:
- E daí Tchê!!! Como andam as coisas?
O psicanalista já sem ansiedade e sentindo-se acolhido pela simpatia contagiante do médico, respondeu aos costumes:
- Buenas Tchê. Eis o relato e vou tentar ser objetivo. Sei que és cidadão do mundo e hoje Viena, amanhã Boston, depois de amanha Londres, etc e temos falado mais pelo whatsapp do que pessoalmente. Então vamos lá:
Nesses três meses acompanhando os pacientes oncológicos, observei algumas coisas e tenho tentado trabalhar nelas. 
Veja que o paciente sofre de cara quatro traumas no mínimo:
1) Na HD (hipótese diagnóstica) já na primeira consulta. Ali é dado o primeiro soco na boca;
2) Na cirurgia de retirada do material pra biopsia. Ali é dado o primeiro chute na boca do estômago;
3) No resultado da biopsia (normalmente 10 dias depois). Ali é um soco e um chute e nem se escolhe onde bater;
4) No início do tratamento. Quando senta naquela cadeira da sala da quimioterapia e escuta a palestra inicial da enfermeira encarregada, se estabelece o início de todos os efeitos colaterais do medicamento. Ali, é uma pauleira digna de Anderson Silva em tempos áureos. 
Me inseri, caro doutor, nessa fase do tratamento. Acompanhei os pacientes nas horas da quimioterapia. Descobri que o momento é de extrema solidão. E descobri que o discurso psicanalítico ajuda.
O inconsciente se estrutura em linguagem tanto pra se expressar como para receber informação. E quando o paciente houve todas as informações farmacológicas e dos efeitos colaterais já se estabelece  inexoravelmente um estado depressivo recorrente independente da depressão física que também inexoravelmente o remédio vai causar.
Acho que ali naquela sala, com o remédio entrando e curando, é o lugar de um psicanalista!  
O Super médico concorda. 
O psicanalista enfatiza que em alguns centros quimioterápicos a figura do psicanalista é substituída por um religioso. 
O médico finaliza:
- Continue teu trabalho! Vamos ver os resultados! E te cuida!
O psicanalista deseja bom trabalho  e enfatiza:
- Meu cardiologista duplicou os remédios da pressão. E pela manhã estou tomando bupropiona. E as vezes... a noite um clonazepam...(brincadeirinha...mas aumentei minhas sessões com  minha psicanalista)....

Fraterno abraço!
André Lacerda - Psicanalista



   

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Eu Não vou Calar!

O meu primeiro projeto literário, lá no ano de 2008,  tinha como título uma expressão traumática: Eu Não Posso Calar! A Triste História dos Escravos da Pedra!
Cheguei a escrever alguns capítulos mas abortei o projeto por razões absolutamente pessoais e em nenhum momento deixar de tratar clinicamente todos os casos estudados. 
Estou abortando neste momento um outro assunto recorrente. E não por razões pessoais. E isso também não significa que eu abandonarei casos clínicos que estejam ou estarão sob minha responsabilidade terapêutica.
Me explico, já pedindo licença à Dra. Laura Nunes da Cunha minha editora, e aos meus colegas criadores de conteúdo da página Reflexões da Psicanálise da rede social Facebook, onde são publicados minhas crônicas originalmente publicadas no Blog e em outas mídias. 
Insisto; retomo o assunto por considerar que o problema é recorrente e as notícias estão ai todos os dias pra qualquer pessoa que saiba ler saiba que se trata de algo grave. 
E como é reverberado pelo sindicato médico do RS " A informação é o melhor remédio!"
Publiquei algumas crônicas alertando e expondo minhas razões à cerca da "glamourização" da prostituição principalmente nas redes sociais e na verdade em todas as mídias.
Então, recebi muitas mensagens de apoio e agradecimento pelo texto e pelo serviço que se prestava.
Recebi também muitas mensagens me chamando de recalcado, sectário, preconceituoso, veado, idiota, filho-irmão-marido-namorado-primo-sobrinho e tudo o mais de prostitutas, corno, e outas coisas que os queridos leitores podem imaginar.
Não me ofendi por me chamarem de veado. Nem de idiota. Nem de ser qualquer coisa de prostitutas. E na verdade nem qualquer coisa que possam ter dito para me atingir o meu emocional que aliás, é bem analisado.
Mas não sou recalcado. Nem sou sectário. Nem sou preconceituoso. 
Reitero que pessoalmente acho que uma das mais terríveis humilhações humanas é o exercício do poder de um ser humano sobre outro ser humano. E se esse exercício é na relação sexual é tão cruel quanto as torturas e os pelourinhos da escravidão, 
A ONU alerta. A imprensa brasileira alerta e recentemente a polícia federal do Brasil e da Espanha resgatou mulheres que estavam sendo submetidas à todas as agruras imagináveis. 
A Espanha , diga-se de passagem, é o país europeu com maior incidência dessa prática criminosa que é o tráfico de pessoas. E no Brasil existem aliciadores em todas as capitais especializados em levar mulheres pra "trabalharem" principalmente nas regiões de Barcelona e Madri. 
Prometem ganhos de milhares de euros. Raras mulheres voltam com algumas centenas de euros. A maioria sobrevive em prostíbulos infectados dos subúrbios de Madri ou Barcelona e quando não morrem, sofrem com a tuberculose, a anemia, e todas as DSTs.
Insisto.
Podem chamar do que quiserem: Acompanhantes VIP, Modelos de Book Rosa, Garota de Programa, e até como já ouvi alguém falar, Menina de catálogo em sites destinado para adultos.
Na verdade, em qualquer lugar, Porto Alegre, Rio, Brasília, Paris, Madri ou Barcelona, serão sempre tratadas de forma humilhante. E sempre serão chamadas e classificadas como mulher-dama, meretriz, alcouceira, quenga, marafona, rameira, mariposa, ou simplesmente prostituta.
E toda vez que eu achar necessário não vou calar. Porque mães, filhos, pais, irmãos, amigos e todos que amam essas mulheres expoliadas e humilhadas, só terão voz quando a voz não terá mais sentido de ser ouvida. 
Esperando todas as censuras, 
Fraterno Abraço
André Lacerda - Psicanalista
           

Uma História do Mundo!

Estou lendo pela terceira vez o indicadíssimo livro do David Coimbra - Uma História do Mundo - que recomendo mesmo pra todo mundo.
Pois nesse livro, o autor de uma maneira prazerosa de ler e entender, retrata o surgimento da civilização assim como todas as fases importantes da história do mundo.
Gosto particularmente do capítulo 9 (O que Freud dizia de Moisés), onde o David explica a teses freudiana  contida no livro Moisés e o Monoteísmo.
Mas gosto particularmente  quando o autor aborda que na verdade a civilização foi uma invenção da mulher.
Entenda por civilização, a vida como a conhecemos com todas as suas regras e conceitos.  Nada a ver com o bom e velho período paleolítico onde não existiam cobranças conjugais, nem casamento, nem família. Os homens viviam caçando e pescando, as mulheres cuidando dos filhos, tudo muito tranquilo segundo o David.
E segue o autor na tese:

" De que mais precisava o homem?
De nada.
Tendo alcance de um braço tudo o que desejava, o homem não pensava no futuro, vivia do presente e para o presente. Não pensando no futuro, o homem não se angustiava. Não se angustiando, o homem não tinha problemas existências, depressão, aflições em geral, banzo.
Os psicanalistas teriam dificuldade de encontrar freguesia naquele tempo."

Outra parte interessante da obra do David, é uma abordagem que é feita à cerca da atividade sexual das mulheres.
"Sexo é coisa de homem... e algumas mulheres praticam a atividade por puro diletantismo."
E o meu amigo cita algumas famosas como Catarina, a Grande, Cleópatra, Messalina e a Teodora - imperatriz de Bizâncio. Messalina era imperatriz que virou prostituta. Teodora, prostituta que virou imperatriz.
Dia desses vi um comentário de uma mulher no facebook que teve milhares de curtidas e comentários. A moça mandava um recado:
" Parem de mandar fotos de seus pintos no meu in box! Quem gosta de pinto é gay! Mulher gosta é de dinheiro!"
Juro que depois de rir muito, comecei a pensar psicanaliticamente...
Então valei-me meu amigo David Coimbra que não canso de citar:
"O Sexo comanda as ações do macho. Da mulher não.
A mulher, o que a comanda é a reprodução da espécie. Não duvido que neste momento você se lembre da sua colega que vem trabalhar com aquelas roupinhas e que olha para os homens de um jeito blasé que parece urrar: "eu quero sexo, garoto!". Sim, eu sei que você sai se lembrar dela e vai argumentar: " Luaninha gosta de sexo como se fosse um homem."
Mas você está enganado.
É tudo um truque de Luaninha. Em sua maioria, as mulheres  usam a premência masculina pelo sexo para alcançar seus objetivos. Nem que os objetivos sejam, apenas, de medir a extensão de seu poder. É o caso da mulher que acena com promessas e depois recua. Ela queira, mas desistiu? Não. Ela nunca quis. Ela só pretendia constatar até onde poderia leva-lo a você e a essa sua infantil agonia sexual."

Então... recomendo de verdade a obra do David, que depois de eu ler 3 vezes posso garantir que na verdade é uma homenagem à todas as mulheres de todas as idades, de todos os tempos e de todas as culturas.
Fraterno Abraço
André Lacerda - Psicanalista

    

  

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Minhas Dependências!

Descobri que sou dependente. Dependente de um monte de coisas. E dependente de muitas coisas que na verdade não são dependentes na sua essência.
Sou dependente do meu carro.
Vejam bem... sou dependente do meu carro. Não estou falando que por ser um homem do século XXI necessito de um veículo para os diversos deslocamentos que se faz hoje em dia numa metrópole atual.
Sou dependente do meu carro. Do cheiro do meu carro. Do sistema automático de marchas e dos dois faróis extras que o meu carro tem. Mas sou dependente fundamentalmente do MEU carro. Deprimo quando ele está na revisão ou parado para reparos.
Sou dependente da minha poltrona.
Ela é desconfortável pra todo mundo que senta nela. Ela é até feia e está longe de estar dentro dos padrões modernos e exigíveis pela moderna arte decorativa de ambientes.
Mas sou dependente da minha poltrona. Nem o melhor dos filmes da TV será bom se não for na minha poltrona.
Sou dependente do meu telefone celular. E meu celular nem é daqueles que todos desejam. Mas se não for no meu celular, acho que nem telefonar eu sei.
Sou dependente da minha internet. Não da conexão. Estou falando da minha conexão. Aquele que só eu tenho a senha e que na verdade deixei liberada pra todo mundo do prédio usufruir.
Um dia sem a minha internet pode significar graves crises existenciais e talvez até produza dores de abstinência.
Sou dependente da minha casa. Quando passo tempo demais longe de minha casa acho que entro na mais terrível das melancolias. Nem o mais caro palacete de Mônaco chega aos pés da minha casa. Nenhuma suíte do Aldorf Astoria me aconchega como minha casa. A mais bela mansão na mais bela praia da Grécia onde ninfas se banham nuas nos quintais não seria nada se comparada a minha casa.
Sou dependente das minhas pessoas.
Não de todas as pessoas, porque nem conheço todas as pessoas. Mas das minhas pessoas.
Dependo do amor e do carinho que recebo de minhas pessoas. Até posso gostar do amor e do carinho que eventualmente  possa receber de outras pessoas. Mas só sou feliz com tudo aquilo que minhas pessoas me dão.
Mas ....
Um dia o carro foi corroído pela ferrugem, porque metais tendem a ser consumidos pela ferrugem.
No outro dia a poltrona quebrou e não teve prego nem parafuso que a mantivesse de pé. E seu único destino possível foi o fogo.
No mesmo dia o telefone celular do nada deu pau! Não funcionou mais. Quebrou, fundiu, deletou, apagou. Porque é isso que acontece com telefones celulares.
E penso que o mesmo "bug" afetou a internet porque ela também apagou, deletou, sumiu. Porque é isso que acontece com a internet.
E veio um vendaval é em poucos minutos não tinha mais casa.
E as pessoas se foram junto com o vendaval e com a casa. Porque pessoas não são consumidas pela ferrugem e nem se transformam em cinzas depois de quebradas e sem concerto.
Minto.
As minhas pessoas ficaram!
E a vida segue.
Porque na verdade, eu sou dependente apenas das minhas pessoas!
Essa crônica não se refere à mim! Se refere à mim, à tu que estás lendo, aos bilhões que nunca vão ler, aos bilhões que já morreram e aos bilhões que ainda vão nascer.
Fraterno Abraço!
André Lacerda - Psicanalista

   
   

  

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Mais Uma dos Amores Virtuais!

Vou retomar um assunto recorrente: Os amores "virtuais"!
E faço isso por absoluta contingência informativa, uma vez que casos como os que citarei hoje tem sido muito frequentes não somente na minha atividade clínica, como na de muitos colegas psicanalistas, psiquiatras e psicólogos. 
O Caso:
Paciente adulto, formação acadêmica superior, sentindo-se à beira do abismo do suicídio (metafórico ou não), em virtude daquilo que o psicanalista num primeiro momento pensou na Hipótese Diagnóstica de Transtorno Depressivo Recorrente. 
Razão do desencadeamento do sintoma: Descobriu que seu amor de quase um ano, era na verdade um personagem inexistente da internet. 
Clássico: Inibição = sintoma = angústia. 
........................................
Vou começar abordando algumas questões da anamnese:
- Como pode Doutor? Eu tenho formação superior, tenho mundo, tenho experiência de vida, sou inteligente... Como posso ter caído nesse conto tão primário?
- Como pude ter sido alvo de uma psicopata que se divertiu comigo durante quase um ano?
- Como pode existir uma pessoa que tenha coragem de fazer isso com outras pessoas sem a menor compaixão e misericórdia?
- O que faço com essa coisa que foi criada dentro de mim e que até agora me fazia um ser melhor e mais feliz?
- E agora Doutor??? Eu não vou aguentar!!!!!
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Ainda não sei como vou ajudar meu paciente na construção ou na destruição dessa estrutura. Só sei e ele sabe que estaremos de mãos dadas atravessando o inferno ou o paraíso. Não sei. 
Mas penso que é muito cedo e prematuro tentar identificar que por trás da tela do computador exista ou existam seres psicopatas e de tal maneira perversos que vivem seus dias em busca de vítimas. Deve existir sim. Mas cada caso é um caso. 
Penso que os idealizadores de falsos perfis e os ditos "fakes" de um modo geral, são pessoas solitárias que criam imagos baseadas nas suas próprias ausências. 
A tecnologia proporcionou ao humano, ser o que ele bem entender nesse dito mundo virtual. Criam-se alter egos suplementadores de carências com a facilidade que se toma um copo de água.
Mas isso é  não é fruto de um programa de computador. Isso é fruto da psique humana . E tudo que é semeado nessas relações também é humano. Não é virtual. 
Criam-se afetos, amores,paixões, ódios, prazeres, amizades... tudo que é humano. 
E surgem os sofrimentos. Mas os sofrimentos também surgem quando o encontro se inicia num barzinho ou numa reunião da faculdade. 
Se eu tivesse que fazer um alerta, faria dois:
1) Confie no seu desejo!
2) Confie no seu inconsciente!
Terminei a primeira consulta com meu paciente lhe orientando a aproveitar o que de bom surgiu dentro dele nesses últimos meses...
Fraterno abraço!
André Lacerda - Psicanalista

  

sábado, 12 de setembro de 2015

Só um Pôr de Sol!

Ele estava na beira do cais do porto. 
Um barco vinha e outro ia. 
Três mulheres negras vestidas de branco ofertavam flores amarelas pra deusa das águas.
O vento frio daquele fim de inverno cortava o calor do Sol e revoltava as ondas que batiam no pier.
Um desvalido da sorte (??) aconchega-se na grama e dorme sem a menor cerimônia e sem a menor culpa.
Os biguás pescadores se refocilam na água e se fartam de peixes de um cardume passageiro.
Os namorados passeiam de mãos dadas e buscam algum canto afastado ou para o exercício do amor ou para o exercício de inalar uma fumaça suspeita. Não deu pra saber e nem ver. 
A moça tira uma foto de si mesma pensando em ostentar o início do pôr do Sol, mas na verdade o destaque é para uma placa velha e suja que avisava: Cuidado! Águas profundas e poluídas.
Dois turistas se abraçavam e bebiam talvez a primeira das muitas cervejas. Ou a última. Não deu pra saber e nem ver. 
Aquela hora do dia era uma hora triste para o psicanalista. O entardecer era o ocaso do dia.
Mas pensou que amanhã outros barcos viriam e iriam.
E outras mulheres jogariam flores na água para a deusa, e os biguás se fartariam de um outro cardume passageiro.
As águas continuariam profundas e poluídas e as pessoas ainda retratariam o pôr do Sol.
Estava encerrado o dia enfim!
Ao ver o sol se pondo pensou no comentário que Freud fez referindo-se ao exílio em Londres:
"O sentimento de triunfo ao me ver libertado acha-se tão fortemente vinculado à dor, já que sempre amei profundamente a prisão da qual fui libertado."

Fraterno Abraço!
André Lacerda - Psicanalista
P.S.: Esse é o Pôr do Sol em Porto Alegre.



quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Em Busca do Tempo Perdido!

O título nos remete de imediato a obra de Marcel Proust, onde transformou o tempo em principal personagem de seu romance. 
Sei que a obra nem de longe é considerada popular e acessível. Muito pelo contrário. E não sei se eu teria capacidade de escrever sobre ela de uma maneira que agradasse à quem quer que seja. Ainda mais eu, que quando não tenho o que fazer, brinco de ser escritor segundo alguns. No entanto, quem tem padrinho não morre pagão. E com a devida licença, nesta minha crônica de hoje, vou me valer do meu amigo David Coimbra e sua obra  Um História do Mundo (2012- Ed LPM).
Proust foi considerado pela crítica literária um dos quatro escritores essenciais do século XX. Os quatro eram ele, James Joyce, Kafka e Freud. 
O David diz que ele era um homem estranho. Um autêntico filhinho da mamãe. 
A obra monumental desse menino mimado é um romance sobre a tragédia do tempo. O tempo que transforma as pessoas em outras pessoas, que passa e não volta mais, o tempo que pode ser aprisionado e que só pode ser recuperado através da arte  de eventuais investidas da memória. 
Do primeiro livro de Em Busca do Tempo perdido, repasso alguns pedaços, com a tradução feita por ninguém menos que... Mário Quintana.

"Acho muito razoável a crença céltica de que as almas daqueles a quem perdemos se acham cativas nalgum ser inferior, num animal, um vegetal, uma coisa inanimada, efetivamente perdidas para nós até o dia, que para muitos nunca chega, em que nos sucede passar por perto da árvore, entrar na posse do objeto que lhe serve de prisão. Então elas palpitam, nos chamam, e, logo que as reconhecemos, está quebrado o encanto. Libertadas por nós, venceram a morte e voltam a viver conosco.
É assim com o nosso passado. Trabalho perdido procurar evocá-lo, todos os esforços da nossa inteligência permanecem inúteis. Ele está oculto, fora de seu domínio e do seu alcance, nalgum objeto material (na sensação que nos daria esse objeto material) que nós nem suspeitamos. 
Esse objeto, só do acaso depende que o encontremos antes de morrer, ou que não o encontremos nunca."
Segue Proust:
"Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madeleines e que parecem moldados na valva estriada de uma concha de São Tiago........estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção da sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferentes as vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência; ou antes, essa essência não estava em mim; era eu mesmo. Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligada ao gosto do chá  e do bolo, mas que o ultrapassava infinitamente r não devia ser da mesma natureza." 
Explica e grande David Coimbra:
" Ao sentir o sabor de uma madeleine amolecida pelo chá quente, Proust sentiu o sabor do passado. Um objeto inanimado, um pequeno biscoito, foi o suficiente para desencadear todo um processo de recuperação do tempo perdido. Como se Proust fosse um arqueólogo, porque é precisamente isso que o arqueólogo faz: busca nos objetos o tempo perdido."

Espero que tenham gostado. Mas recomendo tanto a obra do Proust como a do David citados aqui.
Fraterno Abraço
André Lacerda - Psicanalista  



sexta-feira, 28 de agosto de 2015

As Verdades Secretas (?????)

Quem acompanha minhas crônicas, sabe que nas últimas semanas tenho realçado dois assuntos específicos: O tratamento oncológico e os pacientes submetidos aos efeitos da quimioterapia por estar envolvido no processo, e antagonicamente (nem sei se tão antagônica assim)) a reverberação do tema prostituição desencadeada pelo sucesso televisivo de uma novela exibida em rede nacional, diga-se de passagem na TV aberta. 
Hoje me detenho no segundo tema.
Ouvi um comentário hoje onde alguém disse que a tal novela estava na verdade, glamorizando a prostituição. Não sei se isso procede. Mas sei que se isso proceder, os alarmes naturais das pessoas devem ser imediatamente acionados. Me explico:
Escrevi uma crônica anos atrás onde se observa a seguinte referência:

" Do terreiro, a noite sai para os puteiros mais pobres onde as mulheres idosas vivem seu último tempo de amor e as meninas recém chegadas da área rural aprendem o difícil ofício de meretriz." (A noite brincalhona da Bahia, crônica publicada em 2009).

E escrevi isso, porque sim! O ofício de meretriz é difícil. A meretriz não é uma mulher de vida fácil. No meu entender  não formado de preconceitos, e sim da escuta clínica que faço ao longo de muitos anos, a prostituição é uma das formas mais perversas de produzir humilhação e degradação ao ser humano. E não importa se o resultado disso é um prato de comida nas estradas do sertão nordestino do Brasil, ou se é alguns milhares de euros com viagens de primeira classe e com direito à fotos na rede social onde a moça aparece feliz sob o esplendor da torre Eiffel.
E me valho da obra da Psicanalista Maria Helena Fernandes (O Corpo, da coleção Clínica Psicanalítica), que por sua vez cita os escritos de J.Birmann de 1997 (Le corps et l'affect en psychanalyse: une lecture critique du discours freudien).  
Ali se aprende que entendendo o percurso do corpo na metapsicologia, do corpo pulsional ao ego corporal, passando pelo corpo auto-erótico e narcísico, e após saber que para Freud o corpo se constrói a partir da relação com o outro parental, relação primordial e constitutiva da subjetividade, e considerando ainda que, segundo o dualismo pulsional, o corpo emerge também como lugar de encontro de Eros e Tânatos. Sim! Entre Eros (VIDA) e Tânatos (MORTE).
Dai estabelecer que o CORPO é um lugar de encontro de Eros e Tânatos. 
Esse encontro permitiu a Freud abordar o corpo sob o ângulo de um corpo, por assim dizer, masoquista, baseando-se na ideia de um masoquismo originário. Os avanços freudianos dos últimos cento e poucos anos, apontam que o acesso à representação de nosso próprio corpo está longe de poder ser adquirido simplesmente a partir de uma imagem. É a dor, diz Freud, que, dando acesso ao conhecimento de nossos órgãos, permite uma representação de nosso corpo em geral.
Em 1915, ao enunciar a diferença entre a força pulsional e os destinos das pulsões, Freud concede à força pulsional uma autonomia em relação às representações psíquicas. Enxerga-se aí as premissas de pulsão de morte tal como será formulada na década de 20, a saber, como pulsão sem representação.  Uma explosão da segunda teoria das pulsões, particularmente da noção de pulsão de morte, torna-se necessária já que a clínica analítica em geral mostra que o acontecimento somático, além de alimentar a rede de representações que servem de suporte para a angústia de castração, também remete ao caráter silencioso da pulsão de morte e aos efeitos mais ou menos duráveis e nefastos relacionados à desfunção pulsional.
Tenho convicção que essa crônica deverá ser lida mais de uma vez para o pleno entendimento, sobretudo pra quem não é psicanalista, e os não psicanalistas são a grande maioria de meus leitores. Contudo, tive que ser técnico para me afastar da pecha de preconceituoso que por mais que não seja serei adjetivado pelo pessoal da minha "gestapo" pessoal que insiste em me perseguir desde que comecei a escrever em 2008.
Então... se realmente a tal novelinha estiver glamorizando o exercício da prostituição e o difícil ofício de meretriz, os alarmes naturais devem ser acionados, pois o lugar menos tenebroso que o ser humano que cair nessa cilada frequentará, será o divã de um psicanalista... ou uma clínica psiquiátrica, porque a primeira coisa que descobrirão é que essa verdade JAMAIS será secreta!
E para as meninas que lerem, espero que tenham o  saber de que o CORPO é um lugar de encontro de Eros (VIDA) e Tânatos (MORTE).

Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista

   


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O Psicanalista No Tratamento Oncológico/Quimioterápico - A Grandeza do Espírito!

Reabilitados coração e psiquê, retomo com a série onde retrato a figura do psicanalista na vida e no tratamento de pacientes acometidos pelo câncer. 
E de imediato pego pelo nome : CÂNCER!!!!!
Sim. Essa doença tem nome. E o nome é Câncer. Não é aquilo; não é o mal; não é o indizível; É simplesmente o câncer, uma doença que pode ser tratada e na grande maioria dos casos pode haver sim a cura.
E foi assim que o psicanalista no final daquele primeiro mês de tratamento quimioterápico, iniciou a conversa com sua paciente oncológica. 
Foi um mês terrível, e as reações adversas do remédio estavam sendo mais terríveis do que se poderia imaginar. 
As dores eram intensas. As tonturas e enjoos eram terríveis. A fraqueza por falta de alimentação era arrasadora e já tinham se ido quase dez kilos naquele primeiro mês. E o pior: A depressão veio avassaladoramente. 
O remédio inibira a produção de dopamina, endorfina e serotonina. E isso gerou a chamada depressão física, que na verdade tem a mesma gravidade da depressão psicológica, com a diferença de que  ao final do tratamento a depressão física também chegaria ao fim.
O psicanalista ouvir todas essas demandas naquilo primeiro dia do segundo mês de tratamento. Sua paciente estava com todos os sinais de um estado depressivo recorrente, e naquele momento, ele pensou que o melhor lugar para ocupar seria o de consolador. 
E assim falou:
- Amada paciente. Acho que tudo é uma questão de pobreza e de riqueza. Não de valores na conta do banco, mas de espírito. 
Queres ver?  
Imagina um espírito pobre falando de sua pouca ração. Certamente ele vai dizer:
 " Meu café da manhã hoje só tinha pão com ovo!"  
A mesma ração sendo dita por um espírito rico:
" Meu desjejum de hoje foi esplêndido. Consistiu num ovo estrelado com a gema molezinha e as bordas levemente crocantes, acompanhado de um ainda quentinho pedaço de pão francês. E eu peguei o garfo e furei a gema com cuidado e um pedaço de pequeno de pão molhou-se naquele fio de ouro amarelo. Foi maravilhoso meu início de dia!"
Vi agora mesmo que quando a enfermeira chegou com o remédio tu te referiu a ele como sendo tua dose diária de veneno e que aquilo estava te matando. 
E vi o quanto erraste!
Deverias de ter pensado que somente para chegar até teu leito, aquele remédio passou por pelo menos quatro profissionais de saúde de formação superior (médico, farmacêutico, duas enfermeiras), por mais uma grande equipe de técnicos e auxiliares, e mais uma estrutura hospitalar de primeiro mundo. Deverias ter pensado que esse tratamento tem um custo médio de cem mil dólares e teu plano de saúde está cobrindo tudo. 
Deverias ter pensado que cada gota desse remédio significa um passo distante do câncer e por isso ele não é veneno e sim o teu bálsamo da vida. 
Alma tranquila e coração sereno!
Amanha estarei aqui contigo para a próxima sessão e certamente teu espírito terá assimilado minha fala. E tu já vais sair daqui hoje sentindo não o gosto do veneno. Mas a grandeza de teu espírito. 

Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista

sábado, 15 de agosto de 2015

O Book Rosa!

Sob o céu azul daquela manhã carioca, ele lembrava do início e do fim de tudo. Porque o fim tinha sido recente e ainda sangrava. E cada gota de sangue caída era a certeza de que o sangramento seria constante por um bom tempo ainda. 
Mas acreditava que  por mais sofrido que o momento transcorra, no início a dor foi mais lancinante. 
No início ela vendeu o próprio corpo para o mesmo ginecologista inescrupuloso que assistiu seu parto e acompanhou o pré natal de sua gestação indesejada e imprevista. 
Ela precisava. O perverso médico ofereceu os trinta dinheiros de sua iniciação destrutiva, Ela topou. 
Naquela primeira vez experimentou sentimentos terríveis. Mas engoliu o vômito de seu nojo. Os trinta dinheiros lhe ajudariam. 
E se deu ao primeiro "cliente" por trinta dinheiros por mais algumas dezenas de vezes. Mas já na primeira vez, encarou aquilo como um "trabalho" e estava pensando em diversificar a atividade até que conseguisse um emprego decente que lhe possibilitasse viver com certo conforto. 
Começou a frequentar boates. E porque era um raio de sol de linda no esplendor de seus vinte anos de idade, tornou-se rapidamente uma das mais requisitadas. E já não eram mais os trinta dinheiros. Voltava pra casa no final das madrugas com o corpo e as entranhas dilacerados. Mas na bolsa de grife cara habitavam centenas de dinheiros. Talvez milhares. Poderia alimentar o filho e quem sabe até ajudar mais alguém. 
Desenvolveu um mecanismo de defesa do ego específico para todo aquele turbilhão. Seria apenas um "trabalho". Uma atividade remunerada com tempo pré estabelecido. O telefone tocava. O "cliente" marcava e combinavam o preço. Combinavam em qual alcova se encontrariam. Ela ia. Fazia. Recebia o preço de sua alma. Pronto. Tudo se terminava em uma hora. Com sorte em duas, pois dai o preço dobrava. Voltava pra casa e pra sua vida onde tinha nome próprio. Pensava que tinha que cuidar em não confundir seu próprio nome com o nome de trabalho que adotara.
E assim se deu. Atendia nas 24 horas do dia. E eram 5, 6, 10 sessões de puro êxtase sexual a cada 24 horas. Para os "clientes". Para ela era 1 hora (duas, com sorte) de pura figuração e com o tempo tornou-se uma perfeita "profissional". Aquilo era o seu "trabalho".
Durante uma década viveu equilibrando-se na corda bamba de sombrinha. Afinal tinha uma vida com família e amigos e tinha uma vida paralela que ninguém sabia. E deus o livre se alguém descobrisse ... Teve que conviver  com a mentira e tornou-se também "profissional" na mentira. Aprendeu o difícil ofício. Tornou-se "expert" na arte de seduzir. Mas cada vez que "trabalhava" sentia que seu próprio sangue ia congelando... e congelando... e congelando...
E quando ele apareceu na sua vida ela já não tinha sangue nas veias. Era um gelo.... talvez (??) um pouco derretido porque ele era envolvente, mas ainda assim um gelo...
Contou a verdade (no fundo apenas uma pequena parte da verdade). Ele aceitou. Fizeram juras. Ela não cumpriu. Ele não cumpriu em contrapartida. Brigaram. Ofenderem-se:
- Cretino! Mentiroso! Enrolador!
- Mentirosa! Meretriz! Cretina!
Ele matou-se.
Ela seguiu a vida... Corpo e entranhas dilaceradas e escravizadas pelo difícil ofício.... Corpo e entranhas que sequer existiam mais... Era só uma máquina. Uma máquina e uma alma escravizada pelo vil metal dos trinta dinheiros...
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Essa crônica é apenas uma estória. Escrevi assustado com o glamourizado tema da prostituição. Sim. Book Rosa, Ficha Rosa, Acompanhamento VIP. Tudo é na verdade PROSTITUIÇÃO.  E tudo isso é produto da Exploração sexual, e sempre vinculado ao sofrimento humano. 
Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista 

      
    

sábado, 8 de agosto de 2015

Os Trinta Dinheiros!

Naquela manhã de sol releu fragmentos do poema de Pessoa:
".... E eu que tanto amo a morte e a vida, se tivesse coragem também me mataria!"
Não via outro caminho que não fosse o suicídio. Estava decidindo por duas hipóteses apenas: Ou o  suicídio indigno da desistência onde sua persona não mais tivesse face, ou o suicídio do corpo e da alma, mas achava que esse não teria coragem.
Fugir não.... Fugir seria pior que o suicídio.
Era o capitão de seu barco e afundaria entre as velas rolando por sobre o tombadilho, a popa e a proa. Com sorte a quilha arrancaria sua cabeça antes do afogamento que é morte cruel. Ou quem sabe com sorte, os cordames do velame se enroscassem no seu pescoço e ele morreria enforcado antes do afogamento. Que a morte do afogado é cruel. Com sorte o enforcamento.
Lembrou-se dos enforcados da história, e Judas morreu enforcado tendo no bolsos os trinta dinheiros da sua traição ou da sua crença. Há controvérsias. Certa vez quando leu a obra do historiador Flávio Josefo (A Guerra dos Judeus), pensou que Judas e Jesus de Nazaré na verdade tinham os mesmos propósitos.
Ambos queriam a libertação do povo de Israel que vivia sob a dominação de Roma. Jesus prometeu a libertação. Judas acreditou. Quando Jesus falou que seu reino não era aquele, e que dessem a César o que era de César, Judas ficou puto da cara e entregou seu mestre aos fariseus. Porque naquela época já tinha a corrupção.
Depois se arrependeu.
Escolheu uma árvore morta. Laçou o galho mais forte. Em lágrimas de sal envolveu o pescoço com o nó da forca. Pulou. Em um segundo pescoço quebrado. Morto. Balançando pendurado numa árvore no alto de um penhasco dantesco. No bolso da túnica... os trinta dinheiros.
Pensou que a forca seria um ato digno mesmo que infernalmente dramático. E não teria os trinta dinheiros no bolso da túnica. Não traiu e não se corrompeu. Buscou apenas a libertação. Perdeu pro sistema. Foi engolido.
Mas forca não....
Agora era esperar a fúria das águas e afundar com o barco...
Seria achado por algum resgate entre o passadiço. Entre a proa e a popa.
 
Fraterno Abraço
André Lacerda - Psicanalista   
 
 
 

quinta-feira, 30 de julho de 2015

O Psicanalista no Tratamento Oncológico/Quimioterápico - A DOR!

A paciente estava no meio da segunda semana de quimioterapia. Até agora estava indo tudo bem e os efeitos do remédio ainda não eram devastadores e o desconforto até então, estava sendo bem tolerado. Até então...
O psicanalista sabia que aquilo ia piorar. E ia piorar muito.
Naquela metade da segunda semana viu que sua paciente estava começando a sentir os efeitos medicamentosos e ele conseguia ver isso no semblante dela que começava a esboçar o sentido do golpe. E ele assimilou a força e a violência do golpe. Isso era inexorável. 
Sabia que a depressão seria mais rápida e mais poderosa que os antidepressivos;
Sabia que a dor das articulações chegaria e seria devastadora;
Sabia que a xerostomia (boca seca) seria comparável aquilo que sentem os caminhantes no mais escaldante deserto e que não haveria água que aliviasse;
Sabia que a falta de apetite impediria qualquer alimentação prazerosa (afinal comer sempre foi um prazer) e agora a alimentação teria um sentido de sobrevivência, mesmo que o mais requintado manjar tivesse gosto de alumínio; 
Sabia que aquela angústia que oprimia e apertava o peito seria uma constante naqueles doze meses de tratamento;
Sabia de tudo ....
E sabia também que sabia lidar bem com as "psico dores".
Pensou que o sintoma físico nos casos de histeria, o tratamento psicanalítico busca invalidar a importância daquele sintoma, procurando o nó psíquico à ser desatado.
Pensou que nas doenças de origem psicossomática, além do alívio e extermínio do sintoma tem de se buscar a origem desencadeadora, e que nesses casos quase sempre a inibição gerava o sintoma que gerava por sua vez a angústia. 
Mas sabia que naquele caso, e em todos os outros casos de pacientes oncológicos submetidos à quimioterapia, seu suposto saber deveria ser reformulado e deveria buscar outras alternativas.
Todos os efeitos não tinham origem psíquica. Nem mesmo a depressão e a angústia eram psicológicas. Tudo vinha da ação do remédio salvador. Tudo era realmente físico.
Pensou. Pensou. Pensou...e... nada...
Entristecido, pensou que sua paciente iria se decepcionar. Afinal, ela apostara que a presença do psicanalista naquele momento seria de grande valia e suporte. Nada lhe restava à não ser consolar e confiar no seu inconsciente.
O que? Confiar no inconsciente? Lógico!!!
Se na histeria se invalida o sintoma físico, era preciso nesse caso VALIDAR  o efeito do remédio. Afinal o remédio era na verdade a vida vencendo a morte. A dor causada pelo remédio era sinal de que ele estava agindo e fazendo efeito. A dor era na verdade,  o câncer sendo combatido e eliminado. A boca seca era sinal de que estava sendo deixado pra trás o deserto inóspito. O gosto de metal na boca significava que o corpo estava sendo protegido por uma armadura que nada iria perfurar. E a depressão e a angústia eram sinais que a paciente estava sim em guerra, mas que estava vencendo.
Lavou o rosto. Ajeitou o nó da gravata. Bebeu água. Voltou à sala quimioterápica onde a paciente estava muito abatida e falou:
- Quero conversar contigo sobre o Câncer.
A paciente arregalou os olhos esperando qualquer coisa de muito ruim. O psicanalista prossegui:
- Há bem pouco tempo, quase que a totalidade dos pacientes com câncer recebiam no diagnóstico uma sentença de morte. Hoje o câncer não é mais uma sentença de morte. Sabes porque? Porque o espírito humano desenvolve a cada dia formas de superar qualquer coisa, e o espírito humano é que desenvolveu a cura dessa doença. Então, a partir de agora, nós vamos falar sim sobre o câncer e principalmente, do milagre que a quimioterapia está promovendo em ti e em todos os pacientes daqui.  
Pode ter sido apenas impressão, mas naquele dia o psicanalista acredita ter visto sua paciente menos abatida quando a última gota do remédio caiu do frasco, e ela disse sorridente pra enfermeira:
- Até amanhã! Teremos um ano inteiro pra nos conhecer melhor!
 
Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista 
 
 
 
 
   
   

terça-feira, 28 de julho de 2015

O Psicanalista no Tratamento quimioterápico!

O Psicanalista se preparou para acompanhar os pacientes em tratamento oncológico, nas salas de diferentes cores. Era a sala verde, a sala azul, a sala lilás... Sem nenhum outro propósito que não fosse tornar um pouco lúdica a sessão quimioterápica.
Estudou sobre os efeitos do medicamento, e os protocolos médicos internacionais relativos à esses procedimentos.
Pensou:
- Estou preparado para acolher todas as demandas de meus pacientes que estão em situação de câncer. Penso que à mim, resta ofertar um pouco de conforto, muito consolo, e quem sabe falar mais do que ouvir. Somente desta vez.... falar mais do que ouvir!
Passados os primeiros quinze minutos do início da sessão de quimioterapia de sua paciente, o psicanalista percebeu que estava redondamente enganado.
Nada do que tinha programado seria suficiente.
Logo na entrevista inicial da paciente com a enfermeira encarregada, descobriu que as coisas não seriam como o programado.
Já sabia pelas informações do oncologista, que o remédio além de todos os efeitos colaterais físicos, tinha um forte efeito depressivo, por diminuir consideravelmente os níveis de substâncias reguladoras . Ou seja, não seria uma depressão psíquica. Seria uma depressão física mesmo. Mas isso o oncologista já havia previsto e já prescrito remédios devidos.
Mas tudo isso não era quase nada se comparado ao que viu naquele início de tratamento.
Descobriu que naquele momento, mesmo sendo atendida por muitos profissionais competentes, e mesmo ele estando ali, sua paciente sentiu-se a pessoa mais solitária, na mais solitária ilha do planeta.Quando a primeira gota do remédio pingou do frasco em direção à cânula.
Mesmo antes de o remédio entrar na sua veia fina, a paciente provou o gosto da solidão.
Deparou-se com todos os momentos de sua vida naquele filme que todos dizem que passa quando sentimos o perigo eminente.
Foi naquele momento que o psicanalista sentiu que era ali mesmo, naquela sala branca com nome de cor berrante, que ele deveria estar mesmo.
Descobriu naquele momento que era uma boa hora  (ou duas, ou três ou oito horas) para começar a ajudar na reconstrução das paredes derrubadas pelo câncer e, porque não dizer, pela própria cura.
Pegou na mão de sua paciente .... falou:
-Vai ser aqui que o tratamento oncológico e a quimioterapia vão te curar. E vai ser aqui, que eu e tu vamos começar a navegar por mares revoltos. E vai ser aqui, que eu e tu vamos iniciar a caminhada do resto de tua vida. Estarei contigo todos os dias.
A paciente apertou a mão do psicanalista e já esboçando uma reação perguntou:
- Por onde começamos André???
   
Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista
 
 

sábado, 25 de julho de 2015

O Psicanalista no Tratamento Oncológico/Quimioterápico

"Que ceco! Que rim! - pensou. - Nada! Nada!
Trata-se é da vida e da morte. Sim, a vida se esvai, se esvai, sem que possa impedir. É isso, só isso! Porque me iludir! Não é patente a todos, menos a mim, que eu estou morrendo e que é apenas uma questão de semanas, de dias, talvez agora mesmo?
Havia luz na minha frente, mas agora só trevas.
Eu estava no mundo e vou abandoná-lo! Para onde irei?
Eu deixarei de existir, mas o que haverá depois? Nada.
Então, onde estarei quando não mais existir?" (A Morte de Ivan Ilitch; Tolstói)

O trecho do livro do Tolstói fervilhava na sua mente naquele gélido final de tarde de inverno já saindo do prédio do consultório do cirurgião.
Há duas semanas aguardava o resultado da biópsia do carocinho extraído. "Aquilo" nem doía. "Aquilo" nem incomodava. "Aquilo" sequer aparecia aos olhos dos outros. Certo que tinha havido aquele evento há cinco anos atrás. Mas "aquilo" foi tirado por completo. E fez todo o acompanhamento oncológico regularmente e "aquilo" estava resolvido. Porque foi mexer "naquilo" ????  "Aquilo" era o câncer!
Aquele maldito papel lhe queimava as mãos que estavam frias e suadas. E o maldito papel era friamente assustador com suas letras frias e assustadoras escritas em caixa alta:
"METÁSTASE DE NEOPLASIA MALÍGNA".
No primeiro banco da primeira praça que apareceu sentou. Chorou. Fumou. Fumou de novo...
Cofiava no seu oncologista e agora era tocar a vida. Organizar a rotina e ter fé na ciência e em todos os santos do céu e da terra.
O tratamento seria duríssimo e longo. Um ano de quimioterapia. Os efeitos do remédio seriam devastadores ao mesmo tempo que salvadores. Agora era pensar numa babá em tempo integral pras crianças, e rezar para que o marido desenvolvesse milagrosamente habilidades femininas de dona de casa. Porque só uma mulher tem capacidade múltipla de ser mãe, mulher, faxineira, cozinheira, profissional de ponta, e de fazer tudo ao mesmo tempo.
Fumou mais um cigarro daqueles bem fraquinhos de cravo e menta. Pensou:
- Mas tem o psicanalista!!!!!!! Em segundos estava dirigindo à cem por hora rumo ao consultório do psicanalista.
...................
Ele conhecia bem aquela paciente. Jovem, formação superior, bem sucedida profissional e pessoalmente, e pela Psicanálise construiu sólidas estruturas emocionais.
E agora essa! Câncer....
Ela havia saído à pouco do consultório onde lhe solicitou acompanhamento durante o tratamento oncológico.
Imediatamente  começou a estabelecer as bases terapêuticas para aquele caso. Foi aos livros e anotou os pontos fundamentais.
Inexoravelmente teria de ir em direção à especificidade do objeto psicopatológico, entrando no cenário do câncer e a figura da morte e passando pelo drama do padecimento.
Pensou que Freud e sua formulação sobre o caráter de irrepresentabilidade da morte seriam de grande ajuda assim como os estudos da vertente psicopatológica do desemparo.
Teria que rever e rever cotidianamente as teorias da angústia e as suas relações com a experiência de separação do objeto. E passou o resto da noite e quase toda a madrugada estudando. Antes de dormir pensou que estava pronto para andar de mãos dadas com sua paciente pelos infernos que ela teria que percorrer.
Acompanhou na manhã seguinte a sua paciente na primeira sessão de quimioterapia. E foi ali que percebeu que tudo o que programou não seria suficiente.
Naquela manhã, o psicanalista descobriu que deveria pensar num jeito de transformar a sala de quimioterapia num consultório lacaniano. E a poltrona confortável seria um divã freudiano.
Prezados amigos leitores!!! Essa crônica não é uma mera peça literária. É um caso real e estou tendo a oportunidade de ser um dos protagonistas. Vou narrar aos amigos toda a rotina laboral do psicanalista  no tratamento oncológico/quimioterápico. E acreditem: Está sendo uma das mais marcantes experiências do velho psicanalista aqui. E está sendo uma experiência de VIDA. Não de morte. Espero que acompanhem e gostem.
 
Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista    
 
 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

O Corpo!

Começo minha crônica de hoje me explicando:
As meus leitores fiéis do blog  "O Criador e a Criatura" e da mídias sociais, peço desculpas pelas lacunas de tempo que tenho deixado entre uma e outra publicação. Estou inserido num novo projeto, que além de novo requer muito de meu tempo. Estou inserindo a minha atividade clínica psicanalítica, como coadjuvante no tratamento oncológico quimioterápico com pacientes que estão em tal situação. E creiam: Isso vai render belas e emocionantes crônicas num futuro bem próximo.
E foi observando e convivendo com essa situação que me deparei com uma reflexão inerente ao antagonismo que presencio na vida cotidiana. De um lado pessoas que entregam seus corpos numa luta hercúlea pela vida. De outro lado pessoas que entregam (muitas vezes) suas vidas pelo CORPO. Dentre os exemplos mais recentes e famosos posso citar no segundo caso, o genial Michael Jackson e a celebridade (e me refiro assim por desconhecer a profissão da moça, e me recuso a citar um ser humano apenas por miss bumbum) Andressa Urach.
Valei-me sensacional e competente Dra Maria Helena Fernandes, importante psicanalista do cenário nacional, em sua publicação O Corpo ( Coleção Clínica Psicanalítica, 2003, Ed Casa do Psicólogo), que eu recomendo com toda a ênfase.
Obrigado Dra Maria Helena pela publicação. Tomo-lhe emprestado as palavras e compartilho com meus leitores.
 
O corpo está em alta! Alta cotação, alta produção, alto investimento...alta frustação. Alvo do ideal de completude e perfeição, veiculado na pós-modernidade, o corpo parece servir de forma privilegiada, por intermédio da valorização da magreza, da boa forma e da saúde perfeita, como estandarte de uma época marcada pela linearidade anestesiada dos ideais.
Atualmente o intenso interesse da imprensa pelas questões que envolvem o corpo pode ser facilmente verificado pela quantidade de reportagens que invadem nosso cotidiano tratando da saúde ou da doença. E isso sem falar na abordagem estética, que se tornou um dos assuntos preferidos também das publicações sérias. O corpo toma a frente da cena social. Sua forma ou seu funcionamento é assunto frequente nas conversas entre amigos, nas piadas contadas na mesa de bar, nas novelas, no cinema, etc.
O corpo saiu do espaço privado do interior das casas e do espaço restrito das instituições de saúde e ganhou o espaço público: as academias, as clínicas de estética... a rua. Corpo nu, corpo vestido, corpo de mulher, corpo de homem, o corpo serve para vender qualquer coisa, até mesmo o próprio corpo, basta observar ainda a proliferação de outdoors com propagandas de tratamentos cirúrgicos e estéticos.   
Não se pode deixar de observar que os progressos tecnológicos da medicina e da genética vêm reformulando de maneira acelerada a relação do sujeito com o próprio corpo, tanto no que diz respeito às questões do adoecer quanto às questões ligadas ao envelhecimento. Habituados a transpor os limites do corpo, os cientistas nos informam entusiasmados que tais progressos nos permitirão viver mais e melhor. Livres de doenças que durante bom tempo perturbaram o sono da humanidade, somos convidados a nos deixar embalar pela perspectiva de vencermos também a luta contra o tempo.
As ressonâncias desses progressos certamente se fazem ouvir na clínica psicanalítica da atualidade. Estandarte de um ideal de perfeição que se busca insistentemente alcançar, o corpo é hoje hiperinvestido, porém frequentemente apontado como fonte de frustação e sofrimento, constituindo-se como meio de expressão do mal-estar contemporâneo.
Em entrevista concedida à revista Percurso, Jurandir Freire Costa chama a atenção para uma mudança de perfil clínico dos analisando, salientando o aumento de casos de depressão, toxicomanias e do que ele denominou "distúrbios da imagem do corpo".
Embora nos imagens da dor tenham surgido - reflexos da mudança dos tempos-, elas continuam, no entanto, a guardar a mesma característica das imagens dos corpos retorcidos das histéricas de outrora, ou seja, a imagem do velamento do sofrimento, do tumulto do conflito, da dor.
Assiste-se, assim, à emergência dos ditos "novos sintomas": os abundantes  e variados transtornos alimentares, a compulsão para trabalhar, para fazer exercícios físicos, as incessantes intervenções cirúrgicas de modelagem do corpo, a sexualidade compulsiva, o horror ao envelhecimento, a exigência da ação, o terror da passividade, a busca psicopatológica da saúde ou, ao contrário, um esquecimento patológico do corpo, e ainda a variedade dos quadros de somatização. Sintomas que denotam, a meu ver, de forma positiva ou negativa, a submissão completa do corpo
Essas imagens da dor, surgidas e evocadas pela clínica psicanalítica, funcionando como espelho da cultura, refletem, de forma diversificada, a imagem do mal-estar na atualidade.
No texto "Psicologia das massas e análise do ego" (1921), Freud afirma que não existe constituição solipsista do psiquismo. Se  a psicologia individual é simultaneamente psicologia social, pelo simples fato de que a subjetividade se constitui a partir da alteridade, da existência fundamental do outro como eixo constitutivo do psiquismo, então, pode-se avançar a ideia, de acordo com Freud, de que as formações psicopatológicas falam da cultura, ou melhor, retiram dela o material de base que lhes dará forma, que lhes dará imagem!
 
Essa crônica não manifesta minha opinião favorável ou desfavorável sobre qualquer coisa. À mim, cabe ser um menestrel narrador para uns e arauto a desgraça para outros. Por amar meu ofício, consigo me manter no lugar onde cada um me vê e coloca. 
 
Fraterno abraço!
André Lacerda - Psicanalista  
 
      
 
 


sexta-feira, 10 de julho de 2015

O Beijo da Mulher Aranha!

Alguém já disse que a força mais avassaladora do mundo são as paixões. Os mais românticos dizem que é o amor.... mas ainda acho que realmente são as paixões.
As paixões é que movem o mundo. Elas provocam guerras, assaltos à geladeiras pelas madrugadas, o surgimento de filhos, e quem sabe até altas resoluções no campo da política e da diplomacia.
Já o amor é aquela força sublime que.... bem... isso é assunto pra outra crônica....rs
Mas nesta crônica quero falar de uma avassaladora paixão platônica.
O psicanalista devia ter uns 9 ou 10 anos de idade e isso foi bem antes de quase todas as descobertas...
A primeira paixão platônica surgiu quando ele viu pela primeira vez a primeira professora. Sônia o nome dela. Porque meninos se apaixonam pela primeira professora. E porque ela era a mulher mais linda que ele já havia visto. Porque todas as primeiras professoras são. E aquela paixão durou um ano. Um ano letivo.
A segunda paixão platônica veio na terceira série. A professora. A mais linda de todas as mulheres. Ele entrava na fila do beijo no final da aula, três vezes.  As vezes quatro vezes. Mas o ano letivo acabou e vieram as férias.
Ele passava as férias com os avós, e tudo era muito bom. Até que tudo ficou ótimo. Explico:
O vô o levou para ver um daqueles espetáculos das bucólicas praças de antigamente.
No meio da praça, um ônibus todo colorido... e o anúncio luminoso:
"Conheça a incrível MULHER ARANHA".
Ele entrou agarrado na mão do avô.
E quando viu o que viu, a flecha de Eros atravessou-lhe o coraçãozinho infantil.
Era a criatura mais linda de toda a face da terra.
Olhos amendoados, o cabelo negro como a mais escura das noites, e um pingente brilhante sobre a testa que estava envolta numa fita vermelha. Os lábios vermelhos e a pele branca. Era uma mistura de Branca de Neve e Cleópatra. Porque para ele Cleópatra sempre foi e sempre será a Elizabeth Taylor, como hoje diz o seu amigo David Coimbra.
Mas...era só um rosto. Ela tinha o corpo de aranha. Sim.... ela era a mulher mais linda de todos os tempos com um corpo de aranha.
Ele de cara percebeu que aquilo era um truque de espelho dos mais vulgares. E podia ver que aquele corpo de aranha era do mesmo tecido de uma jaqueta de veludo que ele tinha e que achava feia demais e se recusa a vestir.
Mas qual o que... nem se abalou... se apaixonou pela mulher aranha.
Ela falava e interagia com os espectadores. Olhou fixo nos olhos dele e perguntou:
- Olá! Qual o seu nome?
Ele paralisou. Porque ela falava e a voz dela era tão linda quanto seu lindo rosto. Respondeu:
- An.... An.... An....dré.....
- Eu sou Tamara. Sou a princesa de um país distante e uma bruxa do mal me enfeitiçou e estou condenada a viver nesse corpo de aranha por muitos e muitos anos....
Certamente que ele não acreditou naquela história, mas ficou atento e sem piscar ouvindo daquela boca, os detalhes de seu  castigo produzido num tal país distante, por uma tal bruxa malvada.
Pensou naquela boca. Pensou em beijar aquela boca, como o menino fez com a linda Jennifer Oneal no filme Houve uma vez um verão. E pensou .... e pensou... e pensou naquilo. Porque meninos pensam naquilo também sabiam? Disso o Freud já sabia.
Passados os 15 minutos que o ingresso de 2 cruzeiros (era essa a moeda nacional à época dos fatos) permitia, ele teve que sair da cápsula que sua amada habitava que na verdade era um ônibus velho todo colorido.
Foi pra casa pela mão do avô, mas seu coração e sua mente ficaram com a linda mulher aranha.
Nos 15 ou 20 dias posteriores, pontualmente às duas horas da tarde estava lá na bucólica praça, esperando que o tal ônibus abrisse as portas.
Vendeu as garrafas do avô, chorou, pediu, implorou e sempre de alguma forma arranjava os dois cruzeiros que o maldito dono do ônibus cobrava.
Ele odiava aquele barbudo que era o dono do ônibus. Porque ele sabia que o barbudo também era o dona da mulher aranha ... sua amada Tamara, princesa enfeitiçada num país bem longe.
Até que um dia, ele foi e o barbudo disse que estavam partindo. Tinha que mostrar a Tamara para outros meninos de outras cidades.
Enquanto o barbudo ligava o motor, o rosto do menino encharcou-se e a tristeza tomou conta. Porque meninos que pensam coisas sofrem com a perda. Disso o Freud também já sabia.
E ele correu atrás daquele maldito ônibus colorido até não aguentar mais e quando não aguentou mais correr, ficou acenando e mandando beijos de adeus para sua Tamara que deveria estar dentro daquele maldito ônibus dando seus beijos de mulher aranha no maldito barbudo que estava lhe levando para outras cidades, e para outros meninos...
 
Fraterno Abraço
André Lacerda - Psicanalista
 
        
 


quarta-feira, 8 de julho de 2015

A Mais Antiga Profissão do Mundo!

A pessoa acorda todos os dias já pensando em servir e dar conforto à quem quer que seja não importando gênero, raça, credo, idade, nada enfim. Só se importava em atender o máximo de pessoas durante o dia. O dia não, que a pessoa trabalha durante as 24 horas do dia. Basta tocar o telefone de contato e em poucos minutos a pessoa já está a caminho. E atende em qualquer lugar. E quando pensa nisso sorri pra si mesmo pensando na música do Chico Buarque (Geni e o Zepelin), pois atende "tudo que é negro torto, no mangue, no cais do porto, atrás do tanque, no mato!"
E depois de alguns anos ralando mouramente, conseguiu ter o seu carro, e naquele começo de manhã já correndo para seu primeiro atendimento, ouve a música do Chico e começa a rir por entre os sinais e curvas. 
E ria tentando se consolar, pois vivia num país onde eram poucos os privilegiados e tal qual a Geni da música se sentia "rainha dos detentos, das loucas, dos lazarentos e dos moleques de internato".
E tal qual a Geni hoje também "vai à miúde, com os velhinhos sem saúde, e as viúvas sempre à ouvir: Ela é um poço de bondade , é por isso que a cidade vive sempre a repetir: Joga pedra na Geni, Joga bosta na Geni, ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir...".
Pensa que dadas as condições de seu ofício, muita gente se queixa e com razão de seus préstimos. Afinal, tem que fazer tudo correndo, e correndo passa seu dia de um canto a outro, atendendo todo mundo, e as vezes tem que ser rapidinho... Se bem que sempre dá alguma atenção extra aos mais necessitados. 
E até bem pouco tempo, fazia de tudo. Barba, cabelo e bigode. O começo sempre tem que ser assim. 
Com o tempo especializou-se, mas ainda hoje, em casos de extrema necessidade topa tudo. Tudo pelo "cliente".
E no final de cada turno, tal qual a Geni do Chico, a pessoa "vira de lado e tenta até dormir", pois logo quando raiar o dia, certamente o telefone vai tocar ... e a pessoa vai ter de ir. 
Caro leitor... olha de novo o título da crônica... estás pensando em que??
Errou!!!!!! risos... 
O psicanalista aqui surfou na licença literária, pois na verdade, eis o que pensou e refletiu:

Pense no primeiro primata no alto de seu galho, tendo a sua primeira coceira no meio das costas onde o braço não alcança para  coçar. Pensou?
Então...
Pense num outro primeiro primata que se dispôs a coçar as costas de seu igual para lhe aliviar o desconforto .... Pensou?
Então:
Penso que aquele foi o primeiro ato médico da história do desenvolvimento humano. 
Portanto, o exercício da medicina é a mais antiga profissão do mundo.
Dedico essa crônica aos médicos, enfermeiros, técnicos e à todos os profissionais da saúde, incluindo aqueles que exercem a segunda mais antiga profissão do mundo: Os psicanalistas como eu. Mas isso é assunto pra próxima crônica.
Fraterno abraço!
André Lacerda - Psicanalista 
       
    

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Caso Clínico: Um homem de fé!

Era uma segunda-feira feia. Enferruscada como se diz na minha terra. 
O psicanalista se surpreende quando vê na agenda a previsão de consulta daquele paciente que há muito tinha tido alta pela conclusão positiva do tratamento. Mas pensou que não eram incomuns as chamadas recaídas e novos conflitos emocionais. Porque "Esses demônios que enchem o ar, ninguém sabe onde encontrar"... Pelo menos foi isso que escreveu Goethe em seu Fausto e esse poema inspirou o Freud.
E eis que chega a hora do reencontro. 
Depois do fraterno abraço e as saudações de estilo, mesmo antes do psicanalista perguntar, o velho novo paciente elabora:

- Tu vais achar engraçado o que vais escutar hoje. E já adianto que estou muito bem. Na verdade nunca estive melhor. Mas estou preocupado porque acho que o mundo que me cerca está doente. E como o mundo que me cerca não vai deitar no teu divã, vim aqui para escutares de  mim os problemas do mundo.

O psicanalista pensou, porque psicanalistas pensam como qualquer pessoa, que o velho novo paciente não estava tão bem assim, e que provavelmente estava recalcando alguma coisa e que certamente daqui a pouco estaria a "ver emergir o monstro da lagoa".  Mandou ver:

- Vamos lá meu amigo. Quero escutar as dores do mundo que te cerca. 

O paciente, sem notar no ar preocupado do psicanalista, sobriamente disseca o sapo:

- Depois de seis anos me tratando aqui mesmo contigo, aprendi e ensinei a mim mesmo um monte de coisas boas e ruins. E te agradeço muito pelo que fizeste por mim nas minhas crises todas... mas te digo: A minha fé é que me faz ser uma pessoa melhor e me dá tudo de bom na vida. E o mundo que me cerca pensa que sou um sonhador, um visionário, e eu acho até que pensam que sou meio louco.

O psicanalista (já pensando nas antigas neuroses demoníacas faladas pelo Freud) silenciosamente sentenciou pra si mesmo ... "aiaiai... outro "milagre" das novas igrejas.... Mas perguntou:

- Fale-me dessa tua fé? Me diga de tua relação com deus e o que te impulsiona na fé. Tens frequentado alguma religião?

O paciente sentou-se frente a frente, e olhando nos olhos do psicanalista, não silenciosamente, também sentenciou:

- Meu amigo! Te conheço e conheço o que pensas. Já li teus livros e crônicas. Sei do teu ateísmo, do teu racionalismo, do teu pragmatismo e do teu compromisso com a ciência. Sei que és cartesiano e até confio muito nisso tudo. E não! Não estou frequentando igrejas nem religiões. Nem estou delirando com um deus salvador e aquelas coisas que os religiosos falam. Eu te falei apenas que minha fé me faz uma pessoa melhor e através dela consigo tudo de bom na minha vida. E que o mundo que me cerca não entende isso, e pelo jeito tu também não estás entendendo. Mas eu te explico:
O tratamento contigo, ou seja a Psicanálise, me fizeram ver a mim mesmo e a me conhecer. Entendi e elaborei minhas faltas e desatei os nós de meus conflitos. E domei os demônios que habitam em mim. E fiquei com minha alma tranquila e meu coração sereno. E comecei a ter fé. 
Fé em minhas potencialidades e sobretudo, fé nas minhas boas intenções em relação ao mundo que me cerca ou seja, amigos, trabalho, estudo, amores, dinheiros, e tudo enfim. 
Como te disse, conheço teus escritos. Gosto quando evocas símbolos como liberdade, igualdade, humanidade, fraternidade. Que nome tu dás ao fato de evocar conceitos tão positivos? Acaso acreditas que se não tivesses fé nestes conceitos eles reverberariam de maneira positiva? Onde achas que aprendi a ter fé? Naõ terá sido contigo mesmo?

O psicanalista silenciou por alguns minutos observando o sorriso franco do velho novo paciente. Só depois manifestou-se:

- Nosso tempo por hoje terminou. E acho que não precisas voltar e por isso, concluo:
Te agradeço por voltar aqui. Acho que tu estás bem e feliz. Quanto ao mundo que te cerca, creio que sim, precisa de divã por não estar conectado às almas tranquilas e aos corações serenos. Quando à mim, penso que precisava de tua fé para que eu visse os limites da minha própria pouca fé. 

O psicanalista despediu-se do paciente com um abraço fraterno e antes mesmo de chamar o paciente seguinte, marcou uma sessão extra com sua própria psicanalista. 

Fraterno abraço
André Lacerda
Psicanalista