sábado, 17 de janeiro de 2026

Nao Estou feliz, é certo. Mas....

 Eu não sou perverso ao ponto de ter prazer vendo um ser humano preso. Nem que seja numa "cela" de mais de sessenta metros quadrados com todos os cuidados necessários pra uma vida digna e de conforto (que a imensa maioria dos brasileiros "livres " não tem).

Eu não sou coveiro, e mesmo que fosse, não zombaria e nem seria indiferente ante a morte de seres humanos .

Eu não sou torturador, e abomino a tortura, quem a defende e que louva torturadores e fascistas de um modo BEM geral da história humana e brasileira.

Eu não sou omisso pra querer e permitir que criminosos de TODOS os gêneros fiquem impunes. 

Dito isso...

Não estou feliz com a prisão de ninguém, sobretudo porque vivemos num país sem perspectiva de ressocializacao e métodos sócio educativos.

Mas...

Falta ainda trazer à luz os crimes da pandemia,os crimes das joias, e mais os tantos que não vou citar.

Fraterno abraço 

André Lacerda - Psicanalista 





segunda-feira, 26 de maio de 2025

Compulsão ao jogo sob a ótica psicanalítica: um olhar clínico.


A compulsão ao jogo, ou jogo patológico, é uma forma contemporânea de sofrimento psíquico que se manifesta por meio de uma repetição insistente e autodestrutiva, muitas vezes incompreensível para o próprio sujeito. No campo da psicanálise, tal fenômeno não é reduzido a um transtorno de controle dos impulsos, como frequentemente propõe a psiquiatria, mas é abordado como um modo singular de subjetivação, enraizado em conflitos inconscientes, na economia pulsional e na relação do sujeito com o desejo e com o gozo.

 Repetição e pulsão de morte:

Freud, em Além do princípio do prazer (1920), introduz a noção de repetição compulsiva como manifestação da pulsão de morte. A ação compulsiva não visa a obtenção de prazer, mas a repetição de uma cena originária traumática, na qual o sujeito busca, sem sucesso, uma possibilidade de domínio. (FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XVIII. Imago.)

Nos casos clínicos, observa-se que a repetição da perda no jogo aparece como um modo de reafirmar um destino inconsciente, frequentemente vinculado à culpa ou à necessidade de punição — aspectos já sugeridos por Freud em O eu e o id (1923).

Aposta, risco e gozo:

A psicanálise lacaniana amplia esse campo ao introduzir o conceito de gozo (jouissance), que não se confunde com prazer. O gozo é uma forma de satisfação que inclui o sofrimento e que excede o domínio simbólico. (LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: A ética da psicanálise (1959-1960). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.)

O jogo compulsivo aparece, então, como um ato de gozo, onde o risco e a tensão proporcionam ao sujeito uma excitação que está mais próxima da pulsão de morte do que do princípio do prazer.

 Função subjetiva do jogo

A escuta clínica mostra que o jogo pode ser um equivalente simbólico precário, ocupando o lugar de algo que falta ao sujeito: uma função paterna não simbolizada, um ideal em colapso, uma perda originária não elaborada. (NASIO, Juan-David. Os grandes casos de neurose em Freud: histeria, obsessão, fobia. Martins Fontes, 2001.)

Nasio aponta que o sintoma pode funcionar como uma “resposta subjetiva” a um impasse com o desejo do Outro.

Em muitos relatos clínicos, os jogadores descrevem o ato de jogar como uma “necessidade”, como algo que escapa ao controle da vontade — sinal de que o sintoma está a serviço da economia pulsional.

Dimensão estrutural:

O jogo compulsivo pode se inscrever nas três grandes estruturas clínicas:

Na neurose, aparece como sintoma, acompanhado de angústia e culpa. O sujeito joga, se arrepende, mas repete.

Na psicose, pode estar inserido em uma construção delirante. A aposta pode adquirir valor místico ou persecutório.

Na perversão, o jogo pode funcionar como montagem fetichista, erotizando a perda ou a transgressão da lei. (MILLER, Jacques-Alain. Introdução à clínica lacaniana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.)

MILLER destaca a importância da estrutura na direção do tratamento e na escuta do sintoma.

Intervenções clínicas:

A intervenção psicanalítica não visa à erradicação imediata do comportamento, mas sim à escuta de seu sentido inconsciente. O jogo é interrogado não apenas como um problema de conduta, mas como uma resposta subjetiva à falta. ( SZPUNBERG, Tania Rivera. A aposta do sintoma: psicanálise e compulsões contemporâneas. In: COUTINHO JORGE, M. (org.) O mal-estar na civilização revisitado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.)

O objetivo do tratamento é permitir que o sujeito construa uma nova relação com o gozo implicado em sua repetição, promovendo a possibilidade de subjetivação do sintoma e de laço com o Outro fora do circuito autodestrutivo.

Espero que o texto ajude a quem precisa, e quem sabe, sirva de alerta aos que ainda não precisam.

Fraterno abraço!

André Lacerda - Psicanalista 



terça-feira, 20 de maio de 2025

Bebês Reborn”: Um olhar psicanalítico sobre o cuidado simbólico e o desejo inconsciente

Pessoalmente, eu acho horrível. Parece que estou vendo um feto ou ainda um recém nascido morto. Mas... vamos em frente.

Nos últimos anos, tornou-se mais comum observar mulheres adultas que adotam e cuidam de bebês reborn — bonecos hiper-realistas que imitam com impressionante fidelidade a aparência de recém-nascidos. Essas mulheres costumam dar nomes aos bonecos, compram roupas, montam quartos e, em muitos casos, os tratam como filhos reais. O fenômeno, que desperta curiosidade e até estranhamento social, pode ser analisado por diversas vertentes da psicologia. No entanto, a psicanálise oferece uma lente privilegiada para compreendermos os significados inconscientes que podem estar em jogo nesse tipo de relação.

1. O bebê como objeto transicional

Segundo Donald Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, o objeto transicional é aquilo que permite à criança suportar a ausência da mãe e construir uma realidade interna autônoma. Embora o conceito se refira à infância, é possível pensar que, em algumas mulheres, o bebê reborn ocupa uma função semelhante: ele fornece uma ponte simbólica entre o mundo interno e a realidade externa, auxiliando na elaboração de perdas, frustrações ou vivências de abandono. Não se trata de um “delírio”, mas de uma forma simbólica de manejo da dor psíquica.

2. O desejo de maternidade e a fantasia realizada

Na perspectiva freudiana, os sintomas e comportamentos podem ser compreendidos como formações do inconsciente, ou seja, realizações deformadas de desejos recalcados. O vínculo com o bebê reborn pode surgir como tentativa de realizar um desejo de maternidade frustrado — seja por infertilidade, perda gestacional, luto ou pela ausência de oportunidade para constituir uma família. Nesse sentido, o boneco funciona como um substituto simbólico do filho real, poupando a mulher das angústias e exigências que a maternidade concreta impõe.

3. O investimento narcisista e o ideal de perfeição

O bebê real é uma fonte de prazer, mas também de frustração: ele chora, exige atenção constante, tem vontade própria. O bebê reborn, ao contrário, é passivo, está sempre “disponível”, e jamais confronta. Para a psicanálise, isso pode indicar um investimento libidinal narcisista: o outro é amado enquanto extensão idealizada do próprio eu. Não há alteridade. O boneco representa um ideal de perfeição e obediência — uma fantasia de controle absoluto sobre o objeto amado.

4. Compulsão à repetição e elaboração do trauma

Freud descreveu a compulsão à repetição como uma tendência do psiquismo a repetir situações dolorosas não elaboradas, na tentativa inconsciente de dominá-las. Algumas mulheres que recorrem aos bebês reborn passaram por experiências traumáticas — como a perda de um filho, abuso emocional ou abandono. Ao cuidar de um boneco que “não morre” e “não parte”, elas repetem simbolicamente a situação original, mas agora com um desfecho reparador. O cuidado com o reborn pode ser uma forma de dar sentido ao sofrimento passado.

5. O reborn como antídoto contra o vazio

Em um mundo marcado pelo individualismo e por vínculos cada vez mais frágeis, o bebê reborn pode aparecer como resposta subjetiva ao vazio existencial. Ele oferece companhia, rotina, função. A mulher que o adota se torna novamente “cuidadora”, “mãe”, “protetora” — papeis que conferem sentido e identidade. Assim, o boneco não é apenas um objeto inanimado, mas um catalisador simbólico de significados profuprofunosl

Por fim, importante pensar assim:

A psicanálise não busca patologizar comportamentos, mas compreendê-los em sua singularidade. Perguntar “por que alguém cuida de um bebê reborn?” é menos importante do que investigar “o que esse bebê representa para essa mulher em particular?”. Trata-se de reconhecer que há, por trás desse gesto, um universo simbólico marcado por perdas, desejos, frustrações e tentativas de reparação.

Em alguns casos, o bebê reborn pode ajudar a elaborar o luto, fornecer estabilidade emocional ou até prevenir formas mais graves de sofrimento psíquico. Em outros, pode sinalizar um funcionamento psíquico mais regressivo ou defensivo, exigindo escuta clínica atenta. Em ambos os casos, o olhar psicanalítico se debruça não sobre o julgamento, mas sobre o enigma do desejo.

Fraterno abraço!

André Lacerda - Psicanalista





domingo, 13 de abril de 2025

Autismo sob o olhar Psicanalítico.

Pois já lá se vão mais de 25 anos que tenho me dedicado quase que exclusivamente à atividades psicanalíticas e cada vez concordo mais e mais com o Freud, de que por mais que o método evolua e compreenda as subjetividades humanas, isso tudo um dia será "engolido" por novas tecnologias e "truques" de alguma magia que ainda não entendemos. Ou pelo menos nós, os jurássicos do livro de papel teremos dificuldade de entender... sei lá...

Quando iniciei minha atividade clínica, a "gravíssima" (sim...é ironia minha) Psicose Maníaco Depressiva estava sendo rebatizada. Passava a se chamar de Transtorno Bilopolar do Humor,  ou simplesmente Bipolaridade.

E virou moda...o Transtorno Bipolar era muito popular e com certeza era mais citado do que a gripe... e todo mundo ( mais uma ironia minha) era bipolar...

E tome carbonato de lítio....

Depois veio o borderline, e antes que eu fique sintomático, vou parar por aqui.

Agora tem a febre do Autismo. Não que qualquer coisa que se fale seja mais ou menos importante ou não precise de atenção. Mas...

Ainda acho que pra tudo, precisamos mesmo é conversar e cada vez mais a multidisciplinaridade pode ser uma daquelas "mágicas " que ainda será o diferencial.

Dito isso, vamos conversando e espero que alguma coisa possa somar positivamente na caminhada de cada um dos meus amigos...

E por falar em Autismo, compartilho trabalho feito quando ninguém falava sobre o tema.

O autismo sob a ótica psicanalítica é compreendido de maneira diferente da visão médica tradicional. Enquanto a medicina costuma focar em causas neurobiológicas e sintomas comportamentais, a psicanálise, especialmente a partir de autores como Freud, Melanie Klein, Donald Winnicott e Jacques Lacan, olha o autismo como uma maneira particular de estar no mundo, com questões ligadas à constituição do sujeito, ao laço social e à relação com o outro.

Aqui estão alguns pontos principais:

Falta de constituição simbólica: Para muitos psicanalistas, o autismo é pensado como uma dificuldade ou falha no processo de inserção do sujeito na linguagem (no simbólico). Lacan, por exemplo, falava da importância do "nome-do-pai" para estruturar o psiquismo, e no autismo haveria uma falha nesse processo.

Relação com o Outro: O autista, nesse olhar, tem uma relação particular com o Outro (com os outros seres humanos e com a linguagem). Muitas vezes se protege do excesso de invasão do Outro, criando barreiras ou rituais para se manter seguro.

Corpo e Real: Há também uma discussão sobre como o autista lida com o corpo e as sensações. Para alguns psicanalistas, o corpo pode não estar bem "amarrado" ao simbólico, levando a experiências corporais muito intensas ou desconectadas.

Tratamento: 

A abordagem psicanalítica não visa "normalizar" o sujeito, mas sim oferecer um espaço para que ele possa construir, ao seu modo, formas de laço e de expressão. O terapeuta respeita profundamente as invenções singulares do autista.

Em resumo, o autismo na psicanálise não é visto como uma doença a ser curada, mas como uma estrutura psíquica específica, que merece ser acolhida e entendida no seu modo único de existir.

Para Jacques Lacan, o autismo não é exatamente classificado como uma psicose ou uma neurose (que são as duas grandes estruturas clínicas que ele descreve). Muitos leitores de Lacan consideram o autismo como uma estrutura própria, ou então o pensam como uma forma radical de psicose, mas isso ainda é objeto de debate entre os lacanianos.

Alguns pontos centrais da visão de Lacan (e de psicanalistas lacanianos posteriores) sobre o autismo:

1. Rejeição do Outro e da linguagem

Lacan vê o autismo como uma recusa radical do Outro, especialmente do Outro que traz a linguagem. Desde muito cedo, o sujeito autista se fecharia em relação às tentativas de contato simbólico feitas pelo Outro (mãe, pai, ambiente). Essa recusa impede a constituição de um eu pelo espelho e dificulta o acesso ao simbólico.

2. Falta do Nome-do-Pai

No esquema de Lacan, o Nome-do-Pai é um operador simbólico fundamental: é o que introduz a lei, a falta, e organiza a entrada do sujeito na linguagem e no desejo. No autismo, essa função paterna estaria rejeitada ou não operante. Sem essa referência simbólica, o sujeito fica isolado no registro do real (o que é cru, sem sentido) ou apenas se prende a pequenos pedaços de linguagem (por exemplo, ecolalias, repetições de frases).

3. Forclusão do Significante

A forclusão é o mecanismo central da psicose para Lacan: um significante essencial (o Nome-do-Pai) é excluído do inconsciente. Muitos lacanianos veem o autismo como uma forma radical de forclusão, ainda mais primitiva do que na psicose esquizofrênica.

4. Invenções singulares

Apesar disso, Lacan (e ainda mais autores pós-lacanianos como Éric Laurent e Jean-Claude Maleval) destacam que o autista cria invenções para se defender e construir laços. Essas invenções podem ser objetos, gestos repetitivos, interesses muito específicos — formas de dar alguma consistência ao mundo e ao corpo.

Basicamente, autismo para Lacan é marcado por uma recusa fundamental do Outro e da linguagem. O sujeito autista rejeita o simbólico e inventa suas próprias formas de lidar com o real. A clínica lacaniana com o autismo busca acolher essas invenções, respeitar o modo de ser do sujeito e não impor um modelo normativo de socialização.

Fraterno abraço 

André Lacerda - Psicanalista




sábado, 12 de abril de 2025

Bullying em Lacan

 Quem me acompanha sabe que sou Lacaniano.  Não poderia falar de qualquer coisa sem fundamentar em Lacan. Por essa razão, complemento a crônica anterior.

.......

O bullying, na perspectiva da psicanálise lacaniana, pode ser compreendido a partir de conceitos fundamentais como o registro do imaginário, a constituição do eu (moi), e a dinâmica do gozo (jouissance).

Em Lacan, o imaginário é o domínio das imagens, identificações e rivalidades. O bullying se relaciona muito com esse registro porque, na formação do "eu" (principalmente na infância e adolescência), o sujeito se reconhece na imagem do outro — e, ao mesmo tempo, sente-se ameaçado por ele. Lacan chama atenção para como o eu é estruturado como uma "armadura" defensiva contra essa ameaça do outro, o que pode explicar a agressividade típica do bullying: uma forma de proteger ou afirmar a própria imagem atacando a do outro.

Além disso, o bullying pode ser visto como expressão de uma tentativa de lidar com a angústia gerada pela diferença. O outro — diferente em aparência, comportamento, discurso — encarna algo que perturba o sujeito, que responde tentando apagá-lo ou humilhá-lo. Em Lacan, o diferente muitas vezes é vivido como o estranho (l’Unheimliche), uma ameaça ao narcisismo do sujeito.

Outro ponto importante é o gozo: no bullying, há um aspecto de satisfação inconsciente tanto para o agressor (no exercício de poder ou superioridade) quanto, paradoxalmente, para a vítima, que pode ficar presa em uma posição de gozo masoquista, mesmo que isso seja sofrido.

Disso, podemos refletir:

O bullying é um fenômeno imaginário de rivalidade e defesa narcísica.

Ele surge da dificuldade de lidar com o outro como diferente.

Envolve dinâmicas de gozo, angústia e identificação.

Lacan desenvolve a ideia dos quatro discursos (discurso do mestre, do histérico, do analista e da universidade) para explicar os modos de laço social, ou seja, como os sujeitos se organizam e se relacionam entre si. O bullying escolar pode ser interpretado a partir desses discursos, especialmente o discurso do mestre e o discurso do histérico.

1. O bullying escolar e o discurso do mestre

O discurso do mestre é estruturado pela lógica da dominação: o Mestre é aquele que ocupa o lugar do saber e da autoridade sem saber de fato o que é esse saber. Ele ordena, institui, governa. No bullying escolar, o agressor ocupa muitas vezes esse lugar de "mestre": é aquele que "sabe" quem é o fraco, o diferente, o estranho, e impõe sua lei sobre o outro.

Assim, o bullying seria uma tentativa de manter uma hierarquia imaginária onde o agressor reafirma seu "poder" diante do grupo, sustentando um laço social baseado na exclusão e na dominação. Isso também preserva, para o grupo, uma certa "ordem simbólica", ainda que perversa: o grupo se organiza em torno de quem está "dentro" e de quem é colocado "fora".

O próprio espaço escolar, que deveria ser um lugar de transmissão do saber, muitas vezes opera no regime do discurso do mestre, no qual a autoridade é valorizada mais do que o questionamento ou a singularidade. Nesse contexto, o bullying é quase uma "função social": expulsa ou corrige quem ameaça a homogeneidade do grupo.

2. O bullying e o discurso do histérico

O discurso do histérico é aquele em que o sujeito, em posição de falta, provoca o Outro — exige que o Outro lhe diga quem ela é. No bullying, a vítima frequentemente é colocada nessa posição: sua própria existência se torna uma pergunta aberta ("Quem sou eu? Por que sou diferente?") para o Outro (os colegas, o grupo), mas esse Outro responde com rejeição, gozação ou violência.

O agressor também pode ser visto como histérico em outro sentido: ele interroga o Outro (o diferente) para confirmar seu próprio lugar. "O que é esse corpo estranho aqui entre nós?" — mas em vez de acolher a diferença, ele a elimina.

Assim, o bullying escolar seria o sintoma de uma falha no laço social: ao invés de operar no discurso do analista (que acolheria a falta e permitiria a emergência do sujeito em sua singularidade), a escola (e o grupo escolar) opera no discurso do mestre (imposição de normas) e do histérico (questionamento ansioso e rejeição da diferença).

3. Gozo e exclusão

Outro conceito crucial é o de gozo (jouissance). O bullying está ligado ao modo como o grupo maneja o gozo: o diferente é visto como alguém que goza de um modo "estranho", que ameaça a uniformidade. O gozo do outro é intolerável. Assim, ele é excluído ou violentado para que o grupo possa manter uma certa ilusão de consistência.

Ou seja:

O bullying é sustentado por laços sociais próprios do discurso do mestre e do histérico.

Ele protege o grupo da angústia causada pela diferença e pela falta.

O espaço escolar muitas vezes reforça essa lógica, em vez de abrir espaço para a subjetivação da diferença.

E dai??? O que fazer???

Uma saída ética para o bullying, a partir da psicanálise lacaniana, não seria simplesmente reprimir o bullying ou punir os agressores, mas sim reformular o próprio laço social. Em Lacan, a ética não é uma moral de normas, mas um compromisso com o desejo e com o respeito à singularidade do sujeito.

1. A ética do desejo

Lacan propõe uma ética que se resume na frase: "Não ceder de seu desejo" (ne pas céder sur son désir). Isso quer dizer que a ética não é seguir regras externas, mas manter-se fiel àquilo que nos constitui como sujeitos: nossa falta, nosso desejo, nossa singularidade. No contexto escolar e do bullying, isso implica criar um espaço onde cada sujeito possa existir com sua diferença, sem ser forçado a se encaixar em moldes padronizados.

Assim, o problema do bullying não se resolve eliminando o conflito ou impondo mais normas autoritárias (o que seria apenas reforçar o discurso do mestre), mas ensinando o respeito à falta do outro, à sua forma singular de gozar (jouir), sem querer reduzi-lo ou anulá-lo.

2. O papel do discurso do analista

A verdadeira saída passa pelo que Lacan chama de discurso do analista. Nesse discurso, o analista (ou, no contexto escolar, a instituição ou educador que adota essa posição) não ocupa o lugar de mestre que ordena, nem o lugar de histérico que exige do outro uma resposta. Ele ocupa o lugar de causa do desejo: ou seja, ele suporta o não-saber, acolhe a falta, e permite que o sujeito fale.

Aplicado à escola:

Em vez de rotular o agressor ou a vítima, criar espaços de fala onde cada um possa colocar em palavras seu sofrimento, sua rivalidade, sua angústia.

Em vez de buscar eliminar o conflito, reconhecer que o conflito nasce da diferença e é constitutivo do laço social.

Sustentar o desejo dos sujeitos, ajudando-os a encontrar modos singulares de estar no mundo sem precisar aniquilar o outro para afirmar-se.

3. Acolher o sinthoma

Em seus últimos ensinamentos, Lacan fala do sinthoma como aquilo que amarra o sujeito em sua estrutura. Cada um tem seu modo de "fazer laço" com o real, e isso é inegociável. Uma saída ética para o bullying seria, então, acolher o sinthoma do outro, em vez de querer normalizá-lo. Não tentar corrigir o que "falta" no outro, mas reconhecer que a falta é constitutiva de todo ser falante.

Uma saída ética implica operar no discurso do analista, não no discurso do mestre.

É preciso criar espaço para que a singularidade de cada sujeito emerja e seja respeitada.

O conflito deve ser trabalhado, não apagado.

A ética é do desejo, não da norma.

Aproveito, pra fechar, cito Lacan sobre ética e desejo:

(Lacan, Seminário 7 - A Ética da Psicanálise)

 "O único erro ético é trair o próprio desejo."

Essa frase resume a posição ética de Lacan: não se trata de obedecer normas ou evitar o sofrimento, mas de não trair o que há de mais singular no sujeito.

No bullying, tanto quem agride quanto quem sofre é, de alguma forma, capturado pela pressão de se conformar a um ideal (ser igual, não ser diferente). A ética lacaniana propõe resistir a essa captura.

Diante do bullying, a psicanálise lacaniana nos convida a um caminho ético: não se trata de eliminar o conflito ou suprimir a diferença, mas de sustentar o desejo e a singularidade de cada sujeito no laço social.

A escola, portanto, não deve agir apenas punindo ou protegendo, mas criando espaços em que a palavra possa circular e onde a diferença não seja anulada, mas acolhida.

Afinal, como nos ensina Lacan, a verdadeira violência não está na diferença do outro, mas na recusa em aceitá-la como parte constitutiva de nosso ser-em-laço.

Fraterno abraço 

André Lacerda - Psicanalista




sexta-feira, 11 de abril de 2025

O "novo" Bullying e a "velha" Psicanálise

 Na psicanálise, o bullying é compreendido como um fenômeno que revela dinâmicas inconscientes tanto de quem agride quanto de quem sofre a agressão. Ele é visto como uma repetição de conflitos internos, muitas vezes ligados a sentimentos de angústia, inveja, ódio ou insegurança.

De modo geral:

Para o agressor, o bullying pode ser uma tentativa inconsciente de lidar com sentimentos internos intoleráveis — como fragilidade, medo de exclusão ou inferioridade. Ao atacar o outro, o agressor "projeta" no colega aspectos de si mesmo que ele não aceita. Ou seja, ataca no outro o que não suporta em si.

Para a vítima, a psicanálise considera que o sofrimento causado pelo bullying pode reativar traumas anteriores ou feridas narcísicas (atingindo a autoestima e o sentimento de identidade). Em alguns casos, a vítima pode também, inconscientemente, ocupar uma posição de passividade ou de “bode expiatório” em grupos, repetindo padrões de exclusão que já tenha vivido antes.

No nível coletivo (grupal), o bullying também pode ser interpretado como um mecanismo de defesa do grupo para manter uma coesão interna: ao eleger um alvo, o grupo “projeta” suas tensões e ansiedades em um indivíduo, tentando expulsar o que é vivido como "estranho" ou ameaçador.

Autores como Freud (noções de agressividade e pulsão de morte), Melanie Klein (inveja e identificação projetiva) e Winnicott (relacionamentos e amadurecimento emocional) ajudam a pensar o bullying a partir de conceitos como pulsões, defesas primitivas e relações objetais.

Para Freud, o bullying pode ser entendido principalmente a partir da ideia de que a agressividade é uma parte constitutiva do ser humano. Ela não é algo que vem apenas do meio ou da educação, mas algo interno, ligado às pulsões.

Alguns conceitos importantes para entender isso:

Pulsão de morte (Thanatos): Freud, no final da sua obra (principalmente em Além do Princípio do Prazer, 1920), propôs que existe no ser humano uma pulsão voltada para a destruição — tanto do outro quanto de si mesmo. A agressividade do bullying seria uma manifestação externa dessa pulsão de morte, uma maneira de descarregar essa força destrutiva.

Narcisismo e agressividade: Em Introdução ao Narcisismo (1914), Freud mostra como o narcisismo é frágil e precisa ser defendido. O bullying poderia ser visto como um ataque narcisista — o agressor sente que sua autoestima está ameaçada e, para se proteger, diminui o outro.

Mal-estar na civilização (O Mal-Estar na Civilização, 1930): Freud diz que a vida em sociedade exige a repressão das pulsões agressivas, mas essa repressão nunca é completa. O bullying seria, então, uma espécie de “vazamento” dessa agressividade reprimida, dirigida contra um alvo mais fraco.

Para Freud, o bullying é a expressão de impulsos destrutivos internos (pulsão de morte), agravados pela necessidade de proteger o próprio ego (narcisismo) e pelas tensões entre as exigências da sociedade e os desejos instintivos do indivíduo.

O olhar do Winnicott sobre o bullying é bem diferente de Freud e Klein, porque ele coloca o foco na relação com o ambiente — ou seja, o bullying não surge só das pulsões internas ou das fantasias, mas da forma como o indivíduo foi cuidado (ou não foi cuidado) nos primeiros anos de vida.

Algumas ideias centrais para entender:

Falso self: Winnicott fala que, quando o ambiente (os pais, cuidadores) não é suficientemente bom — ou seja, não responde de forma adequada às necessidades emocionais do bebê — a criança pode construir um falso self. O agressor no bullying pode ser alguém que vive muito "protegido" atrás de um falso self: ele ataca o outro porque não consegue entrar em contato com suas emoções verdadeiras.

Ambiente falho e agressividade: Se, no começo da vida, o ambiente não foi capaz de lidar com a agressividade natural do bebê de forma acolhedora, essa agressividade pode ficar desorganizada. O bullying, então, seria uma forma patológica de expressar uma agressividade que não foi integrada de forma saudável.

Capacidade de concernimento: Winnicott diz que, para amadurecer emocionalmente, a pessoa precisa desenvolver uma preocupação genuína com o outro (concernimento). O agressor de bullying ainda não desenvolveu isso — ele não consegue perceber o outro como alguém real, que sofre. É como se o outro fosse apenas um objeto a ser usado para descarregar sentimentos ruins.

Violência como busca de limites: Às vezes, o ato agressivo é, inconscientemente, uma tentativa de encontrar um ambiente que imponha limites claros e confiáveis. Em outras palavras, o bullying seria uma maneira distorcida de pedir ajuda ou de testar se existe alguém que o contenha.

Winnicott entenderia o bullying como o resultado de uma falha no ambiente inicial. O agressor é alguém que não conseguiu desenvolver um self verdadeiro, que tem dificuldade para se relacionar de forma autêntica e para reconhecer o sofrimento dos outros.

Mesmo sendo 100% freudiano/lacaniano, pessoalmente e pela experiência clínica pessoal, estou inclinado pela teoria de Winnicott, observando que em se tratando de dramas psíquicos, os entendimentos multidisciplinares são sempre a melhor opção.

Fraterno abraço 

André Lacerda  - Psicanalista




sexta-feira, 4 de abril de 2025

Que venha o meteoro!

 Depois de combater o bom combate, volto a combater o bom combate...
Pelo amor de todos os santos!!!!! Estamos, sem sobra de dúvida, regredindo enquanto seres evoluídos. 
Me explico:
Vi a série adolescência...
Li, ouvi, assisti todos os debates sobre a série e imploro que quem não viu veja.
Ou não...
Será que todo mundo vai entender???
Me explico:
Primeiro, que alertado pelas coisas que vi, não posto mais coisas de minha amada filhinha nas redes sociais. 
Segundo, hoje mesmo vi a repercussão de um vídeo em que o youtuber (tchê...nem sei definir muito bem o que é isso) Felipe Neto se pronuncia pela sua candidatura à presidência da República.  Fui ver...é claríssimo que o comunicador faz uma alusão crítica e irônica do livro 1984 e ao domínio das redes sociais e da involução cultural à que estamos sendo engolidos. E ninguém entendeu??????
E o atentado proferido à professora em Caxias do Sul por 3 adolescentes??? Facadas premeditadas sem nenhum motivo (e mesmo que tivesse motivos)????
E as loucuras do Trump???? Não existem mais democratas nos Estados Unidos?? E no Brasil tem gente (muita gente) com o boné do MAGA???
E tem a coisa da pobre mãe de família que foi condenada à 14 anos de cadeia, o que me fez pensar:
Ela chega na sexta feira, reúne o marido, os pais, os filhos, e diz:
- Olha só pessoal... a pobre mamãe aqui vai dar uma saída por uns 3 dias porque vai ficar algumas (ou uma sei lá) noites num acampamento na frente de um quartel, depois vai invadir os prédios representativos da República,  vai desaforar a estátua da justiça,  e espero que vocês se comportem tá??? Segunda feira mamãe está de volta.
Isso bate??? Fiquei pensando na minha mãe... ou na minha mulher... ou na minha irmã...ou em qualquer pobre mamãe,  mulher, irmã...
Sei lá...
E tudo enfim me diz que estou vivendo um pesadelo...
Hoje  cheguei a falar pra minha mulher:
QUE VENHA O METEORO...
Voltei atrás porque minha filha ainda tem muito que viver... mas......
Sei lá...
Triste.
Temos mais ou menos 6 ou 8 mil anos de civilização...um nada na história do tempo...
Mas... isso tudo em 6 anos????
De onde saiu isso tudo???
Que venha o METEORO...

Fraterno abraço 
André Lacerda  - Psicanalista