terça-feira, 29 de julho de 2014

O Mal-Estar Na Cultura - Parte Final

Já inicio me justificano: Tenho espaçado as publicações por absoluta contigência pessoal e em virtude de ainda estar me recuperando de pequenos problemas de saúde. Mas agora tudo bem... e segue o baile... Baile aliás, com música nada leve, afinal essa obra do Freud deu e ainda dá muito pano pra manga.
Já citei e recito o grande Professor Márcio Seligmann Silva que prefaciou a edição que estou seguindo de cujos ensinamentos estou me valendo e repassando aos leitores.
Acho que a parte mais polêmica e discutida deste  ensaio do Freud, é extamente aquela em que o mestre retoma sua análise da religião e localiza a sua origem na sensação de desamparo da criança, que é oposta ao seu nasrcisismo originário e o violenta. Para comprovar essa tese, Freud lança mão de dois procedimentos que lhe são muito caros.
Primeiro ele faz um cruzamento (uma tradução, poderíamos dizer) entre elementos que foram conquistadosw pela psicanálise no estudo de indivíduos e a situação de toda a humanidade. O que vale para o indivíduo (ontogênese)  vale também para a espécie (filogênese). Tal gesto marca todo o ensaio de Freud e boa parte de seus estudos mais históricos e antropológicos. A outra característica deste ensaio a ser destacada é de certo modo derivada desse primeiro procedimento. A fim de traduzir descobertas referentes a indivíduos (que possuem uma história relativamente breve e são apenas um organismo) para sociedades (com bilhões de organismos e que se estende por uma temporalidade de centenas de milhares de anos), Freud precisa pensar um modelo de passagem de geração para geração de certos dados que são, por assim dizer, inconscientes.
Existe, portanto, uma teoria da temporalidade e da inscrição mnemônica transgeracional que ocupa um papel de destaque neste ensaio.  
Verifica Freud que o sentimento oceânico proposto pelas religiões é uma projeção posterior do sentimento do bebê de indistinção com o mundo e de ampara absoluto. O bebê é puro "behagen" (sentir-se protegido). Para ele, não existe o mundo. Esse ponto zero do desenvolvimento de certo modo é visto por Freud neste ensaio como o fim de toda a libido, que visaria a atingir novamente um estágio de completude, sem conflito com o mundo.
Mas todas as outras partes do ensaio mostram justamente a batalha titânica entre a humanidade e a natureza. Em algum momento, Freud nos dá a terrível notícia de que na verdade não estamos programados para a felicidade, como se observa:
 
" Toda permanência de uma situação anelada pelo princípio do prazer fornece apenas uma sensação tépica de bem-estar; somos feitos de tal modo que apenas podemos gozar intensamente o contraste e somente muito pouco o estado."
 
A toda satisfação segue imediatamente um renovado desejo e uma nova necessidade. Essa visão de mundo trágica Freud pôde encontrar largamente entre os tragediógrafos gregos, como em Eurípides, cuja Medeia afirma que "Viver é ter desgostos", ou ainda na tragédia Orestes, na qual Electra profere as palavras: "A mudança é entre todas as coisas a mais agradável." E na mesma peça o coro profere também a máxima: " A grande felicidade não é durável entre os mortais".
Por fim, observa-se que não deixa de ser desconcertante para nós - ao estudarmos este ensaio oito décadas depois de sua composição, ou seja, após não apenas a Segunda Guerra Mundial, Auschwitz, Hiroshima, centenas e milhares de massacres, genocídios e ditaduras sangrentas, mas também em meio a um processo vertiginoso de globalização e de construção de grandes blocos de nações que está transformando o mapa-mundi- pensar nessa concomitância detectada por Freud da tendência a se construírem unidades culturais sempre maiores, ao lado da tendência à destruição e ao aniquilamento.
 
Assim, encerro a série sobre o Mal-Estar na Cultura, sugerindo sempre que bebam na fonte... ou seja... a obra do Freud.
Espero que tenham gostado...
Fraterno abraço
André Lacerda - Psicanalista
 
   

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